quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O PERIGOSO PODER DA PALAVRA

 


Era uma vez um país distante, que perdera uma guerra e fora obrigado a assinar um tratado humilhante para seu povo. Um grupo de pessoas, então, indignadas com aquilo, decidiu criar um novo partido político. Mas, para que as ideias do novo partido caíssem na graça do povo, precisavam de um líder, de alguém carismático que pudesse levar à população, de um jeito simples e direito, as ideias daquele movimento.

Algum tempo depois, estavam eles reunidos para discutir as ideias daquele novo movimento político, quando apareceu alguém, aparentando ser um militar de baixa patente, para assistir à reunião. Como aquele homem fazia anotações seguidas, logo perceberam que ele estava ali para espionar a reunião. Mesmo assim, não deram importância à sua presença e continuaram a reunião.

De repente, o homem parou de fazer anotações e ficou ouvindo atentamente o que os participantes da reunião diziam. Depois, ele mesmo pediu a palavra. Autorizado a falar, fez um longo, empolgado e eloquente discurso, que deixou a todos impressionados. Foi aí que um dos presentes disse em sua língua (alemão):

Dieser Mann ist unser Führer (Este homem será nosso guia).

Aquele homem era, nada mais, nada menos, que Adolf Hitler. Nascia, naquele momento, em razão de um discurso eloquente, o movimento político-ideológico mais autoritário, cruel e desumano que a humanidade já conheceu: o nazismo.

A palavra é o mais eficiente instrumento de influência e manipulação que existe.

Não se iluda: o objetivo de um bom discurso, seja político, filosófico, jurídico, religioso, é influenciar e manipular pessoas, quanto mais, melhor. E, para isso, há um variado número de técnicas, muito embora, muitos oradores criem as suas próprias.

O primeiro passo é, logo de início, o orador deve chamar a atenção do público para si.

Para isso, há uma infinidade de coisas que podem ser feitas, tais como:

  1. contar uma história (fictícia ou verdadeira), na qual o orador embasará seu discurso restante;

  2. propor um desafio ou deixar uma pergunta no ar para a plateia;

  3. nunca cumprimentar a plateia, ou fazer saudações, ou cumprimentos e tal, como num discurso formal, nada disso; o mais indicado é “chegar chegando”, contanto uma história, contando uma piada, propondo um desafio ou uma pergunta, etc.

  4. não se intimide: fale com autoridade de quem sabe, mesmo que você não saiba, que esteja “chutando”, que esteja inventando;

  5. fale devagar, com pausas, gesticule, demonstre emoção, mesmo que você não a sinta naquele momento;

  6. interaja com a plateia, mas evite dialogar verbalmente com ela, para que não se abra espaço para comentários ou apartes de alguém na plateia mais esperto de você que que possa fazer algum comentário que ponha por terra suas estratégias de oratória, como, por exemplo, contradizer o que você afirmar, apontar um erro seu ou algo assim.

  7. é importante montar um roteiro sobre o que você vai falar, mentalmente, é claro, nada de papel, pois o roteiro vai evitar que você se perca e fique perdido sem saber como encerrar o discurso.

Como dito, o discurso político, religioso e jurídico, mais especificamente, têm como objetivo influenciar e manipular, convencer. Não se iluda: todos são manipuláveis, independentemente de sua formação intelectual. A exceção, obviamente, são as pessoas mais céticas e questionadoras. Mas esses “iluminados” são geralmente raridade.

Tudo isso nos mostra que a palavra é, ainda, a arma preferida dos canalhas para formar seus exércitos de idiotas úteis.

Aí, as pessoas mais sensíveis, simples e religiosas podem perguntar: e a "palavra de Deus"?

A "palavra de Deus" dita pela Sua Própria Boca, obviamente, só nos engrandece espiritualmente, nos instrui e afina nosso espírito.

O problema está quando a "palavra de Deus" é dita por outras bocas que não a dEle...

Aí, é preciso cuidado e um pá atrás. Não há área, depois da política, na qual haja mais picaretas, oradores eloquentíssimo, mas, ao memo tempo, enganadores e charlatães, do que na da religião..

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sábado, 27 de junho de 2020

EU TIVE UM SONHO...



Eu tive um sonho. Foi tão real.
Sonhei que, farto de toda esta situação que vivemos, resolvi falar diretamente com Deus.
Chegando lá, surpreendentemente, surge uma linda jovem, muito gentil e sorridente, que me diz, mesmo sem eu nada perguntar, que Deus já iria me atender. Fiquei surpreso..
— Mas Deus, sem nenhuma formalidade, vai me atender assim — questionei à bela jovem que me recebeu. E ela, sorrindo, com uma voz doce e modos delicados, me disse:
— Por que a surpresa? O Senhor atende a todos prontamente, indiscriminadamente. É só procurá-Lo.  Já, já, Ele irá atendê-lo. Esteja certo.
Nem aquela encantadora jovem acabou de falar, surge um homem jovem, entre 25 e 30 anos, simpático, vestindo uma surrada calça geans, uma camiseta branca, um tênis branco, com um largo sorriso no rosto. Olhou-me e disse:
— Quer falar comigo, não é?
Eu, surpreso, sem entender nada, perguntei:
— Mas o senhor é…
— Sim, eu sou aquele que é!
— Mas… — fiquei eu sem saber o que dizer.
— Mas o quê? — disse Ele sorrindo, percebendo meu constrangimento e minha surpresa por encontrar um Deus tão diferente do que eu imaginava. Ele colocou a mão direita no meu ombro e disse, me tirando dali:
— Vamos para um local onde possamos conversar mais à vontade.
Entramos em uma sala bonita, agradável, com decoração simples, onde havia duas cadeiras grandes e confortáveis, uma de frente para a outra. Ele se sentou em uma delas e me pediu para me sentar na outra, que estava à sua frente. Assim que nos acomodamos, Ele disse:
— Sei que veio até mim porque está com seu coração repleto de dúvidas, inseguranças e medo? Acalme seu espírito e abra seu coração.
— Senhor, estamos vivendo uma experiência inédita, assustadora e até bizarra. Muita gente já morreu.
— Vocês estão passando por uma pandemia, que não é inédita. Muitas outras gerações anteriores às de vocês também já passaram por isso, e em condições de vida muito piores, bem mais precárias que as de vocês. Não havia médicos, hospitais, transportes, comunicações, tecnologia, eletricidade, as pessoas não tinham as noções de higiene que têm hoje. Tudo era muito mais difícil. Milhões de pessoas também morreram nessas pandemias — disse Ele.
— Senhor, por que esse castigo tão dura para a humanidade? — ousei perguntar-Lhe. Mas Ele, sem demonstrar surpresa, disse:
— O homem é uma criatura dotada de inteligência, capacidade cognitiva, raciocínio e livre arbítrio. Eu o criei, mas não interfiro em suas atitudes, a não ser que ele me peça e me permita isso. Aí, sim, posso guiá-lo, orientá-lo, intuí-lo, iluminá-lo, protegê-lo. Mas o homem é livre para tomar as decisões que lhe aprouver, sendo, também, obviamente, responsável pelas consequências dessas decisões. Criar o homem somente para manipulá-lo, feito marionete, não faria sentido algum para meus propósitos. Então, não há castigo divino. Há, isto sim, consequências.
— Então o próprio homem seria o responsável por essa pandemia que está aí — perguntei-Lhe.
— A natureza tem seus caprichos. Mas, se levarmos em conta as condições do mundo atual, o estádio da tecnologia, das ciências e, em especial, da medicina de hoje, de certa forma, sim, o homem tem sua dose de responsabilidade pela disseminação dessa doença. Um grande incêndio só pode ser debelado no seu início, quando surgem as primeiras chamas. Se você ficar somente olhando as chamas iniciais queimarem, querendo saber por que começaram, elas vão se espalhando rapidamente e, em pouco tempo, você não terá mais controle da situação.
— Mas, Senhor, trata-se de uma doença nova, desconhecida para os médicos e…
— Pandemias geralmente só acontecem com doenças desconhecidas pelo homem, para as quais ele ainda não descobriu tratamento nem vacina.
— O que podemos fazer, então, Senhor?
— Eu sou o princípio e o fim de tudo, sou o caminho, a verdade e a vida. Se confiarem em mim, de todo o coração, tudo se resolverá. Mas estejam cientes de que o caminho certo, pelo qual os guio, muitas vezes, pode não ser o mais curto, nem o menos íngreme. Muitas vezes, há que se passar por fases difíceis para se chegar à vitória. Não há mágica. O milagre da vida nem sempre é instantâneo. O exercício da fé exige perseverança, destemor, paciência e, sobretudo, confiança absoluta em mim. Não é fácil, eu sei. Mas, embora vocês ainda não o compreendam, é justamente em função disso que vocês estão na Terra. A caminhada pela eternidade exige aprendizado e evolução constantes. É por isso que temos que passar por todo tipo de experiências ao longo de nossa caminhada eterna.
— Senhor, e os milhares de pessoas que já morreram, estão morrendo e morrerão?
— Para o ser humano, a dor pela perda de um ente querido é lancinante e muitas vezes traumática. Sei que também não é fácil, mas é preciso entender que, assim como a vida na Terra tem que continuar, a caminhada dessas pessoas pela eternidade também tem que prosseguir. Elas cumpriram sua missão na Terra e têm que continuar percorrendo sua trajetória pela eternidade.
— Senhor, isso me assusta um pouco. Parece uma coisa burocrática, normativa, fria.
— O homem, por mais espiritualizado que seja, costuma concebe a vida somente dentro dos limites da razão humano, o que é natural, por isso seu choque.
— Então, Senhor, concluindo, o que devo fazer, diante dessa situação é…
— Cuide-se, obviamente, e, acima de tudo, acredite em mim, que tudo se resolverá, pois eu o guiarei à vitória, tenha certeza. Lembre-se, porém, de que os caminhos certos, aqueles que o levarão à vitória e à superação completa de tudo isso, podem não ser os mais curtos e mais fáceis.
— Sim, eu sei — respondi.
— Acredita e confia em mim? — perguntou-me Ele, de frente, sorrindo e com as suas mãos em meus ombros.
— Sim, Senhor! Acredito e confio no Senhor! — respondi-Lhe.
— Então vá em paz. Não tema nada na vida. Estarei sempre com você.
A imagem dEle me olhando, sorrindo, ficou ali por alguns segundos, como se estivesse congelada. Depois foi se apagando, apagando. Aí, acordei.

