Como
um grande rei ou imperador da Antiguidade analisaria, hoje, a figura
de Vladirmir Putin, o autocrata russo que invadiu a Ucrânia? Vejamos como seria nesta fictícia conversa entre Nicolau II, último dos czares russos e Ciro, o Grande, fundador do Imério Persa.
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Dizem
que, recentemente, o espírito de Nicolau II (1868-1948), o último
imperador da Rússia czarista, antes da Revolução de 1917,
encontrou o espírito de Ciro II, mais conhecido como “Ciro, o
Grande”, o criador do Império da Pérsia, que reinou entre 559 e
530 antes da Era Comum. Na oportunidade, o ex-imperador russo
perguntou a Ciro, que foi um grande guerreiro e conquistador, o que
ele achava de Vladimir Putin, atual presidente da Rússia. Ao que
Ciro respondeu:
— Nikolái,
acho este atual governante do que fora, em outras épocas, teu
império, a Rússia, o tal Vladimir Putin, um estúpido e covarde.
— Grande
Ciro, respeito tua opinião, mas discordo dela. Esse homem quer
reconquistar a glória do Império da Rússia, que tive o privilégio
de governar.
— Pode
até ser, meu caro Nikolái, mas esquece-te de que o planeta Terra já
não é o mesmo que deixaste em 1918, quando tu e tua família fostes
executados pelos bolcheviques. O que Vladirmir faz está acarretando
efeito contrário ao desejado: ele está fazendo com que todo o
Ocidente se volte contra a Rússia — afirma Ciro, o Grande.
— Ele
está tendo uma coragem que não tive em minha época. Fui um
governante fraco, Grande Ciro — lamenta-se Nicolau II.
— De
fato, foste um governante fraco, Nikolái Achando que seu
reinado seria longo, Alexandre, teu pai, não te preparou para ser
czar, não recebeste ensinamentos para ser um governante, mais que
isso, um líder. Vladimir, nesse aspecto, te supera. Mesmo sendo um
autocrata, ele é um líder para a maior parte do povo russo de
hoje. Tu, com teu despreparo e fraqueza, nem isso conseguiste. Alice,
ou melhor, Alexandra, tua mulher, mesmo não sendo russa, era mais
popular na Rússia do que tu — declarou Ciro.
— Eu sempre deixei claro que não estava preparado para ser czar, nem
queria sê-lo. Na verdade, eu não sabia governar, não sabia sequer
tratar com os ministros e muito menos com o Soviete e com a Duma. Eu
fui um fracasso.
— Ainda
bem que tu reconheces — assentiu Ciro, dando um leve sorriso.
— Mas
voltemos a Putin, Grande Ciro — disse Nicolau II. Disseste que ele
é estúpido e covarde. Por quê? — questiona Nicolau II.
— Estúpido,
porque provocar uma guerra, invadindo um país vizinho, em pleno
início do século XXI, com o mundo todo interligado e
interdependente, é uma imbecilidade sem limites. Na Antiguidade,
Nikolái, a guerra era uma questão de sobrevivência dos povos.
Havia uma luta feroz por espaço e por poder; quanto mais conquista,
mais poder, mais prestígio, mais glória e mais respeito para o
governante, dentro e fora de seus domínios. Se tu não te armasses e
não atacasses teu vizinho, seria, com certeza, uma hora ou outra,
atacado e invadido por ele. Mas o mundo mudou, Nikolái. A
geopolítica, hoje, é muito diferente do que era na Antiguidade. Um
governante que, hoje, ataca um país vizinho, além de se transformar
em uma espécie de pária internacional, sacrifica seu povo, podendo
levá-lo ao isolamento. É o que está ocorrendo com tua Grande
Rússia, Nikolái.
— Disseste,
também, que ele é covarde, Grande Ciro — questiona Nicolau II.
— Nikolái,
guerrear por telégrafo, como fez Lincoln na Guerra de Secessão, ou
por rádio, ou por telefone ou por computador é muito fácil.
