Àqueles
que quiserem questionar o conteúdo deste texto ou criar algum tipo de polêmica teológica
sobre ele, informo que se trata apenas de um trabalho de ficção, pura
literatura, elaborado, sem maiores pretensões, aos poucos, durante algumas madrugadas
insones e tardes preguiçosas, quando a imaginação e a criatividade fervilham. Portanto, não me venham como mimimis e blablablás teológicos e coisas desse tipo.
Certa noite, já estava em meu quarto, deitado, esperando o sono chegar, quando comecei a pensar na vida, me questionar sobre as coisas da fé, da religião, enfim, sobre Deus. Acabei adormecendo e sonhei que fui procurar a Deus para conversar com Ele e, assim, dirimir minhas dúvidas. Esperava que surgisse diante de mim um senhor idoso, com longas barbas brancas, com ar solene, de infinita sapiência, rodeado de anjos tocando trombetas e tal. Qual não foi minha surpresa, no entanto, quando me aparece, sozinho, um homem jovem ainda, aparentando ter entre os 25 e 30 anos, trajando uma calça jeans surrada, camiseta branca, calçando tênis. Era simpático, sorridente, educado, carismático e de uma simplicidade impressionante. Cumprimentou-me normalmente, dando-me a mão, como se fosse uma pessoa qualquer, sem grandes formalidades, deixando-me totalmente à vontade.
— O Senhor é...
— Sim, sou aquela que é
— disse-me Ele.
— O Senhor sabe que não
tenho religião, disse eu.
— E isso é importante
para você? — respondeu-me Ele, sorrindo.
— É importante para o
Senhor?
— Se não for importante
para você, não é importante para mim também.
— Não, para mim não é
importante.
— Então, deixemos de
lado as religiões — disse-me, sentando-se e sinalizando-me para que também
ficasse à vontade e me sentasse. Aí me disse:
— Dirimamos então suas
dúvidas. Esteja à vontade.
— Disse-me para deixar
de lado as religiões. Mas quero começar justamente por elas. Geralmente, as
igrejas cobram dízimo de seus fiéis...
— Eu também cobro —
interrompeu-me Ele sorrindo.
— O quê?!
— Eu disse que também
cobro dízimo — esclareceu Ele, sorrindo.
— Nossa! O Senhor também
cobra dízimo. São dez por cento?
— Não. Cobro cem por
cento. Na verdade, eu cobro “centízimo” — disse ele rindo.
— Cem por cento do que
eu ganho!?
— Não. Cobro cem por
cento, mas não do que você ganha, e sim cem por cento da sua fé. É muito? —
perguntou-me Ele.
— Acho que é um valor
justo — respondi Lhe sorrindo.
Ele me olhou e disse:
— E além do “centízimo”,
as pessoas também podem me ajudar fazendo sempre algumas “ofertas”.
— Sim! E como as pessoas
podem fazer isso? Qual o valor? Como Lhe fariam o pagamento dessas “ofertas”?
— Ajudando as pessoas em
necessidade, como os pobres, os desvalidos, os doentes, as crianças, os idosos,
auxiliando uma entidade na qual confie. Em muitos casos, não precisa nem ajuda
financeira ou material. Basta um sorriso, um abraço, um olhar de atenção, um
apoio a alguém que precise, um amigo, um parente ou até um desconhecido. Há
muitas formas de me dar essas “ofertas”. As pessoas, é claro, não são obrigadas
a dá-las. Fica por conta da consciência delas. Mas, se derem, não vão estar
ajudando somente a outras pessoas e a mim, mas também, e principalmente, a si
próprias. Dependendo da pessoa, mesmo que ela não me “pague o centízimo”, nem que
não creia “um por cento” sequer em mim, ela me dando as “ofertas”, já fico
feliz.
Quando Lhe perguntei se
devia honrá-Lo, louvá-Lo, glorificá-Lo, Ele deu uma deliciosa gargalhada, me
deu um abraço fraternal e disse, sorrindo:
— Pois é! De acordo com
algumas igrejas e livros religiosos, eu sou “o único realmente digno de louvor,
honras e glórias”, mas, na verdade, isso faz parte de estratégias de
doutrinação dessas religiões. Entre vocês, humanos, quem é que gosta de honras,
louvores e glórias?
— Acho que as pessoas
importantes, não é isso? — respondi, já ansioso pela resposta dEle.
— Não! Entre os humanos,
quem gosta de honras, louvores e glórias são as pessoas que se julgam
importantes, os vaidosos, em suma, os pobres de espírito, enfim, os idiotas.