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sábado, 20 de junho de 2020

"FAKE NEWS" QUE MUDARAM A HISTÓRIA



Se Dias Toffoli e seus ministros já estivessem no Supremo Tribunal Federal em 1889, em 1937 e em 1945, possivelmente, o Brasil ainda seria uma monarquia, Getúlio Vargas não teria se tornando ditador, nem o Brigadeiro Eduardo Gomes teria perdido a eleição para Dutra.

Foi uma velha raposa da política que, um dia, muitos anos atrás, me disse que há três formas de se “fazer política” (expressão comum nesse meio): pelo convencimento, pela negociação e pelo confronto. Cada uma dessas formas tem suas variantes, que vai do ético ao inescrupuloso. Pelo convencimento, pode-se da apresentação de um bom projeto de governo ao mais abjeto dos engodos; pela negociação, pode-se variar de um acordo digno à mais espúria das barganhas; no confronto, no entanto, o leque se abre ainda mais: chegamos ao vale-tudo. Portanto, em política, nem sempre tudo é o que parece ser. Se você se propuser a disputar um cargo público, independentemente de sua formação intelectual, de seu grau de escolaridade, saiba que, nesse mundo de contrassensos da política, vale mais a experiência, a malícia e a astúcia. Intelectualidade, nesse meio, não vale muita coisa. É um mundo em que o sentimentalismo não existe. Toda manifestação sentimental que você vir nesse meio é falsa. Não se iluda.

Hoje, fala-se muito em “fake news”, como se fosse o mais capital dos pecados políticos. Pois as “fake news” já eram utilizadas no mundo político muito antes da fundação de Roma Antiga. A História política do mundo seria muito diferente se não fossem as mentiras, as informações falsas. Vamos citar aqui três exemplos de “fake news” que mudaram, sem nenhuma contestação, os rumos de nossa história.

Na Proclamação da República, os conspiradores foram até a casa de Deodoro, que estava doente, e o convenceram a liderar o golpe, dizendo a ele que, a partir de 20 de novembro, o novo Presidente do Conselho de Ministros do Império seria Silveira Martins, que era um velho inimigo dele, mas era mentira. Além disso, disseram a ele que já havia uma ordem de prisão contra ele, Deodoro, outra mentira deslavada, mas que convenceu o marechal a proclamar a República e a exilar a Família Imperial. Ou seja, uma “fake news” provocou um golpe de Estado que implantou a República no Brasil.

Outra “fake news” histórica ocorreu no dia 30 de setembro de 1937. Nessa data, o general Goés Monteiro, até então chefe do Estado-Maior do Exército, noticiou pelo programa de rádio “Hora do Brasil”, que havia um plano comunista que envolvia a retirada de Getúlio Vargas do poder. O Plano Cohen, como ficou conhecido, amedrontou a população na época. Segundo Goes Monteiro, os comunistas iriam provocar tumultos entre operários e estudantes, causariam incêndios em casas e prédios públicos, manifestações a fim de saquear e depredar patrimônios públicos e privados, eliminariam autoridades públicas que se opusessem aos atos e, por fim, exigiriam a liberdade de presos políticos. Tudo mentira. Mas foi o suficiente para Getúlio pedir ao Congresso Nacional a decretação de Estado de Guerra, concedido em 1º de outubro de 1937. Começou, então, uma terrível caça aos comunistas — que, na verdade, nada tinham a ver com a história — e, em 10 de novembro de 1937, usando essa “fake news” como desculpa, Getúlio implanta a ditadura do “Estado Novo”, no Brasil, que duraria até 1945.

Em 1945, Getúlio Vargas foi deposto e foram convocadas eleições presidenciais. Os candidatos principais eram Eurico Gaspar Dutra contra o Brigadeiro Eduardo Gomes — o mesmo que deu nome aos docinhos de chocolate. Um sujeito chamado Hugo Borghi, político, empresário, muito rico, que havia sido líder de um movimento chamado “Queremista” (de “queremos Getúlio”), que tentou manter Vargas no poder, convenceu Getúlio, então fora da vida pública, a apoiar Dutral, em vez de Eduardo Gomes. No dia 19 de novembro, o Brigadeiro Eduardo Gomes pronunciou um discurso no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, afirmando: “Não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para eleger-me Presidente da República!”. No entanto, Hugo Borghi adulterou as palavras do Brigadeiro, afirmando, nas rádios e por meio de panfletos distribuídos nas ruas, que o Brigadeiro tinha dito “Não preciso dos votos dos marmiteiros!”. Estava feito o estrago. Rapidamente a marmita se tornou o símbolo da campanha de Dutra contra o Brigadeiro Eduardo Gomes. Por causa dessa “fake news” produzida por Hugo Borghi, a marmita virou um símbolo popular naquela eleição entre os setores populares urbanos, o que acabou com qualquer chance de o Brigadeiro Eduardo Gomes eleger-se presidente em 1945.

