domingo, 21 de janeiro de 2018

O CRENTE E O CÉTICO


Em um bar, daqueles de esquina, que não têm nada de diferente, nada de interessante, é apenas um bar normal, aonde as pessoas vão, no final da tarde, depois do trabalho, para conversar, beber cerveja, descontrair, sentados a uma das mesas dois sujeitos conversam animadamente. Frederico, o ateu, o incrédulo, o cético, e Agostinho, o crente, o homem de fé.
— Então, você vai se aposentar no final do mês, hein? — pergunta Frederico a Agostinho.
— Sim — afirma Agostinho — Se Deus quiser, estarei aposentado no final do mês.
— E se Deus não quiser? — provoca Frederico.
— Se Ele não quiser, não me aposento, oras. Ele é quem manda.
Depois de uma longa gargalhada, Frederico diz:
— Agostinho, você deve se sentir bem seguro achando que tem um ser superior que o protege, o guia, o orienta e tal. Isso é bom, mas também não é. Afinal de contas, esse ser protetor, na realidade, não existe. É apenas uma crença sua...
— Tudo bem, Frederico! Tudo bem! — reage Agostinho. Se você não tem fé, tudo bem. Respeito seu ponto de vista. Mas peço a você que respeite o meu também.
— Eu respeito — diz Frederico. Não quis ofendê-lo. Mas tenho que lhe confessar que não vejo nenhum sentido em crer em um ser supremo. Tudo isso é criação de povos primitivos, como os hebreus, por exemplo. Ponha uma coisa definitivamente em sua cabeça, Agostinho: Deus não existe, a não ser na imaginação de quem acredita nele.
— E a Bíblia? E o testemunho do povo hebreu? E Jesus Cristo? — questiona Agostinho.
— Histórias, Agostinho. Histórias. Todos os povos antigos têm suas histórias, suas lendas, suas crenças, seus heróis, seus mitos. Mas, no final das contas, tudo não passa de literatura e crendice, O que é a bíblia, Agostinho?
— A Bíblia é a palavra de Deus — afirma Agostinho —, escrita por homens, sim, mas sob inspiração divina.
— Isso é o que disseram para você, Agostinho — reage Frederico. A Bíblia é, na verdade, uma coletânea de textos muito antigos, cujos autores são desconhecidos. Tudo bem que tem um valor histórico e literário inquestionável. Afinal é o testemunho, a manifestação e a tradição cultural e religiosa de um povo, que criou a primeira religião monoteísta da História. Mas o que há ali são narrativas, histórias, lendas e a tradição religiosa de um determinado povo. Mas é só isso, Agostinho. O mais é pura mistificação — conclui Frederico.
— Tudo bem, meu amigo Frederico! Se você não acredita em um ser supremo, me responda de onde veio tudo isto que está à nossa volta? O próprio planeta Terra, onde vivemos, é um exemplo. Veja a natureza, os animais, as plantas, a complexidade da vida. Além disso, eu já li que nosso planeta tinha que ser exatamente do tamanho que é, com a posição e as velocidades de rotação e translação precisas para garantir que as estações do ano e a proporção de água e terra estejam em equilíbrio para garantir a vida. Uma interferência ou mudança, mínima que seja, pode acabar totalmente com a vida na Terra. Isso é Deus, meu amigo. Só pode haver uma inteligência superior envolvida nisso. Não é só obra do acaso   — afirma Agostinho.
— Mas é obra do acaso, meu amigo, por mais absurdo que isso lhe possa parecer — reage Frederico. Está certo que tudo é muito perfeito e tal, mas isso é coisa da natureza, meu irmão. As coisas foram se criando e se ajeitando, se moldando, aos poucos, naturalmente, até que a vida finalmente foi possível. De um organismo unicelular, começaram a surgir formas de vidas mais complexas e assim por diante. Tudo é, sim, obra do acaso — diz Frederico.
— Sua visão do mundo e da vida é muito simplista, muito limitada. Creio que a vida não se limite a isto aqui à nossa volta, meu amigo. Há, sim, um princípio criador de tudo isso. Os povos antigos podiam não ter os conhecimentos que temos hoje, mas eram sábios e já acreditavam em um ser superior e que esse ser superior, essa inteligência suprema, tenha um plano para todos nós. Até os dias de hoje, não se conhece nenhum povo, nenhuma cultura que não tivesse uma forma de manifestação religiosa e espiritual. E olha que não faltaram tentativas de se criar uma sociedade materialista no mundo. O marxismo foi uma delas. Sem sucesso.
— Agostinho, a crença em Deus é ilógica — ataca Frederico. 
— Como ilógica, Frederico? — reage Agostinho.
— Se Deus é onipresente e onisciente, ele sabe tudo, o passado, o presente e o futuro. Sendo ele, também, onipotente, pode mudar tudo, mas não o faz. Por quê?
