sexta-feira, 14 de outubro de 2022

NÃO SOMOS VILÕES DO SERVIÇO PÚBLICO

 




Maria Candelária
É alta funcionária
Saltou de paraquedas
Caiu na letra O, oh, oh, oh, oh

Começa ao meio-dia
Coitada da Maria
Trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó
Oh, oh, oh, oh

A uma vai ao dentista
Às duas vai ao café
Às três vai à modista
Às quatro assina o ponto e dá no pé
Que grande vigarista que ela é.


Os versos acima são da marchinha de carnaval “Maria Candelária”, composta por  Armando Cavalcanti e Klécius Caldas e gravada, em 1952, pelo cantor Blecaute, que foi um grande sucesso no carnaval de 1953. Uma crítica bem-humorada ao funcionalismo público daqueles tempos em que praticamente não havia concursos ou processos seletivos. A grande maioria dos funcionários do serviço público era nomeada por indicação política. O funcionalismo, naquele tempo, era uma elite, pois boa parte dos servidores era parente ou tinha algum vínculo com políticos ou pessoas importantes do governo. Havia muitas queixas da população em relação ao atendimento nas repartições. Muitos funcionários só assinavam o ponto e saíam, outros até ganhavam sem trabalhar ou trabalhavam quando queriam. Repare que a letra da marchinha diz “Saltou de paraquedas/Caiu na letra O”. Traduzindo, os funcionários eram nomeados sem nenhum critério técnico, avaliação ou concurso. Eram indicações políticas mesmo. Funcionário público “letra O”, naquele tempo, eram os funcionários graduados, os de altos cargos, os “chefões”.

O tempo passou, o Brasil e o mundo mudaram e a realidade dos funcionários públicos também mudou. Vieram os processos seletivos e concursos públicos, vieram legilações administrativas mais rígidas, mais pressão da sociedade contra o nepotismo. Com o tempo, até as delegações para cartórios extrajudiciais, que até há algum tempo era praticamente uma “herança de família”, passaram a ser concedidas pelo poder público por meio de concursos, que exigem formação em Direito.

Ainda existem, é claro, os chamados cargos comissionados ou “de confiança”, mas esses têm caráter temporário. Hoje, o acesso ao funcionalismo público ocorre por meio de concursos. Só em casos excepcionais é que a lei permite a contratação de funcionários em caráter temperário.

Tudo isso significa que o perfil do funcionário público. Claro que á segmentos do serviço público que ainda formam uma certa “casta”, recebendo salários acima da média salarial da maioria dos funcionários. Mas são ocupantes de cargos nas procuradorias, no Ministério Público, na magistratura, que exigem conhecimento técnico de sua área. As “marias candelárias” não existem mais. O funcionalismo público, hoje, é formado, em sua esmagadora maioria, por gente comum, que estudou para passar em um concurso público, trabalha muito, tem a enorme responsabilidade de fazer funcionar a máquina pública e, em sua grande maioria, ganho muito menos do que merece.

No entanto, a injusta fama do funcionário público ainda persiste. E a grande maioria da mídia, a mesma mídia que, na maior parte do Brasil, não sobreviveria se boa parte de seu faturamento não viesse dos cofres públicos, tem sido a maior responsável pela persistência dessa má fama. A mídia e seus “especialistas de ocasião” têm nos transformados em vilões do serviço público. Não somos.

Não fossem os bravos servidores públicos da saúde, que, durante a pandemia, enquanto a maioria da sociedade estava em casa, escondendo-se do vírus, estavam na linha de frente, juntamente com trabalhadores da saúde da iniciativa privada, tentando salvar vidas. Sem funcionários públicos, não haveria a tal da “festa da democracia”, expressão que os jornalistas adora usar, já que são os milhares de funcionários públicos da Justiça Eleitoral e também, muitas vezes, com o auxílio de funcionários públicos de outras setores, é que organizam toda a logística para que as eleições se realizem. É o funcionário público que faz o passaporte e sua documentação para a “elite” viajar para Paris em férias. São funcionários públicos que estão vacinando a população.

Enfim, somos trabalhadores, responsáveis pelo funcionamento da máquina pública, em todas as suas áreas. Estudamos, fizemos concurso e nos preparamos para desempenhar nossas funções de Estado. Exigimos da classe política, da mídia e de toda sociedade brasileira um míni9mo de respeito.

Não queremos privilégios, regalias e bondades. Queremos que respeitem nossos direitos. Não queremos salários milionários. Queremos salários justos e periodicamente corrigidos para que não percam o poder de compra, que é um direito de todo trabalhador, seja do serviço público, seja da iniciativa privada. Queremos a segurança para desempenhar nosso trabalho livres de interferências políticas, livre dos canalhas que adoram dizer “Sabe com quem está falando?” ou coisa desse tipo.