Provavelmente, mesmo se já fosse presidente do STF em 1889, ou em 1937, Dias Toffoli, naquele tempo, pouco poderia fazer para reverter os efeitos das mentiras dos golpistas republicanos e de Getúlio. Naquele tempo, o STF, na prática, não tinha tanto poder. Talvez conseguisse alguma coisa contra a “fake news” de Hugo Borghi em 1945. Talvez… Eram outros tempos.

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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

SEM ALARMISMO: É PRECISO ENFRENTAR O FUTURO COM AS LIÇÕES DO PASSADO



Hoje, fala-se muito em meio ambiente, em “roubar o futuro da Greta” e tal. Mas a gente precisa recorrer um pouco à História para entender certas coisas. O que diria a jovem sueca Greta Thunberg se vivesse no final do século XIX e soubesse que as cidades, naquele tempo, estavam condenadas a, literalmente, afundar na merda? Será que também diria aos governantes daquele tempo que eles haviam roubado seu futuro?

Com base em um artigo de Felipe van Deursen, publicado em seu blog na revista Superinteressante, em 21 de dezembro de 2016, vamos contar uma história aqui que pouca gente, hoje, sabe, mas que colocou administradores de grandes cidades espalhadas pelo mundo em pânico no final do século XIX.

Em 1898, delegações de várias cidades do mundo se reuniram em Nova York, nos Estados Unidos para discutir os problemas urbanísticos daquele tempo, como crime, falta de recursos, questões de infraestrutura, etc.

Naquela época, não havia ainda transporte motorizado, ou seja, não havia carros. O meio de locomoção daquela época era o cavalo. E, como todo o mundo sabe, cavalo não emite gás carbônico e outros poluentes, mas faz cocô, que além de liberar o gás metano no ar, é uma sujeira sólida, pesada e com um forte odor nada agradável.  

Por causa do intenso trânsito de animais, era tanta bosta acumulada nas ruas de cidades como Londres, Nova York e outras metrópoles, que as projeções para o então futuro século XX eram apocalípticas. O jornal londrino Times chegou a publicar que até a década de 1940 as pilhas de esterco chegariam a três metros de altura. Do outro lado do Atlântico, temia-se que quem morasse ou trabalhasse até o segundo andar em Nova York estaria, em 1930, soterrado por material fecal. Londres tinha então 50 mil cavalos transportando pessoas todo dia de um local para o outro. Nova York chegou a ter pelo menos 100 mil animais circulando pelas ruas, que produziam uma média de 10 kg de fezes por dia (ou seja, um total de mil toneladas diárias). Haja cocô! Sem contar, também,  a urina, as moscas e até mesmo os cavalos mortos.

O problema era que não havia um plano de descarte e tratamento decente para tamanho problema das metrópoles. As cidades naquele tempo se apertavam em cortiços, favelas, quarteirões emporcalhados, calçadas engorduradas, becos abjetos. A densidade demográfica de Nova York, por exemplo, mais que dobrou no fim do século XIX. Por isso havia tanta preocupação com o acúmulo de dejetos nas vias. Em 1880, Nova York precisou se livrar de quinze mil carcaças de cavalos mortos.
 
Após dias de discussão em Nova York, não se chegou a conclusão nenhuma na conferência de 1898 — bem semelhante às reuniões e congressos sobre assuntos climáticos de hoje em dia.

As soluções vieram com o tempo e os avanços da tecnologia, que salvaram as cidades de, literalmente, se afundarem na merda. Os bondes deram um alívio, mas foi a popularização do carro, no começo do século XX, que trouxe a solução. Em 1912, o número de automóveis ultrapassou o de cavalos em Nova York. O invento do século era enaltecido por ser economicamente sustentável e por ter a habilidade de “reduzir o tráfego”. Quem diria, hein?

Hoje em dia, as carruagens de Nova York estão restritas, obviamente, mais como uma atração turística, ao Central Park. Mantendo os animais afastados da poluição provocada pelos “cavalos do século 20″.

O mundo já esteve à beira do caos e a existência da humanidade ameaçada muitas vezes. O Homo sapiens, na hora “H”, conseguiu arranjar um jeito de salvar a própria espécie. Não podemos nos esquecer, por exemplo, de que, nos primórdios, quando o ser humano ainda vivia da caça e de coleta, e os alimentos começaram a se tornar raros e difíceis de serem obtidos, ele teve que aprender a produzir a própria comida. Foi quando surgiu a agricultura e a criação de animais para o corte. Já no final da Idade Média, uma terrível epidemia de peste negra (peste bubônica) matou mais de um quarto da população da Europa. Sem conhecimentos de infectologia, sem vacina, sem a mínima noção de higiene e saúde, o homem conseguiu sobreviver à disseminação da peste.

É claro que a gente tem que se preocupar com a questão do meio ambiente. É importante fazer nossa parte. Diferentemente de nossos antepassados, hoje a gente tem muito mais tecnologia para prever ou, pelo menos, presumir o que nos espera no futuro, o que nos permite tomar medidas preventivas muito mais eficientes. Mas não podemos nos deixar dominar pelo alarmismo que algumas organizações ambientalistas e a própria mídia propagam. Sem deixar de fazer a nossa parte no uso mais racional dos bens de consumo, para uma vida mais sustentável no futuro, não podemos subestimar a capacidade do ser humano em se superar e resolver os problemas e as dificuldades que vão surgindo. Os participantes daquela reunião de Nova York, em 1898, saíram dela sem nenhuma solução para livrarem as cidades de terem as ruas inundadas por merda em algumas décadas. Mas os próprios avanços tecnológicos de então evitaram que a tal catástrofe acontecesse. Então, é de se esperar que, à medida que as coisas foram acontecendo, a humanidade vá se virando e se adaptando às mudanças.




sexta-feira, 4 de maio de 2018

1968 - UM ANO QUE NÃO MUDOU O MUNDO, MAS QUE FEZ O MUNDO MUDAR



Como era viver em Pereira Barreto,
no Brasil e no mundo em 1968

Na história recente do Brasil e da humanidade, 1968 foi um ano diferente de todos os que o antecederam e, também, de todos os que o sucederam. Não foi um ano de mudanças, mas foi um ano que fez o mundo mudar. Como diz o sugestivo título do famoso livro de Zuenir Ventura, 1968 foi o ano que não terminou. Ele só acabou mesmo no calendário. Na memória dos que o viveram, ele continua até hoje. 

O mundo, em 1968, era bem diferente dos tempos atuais. Não havia ainda toda essa tecnologia que temos hoje, mas havia muita magia, sonhos, imaginação.

Enquanto estudantes franceses faziam seus protestos pelas ruas de Paris, no que ficou conhecido como “Maio de 68”, a Tchecoslováquia tentava, sob a liderança de Alexander Dubcek, se libertar do jugo do imperialismo de Moscou e criar uma sociedade mais democrática. Em represália a essa rebeldia, o exército soviético invadiu a Tchecoslováquia e massacrou o movimento liberal daquele país, que ficou conhecido como “Primavera de Praga”.

Em 1968, a Guerra do Vietnã estava em seu auge, gerando protestos nos Estados Unidos e em outros países. Foi o ano, também, da morte do pacifista e pastor protestante Martin Luther King e do senador Robert Kennedy, ambos norte-americanos, ambos assassinados. O ano de 1968 também foi declarado como “Ano Internacional dos Direitos Humanos”. 

