Se Dias Toffoli e seus ministros já
estivessem no Supremo Tribunal Federal em 1889, em 1937 e em 1945,
possivelmente, o Brasil ainda seria uma monarquia, Getúlio Vargas não teria se
tornando ditador, nem o Brigadeiro Eduardo Gomes teria perdido a eleição para
Dutra.
Foi uma velha raposa da política que, um
dia, muitos anos atrás, me disse que há três formas de se “fazer política”
(expressão comum nesse meio): pelo convencimento, pela negociação e
pelo confronto. Cada uma dessas formas tem suas variantes, que vai
do ético ao inescrupuloso. Pelo convencimento, pode-se da apresentação de um
bom projeto de governo ao mais abjeto dos engodos; pela negociação, pode-se
variar de um acordo digno à mais espúria das barganhas; no confronto, no
entanto, o leque se abre ainda mais: chegamos ao vale-tudo. Portanto, em
política, nem sempre tudo é o que parece ser. Se você se propuser a disputar um
cargo público, independentemente de sua formação intelectual, de seu grau de escolaridade,
saiba que, nesse mundo de contrassensos da política, vale mais a experiência, a
malícia e a astúcia. Intelectualidade, nesse meio, não vale muita coisa. É um
mundo em que o sentimentalismo não existe. Toda manifestação sentimental que
você vir nesse meio é falsa. Não se iluda.
Hoje, fala-se muito em “fake news”, como
se fosse o mais capital dos pecados políticos. Pois as “fake news” já
eram utilizadas no mundo político muito antes da fundação de Roma Antiga.
A História política do mundo seria muito diferente se não fossem as mentiras,
as informações falsas. Vamos citar aqui três exemplos de “fake news” que
mudaram, sem nenhuma contestação, os rumos de nossa história.
Na Proclamação da República, os
conspiradores foram até a casa de Deodoro, que estava doente, e o convenceram a
liderar o golpe, dizendo a ele que, a partir de 20 de novembro, o novo
Presidente do Conselho de Ministros do Império seria Silveira Martins, que era
um velho inimigo dele, mas era mentira. Além disso, disseram a ele que já havia
uma ordem de prisão contra ele, Deodoro, outra mentira deslavada, mas que
convenceu o marechal a proclamar a República e a exilar a Família Imperial. Ou
seja, uma “fake news” provocou um golpe de Estado que implantou a República no
Brasil.
Outra “fake news” histórica ocorreu no
dia 30 de setembro de 1937. Nessa data, o general Goés Monteiro, até então
chefe do Estado-Maior do Exército, noticiou pelo programa de rádio “Hora do
Brasil”, que havia um plano comunista que envolvia a retirada de Getúlio Vargas
do poder. O Plano Cohen, como ficou conhecido, amedrontou a população na época.
Segundo Goes Monteiro, os comunistas iriam provocar tumultos
entre operários e estudantes, causariam incêndios em casas e prédios públicos,
manifestações a fim de saquear e depredar patrimônios públicos e privados,
eliminariam autoridades públicas que se opusessem aos atos e, por
fim, exigiriam a liberdade de presos políticos. Tudo mentira. Mas
foi o suficiente para Getúlio pedir ao Congresso Nacional a decretação de Estado
de Guerra, concedido em 1º de outubro de 1937. Começou, então, uma terrível
caça aos comunistas — que, na verdade, nada tinham a ver com a história — e, em
10 de novembro de 1937, usando essa “fake news” como desculpa, Getúlio implanta
a ditadura do “Estado Novo”, no Brasil, que duraria até 1945.
Em 1945, Getúlio Vargas foi deposto e
foram convocadas eleições presidenciais. Os candidatos principais eram Eurico
Gaspar Dutra contra o Brigadeiro Eduardo Gomes — o mesmo que deu nome aos
docinhos de chocolate. Um sujeito chamado Hugo Borghi, político, empresário,
muito rico, que havia sido líder de um movimento chamado “Queremista” (de
“queremos Getúlio”), que tentou manter Vargas no poder, convenceu Getúlio,
então fora da vida pública, a apoiar Dutral, em vez de Eduardo Gomes. No dia 19
de novembro, o Brigadeiro Eduardo Gomes pronunciou um discurso no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro, afirmando: “Não necessito dos votos dessa malta de
desocupados que apoia o ditador para eleger-me Presidente da República!”. No
entanto, Hugo Borghi adulterou as palavras do Brigadeiro, afirmando, nas rádios
e por meio de panfletos distribuídos nas ruas, que o Brigadeiro tinha dito “Não
preciso dos votos dos marmiteiros!”. Estava feito o estrago. Rapidamente a
marmita se tornou o símbolo da campanha de Dutra contra o Brigadeiro Eduardo
Gomes. Por causa dessa “fake news” produzida por Hugo Borghi, a marmita virou
um símbolo popular naquela eleição entre os setores populares urbanos, o que
acabou com qualquer chance de o Brigadeiro Eduardo Gomes eleger-se presidente
em 1945.
Provavelmente, mesmo se já fosse
presidente do STF em 1889, ou em 1937, Dias Toffoli, naquele tempo, pouco
poderia fazer para reverter os efeitos das mentiras dos golpistas republicanos
e de Getúlio. Naquele tempo, o STF, na prática, não tinha tanto poder. Talvez
conseguisse alguma coisa contra a “fake news” de Hugo Borghi em 1945. Talvez…
Eram outros tempos.
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