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 FONTE DE IMAGEM: site
do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais no Estado da Bahia – ASSUFBA http://www.assufba.org.br/novo/entenda-a-situacao-do-funcionalismo-publico-brasileiro/
Acessado em 13/10/2022 – 13h43min.


quinta-feira, 7 de julho de 2022

COMO SERIA A ESTÓRIA DE CHAPEUZINHO VERMELHO NOS TEMPOS ATUAIS?


 

Todo mundo conhece a estória de CHAPEUZINHO VERMELHO. Sua origem data do século X, em plena Europa medieval. Mas vamos trazer, para reflexão, essa estória para os dias atuais, em nosso país, deixando de fora, é claro, os exageros e os fatos fantasiosos do conto. A narrativa abaixo seria de um jornal diário contemporâneo brasileiro, começando, é claro, pela manchete.


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AVÓ E NETA ATACADAS POR LOBO FAMINTO
CASSADOR CONSEGUE SALVAR AS DUAS A TEMPO

Uma senhora, com mais de 70 anos, adoentada, e sua neta, de cerca de dez anos de idade, foram atacadas por um lobo, feroz e faminto, na última semana, na região da floresta que circunda a cidade. Os nomes das vítimas não foram divulgados, mas sabe-se que a menina é conhecida na região onde mora por “Chapeuzinho Vermelho”, em razão de seu estranho hábito de usar frequentemente um chapéu vermelho.

Segundo a polícia, a tal senhora, que mora em uma casa na floresta, estava adoentada, e a sua neta havia ido, naquele dia, a sua residência para levar-lhe alimentos (doces, bolos, frutas, etc.). Quando lá chegou, deparou com o feroz lobo que estava atacando sua avó. Ao ouvir o grito de susto e pavor da menina, o lobo também a atacou. Felizmente, naquele momento, um caçador passava pelo local e ouviu os gritos de “Chapeuzinho Vermelho” e de sua avó. Ele, então, invadiu a casa e matou o lobo, salvando, assim, a vida daquelas duas criaturas indefesas.

Ao tomar conhecimento dos fatos, o Ministério Público já acionou os pais da menina, que estão sendo processados criminalmente por exporem a filha menor a perigos iminentes, permitindo que esta percorresse, sozinha, com tão pouca idade, caminhos que ficam em regiões da cidade conhecidas por serem de alto risco. Além disso, eles podem ser processado, também, por abandono de idoso, uma vez que a senhora que foi vítima do lobo morava só, em uma pequena casa, em local afastado da cidade. Se não bastasse isso, a casa onde morava a tal senhora é uma construção irregular, localizada em uma região de preservação ambiental. Em razão disso, ela terá de desocupar o imóvel e pode também ser processada.

O caçador que salvou a velha senhora e sua neta foi preso ontem, acusado de crime ambiental e porte ilegal de arma. Ele afirmou às autoridades que atirou no animal para defender a vida da menina e de sua avó. No entanto, entidades de defesa dos animais afirmam que isso não serve de justificativa, pois ele poderia ter usado outros métodos para espantar o lobo, sem a necessidade de sacrificá-lo. “Ele foi covarde e violento. Não havia necessidade de matar o pobre animal. Além disso, aquela senhora mora irregularmente na região, pois trata-se de uma floresta de preservação ambiental. São todos criminosos nessa história, menos o pobre lobo, que estava faminto, e a inocente menina”, disse um ambientalista entrevistado pela nossa reportagem.

Segundo informações do próprio Ministério Público, a menina atacada pelo lobo deverá ter acompanhamento psicológico por longo período. Uma especialista ouvida por nossa reportagem disse que o que chama também a atenção, no caso da menina atacada pelo lobo, é o seu hábito de usar quase que diariamente um pequeno chapéu vermelho, que teria sido presente de sua avó, igualmente atacada pelo lobo. “Aquele chapéu parece ser uma obsessão para ela. Não há quem a faça tirar aquilo. É um hábito muito estranho, que merece ser estudado. Talvez uma terapia resolva”, disse a especialista.

Ontem à noite, enquanto o caçador que matou o lobo depunha sobre o caso, uma manifestação, promovida por diversas entidades ambientalistas e de defesa dos animais, com a participação de intelectuais, artistas e políticos de esquerda, ocorria em frente à delegacia de polícia. Fachas com desenhos de lobos e inscrições como “PUNIÇÃO PARA O CAÇADOR COVARDE”, “CADEIA PARA O ASSASSINO DO LOBO”, “PIOR QUE ATAQUE DE UM LOBO FAMITO É ATAQUE À NATUREZA”, entre muitas outras pedindo punição ao caçador.

