sexta-feira, 9 de julho de 2021

A ESCOLHA DE LAMPIÃO



Naquela noite distante de 27 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o Rei do Cangaço, acampou com seu bando na fazenda Angicos, no município de Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Tranquilos, pois o local era considerado seguro como esconderijo, todos foram dormir. De repente, Lampião é acordado. Alguém o chamava:

Virgulino! Virgulino!

Lampião acordou e logo já estava com seu rifle posicionado. Quando saiu de sua barraca, na qual Maria Bonita dormia profundamente, ele viu um homem estranho. Estava escuro, pois, por segurança, todos as lamparinas e lampiões do acampamento foram apagados. Havia chovido, o céu estava encoberto. Mas aquele estranho homem parecia ser iluminado por uma luz que não se sabia de onde vinha. O homem vestia roupa de cangaceiro, mas, na cabeça, em vez de um chapéu de meia-lua, tinha um quepe igual aos dos soldados das volantes. Lampião não pensou duas vezes e deu vários tiros no homem, que nem se abalou. As balas atravessaram o corpo dele como se passassem por uma nuvem de fumaça, não lhe causando nenhum ferimento, enquanto ele permanecia ali, impassível, olhando fixa e friamente para Lampião. Após os tiros, o estranho homem só disse:

Poupe sua munição, Virgulino! Seu brinquedo não pode me matar.

Suas balas nada podiam fazer contra aquele estranho possível inimigo. Isso fez Lampião sentir algo que ele nunca sentira em sua vida: medo. Aterrorizado com aquela criatura sinistra, com a qual nem seu rifle, nem todo seu bando podiam, ele começou a suar frio. Então, perguntou ao homem:

Tu é o Demônio? Só pode sê o Demônio.

Possa ser! Possa ser! — respondeu o homem.

O que tu qué de mim, Tinhoso?

Mas o homem ignorou a pergunta de Lampião e começou a falar, com calma, voz baixa e devagar:

Virgulino, um homem, em sua vida, pode escolher dois caminhos: o caminho do bem e o caminho do mal. O caminho do bem é difícil, Virgulino. Algumas vezes, tem muito sofrimento, muita dor, muita dificuldade, a jornada é difícil. É preciso ter coragem, fé e perseverança. As provações não são fáceis, Virgulino. Mas, no final da jornada, Deus recebe esse homem em seus braços. Já o caminho do mal muitas vezes é até bom, divertido, alegre. Veja o teu caso, Virgulino. Olhe o que tu já aprontou. Este sertão todo tem medo de tu. Tu tá famoso, teu nome saiu até em jornal do estrangeiro. Mas tua jornada está chegando ao fim, Virgulino. É hora do acerto de contas. Tu fez muita maldade, Virgulino. Muita maldade.

Congelado pelo medo, coisa que nunca sentira antes, Lampião pergunta ao homem:

Tu vai me matá, é?

Não, Virgulino. Não sou eu que vou te matar. Quem vai ter matar é um cabra que tu conhece bem. Mas tu tem uma chance de se livrar dele.

E qual a chance? — pergunta Lampião ansioso.

Virgulino, apesar de teus crimes, das barbaridades que tu fez na vida, tem muita gente que gosta de tu, acha que tu é um herói do povo pobre e tal. A maioria dessa gente simples e sofredora do sertão nordestino gosta de tu. Por isso, Deus está te dando uma chance. Tu tem que te arrepender de teus pecados, Virgulino, de teus crimes, abandonar essa vida e viver como um homem de bem. Mas tu tem que fazer isso agora, neste momento, perante mim, de todo teu coração, Virgulino. Se tem uma coisa que Deus conhece bem, Virgulino, é o coração do homem. Se tu se arrepender agora, tua vida pode se prolongar. Mas, para continuar vivendo, tu tem que deixar o cangaço e virar um homem de bem, Virgulino.

Oxente! E meu bando? Eles dependem de mim — reage Virgulino.

