sexta-feira, 18 de março de 2022

A DEMOCRACIA À LUZ DA FILOSOFIA DE PONDÉ


 

Winston Churchill disse que a democracia é um péssimo sistema de governo. O problema é que não há outro melhor que ela. Em um mundo no qual o totalitarismo e o autoritarismo ainda se fazem presentes, uma das virtudes de um sistema democrático sólido é que ele não permite que nenhuma pessoa ou instituição tenha poderes ilimitados. Em uma democracia verdadeira, ninguém pode tudo. Cada poder e cada instituição cumprem seu papel, sem extrapolar seus limitas. Essa é a visão formal do regime democrático, que está nos livros de ciências sociais, jurídicas e políticas.

Neste texto, no entanto, vou deixar de lado as definições tradicionais sobre democracia e tentar analisá-la pela visão de um filósofo contemporâneo pragmático. Por isso, escolhi Luiz Felipe Pondé, um filósofo midiático, dos novos tempos.

Em seu livro FILOSOFIA PARA CORAJOSOS (1ª edição, Editoral Planeta, de 2016, páginas 131 a 134), Pondé faz algumas considerações muito interessantes sobre a democracia, que fazem a gente, de início, se chocar um pouco, mas, após alguma reflexão e lendo os argumentos do autor, nos parecem perfeitamente coerentes.

Segundo Pondé, por sua soberania na chamada vontade popular, a democracia desaguaria na crença de que a sociedade carrega em si alguma forma de “verdade moral”. Mas, segundo o próprio autor, toda moral pública é hipócrita. Ou seja, o público é hipócrita e nada tem a ver com alguma ideia de verdade. Ele conclui que, na democracia o que importa é a maioria, e não a verdade sobre coisa alguma. Platão, segundo ele, já apontava que a tendência da democracia é ser demagógica.

Irônico, Pondé afirma: “Antes que algum inteligentinho (sic) perdido na leitura deste livro me acuse de antidemocrático, devo dizer que a democracia é, de todos os regimes ruins em política, o menos pior, com certeza. E para manter essa “vantagem” da democracia sobre seus sistemas competidores, devemos lembrar suas fraquezas, coisa que o povo na democracia, como já disse Alexis de Tocqueville no século XIX em sua visita aos Estados Unidos, não gosta de ouvir porque a democracia na democracia é um dogma a ser amado”.

Pondé volta a se basear em Platão, ao dizer que em um regime pautado em opiniões variadas e pela contagem delas, o essencial é o número. Assim, ele conclui que a democracia é um regime de quantidades, e, nesse caso, os idiotas (citando Nelson Rodrigues) são sempre a maioria. E Pondé esclarece que uma das faces dessa idiotice da maioria é supor que a transparência na gestão da coisa pública, algo desejável em um governo, implica a transparência da verdade moral. Sempre que se afirma um valor em público, essa afirmação é, em grande medida, segundo Pondé, uma farsa a serviço do resultado esperado em termos de contagem de votos a favor ou contra o que você quer.

E Pondé vai ainda mais longe em suas considerações cruéis mas realistas sobre a democracia. Segundo ele, outro motivo para a democracia ser parceira da hipocrisia pública é sua dependência da adulação da opinião pública. Segundo Pondé, isso afeta desde os candidatos em uma eleição (política, segundo ele, é marketing) até artistas que vendem música: todos devem adular a opinião pública.

Pondé conclui que essa dependência da opinião pública, que leva todos a adular os idiotas, faz da democracia um simples regime de mercado. Dessa forma, Luiz Felipe Pondé conclui que a tendência da mentira na democracia é, no limite, uma tendência ao marketing. O que conta é a aparência. Pondé, inclusive, lembra que os defensores da democracia na Grécia Antiga eram os sofistas, que negavam a existência de qualquer verdade e reduziam o conhecimento à retórica. Por isso, Pondé finaliza seu texto dizendo: “Então, quando eu ouço alguém gritar contra a mentira na democracia, sempre sinto um cheiro de Papai Noel no ar”.

Apesar de tudo isso, não há como tirar a razão de Churchill. A democracia está longe de ser a panaceia para todos os problemas da sociedade. Muito pelo contrário: ela pode até criar mais problemas, disputas, polarizações político-ideológicas. pode ter seus defeitos, suas imperfeições, suas incoerências, mas ainda não conseguiram inventar um sistema melhor que ela.



