Devo
confessar que não professo nenhuma fé religiosa. Mas também não
sou ateu. Sou deísta. Não creio que nós somos simples obra do
acaso. Creio, sim, que “há mais coisas entre o céu e a terra do
que sonha nossa filosofia”. Para mim, não existe o chamado
“sobrenatural”, e sim apenas o desconhecido. Afinal de contas,
nós, humanos, estamos longe ainda de atingirmos o ápice do
conhecimento e do desenvolvimento científico, tecnológico e
filosófico. Há neste universo, e talvez em outros universos também,
caso eles existam, muita coisa por ser descoberta, muitos mistérios
por serem desvendados. Assim como nossos antepassados não conheciam,
por exemplo, a eletricidade, as ondas hertzianas e a gravidade,
embora esses elementos naturais já existissem na Terra, da mesma
forma, deve haver, ainda, hoje em dia, muitas leis e muitos elementos da natureza que
nós, apesar de toda nossa evolução científica, ainda não conhecemos.
E
Deus? Onde entraria Deus nessa história? O que chamamos de “Deus”,
de “Divina Providência”, de “Pai Eterno” e de tantos outros
nomes, o princípio e o fim de tudo, provavelmente seja algo tão
complexo e, ao mesmo tempo, tão simples, que alguém, em algum
momento da História, já tenha tentado nos explicar o que é, mas
que nós, arrogantes e ignorantes, não entendemos ou interpretamos
de forma errada, deturpada, confusa, o que fez com que acabássemos
criando em nossa fé um deus à nossa imagem e semelhança.
Mesmo
sendo um deísta, que vê na razão a base de todas as coisas,
inclusive Deus, entendo que o mundo e a vida são muito mais do que aquilo que
está a nossa volta. Enquanto, para um ateu, a vida é obra do acaso,
e não tem sentido algum, para mim a vida é algo que está, ainda,
muito além de nosso entendimento. Mas esta minha visão da vida não
se embasa em nenhuma crença religiosa ou posição filosófica:
é a simples constatação de nossa ignorância e de nossa pequenez
diante da vida e do universo desconhecido.
Independentemente
disso, as crenças e as religiões estão aí, como um dos segmentos
mais importantes da sociedade humana. Não se conhece até hoje
nenhuma comunidade humana que não tenha tido alguma forma de crença
ou manifestação religiosa. A crença no sobrenatural sempre
acompanhou o homem, desde os primórdios, e sempre ocupou posição de
destaque na vida das sociedades humanas. Mas por que o homem se
apega tanto à fé no sobrenatural? Provavelmente porque ele precisa
ver algum sentido na vida. Além disso, o homem necessita se sentir
protegido por alguém ou alguma força superior a ele. A maior prova
disso é a forma como o deus dos cristãos se apresenta a seus fiéis:
na figura de um “Pai” e também na paradoxal figura de um juiz
misericordioso.
A
fé em Deus tem, obviamente, seu lado bastante positivo. Ela, mesmo
podendo ser uma doce ilusão, é um alívio no coração de muitos
que sofrem, passam por momentos difíceis, perdem entes queridos,
veem-se sofrendo de doenças graves ou dificuldades diversas. Mas ela
também tem seu lado perverso, seu lado extremamente perigoso: a fé
faz com que o crente ou fiel de uma determinada religião acredite
firmemente que “descobriu a Verdade Absoluta”, que ele, por ter
aderido àquela religião, àquela seita, agora, está “salvo” do
inferno e tal. Dessa forma, ele considera que todos aqueles que não
comungam de sua fé são pessoas ignorantes, que estão “nas
trevas”, são “infiéis”. O resultado disso pode variar da
simples intolerância ao radicalismo e à violência extrema. Esse é
um lado perigoso da fé. A maioria das guerras que aconteceram no
mundo, ao longo da História, tinha algum tipo de envolvimento
religioso.
Sem
precisar abdicar de sua fé, as pessoas precisam entender que
religião é, acima de tudo, crença, e não um conhecimento
positivo. A Bíblia, por exemplo, apesar de toda sua riqueza
cultural, de ser um documento de enorme valor histórico e literário
do povo hebreu, é uma coletânea de textos antigos, escritos ao
longo de mais de mil e quinhentos anos, por vários autores, de
gerações diferentes do povo hebreu. Se esses textos foram ou não
escritos “sob inspiração divina”, é uma questão de fé. Mas o
que está escrito nesses textos são manifestações e testemunhos
que, à luz de uma análise mais rigorosa e científica, representam o modo de pensar daquele povo e podem ser
verdadeiros ou não. Ou você acredita neles ou não. E assim são as
tradições religiosas pelo mundo afora, inclusive as não cristãs.
São histórias, testemunhos, que, na maioria das vezes, não têm
sua autenticidade confirmada. E é aí, justamente, que entra a questão da fé.
Em
suma, é o seguinte: da certeza de que a sua fé é a verdadeira,
enquanto as dos outros são falsas, do pensamento de que a sua
religião é a de Deus, enquanto que as dos outros é do Demônio,
surge a chamada intolerância religiosa, que vai desde a piada de mau
gosto sobre a religião dos outros até a extrema violência, o
radicalismo, como aconteceu com Jesus, que foi açoitado e
crucificado porque teria, segundo o entendimento das autoridades
religiosas judaicas daquele tempo, blasfemado contra a religião dos
judeus; ou como os milhares de pessoas que foram perseguidas e
queimadas vivas pela Igreja Católica, duranta a Inquisição, na
Idade Média; ou como as vítimas dos radicais islâmicos de hoje,
que são mortas, muitas vezes até por decapitação, simplesmente
por não serem muçulmanas, ou até por serem muçulmanas, mas não
pertencentes à mesma segmento islâmico dos fanáticos.
Por
isso, prefiro ficar com meu deísmo.
O
DEUS DE SPINOZA
O
poema abaixo é atribuído a Baruch Espinoza. Nascido em 1632 em
Amsterdã, Holanda, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677,
Espinoza foi um dos grandes pensadores racionalistas do século XVII,
com foram também René Descartes e Gottfried Leibniz. Ele era de
família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo
bíblico moderno. Há controvérsias se o texto abaixo foi realmente
escrito por ele, porém o conteúdo reflete bem a forma como ele
acreditava em Deus.
DEUS
SEGUNDO SPINOZA
"Para
de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que
saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes,
te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Para
de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo
construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas
montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde
Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Para
de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo
mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo
mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar
teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o
que te fizeram crer.
Para
de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver
comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar
de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em
nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer
como fazer meu trabalho?
Para
de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me
irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Para
de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te
enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de
necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te
culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar
por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar
um lugar para queimar a todos os meus filhos que não se comportem
bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece
qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são
artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa
em ti.
Respeita
teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa
que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de
alerta seja teu guia.
Esta
vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem
um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único
que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu
te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há
pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um
registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu
ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida,
mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se
esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de
existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade
que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se
foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te
divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Para
de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero
que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas
em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando
acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Para
de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me
aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato?
Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do
mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse
é o jeito de me louvar.
Para
de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram
sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e
que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais
milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não
me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."