Você me acha um idiota? — perguntou-me jocosamente Ele, dando mais uma vez
aquela gostosa gargalhada divina.
— Não, claro que não —
respondi-Lhe, um tanto constrangido.
— Pode ser sincero —
disse-me Ele rindo bastante e me abraçando — Juro-lhe por mim mesmo que não o
castigarei por isso. Como dizem algumas religiões, minha misericórdia é
infinita. Pode falar mal de mim à vontade, que eu o perdoarei sempre — disse-me
ele rindo e me abraçando novamente.
— Então, essa história
de louvor e tal...
— Esqueça. Deixe isso
para o pessoal lá das igrejas, dos templos. Se isso os faz se sentirem bem e se
fortalece a fé deles, que me honrem, que me louvem, que me glorifiquem à
vontade. Mas não é necessário.
— Senhor, e sobre moral,
costumes, enfim, sobre nossa conduta? Os livros sagrados são tão cheios de
regras, de dogmas, de conceitos, de mandamentos. Que manual de conduta
realmente devo seguir?
— O de sua consciência.
Esse é o manual que deve seguir.
— E os mandamentos, os
dogmas, os conceitos morais?
— Na verdade, essas
coisas fazem parte mais da cultura dos povos que deram origem às religiões do
que às “minhas vontades”. Cada povo tem seus costumes, suas tradições. Essas
coisas se misturam um pouco com as crenças e passam a fazer parte das
manifestações religiosas desses povos, que acabam, inclusive, sendo
transmitidas também a outros povos que adotam essa mesma religião. Se bem que
muitos dos que escreveram esses textos considerados sagrados, como os da
Bíblia, por exemplo, foram, no seu tempo, pessoas sábias e boas e deixaram um
legado de bons ensinamentos, inspirados pela cultura e pelas crenças dos povos
aos quais pertenciam. Mas seu principal manual de conduta deve ser, primeiro, sua
consciência, não se esquecendo de que você tem livre arbítrio e, dessa forma,
tudo lhe é permitido, cabendo a você decidir o que lhe convém, não se
esquecendo, ainda, de que tudo o que fizer poderá provocar consequências, boas
ou ruins.
— Por falar na Bíblia,
livro sagrado do Cristianismo, dizem que os seus textos foram todos escritos
sob inspiração divina, ou seja, sob Sua inspiração...
— Pois é, mas sabe que
até hoje não me pagaram pelos direitos autorais da minha “inspiração”? — disse
Ele, rindo muito — Mas eles têm de dizer isso mesmo, obviamente, para dar
autenticidade, credibilidade e autoridade aos textos bíblicos. Na verdade, toda
obra de arte e de literatura que transmita beleza e ensinamentos bons, incitem
o amor ao próximo, a caridade e a justiça recebem inspiração divina, ou seja,
têm um dedinho meu nelas, seja um quadro, uma poesia, um livro e até textos
religiosos, como os da Bíblia.
— Senhor, falemos do
pecado. Dizem as religiões e os livros sagrados que o pecado é tudo aquilo que
não Lhe agrada.
— Na verdade, pecado é
toda aquela atitude, consciente, que o prejudica e/ou prejudica outrem; é tudo
aquilo que faz mal a você e/ou a outra pessoa, mas você pratica mesmo sabendo
disso. Claro que atitudes prejudiciais a você mesmo e/ou a outras pessoas não
me agradam. Agora, “Dez mandamentos”, “Sete pecados”, tudo isso é mais
literatura do que propriamente “a vontade de Deus”. São inúmeras as atitudes
que uma pessoa pode tomar e que podem prejudicar a si mesma ou a outrem, de
forma que são inúmeros os pecados que alguém pode cometer.
— E quem peca é
castigado pelo Senhor?
— Eu não castigo
ninguém. Quem peca infelizmente sofre as consequências do próprio pecado. Acho
que isso é mais do que o suficiente.
— Senhor, o Diabo
existe?
— O Mal existe, já que
há quem seja capaz de cometer desde pequenos delitos até os atos mais sórdidos,
mais covardes e cruéis. O Demônio, cuja origem está no Zoroastrismo, uma antiga
religião persa, é apenas uma personificação mística do Mal para muitas
religiões. Mas também há pessoas que cometem atos violentos, não por serem más,
mas porque são perturbadas mentalmente, doentes, e precisam de tratamento.
— Uma dúvida que sempre
me incomodou: o Senhor é justo ou é misericordioso?