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sexta-feira, 9 de julho de 2021

A ESCOLHA DE LAMPIÃO



Naquela noite distante de 27 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o Rei do Cangaço, acampou com seu bando na fazenda Angicos, no município de Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Tranquilos, pois o local era considerado seguro como esconderijo, todos foram dormir. De repente, Lampião é acordado. Alguém o chamava:

Virgulino! Virgulino!

Lampião acordou e logo já estava com seu rifle posicionado. Quando saiu de sua barraca, na qual Maria Bonita dormia profundamente, ele viu um homem estranho. Estava escuro, pois, por segurança, todos as lamparinas e lampiões do acampamento foram apagados. Havia chovido, o céu estava encoberto. Mas aquele estranho homem parecia ser iluminado por uma luz que não se sabia de onde vinha. O homem vestia roupa de cangaceiro, mas, na cabeça, em vez de um chapéu de meia-lua, tinha um quepe igual aos dos soldados das volantes. Lampião não pensou duas vezes e deu vários tiros no homem, que nem se abalou. As balas atravessaram o corpo dele como se passassem por uma nuvem de fumaça, não lhe causando nenhum ferimento, enquanto ele permanecia ali, impassível, olhando fixa e friamente para Lampião. Após os tiros, o estranho homem só disse:

Poupe sua munição, Virgulino! Seu brinquedo não pode me matar.

Suas balas nada podiam fazer contra aquele estranho possível inimigo. Isso fez Lampião sentir algo que ele nunca sentira em sua vida: medo. Aterrorizado com aquela criatura sinistra, com a qual nem seu rifle, nem todo seu bando podiam, ele começou a suar frio. Então, perguntou ao homem:

Tu é o Demônio? Só pode sê o Demônio.

Possa ser! Possa ser! — respondeu o homem.

O que tu qué de mim, Tinhoso?

Mas o homem ignorou a pergunta de Lampião e começou a falar, com calma, voz baixa e devagar:

Virgulino, um homem, em sua vida, pode escolher dois caminhos: o caminho do bem e o caminho do mal. O caminho do bem é difícil, Virgulino. Algumas vezes, tem muito sofrimento, muita dor, muita dificuldade, a jornada é difícil. É preciso ter coragem, fé e perseverança. As provações não são fáceis, Virgulino. Mas, no final da jornada, Deus recebe esse homem em seus braços. Já o caminho do mal muitas vezes é até bom, divertido, alegre. Veja o teu caso, Virgulino. Olhe o que tu já aprontou. Este sertão todo tem medo de tu. Tu tá famoso, teu nome saiu até em jornal do estrangeiro. Mas tua jornada está chegando ao fim, Virgulino. É hora do acerto de contas. Tu fez muita maldade, Virgulino. Muita maldade.

Congelado pelo medo, coisa que nunca sentira antes, Lampião pergunta ao homem:

Tu vai me matá, é?

Não, Virgulino. Não sou eu que vou te matar. Quem vai ter matar é um cabra que tu conhece bem. Mas tu tem uma chance de se livrar dele.

E qual a chance? — pergunta Lampião ansioso.

Virgulino, apesar de teus crimes, das barbaridades que tu fez na vida, tem muita gente que gosta de tu, acha que tu é um herói do povo pobre e tal. A maioria dessa gente simples e sofredora do sertão nordestino gosta de tu. Por isso, Deus está te dando uma chance. Tu tem que te arrepender de teus pecados, Virgulino, de teus crimes, abandonar essa vida e viver como um homem de bem. Mas tu tem que fazer isso agora, neste momento, perante mim, de todo teu coração, Virgulino. Se tem uma coisa que Deus conhece bem, Virgulino, é o coração do homem. Se tu se arrepender agora, tua vida pode se prolongar. Mas, para continuar vivendo, tu tem que deixar o cangaço e virar um homem de bem, Virgulino.

Oxente! E meu bando? Eles dependem de mim — reage Virgulino.

Cada um tem que tomar o seu caminho, Virgulino. Tu toma o teu, os teus cabras tomam o deles. Tu tem que abandonar essa vida, Virgulino, se quiser te salvar. Agora. Tua decisão é agora.

Olhe, homem ou seja lá o que tu fô, eu nunca matei ninguém que antes não tivesse querido me matar, ou me trair. Matei, sim, matei muita gente. Mas todo mundo que matei é gente que merecia morrer, gente que não prestava. Não posso abandonar meu bando. Esses cabras dependem de mim. Meu padrinho padre Cícero sabe disso.

