quinta-feira, 20 de abril de 2023

REDES SOCIAIS, MAIS UMA OPORTUNIDADE PERDIDA DE MELHORAR O MUNDO.





Certa vez, em uma entrevista, no início dos anos 90, antes da chegada e da popularização da Internet no Brasil, perguntaram ao grande e saudoso radialista Hélio Ribeiro, muito famoso nos anos 60, 70 e 80, por seu peculiar estilo, sua voz grave e forte e seu famoso programa radiofônico “O poder da mensagem”, o que ele achava do rádio. Ele respondeu que o rádio, assim como sua coirmã mais nova, a televisão, foram as maiores oportunidades perdidas de melhorar o mundo.

Com certeza, se vivo estivesse, Hélio Ribeiro diria o mesmo da Internet e das redes sociais.

A partir da década de 90, o Brasil e o mundo passaram por uma grande transformação tecnológica, que já vinha ocorrendo em décadas anteriores, mas em velocidade bem mais lenta. Com o fim da Guerra Fria e a aceleração da revolução tecnológica, a humanidade passou por enormes mudanças, que influenciaram sobretudo no comportamento das pessoas em todo o planeta. O mundo, que, já nos anos 60 e 70, era chamado de “aldeia global”, por causa da grande evolução nos sistemas de comunicação, principalmente a partir do início do século XXI, passou a ser — por mais paradoxal que seja a expressão — uma enorme “vila de comadres fofoqueiras”.

As tecnologias digitais, a Internet e as redes sociais são criações humanas maravilhosas e podem, e muito, facilitar nossas vidas se bem utilizadas. Apesar de muita bobagem que circula pelas redes , há, também e principalmente, pessoas que as utilizam para fazerem trabalhos maravilhosos. É o caso de uma moça de uma cidade do sul da Bahia, cuja mãe foi diagnosticada, há alguns anos, com mal de Alzheimer. Ele cuida, com o maior carinho e dedicação, da sua mãe, e expõe a seus já milhares de seguidores suas experiências nas redes sociais, o que, sem dúvida, ajuda muitas famílias que passam por situações semelhantes à à dela. Criativa, ela bolou uma técnica para manter a mente da mãe sempre ativa e que serve, também, para aferir o grau de conexão de sua mãe com a realidade: em seus vídeos, perto da mãe, ela conta a seus seguidores histórias mirabolantes, que ela mesmo inventa, para provocar a mãe, que reage, com uma quase cômica indignação pelo fato de a filha ser tão “mentirosa”.

Outro caso exemplar de uso extremamente útil das redes sociais é de um canal de Manaus (AM), que tem duas filhas especiais. Em vídeos, eles mostram o dia a dia das filhas e como é que lidam com o comportamento e o desenvolvimento delas, o que tem ajudado a muitas famílias que vivem situações idênticas.

Esses são apenas dois exemplos de como muita gente está usando a Internet e as redes sociais para fazer coisas boas, construtivas, iniciativas que têm como finalidade, realmente, melhorar o mundo.

Dito isto, vamos agora falar do lado negativo das redes sociais, dos canalhas, das pessoas moralmente e mentalmente doentes, que usam as redes sociais para disseminar todo tipo de conteúdo tóxico: mentiras, calúnias, ofensas, ameaças, informações científicas falsas, aconselhamentos, orientações e cursos de conteúdo duvidoso e todo tipo de besteirol.

As chamadas “fake news” sempre existiram no mundo da política. Foi usando uma “fake news”, uma mentira, que os republicanos convenceram o monarquista Deodoro da Fonseca a proclamar a República, em 15 de novembro de 1889. Foi usando a “fake news” do “Plano Cohen” que Getúlio Vargas deu um golpe de Estado, em 1937, e implantou a ditadura do “Estado Novo” no Brasil. Foi com a famosa “fake news” dos “Marmiteiros” que Hugo Borgh, um político paulista de “segunda linha”, capachão de Getúlio Vargas, conseguiu prejudicar a candidatura à presidência do Brigadeiro Eduardo Gomes, em 1945 e garantir a vitória de Dutra. Aliás, em tempos mais recentes, bem antes do surgimento da Internet, das novas mídias e das redes sociais, um modo rápido de se espelhar “fake news” era pelo ar, por meio de pequenos aviões, do qual os políticos jogavam panfletos com todo tipo de conteúdo calunioso contra seus adversários.