O advogado do caçador deu entrada ontem mesmo com um pedido de “habeas corpus” em favor de seu cliente. O pedido foi negado, e o assassino do lobo deve aguardar o seu julgamento preso.

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FONTE DE IMAGEM: site FREEPIK: https://br.freepik.com/vetores-gratis/ilustracao-do-chapeuzinho-vermelho-dos-desenhos-animados_15292310.htm


quinta-feira, 30 de junho de 2022

COMO VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA, SERIA ANALISADO, HOJE, POR UM GRANDE GOVERNANTE DA ANTIGUIDADE?



Como um grande rei ou imperador da Antiguidade analisaria, hoje, a figura de Vladirmir Putin, o autocrata russo que invadiu a Ucrânia? Vejamos como seria nesta fictícia conversa entre Nicolau II, último dos czares russos e Ciro, o Grande, fundador do Imério Persa.
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Dizem que, recentemente, o espírito de Nicolau II (1868-1948), o último imperador da Rússia czarista, antes da Revolução de 1917, encontrou o espírito de Ciro II, mais conhecido como “Ciro, o Grande”, o criador do Império da Pérsia, que reinou entre 559 e 530 antes da Era Comum. Na oportunidade, o ex-imperador russo perguntou a Ciro, que foi um grande guerreiro e conquistador, o que ele achava de Vladimir Putin, atual presidente da Rússia. Ao que Ciro respondeu:
Nikolái, acho este atual governante do que fora, em outras épocas, teu império, a Rússia, o tal Vladimir Putin, um estúpido e covarde.
Grande Ciro, respeito tua opinião, mas discordo dela. Esse homem quer reconquistar a glória do Império da Rússia, que tive o privilégio de governar.
Pode até ser, meu caro Nikolái, mas esquece-te de que o planeta Terra já não é o mesmo que deixaste em 1918, quando tu e tua família fostes executados pelos bolcheviques. O que Vladirmir faz está acarretando efeito contrário ao desejado: ele está fazendo com que todo o Ocidente se volte contra a Rússia — afirma Ciro, o Grande.
Ele está tendo uma coragem que não tive em minha época. Fui um governante fraco, Grande Ciro — lamenta-se Nicolau II.
De fato, foste um governante fraco, Nikolái  Achando que seu reinado seria longo, Alexandre, teu pai, não te preparou para ser czar, não recebeste ensinamentos para ser um governante, mais que isso, um líder. Vladimir, nesse aspecto, te supera. Mesmo sendo um autocrata, ele é um líder para a maior parte do povo russo de hoje. Tu, com teu despreparo e fraqueza, nem isso conseguiste. Alice, ou melhor, Alexandra, tua mulher, mesmo não sendo russa, era mais popular na Rússia do que tu — declarou Ciro.
Eu sempre deixei claro que não estava preparado para ser czar, nem queria sê-lo. Na verdade, eu não sabia governar, não sabia sequer tratar com os ministros e muito menos com o Soviete e com a Duma. Eu fui um fracasso.
Ainda bem que tu reconheces — assentiu Ciro, dando um leve sorriso.
Mas voltemos a Putin, Grande Ciro — disse Nicolau II. Disseste que ele é estúpido e covarde. Por quê? — questiona Nicolau II.
Estúpido, porque provocar uma guerra, invadindo um país vizinho, em pleno início do século XXI, com o mundo todo interligado e interdependente, é uma imbecilidade sem limites. Na Antiguidade, Nikolái, a guerra era uma questão de sobrevivência dos povos. Havia uma luta feroz por espaço e por poder; quanto mais conquista, mais poder, mais prestígio, mais glória e mais respeito para o governante, dentro e fora de seus domínios. Se tu não te armasses e não atacasses teu vizinho, seria, com certeza, uma hora ou outra, atacado e invadido por ele. Mas o mundo mudou, Nikolái. A geopolítica, hoje, é muito diferente do que era na Antiguidade. Um governante que, hoje, ataca um país vizinho, além de se transformar em uma espécie de pária internacional, sacrifica seu povo, podendo levá-lo ao isolamento. É o que está ocorrendo com tua Grande Rússia, Nikolái.
