Hoje, fala-se muito em meio ambiente, em “roubar o futuro da Greta” e tal. Mas
a gente precisa recorrer um pouco à História para entender certas coisas. O que
diria a jovem sueca Greta Thunberg se vivesse no final do século XIX e soubesse
que as cidades, naquele tempo, estavam condenadas a, literalmente, afundar na
merda? Será que também diria aos governantes daquele tempo que eles haviam roubado
seu futuro?
Com base em um
artigo de Felipe van Deursen, publicado em seu blog na revista
Superinteressante, em 21 de dezembro de 2016, vamos contar uma história aqui
que pouca gente, hoje, sabe, mas que colocou administradores de grandes cidades
espalhadas pelo mundo em pânico no final do século XIX.
Em
1898, delegações de várias cidades do mundo se reuniram em Nova York, nos
Estados Unidos para discutir os problemas urbanísticos daquele tempo, como
crime, falta de recursos, questões de infraestrutura, etc.
Naquela
época, não havia ainda transporte motorizado, ou seja, não havia carros. O meio
de locomoção daquela época era o cavalo. E, como todo o mundo sabe, cavalo não emite
gás carbônico e outros poluentes, mas faz cocô, que além de liberar o gás metano
no ar, é uma sujeira sólida, pesada e com um forte odor nada agradável.
Por
causa do intenso trânsito de animais, era tanta bosta acumulada nas
ruas de cidades como Londres, Nova York e outras metrópoles, que as projeções
para o então futuro século XX eram apocalípticas. O jornal londrino Times chegou
a publicar que até a década de 1940 as pilhas de esterco chegariam a três
metros de altura. Do outro lado do Atlântico, temia-se que quem morasse ou
trabalhasse até o segundo andar em Nova York estaria, em 1930, soterrado por
material fecal. Londres tinha então 50 mil
cavalos transportando pessoas todo dia de um local para o
outro. Nova York chegou a ter pelo menos 100 mil animais
circulando pelas ruas, que produziam uma média de 10 kg de
fezes por dia (ou seja, um total de mil toneladas diárias). Haja cocô!
Sem contar, também, a urina, as moscas e
até mesmo os cavalos mortos.
O problema era que não havia um plano de descarte e tratamento
decente para tamanho problema das metrópoles. As cidades naquele tempo se
apertavam em cortiços, favelas, quarteirões emporcalhados, calçadas
engorduradas, becos abjetos. A densidade demográfica de Nova York, por exemplo,
mais que dobrou no fim do século XIX. Por isso havia tanta preocupação com o
acúmulo de dejetos nas vias. Em 1880, Nova York precisou se livrar de
quinze mil carcaças de cavalos mortos.
Após dias de discussão em Nova York, não se chegou a conclusão nenhuma na conferência de 1898 — bem semelhante às reuniões e congressos sobre assuntos climáticos de hoje em dia.
As soluções vieram com o tempo e os avanços da tecnologia, que
salvaram as cidades de, literalmente, se afundarem na merda. Os bondes deram um
alívio, mas foi a popularização do carro, no começo do século XX, que trouxe a
solução. Em 1912, o número de automóveis ultrapassou o de cavalos em Nova
York. O invento do século era enaltecido por ser economicamente sustentável e
por ter a habilidade de “reduzir o tráfego”. Quem diria, hein?
Hoje em dia, as carruagens de Nova York estão restritas, obviamente, mais como uma atração turística, ao Central Park. Mantendo os animais afastados da poluição provocada pelos “cavalos do século 20″.
O mundo já esteve à beira do caos e a existência da humanidade
ameaçada muitas vezes. O Homo sapiens, na hora “H”,
conseguiu arranjar um jeito de salvar a própria espécie. Não podemos nos
esquecer, por exemplo, de que, nos primórdios, quando o ser humano ainda vivia
da caça e de coleta, e os alimentos começaram a se tornar raros e difíceis de
serem obtidos, ele teve que aprender a produzir a própria comida. Foi quando
surgiu a agricultura e a criação de animais para o corte. Já no final da Idade
Média, uma terrível epidemia de peste negra (peste bubônica) matou mais de um
quarto da população da Europa. Sem conhecimentos de infectologia, sem vacina,
sem a mínima noção de higiene e saúde, o homem conseguiu sobreviver à
disseminação da peste.
É claro que a
gente tem que se preocupar com a questão do meio ambiente. É importante fazer
nossa parte. Diferentemente de nossos antepassados, hoje a gente tem muito mais
tecnologia para prever ou, pelo menos, presumir o que nos espera no futuro, o que
nos permite tomar medidas preventivas muito mais eficientes. Mas não podemos
nos deixar dominar pelo alarmismo que algumas organizações ambientalistas e a
própria mídia propagam. Sem deixar de fazer a nossa parte no uso mais racional
dos bens de consumo, para uma vida mais sustentável no futuro, não podemos
subestimar a capacidade do ser humano em se superar e resolver os problemas e
as dificuldades que vão surgindo. Os participantes daquela reunião de Nova
York, em 1898, saíram dela sem nenhuma solução para livrarem as cidades de
terem as ruas inundadas por merda em algumas décadas. Mas os próprios avanços tecnológicos
de então evitaram que a tal catástrofe acontecesse. Então, é de se esperar que,
à medida que as coisas foram acontecendo, a humanidade vá se virando e se
adaptando às mudanças.

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