— Sei lá — afirma Agostinho. São os desígnios de Deus! Quem somos nós, humanos, para entender?
— Oh! Os “desígnios de Deus”! E “quem somos nós para entendê-los?”. Me poupe disso, Agostinho. O segredo é aumentar os “mistérios” então? — ironiza Frederico.
— Há uma lei natural no universo, Frederico, de causa e efeito. Para que haja um efeito, há que se ter uma causa. Se há o universo e tudo mais, que é um efeito, qual seria a causa? Obviamente é Deus, o criador, o precursor de tudo isso.
— Esse é um argumento muito genérico. Nesse seu raciocínio de causa e efeito, o Deus aí poderia ter inúmeras concepções e formas. Até faz certo sentido. Mas o deus que as religiões vendem apresenta um problema sério, Agostinho.
— Que “problema”, Frederico?
— É humano demais. Já percebeu isso? O deus, pelo menos os que as religiões e a própria Bíblia vendem é à imagem e semelhança do homem, Agostinho. Ele tem fraquezas humanas: é ciumento, revanchista, mesquinho e às vezes até cruel. Ele dita a Moisés o mandamento “Não matarás”, mas, ao longo de diversos trechos do Velho Testamento, ele mesmo mata um monte de gente, só porque o desagradaram. Ele provoca uma inundação que aniquila praticamente toda humanidade, só poupando Noé e sua família, destrói duas cidades, mata soldados egípcios. Que espécie de deus raivoso é esse? Ele não é o misericordioso? Ele é incoerente e bipolar. Além disso, esse seu deus é chantagista: ou você crê nele e faz o que ele manda ou cumprirá pena perpétua no inferno. É um deus canalha, opressor, Agostinho.
— Essa sua visão, meu caro Frederico, demonstra sua pouca intimidade com as coisas de Deus e com Sua palavra. Deus é amoroso, meu amigo, mas também é severo com seus filhos. Esse Deus criador e amoroso é apenas uma parte dEle que nos é mostrada na Bíblia. Deus também é atitude contra todos aqueles que se opõem a Ele. Quando analisamos o que dizem os textos do Antigo Testamento, temos que levar em conta que Deus, que havia escolhido os hebreus para transmitir ao mundo sua mensagem, sabia que estava lidando com um povo “de dura cerviz”, como diz o próprio texto sagrado, isto é, insubordinado, rebelde. Por isso, Deus age como um “pedagogo”, como pai em relação ao povo hebreu, para lapidá-lo espiritualmente — conclui Agostinho.
— Belo discurso, Agostinho. Quase me convenceu. Mas me diga uma coisa: como pode haver um deus e tantas religiões diferentes por aí?
— Meu caro Frederico, não sei dizer em relação a outras religiões. Diz a sabedoria popular que, apesar de haver tantas religiões, tantas crenças, Deus é um só. Também acredito nisso, mas sou cristão. Para mim, apesar de crer no Deus de Israel, em Jeová, do Antigo Testamento, o ponto principal da revelação divina para mim está na figura de Jesus Cristo. Creio que ele foi, sim, o Messias, o Salvador do qual os profetas falam no Antigo Testamento. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo são fatos históricos. Seu lado divino o diferencia de qualquer outro líder de outra religião. Então, meu caro Frederico, para mim, as evidências providenciais de Deus e Jesus Cristo são suficientes para justificar um total comprometimento de minha parte com a fé cristã. Crer em Deus e em Jesus Cristo significa vida, para mim, e vida plena, vida eterna.
— Jesus, para mim, Agostinho, é uma figura historicamente obscura. Pouco ou quase nada se sabe sobre ele. As narrativas dos evangelhos, tanto os tais canônicos como os apócrifos, são contraditórias. É difícil saber o que há de verdade em tudo aquilo que é contado sobre ele. As narrativas dos quatro evangelhos canônicos sobre a vida de Jesus, seu nascimento, o pouco que se fala sobre sua infância, sua curta vida de três anos como pregador, seu julgamento, sua crucificação e tal, para mim, improvável “ressurreição” têm pontos que não batem com a realidade histórica da época, segundo alguns pesquisadores — diz Frederico.
— E o que é que não bate, Frederico — pergunta Agostinho. Os evangelhos contam a vida e o ministério de Jesus, mas é óbvio que há eventuais contradições entre um e outro. Os quatro evangelhos foram escritos em épocas diferentes, mais de quarenta anos após a morte de Cristo.
