Dona Lourdes era a típica mãezona, era muito preocupada e carinhosa
com os filhos. Era muito religiosa. Ao contrário de seu irmão,
Juca, que era ateu convicto. Apesar de seu materialismo, Seu Juca,
como era conhecido, era o típico boa praça. Tinha um bom coração,
ajudava a todos que o procuravam, sempre simpático e solícito. Um
pouco diferente de sua irmã Dona Lourdes, que era mais sistemática
e desconfiada, embora fosse uma boa pessoa, honesta e muito correta.
Um
dia, Dona Lourdes queria ver seu neto que havia nascido, mas morava
em uma cidade distante. Ela então pediu a seu irmão que a levasse
de carro até lá para visitar o filho e o neto recém-nascido.
Na
viagem de volta, um pequeno descuido de Seu Juca ao volante, causado
por uma cochilada momentânea, foi fatal, e o carro no qual estavam
acabou se chocando violentamente com outro veículo.
—
oOoOoOoOo —
Aos
poucos, Dona Lourdes foi recobrando os sentidos e se dando conta de
que estava em um quarto, provavelmente em um hospital. Era um quarto
todo branco, com mesinhas também brancas, uma delas com um vazo com
flores muito coloridas. Era um ambiente agradável, tranquilo. Afinal
de contas, o que acontecera? — pensava. Mas, aos poucos, começava
a se lembrar da viagem, do irmão e, enfim, do acidente. Nossa! Onde
será que estou, em que hospital. Cadê o Juca, meu marido, meus
filhos, netos. Cadê todo o mundo, perguntava-se ela, já sentada na
cama.
Nisso,
batem à porta. Entra um homem, todo vestido de branco, com um
sorriso cativante e um olhar alegre, simpático.
—
Como está, minha irmã? Tudo bem? — disse sorrindo o homem.
—
Parece que estou bem, sim, mas… Onde estou? O senhor…
De
repente, Dona Lourdes percebeu que já conhecia aquele homem, mas não
sabia de onde ou de quando. Ele mesmo, então, lhe falou, sempre de
modo muito gentil e carinhoso:
—
Sim, minha irmã, nós já nos conhecemos. Mas tenha calma! Com o
tempo, as coisas vão ser esclarecidas. Todas as suas perguntas e
questionamentos serão respondidas. Acalme-se!
—
O senhor é médico? — perguntou Dona Lourdes ao homem.
—
Sim, minha irmã. Além disso, sou um dos coordenadores deste Centro
de Recuperação.
—
Um hospital?
—
De certa forma, sim, minha irmã.
—
De certa forma? Olha, doutor, está tudo muito estranho. Eu mesma
estou me sentindo estranha. Estou me sentindo diferente, sou míope,
tenho que usar óculos, mas, mesmo sem óculos, estou vendo tudo
perfeito. Eu sofri um acidente, pelo que me lembro. Deveria estar com
pelo menos algum machucado ou, no mínimo, um arranhão. Estou
perfeita.
O
homem, então, aproxima-se de Dona Lourdes, puxa uma cadeira,
senta-se e pergunta a ela:
—
A irmã Lourdes é uma pessoa religiosa?
—
Sim, muito!
—
Se a irmã é religiosa e acredita em Deus, também deve crer na vida
eterna, não é mesmo?
A
observação do homem causou uma espécie de choque em Dona Lourdes.
—
Meu Deus! Então eu… Eu morri? — disse ela, colocando as mãos
sobre a cabeça.
—
Minha irmã — diz o homem, sempre de forma carinhosa e gentil, a
morte não existe.
—
Como, não existe? Eu devo estar lá a esta hora, morta, sendo velada
por minha família, que deve estar chorando por minha perda. E agora?
— diz Dona Lourdes, indignada e já chorando.
—
Minha irmã, o que está lá não é você, e sim apenas um corpo.
Você, a própria, está aqui, agora, conversando comigo.