REAÇÕES À DITADURA

No Brasil, a morte, pela polícia, no Rio de Janeiro, de um estudante secundarista, chamado Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, durante um protesto contra a alimentação servida pelo restaurante estudantil Calabouços foi um dos estopins que fizeram com que os estudantes, setores da Igreja Católica Romana e da classe média começassem a se mobilizar contra a ditadura militar. No dia 26 de junho, realizou-se a histórica “Passeata dos Cem Mil”, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Em 03 de setembro, o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, fez um discurso na tribuna da Câmara dos Deputados criticando a ditadura, no qual ele ironizou os militares, pedindo para as mães de moças não permitirem que suas filhas namorassem cadetes. Esse discurso do deputado irritou os generais, que tentaram, pelas vias legais, processar o deputado, alegando ofensa às Forças Armadas. No entanto, a Câmara, numa decisão histórica, nega autorização para que o Supremo Tribunal Federal processe Márcio Moreira Alves. Foi a gora d’água para que o presidente da República, o General Costa e Silva, reunisse o então famigerado Conselho de Segurança Nacional, na tarde do dia 13 de dezembro, no Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro e decretasse o Ato Institucional n.º 5, o AI-5, que dava poderes praticamente ilimitados ao presidente da República, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil.



Em outubro, a UNE (União Nacional dos Estudantes), colocada na ilegalidade após o Golpe Civil-Militar de 1964, realizou, clandestinamente, seu XXX Congresso. Descobertas pelos agentes da ditadura, foram presas mais de 700 pessoas que participavam do encontro, entre elas as principais lideranças do movimento estudantil da época, como Luís Travassos (presidente eleito da entidade), Vlademir Palmeira, José Dirceu, Franclins Martins e Jean Marc Von Der Weid.

A EFERVESCÊNCIA CULTURAL

Mas 1968 não foi um ano só de protestos, de arbitrariedades, de violência. Apesar de toda repressão, foi um ano marcante para a cultura, principalmente para a música. Foi a época dos grandes festivais da TV Record e do Festival Internacional da Canção, promovido pela então recém-nascida Rede Globo de Televisão. Foi um ano de efervescência cultural no Brasil e no mundo. Era época do movimento hippie, da contracultura, do surgimento da Tropicália, um movimento que mudaria radicalmente a música brasileira, cujo ponto de partida oficial foi o lançamento, com show, em São Paulo, do disco (LP, na época) “Tropicália ou Panis et Circensis”, em 12 de agosto de 1968, com a participação de Caetano Veloso Gilberto Gil e convidados.


EPISÓDIOS DO III FIC (FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO) QUE FICARAM NA HISTÓRIA

Dois fatos que ficaram gravados na história cultural brasileira, ocorreram nas noites dos dias 28 e 29 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, promovido pela então nascente Rede Globo.

Na noite do dia 28, um sábado, em São Paulo, no Teatro da Universidade Católica, acompanhado pelo conjunto Os Mutantes, Caetano Veloso apresentou a música É proibido proibir. Os Mutantes mal começaram a tocar a introdução da música, e a plateia já atirava ovos, tomates e pedaços de madeira contra o palco. O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a plateia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem parar de tocar, viraram as costas para o público. Gilberto Gil, que também participava, foi atingido na perna por um pedaço de madeira, mas não se rendeu. Em tom de deboche, mordeu um dos tomates jogados ao chão e devolveu o resto à irada plateia. Caetano fez um longo e inflamado discurso que quase não se podia ouvir, tamanho era o barulho dentro do teatro.



Na noite seguinte, dia 29, domingo, no Maracananzinho, no Rio de Janeiro, superlotado, com um público estimado entre vinte mil e trinta mil pessoas, na decisão da fase nacional do Festival, praticamente o público todo torcia pela vitória da música Pra não Dizer Que não Falei das Flores, também conhecida como Caminhando, de Geraldo Vandré. No entanto, no final, quando o apresentador do festival Hilton Gomes anuncia o segundo lugar para Pra não Dizer Que não Falei das Flores, as vaias de protesto da plateia começaram e não paravam mais. O próprio Geraldo Vandré decidiu intervir e defender os vencedores, que ainda nem haviam sido anunciados: “Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Holanda merecem o nosso respeito. A nossa função é fazer canções. A função de julgar, neste instante, é do júri que ali está.” E continuou Vandré: “Pra vocês que continuam pensando que me apoiam vaiando... Tem uma coisa só mais: a vida não se resume em festivais”. Mas quando foi anunciada a música vencedora, Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, as intérpretes da música vencedora, Cynara e Cybele, não podiam nem serem ouvidas por causa da vaia ensurdecedora que ecoava pelo Maracananzinho superlotado.



A questão que ficou em aberto desse episódio do III FIC, no Maracananzinho, em 1968, foi se houve ou não interferência política no resultado do festival. Segundo Vitor Nuzzi, em texto publicado em 26/10/2013, no site Rede Brasil atual (www.redebrasilatual.com.br), em sua autobiografia, escrita em 1991 com o auxílio do jornalista Gabriel Priolli, o ex-diretor da Rede Globo Walter Clark conta que teria recebido uma “ordem” para que as músicas Caminhando e América, América (de César Roldão Vieira) não vencessem o FIC. O recado, segundo ele, teria partidfo do ajudante de ordens do general Sizeno Sarmento, que era comandante do I Exército. No entanto, informa que a tal “ordem” nem sequer teria chegado ao conhecimento dos jurados. No entanto, segundo narra ainda Vitor Nuzzi, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, assegura que o júri não sofreu pressão. “Nenhuma interferência, nem a mais leve sugestão. O júri foi soberano”, declarou o ex-diretor da Globo. Com relação ao relato de Clark em sua autobiografia, Boni afirma que não foi informado. “O Walter, talvez para não me preocupar, nunca mencionou esse fato. Quando conversávamos sobre consequências, a gente pensava no endurecimento da censura com nossos telejornais, novelas e outros festivais, mas estávamos acostumados com isso e a só agir quando surgiam problemas.” Segundo Boni, não havia temor em relação às tais “consequências”, tampouco houve alívio com a decisão dos jurados, pois o recado de Vandré já estava dado. “Ganhar ou não o festival não faria diferença”.

A MÚSICA EM 1968 E A DECADÊNCIA DA JOVAM GUARDA

Em 1968, o movimento da Jovem Guarda estava já em decadência, mas a sua estrela maior, Roberto Carlos, sobreviveu. Naquele ano mesmo, venceu um festival na Itália, o de San Remo, e, finda a Jovem Guarda, tornou-se o mais popular cantor romântico do País. Sem engajamento político, Roberto Carlos e a elite politizada da época ignoravam-se mutuamente. Sua única obra “levemente subversiva” foi uma música, lançada no início dos anos 70, em homenagem a Caetano Veloso, que se encontrava exilado em Londres, chamada “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”.

Ouvir música, naquele tempo, era bem diferente. Não havia CD, nem DVD, nem MP3, nem Youtube, nem as já superadas fitas cassetes ainda existiam. As músicas eram gravadas em discos de vinil, isto é, em LPs (Long Plays) e em discos menores, chamados de compactos, que traziam somente duas músicas, o compacto simples, ou quatro músicas, o compacto duplo. Para gravadoras, autores e cantores, a vantagem daquela época era que, como a técnica para produzir esses discos era complexa e cara, a pirataria era praticamente impossível de existir, como hoje acontece, infelizmente, com os CDs, DVDs e os demais formatos digitais. A desvantagem é que, como os discos de vinil eram caros, a maior parte da população não podia comprá-los. O jeito, para esse segmento, era ouvir as músicas de seus cantores preferidos pelo rádio. Havia, então, os programas musicais de grande sucesso, nas principais emissoras do Rio e de São Paulo, que, por ondas curtas, chagavam praticamente a todo o Brasil. O rádio ainda era a principal fonte de informação da maioria absoluta da população em 1968. A televisão ainda tinha pouca abrangência naquele tempo. Por isso, o sucesso de uma determinada canção não era medido somente pela quantidade de discos que vendia, mas, e principalmente, pelo número de vezes que ela era tocada no rádio. Claro que, naquele tempo, já existia o famoso “jabá”, mas isso é outra história.