Guerrear vivendo dentro de uma fortaleza, protegido por uma numerosa
guarda, me parece bem mais fácil do que estar à frente, de espada
em punho, de um exército de milhares de homens. Eu morri no campo de
batalha, Nikolái, lutando contra os masságetas. Esses
“conquistadores” de hoje nunca sentiram o cheiro do sangue da
guerra de verdade, nunca sentiram o fio da espada no seu pescoço,
nunca se ensurdeceram com os tiros dos tanques e com as explosões
das bombas. Por isso, Nikolái, além de estúpido, seu sucessor,
Vladimir, é um covarde. É fácil mandar milhares de homens para
morrer por ele — concluiu Ciro II.
Apesar
de passados mais de cem anos de sua morte física, Nicolau II ainda
tinha a mesma insegurança dos tempos de czar. Afinal, ele não
nascera para governar, nem fora preparado por Alexandre III, seu pai,
para tal. Nicolau não era pequeno só na estatura, mas na alma
também.
Ciro,
o Grande, então, volta falar:
— Teu
governo, Nikolái, foi uma sucessão de erros, tragédias e
fracassos, não só por tua culpa, mas também pela impulsividade de
teus ministros e assessores. Tua mão foi manchada de sangue várias
vezes sem que tivesses pegado em arma uma única vez. Lembra-te da
festa trágica em Khodynka? Lembra-te também da propaganda
antissemita lançada por teus ministros? Lembra-te da estúpida
guerra contra os japoneses? Lembra-te do tal de “Domingo
Sangrento”? Lembra-te do desempenho vexatório de teu exército na
Primeira Guerra Mundial? Não bastasse isso, deixaste te influenciar
por um charlatão, o tal Grigori Rasputin? Na verdade, a Rússia era
grande e complexa demais para ti, Nikolái.— Não
esperava ser avaliado assim por um grande rei da Antiguidade —
disse Nicolau II.
— Meu
reinado foi curto, Nikolái. Governei a Pérsia de 559 a 530 antes da
Era Comum. Nesse curto período, consegui expandir meus domínios,
transformando-o no maior império que o mundo já havia conhecido até
então. Mas sempre respeitei os costumes e religiões dos povos que
faziam parte de meu império. Tornando-o, em plena Antiguidade, em um
modelo de administração. E isso, Nikolái, mil e quinhentos anos
atrás, em um mundo, sem telégrafo, sem telefone, sem Internet, sem
satélites, sem TV, sem energia nuclear, sem sequer energia elétrica,
Nikolái. Digo, com orgulho, que foi uma era de prosperidade. Mas
nunca deixei de comandar meu exército, Nikolái. Tanto foi assim,
que acabei morrendo no campo de batalha, lutando junto a meus bravos
comandados. Nunca fui covarde e estúpido como teu atual sucessor,
Nikolái. O tal Vladimir está levando teu povo russo a ser
estigmatizado por boa parte do mundo. A Rússia, com toda sua
história, cultura e tradição, a Rússia de Liev Tolstói, de
Fiódor
Dostoiévski, de
Piotr Ilitch Tchaikovski, de Ígor Stravinski, de Boris Pasternak e
de outros tantos gênios das letras, da música e das artes, não
merece um canalha como Vladimir Putin, um criminoso contumaz, meu
caro Nikolái — concluiu o Grande Ciro II.
Nicolau
II cala-se, põe-se a pensar no que Ciro II acaba de expressar e
conclui:
— Tens
razão, Grande Ciro. Assim como a minha Rússia não merece Putin,
assim como não mereceu o lunático do Lenin e seus camaradas
bolcheviques, assim como não mereceu o psicopate do Stalin, assim
como não mereceu a mim também…
quinta-feira, 30 de junho de 2022
COMO VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA, SERIA ANALISADO, HOJE, POR UM GRANDE GOVERNANTE DA ANTIGUIDADE?
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