— Em relação ao nascimento de Cristo, por exemplo, Lucas narra que José e Maria viviam em Nazaré, mas tiveram de deixar a pequena aldeia para responder a um censo que fora determinado pelo imperador romano Augusto e que todo o mundo tinha de se registrar no local onde havia nascido. Como José era descendente da família do Rei David, saiu para Belém com a mulher grávida para se registrar. No entanto, segundo os historiadores, no tempo do imperador Augusto não havia censos na região da Palestina, e, mesmo que houvesse, nunca pediam para que as pessoas fossem para a cidade onde nasceram. Se alguém estivesse fora da região onde nasceu, tinha que fazer o seu cadastro onde estava vivendo.
— Miqueias profetizou que o messias nasceria em Belém, terra do Rei David — esclarece Agostinho.
— Pois é! Se Jesus realmente nasceu em Nazaré, e não em Belém, como profetizara Miqueias, os evangelistas deram um jeito de fazer uma adaptação, para tentar convencer os judeus de que Jesus era o messias esperado. Mas parece que a “adaptação” não deu certo, e os judeus continuam esperando o tal messias até hoje.
Nisso, Frederico interrompe seu discurso e pede mais uma cerveja ao garçom. Depois, volta-se novamente para Agostinho e continua:
— Agostinho, há dúvidas também quanto à narrativa do julgamento de Cristo. Muitos historiadores acham possível que Jesus realmente tenha sido crucificado, mas duvidam que tenha havido, realmente uma Via Crúcis e um julgamento na forma como narrada pelos evangelistas. Jesus foi, como narram os evangelhos, preso em Jerusalém, em uma  sexta-feira que antecedia a Páscoa. Ocorre que, nessa época do ano, Jerusalém estava lotada de judeus vindos de outras regiões para as festividades. A Páscoa judaica não era somente uma festa religiosa, mas também política. Os romanos, nesse ambiente, dificilmente iriam prender um judeu, fazer um julgamento público dele e colocá-lo para desfilar de forma humilhante pelas ruas da cidade, arrastando uma cruz. Isso seria uma provocação desnecessária e perigosa. É quase certo, para os historiadores que nada disso aconteceu — conclui Frederico.
—Todas essas considerações e questionamentos históricos sobre Jesus e o cristianismo não abalam minha fé, Frederico. E fé não é sinônimo de ingenuidade, meu amigo. Claro que tudo pode ter sido diferente do que está escrito. Coisas do homem. Mas imagine alguém, naqueles tempos idos, no meio de povos rudes, para os quais valia a lei do mais forte, o olho por olho e dente por dente, a lex talionis (lei de talião), aparece alguém que prega o arrependimento, o perdão — e não a vingança — ao inimigo, a justiça e, principalmente, o amor. Independentemente de tudo o que você disse até agora, meu caro Frederico, amparado em vasto conhecimento de História que sei que você tem, eu considero o Cristianismo uma doutrina avançada até para os dias de hoje, imagine para a época em que ela surgiu, há dois milênios. Os ensinamentos cristãos bateram de frente com uma sociedade primitiva, brutal e opressora, na qual valia a vingança e não o perdão; a guerra, e não a paz. Mas, à medida que o cristianismo foi crescendo e ganhando cada vez mais e mais adeptos, ao longo dos séculos, o senso moral do homem ocidental foi mudando, os valores pregados pelos ensinamentos de Cristo, independentemente da questão religiosa, foram lapidando o homem do Ocidente.
Frederico ouve o belo discurso pró-cristianismo do amigo, mas não se dá por vencido.
— Tudo bem, Agostinho, que muitas ideias atribuídas a Jesus tenham contribuído para melhorar moralmente o homem ocidental. Mas Jesus, pelo menos para mim, é um mito. Com certeza, houve um Jesus real, um ser humano, um típico homem pobre da Palestina de dois milênios atrás, que, embora obscuro, quase um desconhecido, provavelmente de aparência física característica dos habitantes daquela região, naquele tempo. E houve e há, até hoje, na Bíblia, nas igrejas e na mente de todos os adeptos do cristianismo, um Jesus ideal, de cabelos longos, pele clara e olhos azuis, de fala mansa, meio humano, meio divino.
— Não creio, caro Frederico. Se Jesus fosse apenas um mito, como diz você, não teria alterado tanto a História. O cristianismo influenciou tanto o mundo, que muitos países usaram seus ensinamentos como base para seus governos. Foi o cristianismo e suas transformações no senso moral do homem ocidental que possibilitaram a democracia moderna. Escolas, hospitais, organizações humanitárias e grandes universidades surgiram por causa das ideias cristãs. Como é que um mito iria causar tantas transformações no mundo, prezado Frederico? Pense bem — insiste Agostinho.