Disseste, também, que ele é covarde, Grande Ciro — questiona Nicolau II.
Nikolái, guerrear por telégrafo, como fez Lincoln na Guerra de Secessão, ou por rádio, ou por telefone ou por computador é muito fácil. Guerrear vivendo dentro de uma fortaleza, protegido por uma numerosa guarda, me parece bem mais fácil do que estar à frente, de espada em punho, de um exército de milhares de homens. Eu morri no campo de batalha, Nikolái, lutando contra os masságetas. Esses “conquistadores” de hoje nunca sentiram o cheiro do sangue da guerra de verdade, nunca sentiram o fio da espada no seu pescoço, nunca se ensurdeceram com os tiros dos tanques e com as explosões das bombas. Por isso, Nikolái, além de estúpido, seu sucessor, Vladimir, é um covarde. É fácil mandar milhares de homens para morrer por ele — concluiu Ciro II.
Apesar de passados mais de cem anos de sua morte física, Nicolau II ainda tinha a mesma insegurança dos tempos de czar. Afinal, ele não nascera para governar, nem fora preparado por Alexandre III, seu pai, para tal. Nicolau não era pequeno só na estatura, mas na alma também.
Ciro, o Grande, então, volta falar:
Teu governo, Nikolái, foi uma sucessão de erros, tragédias e fracassos, não só por tua culpa, mas também pela impulsividade de teus ministros e assessores. Tua mão foi manchada de sangue várias vezes sem que tivesses pegado em arma uma única vez. Lembra-te da festa trágica em Khodynka? Lembra-te também da propaganda antissemita lançada por teus ministros? Lembra-te da estúpida guerra contra os japoneses? Lembra-te do tal de “Domingo Sangrento”? Lembra-te do desempenho vexatório de teu exército na Primeira Guerra Mundial? Não bastasse isso, deixaste te influenciar por um charlatão, o tal Grigori Rasputin? Na verdade, a Rússia era grande e complexa demais para ti, Nikolái.Não esperava ser avaliado assim por um grande rei da Antiguidade — disse Nicolau II.
Meu reinado foi curto, Nikolái. Governei a Pérsia de 559 a 530 antes da Era Comum. Nesse curto período, consegui expandir meus domínios, transformando-o no maior império que o mundo já havia conhecido até então. Mas sempre respeitei os costumes e religiões dos povos que faziam parte de meu império. Tornando-o, em plena Antiguidade, em um modelo de administração. E isso, Nikolái, mil e quinhentos anos atrás, em um mundo, sem telégrafo, sem telefone, sem Internet, sem satélites, sem TV, sem energia nuclear, sem sequer energia elétrica, Nikolái. Digo, com orgulho, que foi uma era de prosperidade. Mas nunca deixei de comandar meu exército, Nikolái. Tanto foi assim, que acabei morrendo no campo de batalha, lutando junto a meus bravos comandados. Nunca fui covarde e estúpido como teu atual sucessor, Nikolái. O tal Vladimir está levando teu povo russo a ser estigmatizado por boa parte do mundo. A Rússia, com toda sua história, cultura e tradição, a Rússia de Liev Tolstói, de Fiódor Dostoiévski, de Piotr Ilitch Tchaikovski, de Ígor Stravinski, de Boris Pasternak e de outros tantos gênios das letras, da música e das artes, não merece um canalha como Vladimir Putin, um criminoso contumaz, meu caro Nikolái — concluiu o Grande Ciro II.
Nicolau II cala-se, põe-se a pensar no que Ciro II acaba de expressar e conclui:
Tens razão, Grande Ciro. Assim como a minha Rússia não merece Putin, assim como não mereceu o lunático do Lenin e seus camaradas bolcheviques, assim como não mereceu o psicopate do Stalin, assim como não mereceu a mim também…