—
E meu marido, meus filhos, meus netos e…?
—
Eles vão continuar por lá por mais algum tempo, cumprindo suas
missões. Como você já terminou as suas, já está aqui.
—
Cumprindo missão?! Até no plano divino, tudo é uma grande
burocracia. “Você tem que morrer porque já cumpriu sua missão”.
Danem-se os filhos, os netos, os vínculos familiares, os
sentimentos, danem-se a dor, a perda, o sofrimento. O que importa é
cumprir os desígnios do Todo Poderoso. Cadê a misericórdia de
Deus, como me ensinaram na Igreja? — disse Dona Lourdes, revoltada.
—
Minha irmã — respondeu-lhe calmamente o homem de branco —, eu
compreendo sua indignação, sua revolta. Deparo com isso todos os
dias, há séculos. Mas logo, a seu tempo, compreenderá tudo. O ser
humano está longe ainda de entender certas coisas. É como uma
criança de dois anos passeando com os pais em um centro de compras e
vê um lindo brinquedo exposto. Ela quer, a todo custo, aquele
brinquedo. No entendimento dela, basta os pais pegarem o brinquedo e
lhe darem ou permitirem que ela pegue o brinquedo e fique com ele.
Ela não entende que há regras, que seus pais não podem
simplesmente pegar o brinquedo e lhe dar, já que, obviamente, eles
teriam que comprar o brinquedo. A criança, pequena, imatura, envolta
em seu pequeno mundo, ainda não tem capacidade de entender as
complexas regras dos adultos. Quando também não conseguimos
entender os mistérios da vida e do Universo, quase sempre agimos
assim, como a criança na loja de brinquedos.
Dona
Lourdes se acalma. Havia se levantado da cama. Ficara de pé quando
disparou sua revolta, mas voltou a se sentar e perguntou ao homem de
branco:
—
O senhor me perdoe! Mas, afinal de contas, quem é o senhor e o que
será de mim agora?
O
homem sorri e lhe diz:
—
Perdoe-me, minha irmã. Não me apresentei. Meu nome é Petrônio,
faço parte da equipe deste centro de recuperação onde está agora.
Vou cuidar da irmã e orientá-la. Mas a irmã é livre para agir e
tem toda a eternidade para decidir o que vai fazer em sua existência.
Mas estou encarregado de orientá-la e lhe atribuir alguma missão ou
trabalho, caso esteja disposta a continuar seu processo de evolução.
—
Claro que quero evoluir. Não quero me tomar uma alma errante,
perdida! Sempre fui uma pessoa religiosa, de muita fé e, sobretudo,
ativa.
Petrônio,
então, junta as mãos, num gesto de felicidade pela decisão de Dona
Lourdes e diz:
—
Que bom, minha irmã! Terei a maior alegria e satisfação em
orientá-la!
Mas,
nesse momento, Dona Lourdes lembrou-se de que seu Irmão Juca era
quem estava dirigindo o carro. O que teria acontecido com ele? Antes
que ela perguntasse, Irmão Petrônio, como era conhecido, lhe
adiantou:
—
Seu irmão Juca também está aqui. Em breve, poderá encontrá-lo.
Mas antes a irmã terá de passar um tempo na área de
Aperfeiçoamento Moral e Espiritual. Seu irmão, no entanto, foi
dispensado dessa fase. Ele irá diretamente para os grupos de
trabalho.
Dona
Lourdes espantou-se.
—
Mas Juca era ateu, não acreditava em nada.
—
E o que tem isso, irmã? Estar aqui e descobrir que a morte terrena
não é o fim já foi o suficiente para mudar a opinião dele —
disse Petrônio.
