sexta-feira, 3 de março de 2017

RELIGIÃO - O QUE PENSO EU DE DEUS

Devo confessar que não professo nenhuma fé religiosa. Mas também não sou ateu. Sou deísta. Não creio que nós somos simples obra do acaso. Creio, sim, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia”. Para mim, não existe o chamado “sobrenatural”, e sim apenas o desconhecido. Afinal de contas, nós, humanos, estamos longe ainda de atingirmos o ápice do conhecimento e do desenvolvimento científico, tecnológico e filosófico. Há neste universo, e talvez em outros universos também, caso eles existam, muita coisa por ser descoberta, muitos mistérios por serem desvendados. Assim como nossos antepassados não conheciam, por exemplo, a eletricidade, as ondas hertzianas e a gravidade, embora esses elementos naturais já existissem na Terra, da mesma forma, deve haver, ainda, hoje em dia, muitas leis e muitos elementos da natureza que nós, apesar de toda nossa evolução científica, ainda não conhecemos.
E Deus? Onde entraria Deus nessa história? O que chamamos de “Deus”, de “Divina Providência”, de “Pai Eterno” e de tantos outros nomes, o princípio e o fim de tudo, provavelmente seja algo tão complexo e, ao mesmo tempo, tão simples, que alguém, em algum momento da História, já tenha tentado nos explicar o que é, mas que nós, arrogantes e ignorantes, não entendemos ou interpretamos de forma errada, deturpada, confusa, o que fez com que acabássemos criando em nossa fé um deus à nossa imagem e semelhança.
Mesmo sendo um deísta, que vê na razão a base de todas as coisas, inclusive Deus, entendo que o mundo e a vida são muito mais do que aquilo que está a nossa volta. Enquanto, para um ateu, a vida é obra do acaso, e não tem sentido algum, para mim a vida é algo que está, ainda, muito além de nosso entendimento. Mas esta minha visão da vida não se embasa em nenhuma crença religiosa ou posição filosófica: é a simples constatação de nossa ignorância e de nossa pequenez diante da vida e do universo desconhecido.
Independentemente disso, as crenças e as religiões estão aí, como um dos segmentos mais importantes da sociedade humana. Não se conhece até hoje nenhuma comunidade humana que não tenha tido alguma forma de crença ou manifestação religiosa. A crença no sobrenatural sempre acompanhou o homem, desde os primórdios, e sempre ocupou posição de destaque na vida das sociedades humanas. Mas por que o homem se apega tanto à fé no sobrenatural? Provavelmente porque ele precisa ver algum sentido na vida. Além disso, o homem necessita se sentir protegido por alguém ou alguma força superior a ele. A maior prova disso é a forma como o deus dos cristãos se apresenta a seus fiéis: na figura de um “Pai” e também na paradoxal figura de um juiz misericordioso.
A fé em Deus tem, obviamente, seu lado bastante positivo. Ela, mesmo podendo ser uma doce ilusão, é um alívio no coração de muitos que sofrem, passam por momentos difíceis, perdem entes queridos, veem-se sofrendo de doenças graves ou dificuldades diversas. Mas ela também tem seu lado perverso, seu lado extremamente perigoso: a fé faz com que o crente ou fiel de uma determinada religião acredite firmemente que “descobriu a Verdade Absoluta”, que ele, por ter aderido àquela religião, àquela seita, agora, está “salvo” do inferno e tal. Dessa forma, ele considera que todos aqueles que não comungam de sua fé são pessoas ignorantes, que estão “nas trevas”, são “infiéis”. O resultado disso pode variar da simples intolerância ao radicalismo e à violência extrema. Esse é um lado perigoso da fé. A maioria das guerras que aconteceram no mundo, ao longo da História, tinha algum tipo de envolvimento religioso.
Sem precisar abdicar de sua fé, as pessoas precisam entender que religião é, acima de tudo, crença, e não um conhecimento positivo. A Bíblia, por exemplo, apesar de toda sua riqueza cultural, de ser um documento de enorme valor histórico e literário do povo hebreu, é uma coletânea de textos antigos, escritos ao longo de mais de mil e quinhentos anos, por vários autores, de gerações diferentes do povo hebreu. Se esses textos foram ou não escritos “sob inspiração divina”, é uma questão de fé. Mas o que está escrito nesses textos são manifestações e testemunhos que, à luz de uma análise mais rigorosa e científica, representam o modo de pensar daquele povo e podem ser verdadeiros ou não. Ou você acredita neles ou não. E assim são as tradições religiosas pelo mundo afora, inclusive as não cristãs. São histórias, testemunhos, que, na maioria das vezes, não têm sua autenticidade confirmada. E é aí, justamente, que entra a questão da fé.
Em suma, é o seguinte: da certeza de que a sua fé é a verdadeira, enquanto as dos outros são falsas, do pensamento de que a sua religião é a de Deus, enquanto que as dos outros é do Demônio, surge a chamada intolerância religiosa, que vai desde a piada de mau gosto sobre a religião dos outros até a extrema violência, o radicalismo, como aconteceu com Jesus, que foi açoitado e crucificado porque teria, segundo o entendimento das autoridades religiosas judaicas daquele tempo, blasfemado contra a religião dos judeus; ou como os milhares de pessoas que foram perseguidas e queimadas vivas pela Igreja Católica, duranta a Inquisição, na Idade Média; ou como as vítimas dos radicais islâmicos de hoje, que são mortas, muitas vezes até por decapitação, simplesmente por não serem muçulmanas, ou até por serem muçulmanas, mas não pertencentes à mesma segmento islâmico dos fanáticos.
Por isso, prefiro ficar com meu deísmo.
O DEUS DE SPINOZA
O poema abaixo é atribuído a Baruch Espinoza. Nascido em 1632 em Amsterdã, Holanda, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, Espinoza foi um dos grandes pensadores racionalistas do século XVII, com foram também René Descartes e Gottfried Leibniz. Ele era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Há controvérsias se o texto abaixo foi realmente escrito por ele, porém o conteúdo reflete bem a forma como ele acreditava em Deus.
DEUS SEGUNDO SPINOZA
"Para de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Para de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Para de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Para de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Para de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."



SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...