— Agostinho, uma mentira contada muitas e muitas vezes, por tantas pessoas, acaba sendo aceita como verdade, mesmo sendo mentira. A figura de Jesus Cristo, como a conhecemos hoje, como a vendida pelas igrejas cristãs, é um produto da aristocracia romana do século IV. As religiões são sempre criadas pelas classes dominantes, para controlar o povo e impor às pessoas conceitos de submissão e obediência a um deus ou coisa assim. O mito de Jesus Cristo, desde sua origem na Judeia, havia crescido bastante em praticamente todo o Império Romano e fora dele. O imperador Constantino percebeu que aliar-se aos cristãos era muito melhor que persegui-los. E, por isso, decidiu converter-se ao cristianismo e torná-la a religião oficial do Império Romano. Mas havia um problema: o cristianismo primitivo era dividido em muitos segmentos. Havia uma ampla e diversificada literatura oral e escrita sobre Jesus Cristo, ou seja, havia vários cristianismos diferentes. Cabia ao Imperador e ao Papa escolher que versão do cristianismo adotar nessa nova fase. Por isso, foi convocado, então, o tal Primeiro Concílio de Niceia, em 325, em Niceia (atual İznik), na Turquia. Foi justamente nessa época que for organizada a Bíblia, escolhido os quatro evangelhos, entre os muitos que havia. A gente só não sabe dizer quais critérios foram usados pelos bispos e pelo Papa para a escolha dos livros que comporiam o Novo Testamento — finalizou Frederico.
— Com certeza, Deus inspirou os homens da Igreja a escolherem aqueles que realmente traduziam a real vontade de Deus... — disse Agostinho.
—E Papai Noel e a Cegonha se encarregaram da entrega dos primeiros exemplares — interrompeu ironicamente Frederico. Me poupe de seus delírios teológicos Agostinho...
E assim continuaram Agostinho, o crente, e Frederico, o cético, a discutir por horas. Parece que os argumentos pró e contra a existência de Deus são inesgotáveis. A dúvida persiste. Podemos, sim, citar mil motivos para crer em Deus e outros mil para não crer nEle.
Em seu livro FILOSOFIA PARA OS FORTES – PENSE COM A PRÓPRIA CABEÇA (1. ed., São Paulo, Planeta, 2016), o filósofo Luiz Felipe Pondé afirma que uma das perguntas que ele julga mais inúteis na filosofia é se Deus existe. Pondé fala na “Aposta Pascalina”. Para o francês Blaise Pascal (1623—1662), que, além de matemático, físico, inventor e filósofo, era um teólogo católico, portanto um crente em Deus, a vida é uma questão de aposta, e não de segurança absoluta. Para ele, o descrente, era um sujeito sem informação e pouco racional, pois, se não o fosse, saberia que o mais racional e útil seria apostar na existência de Deus, pois, se você apostar na inexistência de Deus, você, obviamente, viveria sua vida terrestre sem levar em conta a vontade Dele, Aí, quando você morresse, encontrá-lo-ia do outro lado cobrando tudo de errado (contra a vontade dEle) que você fez aqui na Terra. Dessa forma, como você teria se negado a “investir” ou “apostar” na existência de Deus, o que lhe custaria uma eternidade de sofrimento do outro lado. Mas, se você apostasse na existência de Deus e tocasse sua vida aqui na Terra levando em conta a vontade dEle, mas ele não existisse, sua perda seria zero, pois você morreria, sua alma deixaria de existis e você não tomaria consciência de que fez uma aposta errada. Mas, se você apostasse na existência de Deus, e Ele existisse realmente, você seria recompensado com uma eternidade feliz.
Mas tudo isso é bobagem, porque o próprio Pondé conclui que crer ou não crer em deus não é uma questão de probabilidade matemática. Para Pondé, a crença ou a descrença em Deus é mais fruto de causas extrarracionais, como educação, traumas infantis, ambiente familiar, etc. Crer ou não crer em Deus, para Pondé, não é como escolher a marca de um sabonete ou de um carro. Para ele, argumentos que tentam provar a existência de Deus ou Sua inexistência são inúteis. No entanto, Pondé considera a ideia de que se tentar provar a existência de Deus com a afirmação de que o universo “necessita” de um princípio ordenador de tudo é infantil. Para ele, ateu convicto, tudo isto aqui pode ser, sim, fruto do acaso num espaço de tempo inimaginável, no qual os elementos se arrumam e desarrumam, e no meio deles nós surgimos e desaparecemos.
No final do capítulo em que fala sobre a existência ou não de Deus, Pondé faz um questionamento interessante: segundo ele, qualquer um de nós, humanos, no lugar de Deus já teria se matado, pois ninguém suportaria a eternidade e tantos conhecimentos acumulados (conhecimento de tudo o que existe). Mesmo assim, ao crer em Deus, no sobrenatural, o homem busca a eternidade, uma coisa que o faria enlouquecer. Diante disso, dessa incoerência, Pondé finaliza perguntando se o homem é realmente racional. 

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