Maria Candelária
É alta funcionária
Saltou de
paraquedas
Caiu na letra O, oh, oh, oh, oh
Começa ao meio-dia
Coitada da Maria
Trabalha, trabalha,
trabalha de fazer dó
Oh, oh, oh, oh
A uma vai ao dentista
Às duas vai ao café
Às três
vai à modista
Às quatro assina o ponto e dá no pé
Que
grande vigarista que ela é.
Os versos acima são da marchinha de carnaval “Maria Candelária”, composta por Armando Cavalcanti e Klécius Caldas e gravada, em 1952, pelo cantor Blecaute, que foi um grande sucesso no carnaval de 1953. Uma crítica bem-humorada ao funcionalismo público daqueles tempos em que praticamente não havia concursos ou processos seletivos. A grande maioria dos funcionários do serviço público era nomeada por indicação política. O funcionalismo, naquele tempo, era uma elite, pois boa parte dos servidores era parente ou tinha algum vínculo com políticos ou pessoas importantes do governo. Havia muitas queixas da população em relação ao atendimento nas repartições. Muitos funcionários só assinavam o ponto e saíam, outros até ganhavam sem trabalhar ou trabalhavam quando queriam. Repare que a letra da marchinha diz “Saltou de paraquedas/Caiu na letra O”. Traduzindo, os funcionários eram nomeados sem nenhum critério técnico, avaliação ou concurso. Eram indicações políticas mesmo. Funcionário público “letra O”, naquele tempo, eram os funcionários graduados, os de altos cargos, os “chefões”.
O tempo passou, o Brasil e o mundo mudaram e a realidade dos funcionários públicos também mudou. Vieram os processos seletivos e concursos públicos, vieram legilações administrativas mais rígidas, mais pressão da sociedade contra o nepotismo. Com o tempo, até as delegações para cartórios extrajudiciais, que até há algum tempo era praticamente uma “herança de família”, passaram a ser concedidas pelo poder público por meio de concursos, que exigem formação em Direito.
Ainda existem, é claro, os chamados cargos comissionados ou “de confiança”, mas esses têm caráter temporário. Hoje, o acesso ao funcionalismo público ocorre por meio de concursos. Só em casos excepcionais é que a lei permite a contratação de funcionários em caráter temperário.
Tudo isso significa que o perfil do funcionário público. Claro que á segmentos do serviço público que ainda formam uma certa “casta”, recebendo salários acima da média salarial da maioria dos funcionários. Mas são ocupantes de cargos nas procuradorias, no Ministério Público, na magistratura, que exigem conhecimento técnico de sua área. As “marias candelárias” não existem mais. O funcionalismo público, hoje, é formado, em sua esmagadora maioria, por gente comum, que estudou para passar em um concurso público, trabalha muito, tem a enorme responsabilidade de fazer funcionar a máquina pública e, em sua grande maioria, ganho muito menos do que merece.
No entanto, a injusta fama do funcionário público ainda persiste. E a grande maioria da mídia, a mesma mídia que, na maior parte do Brasil, não sobreviveria se boa parte de seu faturamento não viesse dos cofres públicos, tem sido a maior responsável pela persistência dessa má fama. A mídia e seus “especialistas de ocasião” têm nos transformados em vilões do serviço público. Não somos.
Não fossem os bravos servidores públicos da saúde, que, durante a pandemia, enquanto a maioria da sociedade estava em casa, escondendo-se do vírus, estavam na linha de frente, juntamente com trabalhadores da saúde da iniciativa privada, tentando salvar vidas. Sem funcionários públicos, não haveria a tal da “festa da democracia”, expressão que os jornalistas adora usar, já que são os milhares de funcionários públicos da Justiça Eleitoral e também, muitas vezes, com o auxílio de funcionários públicos de outras setores, é que organizam toda a logística para que as eleições se realizem. É o funcionário público que faz o passaporte e sua documentação para a “elite” viajar para Paris em férias. São funcionários públicos que estão vacinando a população.
Enfim, somos trabalhadores, responsáveis pelo funcionamento da máquina pública, em todas as suas áreas. Estudamos, fizemos concurso e nos preparamos para desempenhar nossas funções de Estado. Exigimos da classe política, da mídia e de toda sociedade brasileira um míni9mo de respeito.
Não queremos privilégios, regalias e bondades. Queremos que respeitem nossos direitos. Não queremos salários milionários. Queremos salários justos e periodicamente corrigidos para que não percam o poder de compra, que é um direito de todo trabalhador, seja do serviço público, seja da iniciativa privada. Queremos a segurança para desempenhar nosso trabalho livres de interferências políticas, livre dos canalhas que adoram dizer “Sabe com quem está falando?” ou coisa desse tipo.
Copyright © 2022 Gilmar Grespan — Todos os direitos reservados.
___________________________
FONTE
DE IMAGEM: site do
Sindicato
dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das
Universidades Públicas Federais no Estado da Bahia – ASSUFBA —
http://www.assufba.org.br/novo/entenda-a-situacao-do-funcionalismo-publico-brasileiro/
Acessado
em 13/10/2022 – 13h43min.

Nenhum comentário:
Postar um comentário