Segundo o site do radialista Beto Brito, (www.betobrito.com.br), as músicas que faziam mais sucesso em 1968 eram: Hey Jude – Beatles, Viola Enluarada - Marcos Valle &;  Milton Nascimento (destaque no Festival de MPB da TV Record), Baby - Gal Costa, Sá Marina - Wilson Simonal, Love Is Blue - Paul Mauriat e sua orquestra, Light My Fire - Jose Feliciano, Se Você Pensa - Roberto Carlos (que já iniciava sua fase mais romântica), MacArthur Park - Richard Harris, Pata Pata - Miriam Makeba, Tenho Um Amor Melhor Que o Seu - Antonio Marcos, Última Canção - Paulo Sergio, Sou Louca Por Você – Elizabeth, San Francisco (Be Sure To Wear Flowers In Your Hair) - Scott McKenzie, Mrs. Robinson - Simon & Garfunkel, A Chuva Que Cai - Os Caçulas, The Rain, The Park And Other Things – Cowsills, Do You Want To Dance - Johnny Rivers, Só o Ôme - Noriel Vilela, Segura Esse Samba Ogunhé - Osvaldo Nunes.

Naquele tempo, apesar da efervescência musical, havia muita música direcionada ao chamado "povão", como as do iniciante Paulo Sérgio, de Aguinaldo Timóteo, de Elizabeth e muitos outros, mas não havia espaço para a música sertaneja, como acontece hoje. A música sertaneja era vista com certo preconceito, mesmo pelas classes C e D da época. Ela era direcionada a um público específico, que habitava, principalmente, o interior de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Se bem que aqui estamos tratando de música sertaneja típica mesmo, de raiz. Essa música pseudossertaneja de hoje, cantada por Zezé de Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Victor e Leo e outros, ou o tal de sertanejo universitário, que, na realidade, está mais para música suburbana do que para sertaneja, ainda não existia.

AS ARTES SE RENOVAM EM 1968

Assim como a música, o teatro também vivia dias de novos ares em 1968. No entanto, a radicalização política não perdoava, também, as artes cênicas. No dia 16 de janeiro, estreou, no Rio de Janeiro, a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa. No entanto, quando se apresentavam em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, no dia 18 de julho, os integrantes da peça foram agredidos fisicamente por um grupo pertencente a um tal CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

No cinema, 1968 marca o início da 3.ª fase do chamado “Cinema Novo”, cujo marco principal foi o filme Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. No entanto, a repressão política foi particularmente cruel com o cinema naquele período. Mas alguns ficaram na história, como O Bandido da Luz Vermelha, O Homem Nu, As Amorosas, Panca de Valente, Lance Maior e outros. 

DR. ZERBINI E O PRIMEIRO TRANSPLANTE DE CORAÇÃO NO BRASIL



Na Medicina, o Brasil dava um importante passo. Em 1968, foi realizado o primeiro transplante de coração no Brasil, Em 26 de maio daquele ano, no Hospital das Clínicas de São Paulo. O Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, ganharia notoriedade ao colocar o coração de um jovem morto em um acidente no peito de João Ferreira da Cunha, um agricultor conhecido como “João Boiadeiro”. Apesar de a cirurgia ter se tornado um marco histórico, João Ferreira Cunha sobreviveu por apenas 18 dias depois do transplante. Naquela época, ainda não se sabia contornar o grande entrave dos transplantes de órgãos, a rejeição.

COMO ERA VIVER EM 1968?

Se fosse possível e você decidisse viajar no tempo para viver em 1968, certamente estranharia muito o modo de vida daquela época. Para um típico cidadão do início do século XXI, não seria nada fácil viver em 1968. Uma coisa é a gente ler sobre uma determinada época, saber sobre ela, ver um filme ou uma novela que se passa naquela época; outra coisa é viver nessa época. 

Em 1968, o mundo, obviamente, era bem diferente de hoje, ou seja, muito mais atrasado. Não havia telefonia celular, que só chegou no Brasil no início da década de 90 do século XX. Fazer uma ligação telefônica interurbana era um exercício de perseverança e paciência naquela época. Muitas cidades ainda tinham sistema de telefonia manual e precário. Não havia DDD. Havia necessidade de pedir a ligação para uma telefonista e, às vezes, esperar por horas. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telegrama. A televisão ainda era em preto-e-branco e tinha, naquele tempo, pouca abrangência, pois não havia satélites domésticos disponíveis e nem um sistema de retransmissão via micro-ondas. Muitas regiões brasileiras só foram receber os primeiros sinais de TV em meados da década de 70. A TV em cores só chegaria ao Brasil em 1972. Faziam sucesso na TV, em 1968, novelas como Antônio Maria (TV Tupi São Paulo), Beto Rockfeller (TV Tupi São Paulo/Rio), A Pequena Órfã (TV Excelsior), A Muralha (TV Excelsior), bem como programas de entretenimento como Hebe (TV Record), Sílvio Santos (TV Globo e TV Tupi), A Hora do Bolinha (TV Excelsior), Família Trapo (TV Record), Show do dia 7 (TV Record). Buzina do Chacrinha (TV Globo) e muitos outros. Mas, em 1968, o rádio ainda era o grande meio de comunicação de massa do Brasil. As grandes emissoras de rádio, concentradas principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, transmitiam suas programações em ondas curtas e, dessa forma, podiam ser ouvidas em todo o Brasil.

A informática ainda estava engatinhando. Não havia computadores pessoais. Para se ter uma ideia do atraso daquele ano, esse computador ou dispositivo móvel que você está utilizando agora para ler este texto, seja ele qual for, é milhões e milhões de vezes mais poderoso do que o mais avançado e robusto computador do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1968. A Internet era só um embrião nos Estados Unidos, de uso exclusivamente militar, e se chamava, na época, ARPANET. Era um sistema tão rudimentar, que nada tinha a ver com a Internet de hoje. 

Os carros mais usados em 1968 eram o Aero Willis, o DKV, o Galaxie, o Itamaraty, o Karmann Ghia, o Fusca e o lançamento do ano, o Opala. Em comparação com as modernas máquinas de hoje, esses carros eram verdadeiras “carroças motorizadas”.

Por mais que 1968 faça a gente sentir uma forte vontade de reviver aqueles tempos loucos e rebeldes, dos festivais, da contracultura, dos Beatles, você gostaria de viver num tempo em que não havia forno de micro-ondas, telefone celular, smartphone, antena parabólica, TV por assinatura, computador, Internet, redes sociais? Acredito que não. Ou viveria?

1968 EM PEREIRA BARRETO



Tratamos aqui do ano de 1968. Agora, vamos falar sobre como foi esse mesmo ano aqui em nossa cidade, em Pereira Barreto. Como era Pereira Barreto em 1968, justamente no ano do “Maio de 68” na França, dos festivais de música, do AI-5? Como era viver em Pereira Barreto naquela época?

Hoje em dia, com toda essa tecnologia da informação e comunicação, mesmo morando em pleno interior do Brasil, nos sentimos muito próximos e conectados com a rotina dos grandes centros urbanos do Brasil e do mundo. Mas em 1968, cinquenta anos atrás, as coisas eram bem diferentes. Os moradores de Pereira Barreto, no interior de São Paulo, quase na divisa com o Mato Grosso, estavam muito distantes da efervescência cultural e política dos grandes centros. Naqueles tempos idos, de comunicação precária, os pereira-barretenses voltavam-se mais para os assuntos locais, para a rotina da cidade. As passeatas e as agitações políticas e culturais que aconteciam no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em Paris eram coisas muito distantes para aquele povo simples e provinciano da Pereira Barreto do final da década de 60 do século XX.