A Internet e as redes sociais, com sua rapidez e agilidade, apenas facilitaram ainda mais a disseminação de conteúdo falso e/ou calunioso em grande escala. O que nós precisamos é aprender a conhecer e a conviver com esse novo ambiente, com essa nova realidade. As pessoas que fazem isso, desde o “tio” ou a “tia” que pega um celular, faz um áudio mentiroso, dizendo ser médico, general e tal e inventa mentiras e informações falsas e espalha isso por WhatsApp ou Telegram, até aqueles que usam essas ferramentas para disseminar ameaças, calúnias e pregar o ódio e a intolerância, têm que ser identificadas e punidas. O que apareceu no WhatsApp, na época mais aguda da pandemia, como áudios e até vídeos (vestidos de jaleco e com um estetoscópio pendurado no pescoço) de “médicos” dando aconselhamentos absurdos sobre a covid e pregando inverdades sobre as vacinas, não foi brincadeira! Trata-se de uma gente doente, desequilibrada, sem caráter, de má índole, que, obviamente, não quer fazer nenhuma brincadeira, e sim, maldosamente, causar confusão e o caos. Essa gente tinha que ser identificada e punida. São criminosos perigosos e covardes, porque se aproveitam do aparente anonimato da Internet para cometer seus crimes.

Por outro lado, as pessoas — eu, você e todos nós — temos que aprender a ser mais criteriosos quando consumimos informação. As pessoas têm que estar mais conectada com o mundo à sua volta, ler mais, estudar mais e se informar mais, para não acreditar em tudo que lê, vê e ouve. Uma pessoa bem informada vai saber, facilmente, perceber se uma conteúdo é plausível, verdadeira, ou não. Senso crítico. É isso que falta à maioria das pessoas hoje em dia.

A própria Internet tem excelentes ferramentas que nos ajudam a nos mantermos informados. Há muitos sites excelentes de notícias e informações, totalmente confiáveis. Há sites excelentes sobre os mais variados assuntos, ligados a universidades e centros de pesquisa e de instituições culturais e científicas de alto nível. O Youtube também disponibiliza vídeos com excelentes conteúdos, totalmente confiáveis. São palestras, documentários, aulas, cursos, etc., produzidos por produtoras sérias e bem conceituadas e profissionais capacitados, como professores, pesquisadores, médicos, advogados e especialistas de diversas áreas. Claro que também há muita bobagem, muito besteirol, muitos picaretas disseminando asneiras, crendices e coisas desse tipo. É preciso usar o bom senso para identificar os picaretas dos verdadeiros especialistas.

Então, voltamos aqui ao início de nosso texto: a frase de Hélio Ribeiro e as oportunidades perdidas de melhorar o mundo. As ferramentas para isso estão aí, à nossa disposição. Cabe a nós, seres humanos, e não a nenhuma inteligência artificial, usá-las com bom senso e sabedoria para tentar melhorar o mundo. Diferentemente de Hélio Ribeiro, acho que as oportunidades de melhor o mundo ainda não estão tão perdidas assim.

Há um ponto muito importante: muita gente tem dito ultimamente que “o mundo anda muito chato” por causa do chamado “politicamente correto”. Eu, particularmente, acho que o “politicamente correto”, de certa forma, é um sinal de evolução do ser humano. Afinal de contas, as pessoas, independentemente de qualquer coisa, merecem e devem ser respeitadas. Mas é preciso ter cuidado e, sobretudo, bem senso. Se a gente começar a exagerar muito nesse patrulhamento ideológico e social, criando, a todo momento, regras, leis e práticas para tudo, podemos colocar em risco atá a própria democracia, criando uma sociedade extremamente autoritária, policialesca, uma espécie de “autofascismo”, um regime autoritário ou totalitário, paranoico, extremamente controlador, criado pela própria sociedade, sem a necessidade de nenhuma ideologia ou de um “duce” ou de um “Führer”. Por isso, a gente precisa começar a repensar todo esse patrulhamento. Mas também é preciso tomar cuidado, porque, do outro lado, há outra ameaça perigosa: o conservadorismo extremo, baseado principalmente no fundamentalismo religioso.

A impressão que se tem é que todo essa rápida evolução tecnológica, que se acelerou muito nos anos 90, e as grandes mudanças em nossa sociedade nos pegaram totalmente despreparados, e a gente não sabe o que fazer com tanto extremismo de direita e de esquerda nos pressionando.

Um governo autoritário ou totalitário, promovido por um líder, um ditador, uma ideologia ou um partido político, sempre enfrentará resistência e, uma hora ou outra, é passível de queda. Mas quando toda uma sociedade, aos poucos, vai criando regras e práticas que limitam a liberdade e o direito de livre expressão dos seus cidadãos, transformando-os em ditadores de si mesmos, é algo difícil de ser desconstruído depois.

Mas ainda temos tempo de melhorar o mundo antes que ele se torne irreversivelmente pior do que já é.

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