Cada um tem que tomar o seu caminho, Virgulino. Tu toma o teu, os teus cabras tomam o deles. Tu tem que abandonar essa vida, Virgulino, se quiser te salvar. Agora. Tua decisão é agora.

Olhe, homem ou seja lá o que tu fô, eu nunca matei ninguém que antes não tivesse querido me matar, ou me trair. Matei, sim, matei muita gente. Mas todo mundo que matei é gente que merecia morrer, gente que não prestava. Não posso abandonar meu bando. Esses cabras dependem de mim. Meu padrinho padre Cícero sabe disso.

Então tu não te arrepende de teus crimes, Virgulino? Pense bem, homem. É tua chance de te salvar — diz o homem.

Lampião, o Rei do Cangaço, que já enfrentou tantos perigos, sua frio, se sente acuado, com medo, na verdade, estava em pânico, com o coração quase saindo pela boca. Naquele momento, toda sua vida, desde sua infância, em Vila Bela, lhe passou pela cabeça. Lembrou-se do assassinato do pai, em 1919. Sua cabeça fez uma viagem no tempo, relembrando tudo por que ele havia passado, os crimes que cometera, as cidades que invadira. Ficou ali por vários minutos, refletindo, pensando, enquanto aquele estranho homem permanecia ali, em sua frente, quieto, observando-o e aguardando sua resposta. Aí, então, ele olhou firmemente para aquela estranha criatura, que ele não sabia se era Deus ou o Diabo, o Bem ou o Mal, e disse:

Olhe, seu moço ou sei lá o que tu é, entrei nessa vida sabendo que tava contra a lei, contra o puder, contra o guverno. Tudo começô quando a polícia matou meu pai. Jurei que ia vingá a morte dele. E vinguei. Fiz muita maldade nesse mundo, eu sei disso. Fiz coisa que num devia tê feito. Mas também fiz justiça, matei muita gente que era tão ruim ou pior que eu, gente que explorava pobre, gente que fez coisa até pior que eu fiz. Meu nome e minha fotografia saiu, sim, no jornal dos estrangeiros. Hoje sô conhecido no Brasil e até no mundo. Assim, pelo menos eu tô ajudando o povo do Brasil e até do estrangeiro a conhecê a vida dura do povo daqui do Norte, que passa fome, que é explorado, que sofre com a seca. Olha, seu moço, se tá errado ou tá certo, o que eu fiz tá feito e não tem como desfazê. Se eu mudá de vida agora, não vai trazê esse povo que matei de volta, não vai muda a vida dura do povo do sertão. Além disso, a Justiça Divina pode me perdoá, até a Justiça do homem pode me perdoar. Tão falando por aí numa tal de anistia para cangaceiro que se entragá. Mas muita gente por aí não vai me perdoá pelo que fiz. Mesmo que eu vire santo feito meu padim padre Cícero Romão Batista, muita gente não vai me perdoá, moço. Nunca vou tê sossego nessa vida.

Esta é tua decisão, Virgulino? — pergunta o homem.

Sim, senhô. Se diante de Deus tenho que pagá pelo que fiz, é o que tem que sê feito.

Então assim será! Adeus, Virgulino — disse aquele estranho homem, cuja imagem foi se dissipando aos poucos aos olhos de Lampião.

Lampião, então, acorda, assustado. Tinha sido um sonho, ou um pesadelo. Mal ele abre os olhos e vê Maria Bonita já de pé preparando o café. Em seguida ouve o grito do vigia:

A volante! Os macaco da polícia!

Não deu tempo nem de se levantar e pegar no rifle. O bando foi pego de surpresa. Quando os policiais comandados pelo tenente João Bezerra e pelo sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo os cangaceiros de Lampião não tiveram tempo de tentar nenhuma reação. Dizem que o ataque da polícia teria durado uns vinte minutos e poucos do bando de Lampião conseguiram escapar. Lampião teria sido um dos primeiros do bando a morrer.


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