COMO ERA A VIDA EM PEREIRA BARRETO EM 1968

Em 1968, Pereira Barreto era muito diferente do que é hoje. A cidade era bem menor. A sociedade local da época era dominada por uma dúzia de famílias tradicionais. Se bem que, já naquele ano, devido ao início da construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira e à chegada, na região, de trabalhadores para a construção da obra, esse quadro já começava a apresentar alguns discretos sinais de mudança, pois Pereira Barreto passaria por profundas transformações, principalmente no início dos anos 70. Em decorrência desses migrantes que vieram trabalhar direta e indiretamente na construção da usina de Ilha Solteira e, mais tarde, na de Três Irmãos, provavelmente mais de 70% da população da cidade, hoje, é composta por pessoas, entre ascendentes e descendentes, que aqui chegaram depois de 1970. Isso, talvez, explique um pouco a quase inexistência de vínculos da atual população pereira-barretense com o passado histórico e com os pioneiros habitantes da cidade.

Em 1968, Pereira Barreto era uma cidade bem provinciana ainda, aquela típica cidadezinha do interior mesmo, dominada por um grupo pequeno de famílias tradicionais e de imigrantes e seus descendentes, principalmente de origem japonesa. Naquele tempo, o número de japoneses e de seus descendentes em Pereira Barreto era bem maior do que hoje. A debandada de descendentes de japoneses fazendo o caminho de volta de seus pais e avós, indo trabalhar no Japão, principalmente nos anos 90, foi a principal causa desse encolhimento no tamanho da colônia nipônica local.
Vejamos a seguir alguns aspectos da vida pereira-barretense em 1968.

- O meio de comunicação mais usado, naquela época, ainda era o rádio. A TV já existia aqui, mas, por ser ainda um bem de consumo caro, poucas famílias tinham um receptor, que era em preto-e-branco e pegava, de forma precária, a TV Tupi de São Paulo e, de forma mais precária ainda, a TV Record. As imagens vinham das retransmissoras de Araçatuba e Machado de Melo. Só em 1969 é que a cidade foi ter a sua primeira estação repetidora de TV local, instalada no alto da caixa d’água do Serviço Autônomo de Água. Naquele ano distante, não havia parabólica, TVs por assinaturas, videocassete, nem DVD, muito menos, é claro, Internet e plataformas digitais.
• O telefone, em 1968, ainda era manual. Mesmo para ligações locais, havia necessidade de auxílio de telefonista. Os números dos telefones da cidade tinham só três dígitos. Lembro-me de que o da casa comercial de meu avô, na época, era 185. Não havia DDD, nem DDI. Uma ligação interurbana podia demorar horas para ser completada e a qualidade era quase sempre ruim. As pessoas daqueles tempos heroicos tinham que falar com o seu interlocutor às vezes aos berros para serem ouvidas do outro lado da linha. Nem se pensava, ainda, em telefone celular. Aliás, ter um telefone naquela época era um privilégio de poucos. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telégrafo, para troca de informações curtas, objetivas e que exigissem certa urgência, Era um sistema que utilizava o Código Morse. Naquele tempo, ainda não havia sido criada a ECT. Por isso, o serviço de telegrafia era prestado por empresa desvinculada dos Correios.
• A semana útil, em 1968, durava seis dias, e não cinco, como hoje. É que, naquele tempo, o sábado era considerado praticamente um dia normal de trabalho, pois o comércio funcionava o dia todo, até às 18 horas. Não havia ainda a chamada “Semana inglesa”. As repartições públicas tinham expediente até o meio-dia. O expediente bancário, em 1968, era de segunda a sexta, das 9h às 11h e das 13h às 17h. Mesmo aos sábados os bancários trabalhavam internamente, pois não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, era tudo manual, tudo escriturado em livros e fichas. Não havia computadores. A compensação de um cheque e de uma ordem de pagamento para uma conta em outra cidade, por exemplo, demoravam dias, até semanas, para serem efetuadas. Aos domingos, no entanto, com exceção de bares, lanchonetes, sorveterias e restaurantes, praticamente nenhum estabelecimento comercial abria suas portas. Quem precisasse de alguma coisa de emergência, tinha que recorrer a um comerciante amigo que fizesse a venda pelos fundos do estabelecimento, quando possível. Só a partir de 1970 é que, em decorrência do enorme movimento de migrantes de outros pontos do País, que vieram para esta região trabalhar nas obras da construção de Ilha Solteira, é que houve um período em que boa parte do comércio abria suas portas aos domingos até o meio-dia.
• Naquele tempo não havia ainda supermercados em Pereira Barreto. O que havia eram mercearias, uma delas, inclusive, era a Casa Portuguesa, que, alguns anos depois, se transformou no atual Supermercado Proença, cujo prédio se localiza no mesmo local onde funcionava a antiga mercearia. O primeiro supermercado só começou a funcionar aqui por volta de 1970. Era o Supermercado Tem Tudo, de propriedade da família Milanezi, e se localizava onde hoje funciona a loja Luamar Móveis. Ele tinha quase o tamanho de um minimercado atual, um “mercadinho”. No entanto, era uma novidade para a época em nossa cidade. Afinal de contas, o cliente mesmo escolhia e pegava as mercadorias.
• Como televisão, em 1968, ainda era um bem acessível a uns poucos privilegiados e, mesmo assim, a qualidade da recepção era ruim, a vida noturna de Pereira Barreto era bem mais agitada, principalmente nos finais de semana. Havia bailes no CAP e no ACEP, Aliás, naquela época, o CAP só podia ser frequentado por sócios ou convidados. Para ser um associado do CAP havia toda uma formalidade. O nome do candidato tinha de passar pelo crivo da diretoria, mas, devido ao conservadorismo da sociedade daquela época, a seleção era bem mais rigorosa que hoje. Para ir a um baile naquela época, havia necessidade de saber o traje exigido. Podia ser esporte fino, passeio ou traje a rigor, que exigia o uso de paletó e gravata. O mesmo se deve dizer também em relação â ACEP, que é um clube cujo quadro de associados sempre foi mais restrito à colônia japonesa. Além disso, naquele tempo circos e parques de diversão eram atrações mais frequentes em cidades do interior.
• A Praça da Bandeira era o local do footing das moças e dos rapazes da época. O Cine Itapura, com sessões diárias, inclusive com matinês aos domingos à tarde, era uma das diversões preferidas dos pereira-barretenses daquela época. Mas o ponto de encontro preferido dos jovens daquele tempo era o saudoso Tropical Bar, que se localizava onde existe hoje a galeria New Center.
• O prefeito de Pereira Barreto, em 1968, era Leo Liedtke Junior. Naquele tempo, a Câmara Municipal era composta por treze vereadores, que não recebiam nenhuma remuneração financeira por suas atividades legislativas. Mas isso não significava que o cargo de vereador fosse desinteressante. As disputas para uma cadeira na Câmara na época eram tão acirradas quanto hoje.
• A propósito, 1968 foi ano de eleição em Pereira Barreto. Os candidatos a prefeito na época foram Ernesto Trentin, da ARENA 1, o "positivo", Antônio Gomes da Silva, da ARENA 2, o "barra limpa", e o polêmico Lourival da Silva Louzada, do MDB, que não tinha nenhum símbolo para a sua campanha, mas muita gente, como chacota, dizia que ele era o "barra pesada". Os dois candidatos favoritos eram  Trentin e Antônio Gomes, ambos filiados à ARENA, que era o partido político de apoio aos governos estadual e federal, ou seja, era o braço político da ditadura. Louzada era candidato do MDB, partido que fazia uma oposição “consentida” à ditadura. No entanto, a disputa para a prefeitura e para a Câmara de Vereadores em Pereira Barreto não tinha muita relação com o ambiente político em nível nacional. A disputa era local, as discussões eram sobre questões locais. A despeito de o País estar em uma ditadura, em Pereira Barreto, como acontecia também na maioria dos municípios brasileiro naquele ano, a disputa era totalmente democrática e desvinculada do ambiente tenso em nível nacional. O vencedor da eleição municipal em Pereira Barreto naquele ano  foi Ernestro Trentin, que tinha o apoio do então prefeito Léo Liedtke Júnior, e tomou posso em 1.º de fevereiro de 1969.
• Naquela época, ainda havia por aqui muitas plantações de algodão. Muita gente, então, principalmente estudantes das escolas da cidade, aproveitava para ganhar um dinheirinho extra com a colheita. O algodão colhido nas lavouras de Pereira Barreto, naquela época, beneficiado aqui mesmo, pela Anderson Clayton e pela Cooperativa Agrícola da Fazenda Tietê, era de enorme importância econômica para o Município.
• Pereira Barreto tinha dois problemas sérios naquele tempo: energia elétrica e abastecimento de água. Á água distribuída na cidade naquela época, retirada de poços artesianos, possuía uma quantidade excessiva de fluor, o que fez com que muita gente, principalmente crianças daquela época, adquirisse fluorose. Além disso, era uma água salobra, com um gosto muito ruim. Quanto à energia elétrica, os cortes no seu fornecimento, que eram de responsabilidade da Companhia Paulista de Força e Luz, então estatal, eram frequentes. Naquele tempo, as grandes hidrelétricas ainda não estavam prontas. A energia de Pereira Barreto vinha de uma pequena usina geradora em Itapura, que já não existe mais. A energia aqui, então, além de ser fraca, sofria cortes constantes.

