Winston Churchill disse que a democracia é um péssimo sistema de governo. O problema é que não há outro melhor que ela. Em um mundo no qual o totalitarismo e o autoritarismo ainda se fazem presentes, uma das virtudes de um sistema democrático sólido é que ele não permite que nenhuma pessoa ou instituição tenha poderes ilimitados. Em uma democracia verdadeira, ninguém pode tudo. Cada poder e cada instituição cumprem seu papel, sem extrapolar seus limitas. Essa é a visão formal do regime democrático, que está nos livros de ciências sociais, jurídicas e políticas.
Neste texto, no entanto, vou deixar de lado as definições tradicionais sobre democracia e tentar analisá-la pela visão de um filósofo contemporâneo pragmático. Por isso, escolhi Luiz Felipe Pondé, um filósofo midiático, dos novos tempos.
Em seu livro FILOSOFIA PARA CORAJOSOS (1ª edição, Editoral Planeta, de 2016, páginas 131 a 134), Pondé faz algumas considerações muito interessantes sobre a democracia, que fazem a gente, de início, se chocar um pouco, mas, após alguma reflexão e lendo os argumentos do autor, nos parecem perfeitamente coerentes.
Segundo Pondé, por sua soberania na chamada vontade popular, a democracia desaguaria na crença de que a sociedade carrega em si alguma forma de “verdade moral”. Mas, segundo o próprio autor, toda moral pública é hipócrita. Ou seja, o público é hipócrita e nada tem a ver com alguma ideia de verdade. Ele conclui que, na democracia o que importa é a maioria, e não a verdade sobre coisa alguma. Platão, segundo ele, já apontava que a tendência da democracia é ser demagógica.
Irônico, Pondé afirma: “Antes que algum inteligentinho (sic) perdido na leitura deste livro me acuse de antidemocrático, devo dizer que a democracia é, de todos os regimes ruins em política, o menos pior, com certeza. E para manter essa “vantagem” da democracia sobre seus sistemas competidores, devemos lembrar suas fraquezas, coisa que o povo na democracia, como já disse Alexis de Tocqueville no século XIX em sua visita aos Estados Unidos, não gosta de ouvir porque a democracia na democracia é um dogma a ser amado”.
Pondé volta a se basear em Platão, ao dizer que em um regime pautado em opiniões variadas e pela contagem delas, o essencial é o número. Assim, ele conclui que a democracia é um regime de quantidades, e, nesse caso, os idiotas (citando Nelson Rodrigues) são sempre a maioria. E Pondé esclarece que uma das faces dessa idiotice da maioria é supor que a transparência na gestão da coisa pública, algo desejável em um governo, implica a transparência da verdade moral. Sempre que se afirma um valor em público, essa afirmação é, em grande medida, segundo Pondé, uma farsa a serviço do resultado esperado em termos de contagem de votos a favor ou contra o que você quer.
E Pondé vai ainda mais longe em suas considerações cruéis mas realistas sobre a democracia. Segundo ele, outro motivo para a democracia ser parceira da hipocrisia pública é sua dependência da adulação da opinião pública. Segundo Pondé, isso afeta desde os candidatos em uma eleição (política, segundo ele, é marketing) até artistas que vendem música: todos devem adular a opinião pública.
Pondé conclui que essa dependência da opinião pública, que leva todos a adular os idiotas, faz da democracia um simples regime de mercado. Dessa forma, Luiz Felipe Pondé conclui que a tendência da mentira na democracia é, no limite, uma tendência ao marketing. O que conta é a aparência. Pondé, inclusive, lembra que os defensores da democracia na Grécia Antiga eram os sofistas, que negavam a existência de qualquer verdade e reduziam o conhecimento à retórica. Por isso, Pondé finaliza seu texto dizendo: “Então, quando eu ouço alguém gritar contra a mentira na democracia, sempre sinto um cheiro de Papai Noel no ar”.
Apesar de tudo isso, não há como tirar a razão de Churchill. A democracia está longe de ser a panaceia para todos os problemas da sociedade. Muito pelo contrário: ela pode até criar mais problemas, disputas, polarizações político-ideológicas. pode ter seus defeitos, suas imperfeições, suas incoerências, mas ainda não conseguiram inventar um sistema melhor que ela.
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