—
Perdoe-me, irmão Petrônio — se me permite chamá-lo assim —,
mas o que não estou entendendo é que sempre fui uma pessoa
religiosa, sempre lia a Bíblia, ia à igreja, mas terei que me
aperfeiçoar moralmente e espiritualmente. Já meu irmão, que sempre
foi incrédulo, ateu, nunca leu a Bíblia, não precisa de
aperfeiçoamento moral e espiritual. Não estou reclamando, irmão
Petrônio. Só estou achando estranho.
—
Irmão Petrônio é exatamente como todos me chamam aqui, irmã
Lourdes. Eu compreendo perfeitamente sua surpresa. É natural. Mas
aqui a pessoa, ou seja, a consciência, é avaliada pelo que ela
realmente é, no mais profundo de sua alma, e não pelo que ela
parece ser ou tenta parecer que é.
—
Não compreendi, irmão Petrônio.
—
A irmã, por exemplo, sempre foi uma mulher religiosa, frequentava
regularmente sua igreja, lia a Bíblia, fazia suas orações,
assistia a preleções de pregadores, filmes sobre religião. No
entanto, a irmão, tinha um coração duro, rancoroso, era
extremamente ciumenta em relação aos filhos, era preconceituosa,
racista, às vezes tratava mal pessoas que trabalhavam para você.
Dona
Lourdes se assusta com a análise precisa feita pelo irmão Petrônio.
—
Nossa, irmão! Eu nem percebia que era tudo isso.
—
Geralmente as pessoas não se dão conta dos próprios defeitos,
minha irmã. Os vícios estão tão embutidos em suas personalidades,
que a própria pessoa não têm consciência deles. Por isso,
julgam-se a mais perfeita das criaturas — diz irmão Petrõnio.
—
Mas e o Juca, irmão Petrônio?
—
Seu irmão Juca era ateu, realmente, não acreditava em nada, nunca
leu a Bíblia, desde sua adolescência nunca mais entrou em um templo
religioso. Mas isso não fez dele uma pessoa ruim. Pelo contrário,
seu irmão era sinceramente bom, tinha o coração puro, não media
esforços para ajudar seus semelhantes, caridoso, carinhoso com as
pessoas, alegre, sempre de bem com a vida, não tinha preconceitos,
nunca falava mal de ninguém. Claro que, como todo ser humano, não
era perfeito, mas o fato de ele ser ateu demonstra que era bom por
princípios, e não por medo de castigos divinos ou coisa desse tipo.
Por isso, ele não precisa passar por aperfeiçoamento moral e
espiritual.
—
Irmão Petrônio, mas a Bíblia diz…
—
A Bíblia, irmã, embora seja uma das mais belas, ricas e valiosas
das obras literárias, históricas, filosóficas e religiosas da
Humanidade, é apenas uma coletânea de textos muito antigos,
escritos por escribas de um povo primitivo, que acreditava em um deus
humano, que tinha complexo de exclusividade, era ciumento, vingativo,
arrogante e até genocida. A chamada Providência Divina, minha irmã,
ou Deus, como queira, está acima dos sentimentos e das fraquezas
humanas. Na verdade, Deus não existe. Deus é. Você não está
nEle, mas Ele está em você, quer você acredite ou não nEle. É o
caso de seu irmão, que era ateu. Mesmo assim Deus estava, está e
sempre estará nele.
—
Irmão Petrônio, e as religiões, as igrejas? Hoje em dia, na Terra,
há milhares de igrejas, centenas de religiões. O que as igrejas
pregam, o que a Bíblia diz está tudo errado então? — questiona
Dona Lourdes, chocada.
—
Não, minha irmã, de forma alguma. As religiões, as igrejas, são
importantes e têm um papel relevante na formação moral do ser
humano, mas são instituições humanas, têm suas falhas, têm suas
virtudes, mas também têm seus vícios. Mas Deus é Deus, irmã, Ele
está acima das religiões, acima das crenças, dos rituais, dos
livros considerados sagrados. As religiões, principalmente as
abraâmicas, apresentam a seus fiéis um deus humano, moralista,
ciumento, exclusivista e até vingativo, que condena ou perdoa,
conforme sua “vontade”, seus “caprichos”. Deus é Deus,
criador, é o princípio, a essência e o fim de todas as coisas. Ele
não é uma criatura, que tem vontade, que tem opinião, que tem
sentimentos humanos. Ele está em todos nós, em todos os seres
humanos, mesmo nos ateus.