Para a história de Pereira Barreto, foi um ano importante. Foi em 1968 que começou a construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, o que veio a mudar radicalmente a vida social, cultural e econômica de Pereira Barreto, principalmente a partir de 1970.

ILHA SOLTEIRA EM PEREIRA BARRETO — A FAKE NEWS QUE PERSISTE ATÉ HOJE

Muita gente costuma afirmar, hoje, que o prefeito da época, Léo Liedtke Junior, errou em não permitir ou em não lutar para que o que é hoje a cidade de Ilha Solteira fosse construída aqui em Pereira Barreto e que, se isso tivesse sido feito, Pereira Barreto, hoje, seria uma grande cidade. Trata-se, na verdade, de uma fake news, cuja origem se desconhece, mas, provavelmente, deve ter sido disseminada por algum adversários políticos do prefeito da época, o que é, no mínimo, estranho, pois a população pereira-barretense daquele tempo não era simpática à ideia de “se misturar” com “barrageiros”, Mas o fato é que a tal fake news se espalhou na época e tem gente que até hoje acredita ter sido verdade. Mas, pelo que pude constatar em pesquisa, a informação não procede, é fruto de uma dose de ingenuidade e de desinformação. É preciso que se diga, a bem da verdade histórica, que o aglomerado urbano que é hoje a cidade de Ilha Solteira nunca seria construído aqui em Pereira Barreto, mesmo que o prefeito da época assim o quisesse. São várias as razões para isso. Se não, vejamos.

Segundo o livro ILHA SOLTEIRA – UM SONHO, UMA HISTÓRIA, de Fernando Sávio – 1.ª edição, São José do Rio Preto (SP), THS Editora, 2011, o projeto original da atual cidade de Ilha Solteira foi elaborado, em 1965, pelos arquitetos Ernest Robert de Carvalho Mange e Ariaki Kato, do Escritório de Engenharia Mange & Kate, em São Paulo (SP). O objetivo da CELUSA (hoje, CESP) era que o núcleo urbano de Ilha Solteira não seria como o de Jupiá, a “Vila Piloto”, que foi construída de madeira com o objetivo de ser desmontado depois do fim das obras. Como não seria derrubado, o material de construção usado, então, seria de alvenaria e não só madeira. Como cidade, teria que estar preparada para receber até 15 mil operários no período de pico das obras – que, somando-se aos seus familiares, chegariam a uma população de 35 mil habitantes. Na página 49 do referido livro, diz Fernando Sávio:

Por já nascer planejada, era preciso, então, que tudo estivesse no seu devido lugar: as área de comércio, a educação, saúde, infraestrutura e demais instituições de uma administração. O plano diretor foi estabelecido com base na chamada “cidade linear”. Construída numa área plana, de 380 hectares, a cerca de quatro quilômetros do canteiro de obras, o plano viário teve como base principal uma grande avenida – a avenida central ou eixo viário, destinada ao tráfego rápido, que nasce no anel rodoviário (estrada de Pereira Barreto, Santa Fé e outras cidades, além do acesso à hidrelétrica) e corta todo futuro perímetro urbano, de norte a sul, ligando-se, na outra extremidade, a outra estrada de acesso a Itapura, Castilho e Andradina. Uma via perimetral, ou avenida perimetral, circundando toda área urbana, forma um anel viário. Vias de penetração, ou alamedas, ligando aas avenidas central e perimetral; e as ruas que nascem e morrem nas alamedas.

Portanto, a construção da cidade de Ilha Solteira já fazia parte do projeto original da CELULSA (hoje, CESP). Não havia intenção de abrigar todos os trabalhadores da obra e suas famílias aqui em Pereira Barreto, mesmo porque o canteiro de obras ficava a mais de quarenta quilômetros de nossa cidade. O que houve, na época, é que, como o núcleo urbano ainda estava em construção, foi um pedido da CELUSA ao prefeito de uma área na cidade para construção de uma espécie de conjunto habitacional para abrigar temporariamente parte dos trabalhadores e suas famílias, e o prefeito da época não teria concordado com os termos em que a CELUSA queria a concessão dessa área.

Mas vamos supor que, se mesmo a quarenta quilômetros de distância do canteiro de obras, todos os trabalhadores da usina hidrelétrica de Ilha Solteira tivessem vindo morar em Pereira Barreto, a CESP (então CELUSA) dificilmente teria investido aqui na construção da mesma infraestrutura que implantou em Ilha Solteira. Afinal, Pereira Barreto já tinha, pelo menos em tese, toda infraestrutura básica necessária, como hospital, médicos, lojas, restaurantes, etc., para abrigar os trabalhadores e suas famílias. Uma prova disso foi na época da construção da usina hidrelétrica de Três Irmãos, ocasião em que não foi construído nenhum núcleo urbano para abrigar os trabalhadores da obra, que passaram a residir e viver, em sua maioria, em Pereira Barreto, sem que isso trouxesse nada de relevante que contribuísse para o crescimento urbano da cidade, embora a obra de Três Irmão seja infinitamente menor do que a de Ilha Solteira.

Outro detalhe importante, que pouca gente conhece hoje: naquele tempo havia, em Pereira Barreto, um preconceito muito forte contra os chamados “barrageiros”. As famílias tradicionais da cidade consideravam a maioria desse pessoal que vinha de fora para trabalhar nas obras de Ilha Solteira gente ”sem eira nem beira”, desqualificados, gente perigosa, em quem não se poderia confiar. Conta-se até que o então prefeito Léo Liedtke Junior guardou por muito tempo um abaixo-assinado a ele dirigido, firmado por ilustres pereira-barretenses da época, pedindo-lhe que não permitisse que nossa cidade abrigasse os “barrageiros” de Ilha Solteira, para que não houvesse riscos de que eles viessem a “desonrar” as dignas famílias da cidade. O próprio ex-prefeito me confirmou, anos depois, em conversa informal, que ignorou a reivindicação e engavetou o documento.