— Essa sua pergunta
realmente é interessante. Algumas religiões e livros sagrados dizem que sou
misericordioso, que minha capacidade de perdoar seria infinita. Não é bem
assim. Se eu fosse “bonzinho demais”, não seria um deus justo. A cada um
segundo seu merecimento e sua fé. Muitas pessoas que julgam que, em determinado
momento de suas vidas, fui misericordioso com elas, porque receberam o que
julgaram ser uma concessão minha, na verdade mereceram o que receberam. Talvez
não tenham consciência disso, mas fizeram, sim, jus ao que lhes dei. A justiça
divina é bem diferente da justiça humana. Enquanto um juiz humano só tem acesso
aos autos do processo, eu, juiz divino, tenho acesso direto e total à
consciência do “réu”. Isso faz a diferença. Sei quando alguém realmente se
arrepende dos seus erros, do mal ou dos males que cometeu.
— Senhor, existe vida
após a morte?
— Para responder a essa
sua pergunta, tenho que lhe fazer primeiro outra pergunta: você acredita em
mim?
— Sim! Claro!
— Pois bem, acreditando
em mim, acha que eu criaria o homem para depois matá-lo? Acha que eu ficaria
durante toda a eternidade criando e destruindo minha obra, como uma criança que
brinca na praia construindo castelos e bonecos de areia para depois
destruí-los?
— Acredito que não.
— Pois é! Se fizesse
isso, eu seria um deus canalha. A vida é muito mais do que o que isto que você
vê à sua volta. A vida é evolução constante, meu caro. Seu corpo físico pode
ter existência limitada, mas sua consciência é eterna, está sempre evoluindo,
avançando, e jamais regride.
— E essas histórias de ressurreição,
reencarnação e tal?
—Tudo que acontece com
você ao longo da eternidade depende só de você. Tudo obedece a rigorosas e
infalíveis leis naturais, de difícil entendimento ao ser humano neste momento.
Não há um “procedimento padrão”. Cada caso é um caso.
— E o Juízo Final?
— O Juízo Final, na
verdade, está sempre acontecendo. Ele é permanente. Aquele tribunal divino,
coletivo, que aconteceria após a ressurreição dos mortos, no qual todos os
homens seriam julgados, de que falam alguns livros religiosos, é literatura,
embora, obviamente, tenha um significado místico importante para algumas
religiões. O Juízo Final, no entanto, acontece permanentemente. Não é algo que
vai acontecer no futuro, como pensam alguns. Sabe por quê?
— Nem imagino — respondi.
— Fora dos limites da
terra, do chamando “mundo físico”, não há limites de espaço nem de tempo. Para
mim, por exemplo, não há passado, nem presente, nem futuro. Entendeu?.
— Não sei... Seria um
“eterno agora”? — indaguei.
— Não, não é bem isso.
Veja como há coisas que vocês ainda não têm condições de compreender. Agora,
imagine explicar isso para povos primitivos, como os hebreus, os romanos, os
gregos, os sumérios, os egípcios, os antigos povos orientais, como os
japoneses, os chineses!. Impossível. Só recentemente, por meio de um homem
chamado Albert Einstein, é que essa questão do tempo começou a ser estudada
pelo homem. Mas o que se sabe até agora ainda é muito pouco para que você possa
entender o que quero dizer com essa história da inexistência para mim de
passado, presente e futuro.. Como disse
o tal Einstein, o tempo é relativo.
— Deixemos isso de lado
então. Mas o Senhor fala em “leis naturais”. Isso significa que o tal
“sobrenatural” não existe?
— Na verdade, apesar de
o homem ter criado o termo “sobrenatural”, nada se sobrepõe à natureza. Tudo,
na vida e no universo, é absolutamente natural. O que existe, na verdade, para
vocês, é o desconhecido. Como nessa questão do tempo, há muitas leis naturais
que o homem ainda não conhece, não domina.
— O tal do “mistério da
fé”, de que falam as religiões, é uma dessas coisas das leis naturais que o
homem ainda não tem capacidade para compreender?
— Sim. Se o homem, hoje,
tivesse consciência e soubesse utilizar o poder que tem dentro de si, talvez
até o utilizasse para o mal, o que seria terrível, principalmente para ele
próprio. É por isso que tudo tem sua hora certa. O homem ainda não está
preparado para saber certas coisas. É por isso que há tantos “mistérios” por
aí. Aliás, essa questão da fé realmente é interessante. Você sabia que são
poucas as pessoas que realmente têm fé?
— Como assim? As igrejas
vivem apinhadas de gente!
