segunda-feira, 30 de setembro de 2019

SEM ALARMISMO: É PRECISO ENFRENTAR O FUTURO COM AS LIÇÕES DO PASSADO



Hoje, fala-se muito em meio ambiente, em “roubar o futuro da Greta” e tal. Mas a gente precisa recorrer um pouco à História para entender certas coisas. O que diria a jovem sueca Greta Thunberg se vivesse no final do século XIX e soubesse que as cidades, naquele tempo, estavam condenadas a, literalmente, afundar na merda? Será que também diria aos governantes daquele tempo que eles haviam roubado seu futuro?

Com base em um artigo de Felipe van Deursen, publicado em seu blog na revista Superinteressante, em 21 de dezembro de 2016, vamos contar uma história aqui que pouca gente, hoje, sabe, mas que colocou administradores de grandes cidades espalhadas pelo mundo em pânico no final do século XIX.

Em 1898, delegações de várias cidades do mundo se reuniram em Nova York, nos Estados Unidos para discutir os problemas urbanísticos daquele tempo, como crime, falta de recursos, questões de infraestrutura, etc.

Naquela época, não havia ainda transporte motorizado, ou seja, não havia carros. O meio de locomoção daquela época era o cavalo. E, como todo o mundo sabe, cavalo não emite gás carbônico e outros poluentes, mas faz cocô, que além de liberar o gás metano no ar, é uma sujeira sólida, pesada e com um forte odor nada agradável.  

Por causa do intenso trânsito de animais, era tanta bosta acumulada nas ruas de cidades como Londres, Nova York e outras metrópoles, que as projeções para o então futuro século XX eram apocalípticas. O jornal londrino Times chegou a publicar que até a década de 1940 as pilhas de esterco chegariam a três metros de altura. Do outro lado do Atlântico, temia-se que quem morasse ou trabalhasse até o segundo andar em Nova York estaria, em 1930, soterrado por material fecal. Londres tinha então 50 mil cavalos transportando pessoas todo dia de um local para o outro. Nova York chegou a ter pelo menos 100 mil animais circulando pelas ruas, que produziam uma média de 10 kg de fezes por dia (ou seja, um total de mil toneladas diárias). Haja cocô! Sem contar, também,  a urina, as moscas e até mesmo os cavalos mortos.

O problema era que não havia um plano de descarte e tratamento decente para tamanho problema das metrópoles. As cidades naquele tempo se apertavam em cortiços, favelas, quarteirões emporcalhados, calçadas engorduradas, becos abjetos. A densidade demográfica de Nova York, por exemplo, mais que dobrou no fim do século XIX. Por isso havia tanta preocupação com o acúmulo de dejetos nas vias. Em 1880, Nova York precisou se livrar de quinze mil carcaças de cavalos mortos.
 
Após dias de discussão em Nova York, não se chegou a conclusão nenhuma na conferência de 1898 — bem semelhante às reuniões e congressos sobre assuntos climáticos de hoje em dia.

As soluções vieram com o tempo e os avanços da tecnologia, que salvaram as cidades de, literalmente, se afundarem na merda. Os bondes deram um alívio, mas foi a popularização do carro, no começo do século XX, que trouxe a solução. Em 1912, o número de automóveis ultrapassou o de cavalos em Nova York. O invento do século era enaltecido por ser economicamente sustentável e por ter a habilidade de “reduzir o tráfego”. Quem diria, hein?

Hoje em dia, as carruagens de Nova York estão restritas, obviamente, mais como uma atração turística, ao Central Park. Mantendo os animais afastados da poluição provocada pelos “cavalos do século 20″.

O mundo já esteve à beira do caos e a existência da humanidade ameaçada muitas vezes. O Homo sapiens, na hora “H”, conseguiu arranjar um jeito de salvar a própria espécie. Não podemos nos esquecer, por exemplo, de que, nos primórdios, quando o ser humano ainda vivia da caça e de coleta, e os alimentos começaram a se tornar raros e difíceis de serem obtidos, ele teve que aprender a produzir a própria comida. Foi quando surgiu a agricultura e a criação de animais para o corte. Já no final da Idade Média, uma terrível epidemia de peste negra (peste bubônica) matou mais de um quarto da população da Europa. Sem conhecimentos de infectologia, sem vacina, sem a mínima noção de higiene e saúde, o homem conseguiu sobreviver à disseminação da peste.

É claro que a gente tem que se preocupar com a questão do meio ambiente. É importante fazer nossa parte. Diferentemente de nossos antepassados, hoje a gente tem muito mais tecnologia para prever ou, pelo menos, presumir o que nos espera no futuro, o que nos permite tomar medidas preventivas muito mais eficientes. Mas não podemos nos deixar dominar pelo alarmismo que algumas organizações ambientalistas e a própria mídia propagam. Sem deixar de fazer a nossa parte no uso mais racional dos bens de consumo, para uma vida mais sustentável no futuro, não podemos subestimar a capacidade do ser humano em se superar e resolver os problemas e as dificuldades que vão surgindo. Os participantes daquela reunião de Nova York, em 1898, saíram dela sem nenhuma solução para livrarem as cidades de terem as ruas inundadas por merda em algumas décadas. Mas os próprios avanços tecnológicos de então evitaram que a tal catástrofe acontecesse. Então, é de se esperar que, à medida que as coisas foram acontecendo, a humanidade vá se virando e se adaptando às mudanças.




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