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sábado, 19 de março de 2022

IMAGINE


Imagine um mundo sem a perspectiva de um paraíso futuro.
Mas também sem a perspectiva de um inferno abaixo de nós.
Tente. É muito fácil.
Imagine, acima de nós, o céu infinito. Nada mais.
Imagine todos nós, todas as pessoas, vivendo somente o presente.
Imagine um mundo sem países, sem divisões políticas, sem fronteiras. Não é difícil.
Nenhuma causa, nenhum motivo, para matar ou morrer.
Imagine um mundo sem nenhuma religião a nos dividir.
Imagine todas as pessoas vivendo em absoluta paz e harmonia.
Você pode me achar um sonhador, mas, acredite, não sou o único.
Espero que um dia você venha se unir a nós.
E, assim, juntos, seremos um só mundo.
Imagine um mundo sem propriedades, sem posses. Será que você consegue?
Um mundo no qual não exista nem ganância, nem fome.
Uma fraternidade humana, onde todos compartilhem igualmente o mundo inteiro.
Você pode achar que eu sou um sonhador, mas não sou o único.
Espero que você um dia se una a nós.
E todos nós, juntos, pertenceremos a um único mundo.

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Versão em português, de minha autoria, da letra da música Imagine, composição de Yoko Ono e John Lennon. Gravado por John Lennon, em 1971.


sexta-feira, 18 de março de 2022

A DEMOCRACIA À LUZ DA FILOSOFIA DE PONDÉ


 

Winston Churchill disse que a democracia é um péssimo sistema de governo. O problema é que não há outro melhor que ela. Em um mundo no qual o totalitarismo e o autoritarismo ainda se fazem presentes, uma das virtudes de um sistema democrático sólido é que ele não permite que nenhuma pessoa ou instituição tenha poderes ilimitados. Em uma democracia verdadeira, ninguém pode tudo. Cada poder e cada instituição cumprem seu papel, sem extrapolar seus limitas. Essa é a visão formal do regime democrático, que está nos livros de ciências sociais, jurídicas e políticas.

Neste texto, no entanto, vou deixar de lado as definições tradicionais sobre democracia e tentar analisá-la pela visão de um filósofo contemporâneo pragmático. Por isso, escolhi Luiz Felipe Pondé, um filósofo midiático, dos novos tempos.

Em seu livro FILOSOFIA PARA CORAJOSOS (1ª edição, Editoral Planeta, de 2016, páginas 131 a 134), Pondé faz algumas considerações muito interessantes sobre a democracia, que fazem a gente, de início, se chocar um pouco, mas, após alguma reflexão e lendo os argumentos do autor, nos parecem perfeitamente coerentes.

Segundo Pondé, por sua soberania na chamada vontade popular, a democracia desaguaria na crença de que a sociedade carrega em si alguma forma de “verdade moral”. Mas, segundo o próprio autor, toda moral pública é hipócrita. Ou seja, o público é hipócrita e nada tem a ver com alguma ideia de verdade. Ele conclui que, na democracia o que importa é a maioria, e não a verdade sobre coisa alguma. Platão, segundo ele, já apontava que a tendência da democracia é ser demagógica.

Irônico, Pondé afirma: “Antes que algum inteligentinho (sic) perdido na leitura deste livro me acuse de antidemocrático, devo dizer que a democracia é, de todos os regimes ruins em política, o menos pior, com certeza. E para manter essa “vantagem” da democracia sobre seus sistemas competidores, devemos lembrar suas fraquezas, coisa que o povo na democracia, como já disse Alexis de Tocqueville no século XIX em sua visita aos Estados Unidos, não gosta de ouvir porque a democracia na democracia é um dogma a ser amado”.

Pondé volta a se basear em Platão, ao dizer que em um regime pautado em opiniões variadas e pela contagem delas, o essencial é o número. Assim, ele conclui que a democracia é um regime de quantidades, e, nesse caso, os idiotas (citando Nelson Rodrigues) são sempre a maioria. E Pondé esclarece que uma das faces dessa idiotice da maioria é supor que a transparência na gestão da coisa pública, algo desejável em um governo, implica a transparência da verdade moral. Sempre que se afirma um valor em público, essa afirmação é, em grande medida, segundo Pondé, uma farsa a serviço do resultado esperado em termos de contagem de votos a favor ou contra o que você quer.

E Pondé vai ainda mais longe em suas considerações cruéis mas realistas sobre a democracia. Segundo ele, outro motivo para a democracia ser parceira da hipocrisia pública é sua dependência da adulação da opinião pública. Segundo Pondé, isso afeta desde os candidatos em uma eleição (política, segundo ele, é marketing) até artistas que vendem música: todos devem adular a opinião pública.

Pondé conclui que essa dependência da opinião pública, que leva todos a adular os idiotas, faz da democracia um simples regime de mercado. Dessa forma, Luiz Felipe Pondé conclui que a tendência da mentira na democracia é, no limite, uma tendência ao marketing. O que conta é a aparência. Pondé, inclusive, lembra que os defensores da democracia na Grécia Antiga eram os sofistas, que negavam a existência de qualquer verdade e reduziam o conhecimento à retórica. Por isso, Pondé finaliza seu texto dizendo: “Então, quando eu ouço alguém gritar contra a mentira na democracia, sempre sinto um cheiro de Papai Noel no ar”.

Apesar de tudo isso, não há como tirar a razão de Churchill. A democracia está longe de ser a panaceia para todos os problemas da sociedade. Muito pelo contrário: ela pode até criar mais problemas, disputas, polarizações político-ideológicas. pode ter seus defeitos, suas imperfeições, suas incoerências, mas ainda não conseguiram inventar um sistema melhor que ela.



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SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...