—
Nossa! O conceito de Deus é mais difícil de entender do que
imaginava! — diz Dona Lourdes.
—
Na verdade, é quase impossível ao homem, por mais culto e erudito
que ele seja, entender o que é Deus realmente. Deus, a Consciência
Divina, a Providência ou seja lá o nome que Lhe se queira dar, é
algo ainda incompreensível à consciência humana, está além de
seu entendimento. Lembra da criança na loja de brinquedos?
—
Irmão Petrônio, e o pecado? — pergunta Dona Lourdes.
—
As religiões, especialmente as abraâmicas, estabelecem listas e
categorias de pecados, como os capitais, ou seja, aqueles mais
graves, os mais leves e tal. Tudo isso, irmã, embora sejam
atribuídos a Deus, são conceitos humanos. Segundo seus livros
sagrados e os dogmas dessas religiões, pecado é tudo aquilo que
“não agrada ou desagrada a Deus”. Isso é para fins de
doutrinação do fiel. Para doutrinar seus fiéis, as religiões têm
que estabelecer parâmetros. Na verdade, irmã, pecado é tudo aquilo
que praticamos mesmo sabendo que faz mal a nós mesmos e/ou a outrem.
Quando você pratica alguma coisa, mesmo sabendo que aquilo é
prejudicial, danoso, nocivo ou até letal a você e/ou a outra pessoa
ou às pessoas em geral, seja o que for, é pecado.
—
Que curioso! Quer dizer que, quando eu como determinado alimento,
mesmo sabendo que esse alimento pode ou vai me fazer mal, estou
cometendo pecado? — pergunta Dona Lourdes com um leve sorriso.
—
Sim, está cometendo um pecado contra você mesma, irmã. Tudo é
permitido ao ser humano, irmã, ele goza de livre arbítrio. Cabe a
ela decidir o que lhe convém. Não há castigo divino para os
pecados. Há consequências, que geralmente não são boas.
Dona
Lourdes, então, toma consciência de que vive, agora, uma nova
realidade, está em uma outra dimensão, em um outro plano de vida.
Então pergunta ao irmão Petrônio:
—
Irmão Petrônio, o que será de mim agora?
—
A irmã é livre. Pode fazer o que bem entender. Mas minha
orientação, se quiser aceitar, é de que se junte a nós. Mas,
antes, deverá passar por um processo de aperfeiçoamento moral e
espiritual. É uma espécie de curso, de um estudo, para que a irmã
se inteire mais sobre sua nova realidade. Depois, poderá se juntar a
nós e iniciar uma atividade. Mas antes vamos conhecer seu novo
mundo. Há algumas pessoas que a querem ver, ou seja, rever — diz o
irmão Petrônio, sorrindo.
—
Vou poder rever meus entes queridos que já haviam morrido? Nossa!
Será que estou preparada para reencontrá-los?
—
Claro que está, irmã. Vamos lá?
—
Irmão Petrônio, quando entrou no quarto, senti que já o conheço.
O próprio irmão confirmou isso. Apesar da impressão que sinto, não
me lembro de onde e de quanto nos conhecemos.
—
Calma, irmã! Aos poucos, vai se lembra de onde e de quando já me
conhece, assim como se lembrará de outras coisas, que ficaram
apagadas de sua memória durante sua vida na Terra, aos poucos vão
reaparecer em sua memória.
E
assim, enquanto sua família chorava sua perda, aqui na Terra, Dona
Lourdes se preparava para começar uma nova etapa de sua caminhada
pela eternidade.
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