Há, também, uma informação curiosa, que me foi passada por gente da época, segundo a qual, a maioria das terras onde está situada hoje a cidade de Ilha Solteira pertencia a membros da família Junqueira, e o presidente da CESP (então CELULSA), então, se chamaria Guilherme Junqueira, Coincidência apenas? Obviamente que seria uma leviandade afirmar hoje que, em razão disso, tenha havido qualquer tipo de benefício ou coisa desse tipo. Mas não deixa de ser um detalhe curioso, que não pode ser desprezado.

Não bastasse isso, temos que nos lembrar de que vivíamos na mira das baionetas. Estávamos em uma ditadura civil-militar de inspiração positivista. De 1964 até meados dos anos 70, praticamente toda a classe política foi alijada do poder neste país, tanto os da esquerda quanto os da direita. Quem mandava neste país, nesse período, eram militares e tecnocratas. Se o governo quisesse que colocar aqui em Pereira Barreto, para economizar custos, todos os trabalhadores das obras de Ilha Solteira, o teria feito, independentemente da vontade do prefeito de plantão. Não era muito recomendável contrariar os homens que ocupavam o Palácio do Planalto naquela época. Mas, obviamente, eles já tinham no plano construir uma cidade junto às obras. Afinal de contas, isso aumentaria o custo de uma obra de grande porte, que era o sonho de consumo das grandes empreiteiras e de quem estivesse envolvido na construção da obra. Abrigar os trabalhadores e suas famílias em uma cidade próxima e já pronta, provavelmente, não seria um bom negócio, se é que me entendem.

Independentemente disso, Pereira Barreto foi muito beneficiada, na época, pela construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, muito mesmo. Como Ilha Solteira era um local, ainda, inóspito para se viver, pois era uma cidade cercada, com cancelas, para controlar o acesso das pessoas, tinha toque de recolher à noite e durante o dia, para não perturbar o sono dos trabalhadores, muita gente preferia vir morar em Pereira Barreto. Além disso, como o comércio de Ilha Solteira, na época, era incipiente, a maioria dos moradores de Ilha Solteira vinham fazer compras em Pereira Barreto. O comércio de Pereira Barreto, na época, nunca vendera tanto. Houve necessidade de se criarem horários especiais de funcionamento das lojas, inclusive nas manhãs de domingo, o que era algo raro em uma época em que não havia a chamada “semana inglesa”.

PEREIRA BARRETO SERIA TOTALMENTE SUBMERSA – FAKE NEWS

Outra fake News histórica em Pereira Barreto. Contou-me, certa vez, um antigo morador de Pereira Barreto, já falecido, que, quando começou a circular a informação de que seria construído nesta região um grande complexo hidrelétrico, com a formação de grandes lagos fluviais na região, nos anos 50, também surgiu um forte boato de que a cidade de Pereira Barreto seria totalmente submersa. A tal fake news se propagou tanto, de forma tão forte, que um grupo de vereadores foi a São Paulo consultar o então governador Lucas Nogueira Garcez, que desmentiu a falsa informação e tranquilizou os vereadores.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES SOBRE O AMBIENTE POLÍTICO NAQUELA DAQUELA ÉPOCA, NOS MUNICÍPIOS E NO PAÍS

Poderia alguém perguntar se não era ruim eleitoralmente ser um candidato a vereador e a prefeito do partido da ARENA, o partido que apoiava a ditadura? Não era. Muito pelo contrário: os candidatos a prefeito e a vereador, naquele tempo, principalmente nas cidades do interior do Brasil, em especial nas cidades pequenas, faziam questão de dizer que eram do “partido do governo”. Ser vereador e, principalmente, prefeito, naquela época, pelo MDB era um péssimo negócio para o município, por razões óbvias. E os próprios eleitores dessas cidades tinham consciência disso e votavam maciçamente nos candidatos da ARENA, pois sabiam que uma cidade, naquele tempo, governada por um emedebista seria, certamente, discriminada pelo governo e teria muita dificuldade em conseguir benefícios oficiais.

A bem da verdade, em seus primeiros anos, até o início da década de 70, o regime militar tinha amplo apoio da população. Isso não se devia somente ao conservadorismo da grande maioria da sociedade brasileira da época, mas a outros fatores também, como o econômico, pois, graças ao chamado “milagre econômico”, aos altos índices de crescimento do País (em 1968, o Brasil registrou um crescimento de 145%) e às inúmeras obras de infraestrutura que foram construídas naquele tempo (usinas hidrelétricas, rodovias, pontes, etc.). Algumas dessas obras eram faraônicas, é verdade, mas isso garantia muitos empregos para a população. Outro fator que garantia popularidade ao governo daquela época era sua postura até um tanto populista, com a promoção de uma séria de iniciativas de cunho social, como financiamentos imobiliários, programas de alfabetização, etc.

Aliás, a popularidade do governo era tanta, naquele tempo, que, nas eleições gerais de 1970, para as assembleias legislativas, para o Congresso Nacional e o Senado, o MDB foi praticamente massacrado nas urnas. Chegou-se a falar até na possibilidade de extinção da legenda na época. E não era para menos, afinal de contas o Brasil era um dos países que mais crescia naquele tempo, não faltavam empregos, boa parte da população brasileira ascendeu socialmente naquela época. Então a ditadura não era tão ruim assim... Epa! Vamos com calma.

O leitor se lembra que, logo no começo deste texto eu falei sobre a tal “Passeata dos Cem mil”, que aconteceu no dia 26 de junho de 1968, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro? Pois é! No dia seguinte, ao comentar a foto panorâmica da passeata no jornal, na qual podia se ver milhares de estudantes secundaristas e universitários, em sua grande maioria filhos da mais fina flor da elite carioca daquela época, o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues deixa em sua coluna uma pergunta irônica e aguda: “Cadê o povo?”.

Pois é! O povo ainda não fazia parte dessa reação da classe média e média alta e do movimento estudantil contra a ditadura. O povo estava anestesiado, não só pela censura à imprensa e à mídia da época, mas porque, para ele, gente comum, a vida estava boa. O Brasil, em 1968, crescera 14%. O Brasil estava repleto de canteiros de obras, havia empregos brotando em diversas regiões do País. Enquanto isso, praticamente toda a classe política estava praticamente alijada do poder. Os militares positivistas que detinham, de fato, o controle do País não haviam colocado somente a oposição e a esquerda na geladeira, mas a direita também. O Brasil era controlado por militares e administrado por tecnocratas. Aos políticos da ARENA cabia dizer sempre “Sim”. Aos políticos do MDB a fazer uma oposição consentida e discreta. Ai de quem não obedecesse! Naquele momento, só a classe média urbana dos grandes centros e a elite pensante é que estava ciente da realidade. O povo estava feliz e queria mais é que o governo desse um jeito nos “terroristas” que queriam implantar o comunismo no Brasil. Ou seja, tínhamos dois Brasis: o Brasil dos indignados com o arbítrio e o Brasil anestesiado pelo “milagre econômico”.

Dentre aqueles que se punham contra a ditadura, podiam ser divididos basicamente em dois grupos: aqueles que lutavam relo retorno à normalidade democrática, com eleições livres para todos os cargos, retorno à Constituição de 1946 ou a convocação de uma Assembleia Constituinte, e aqueles que, inspirados em Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro e na Revolução Cubana, de 1959, queriam a implantação da ditadura do proletariado no Brasil e a criação de um estado socialista. Quem conhece a história recente do Brasil sabe no que tudo isso deu. Somente em meados dos anos 70, principalmente devido ao fim melancólico do tal “milagre econômico”, é que a toda a sociedade brasileira, de fato, tomou consciência do que realmente estava ocorrendo no Brasil e começou a reagir, mas somente no início de 1985 é que começamos a voltar à normalidade democrática. Mas essas são outras histórias que foram acontecendo ao longo desses últimos cinquenta anos.

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...