— Uma coisa é ter fé; a
outra, é desejar ter fé, que é justamente o que acontece com a maioria dessas
pessoas que lotam igrejas. A grande maioria delas vive em conflito consigo
mesmas porque querem desesperadamente ter fé, mas são sempre perseguidas pela
dúvida, pela insegurança ou as próprias circunstâncias de suas vidas diárias se
encarregam de diluírem o pouco de fé que essas pessoas têm. Curiosamente, só as
pessoas muito simples é que realmente conseguem ter fé, pois, devido à sua
limitadíssima visão da vida e do mundo, não questionam. Apenas creem.
— Mas essa é a forma
correta de ter fé? Devo crer sem questionar?
— Não exatamente. O
ideal seria que as pessoas atingisse a fé lúcida, algo ainda inalcançável para
os seres humanos neste momento.
— Nossa! Isso é tudo
muito complicado! — observei.
— Complicado, mas é
natural. O homem nasceu dotado de inteligência e livre arbítrio. Ele nasceu
para aprender, questionar, pesquisar, estudar, especular, analisar, saber. Esse
é o caminho da evolução. Só por esse caminho é que o homem, um dia, conhecerá
realmente a verdade sobre si mesmo e sobre o universo à sua volta, e a verdade, de fato, o libertará.
— Senhor, não quero mais
abusar de sua bondade, embora diga que não é um deus “bonzinho”, e sim justo.
Mas, para encerrar nossa conversa, gostaria de saber qual o futuro das
religiões no mundo.
— As religiões tiveram e
têm até hoje um papel importante na propagação da fé, que é o principal elo
entre mim e o homem. No entanto, não podemos nos esquecer de que as religiões,
as igrejas e todos os movimentos religiosos e filosóficos são instituições
humanas, isto é, criadas pelo homem e, como tal, repletas de virtudes e,
principalmente, de vícios. Estão sujeitas aos caprichos, às fraquezas e às
vaidades do ser humano. Mais que movimentos de fé, as religiões são, antes de
tudo, manifestações culturais de um determinado povo, que podem ou não se estender
a outros povos e culturas, como aconteceu, por exemplo, com o Cristianismo, que
nasceu na Judeia e se espalhou, pela força da palavra e da espada, a outros
povos e culturas; ou como o Islamismo, que nasceu na Arábia e também se
espalhou, pela força da palavra e da espada, para muitos outros povos; como
aconteceu com o Budismo, que nasceu na Índia e se espalhou por grande parte da
Ásia. Mas nem sempre isso se repete. Quando os europeus tentaram implantar o
Cristianismo no Japão, por exemplo, ao chegarem lá, encontraram uma civilização
com uma cultural totalmente diferente, muito mais avançada que a europeia na
época. A tentativa de catequizar os japoneses foi um fracasso, e os religiosos
cristãos acabaram sendo expulsos do Japão.
— Diz a tradição cristã
que o Evangelho deve ser pregado em todo o mundo, a todos os povos da Terra. Os
muçulmanos também dizem que todos os homens devem se converter ao Islamismo,
sob a pena de serem considerados “infiéis” e tal. Isso já deu muita guerra,
muito sangue já foi derramado por causa de disputas religiosas. Uma religião
quer se sobrepor às outras. O que tem a dizer sobre isso?
— Esse é o lado perverso
da fé. Toda religião se diz “a verdadeira” e acha que eu pertenço
exclusivamente a ela. Isso é um enorme equívoco, uma arrogância. Se eu quisesse
que todos acreditassem em mim somente de uma única forma, por meio de uma única
igreja, ou religião, ou cultura, não teria eu criado tantos povos, etnias e
culturas diferentes no mundo. Aí, essas religiões acabaram criando um deus à
sua imagem e semelhança, com todos os seus vícios e fraquezas, ou seja, um deus
arrogante, ciumento, vingativo, moralista, racista, ególatra e tirano. Algumas
religiões me transformaram em uma espécie de “déspota eterno”, que deve ser
obrigatoriamente adorado, louvado e glorificado.
— Senhor, e não pode
fazer nada quanto a isso, ou seja, mudar tudo isso?
— O homem tem livre
arbítrio, pode fazer o que quiser, acreditar no que quiser, da forma que
quiser; Fi-lo livre. No entanto, ele tem que enfrentar as consequências de seus
atos. Por isso, não posso intervir. Mas estou à disposição dele quando achar
que precisa de mim. Basta bater em minha porta, que eu abrirei; basta me
chamar, que eu o atenderei. Basta acreditar e confiar em mim. Se quiser fazer isso
por uma religião ou não, esteja à vontade. Meu preço, você já sabe. Cobro caro,
mas felizmente todos podem me pagar o preço que cobro. Satisfeito?
— Muito. Obrigado,
Senhor por esta singular oportunidade.
Ele me olhou, sorriu, e
eu acordei.
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