Então tu não te arrepende de teus crimes, Virgulino? Pense bem, homem. É tua chance de te salvar — diz o homem.

Lampião, o Rei do Cangaço, que já enfrentou tantos perigos, sua frio, se sente acuado, com medo, na verdade, estava em pânico, com o coração quase saindo pela boca. Naquele momento, toda sua vida, desde sua infância, em Vila Bela, lhe passou pela cabeça. Lembrou-se do assassinato do pai, em 1919. Sua cabeça fez uma viagem no tempo, relembrando tudo por que ele havia passado, os crimes que cometera, as cidades que invadira. Ficou ali por vários minutos, refletindo, pensando, enquanto aquele estranho homem permanecia ali, em sua frente, quieto, observando-o e aguardando sua resposta. Aí, então, ele olhou firmemente para aquela estranha criatura, que ele não sabia se era Deus ou o Diabo, o Bem ou o Mal, e disse:

Olhe, seu moço ou sei lá o que tu é, entrei nessa vida sabendo que tava contra a lei, contra o puder, contra o guverno. Tudo começô quando a polícia matou meu pai. Jurei que ia vingá a morte dele. E vinguei. Fiz muita maldade nesse mundo, eu sei disso. Fiz coisa que num devia tê feito. Mas também fiz justiça, matei muita gente que era tão ruim ou pior que eu, gente que explorava pobre, gente que fez coisa até pior que eu fiz. Meu nome e minha fotografia saiu, sim, no jornal dos estrangeiros. Hoje sô conhecido no Brasil e até no mundo. Assim, pelo menos eu tô ajudando o povo do Brasil e até do estrangeiro a conhecê a vida dura do povo daqui do Norte, que passa fome, que é explorado, que sofre com a seca. Olha, seu moço, se tá errado ou tá certo, o que eu fiz tá feito e não tem como desfazê. Se eu mudá de vida agora, não vai trazê esse povo que matei de volta, não vai muda a vida dura do povo do sertão. Além disso, a Justiça Divina pode me perdoá, até a Justiça do homem pode me perdoar. Tão falando por aí numa tal de anistia para cangaceiro que se entragá. Mas muita gente por aí não vai me perdoá pelo que fiz. Mesmo que eu vire santo feito meu padim padre Cícero Romão Batista, muita gente não vai me perdoá, moço. Nunca vou tê sossego nessa vida.

Esta é tua decisão, Virgulino? — pergunta o homem.

Sim, senhô. Se diante de Deus tenho que pagá pelo que fiz, é o que tem que sê feito.

Então assim será! Adeus, Virgulino — disse aquele estranho homem, cuja imagem foi se dissipando aos poucos aos olhos de Lampião.

Lampião, então, acorda, assustado. Tinha sido um sonho, ou um pesadelo. Mal ele abre os olhos e vê Maria Bonita já de pé preparando o café. Em seguida ouve o grito do vigia:

A volante! Os macaco da polícia!

Não deu tempo nem de se levantar e pegar no rifle. O bando foi pego de surpresa. Quando os policiais comandados pelo tenente João Bezerra e pelo sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo os cangaceiros de Lampião não tiveram tempo de tentar nenhuma reação. Dizem que o ataque da polícia teria durado uns vinte minutos e poucos do bando de Lampião conseguiram escapar. Lampião teria sido um dos primeiros do bando a morrer.


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terça-feira, 18 de maio de 2021

CAMINHANDO PELA ETERNIDADE

 


Dona Lourdes era a típica mãezona, era muito preocupada e carinhosa com os filhos. Era muito religiosa. Ao contrário de seu irmão, Juca, que era ateu convicto. Apesar de seu materialismo, Seu Juca, como era conhecido, era o típico boa praça. Tinha um bom coração, ajudava a todos que o procuravam, sempre simpático e solícito. Um pouco diferente de sua irmã Dona Lourdes, que era mais sistemática e desconfiada, embora fosse uma boa pessoa, honesta e muito correta.

Um dia, Dona Lourdes queria ver seu neto que havia nascido, mas morava em uma cidade distante. Ela então pediu a seu irmão que a levasse de carro até lá para visitar o filho e o neto recém-nascido.

Na viagem de volta, um pequeno descuido de Seu Juca ao volante, causado por uma cochilada momentânea, foi fatal, e o carro no qual estavam acabou se chocando violentamente com outro veículo.

— oOoOoOoOo —


Aos poucos, Dona Lourdes foi recobrando os sentidos e se dando conta de que estava em um quarto, provavelmente em um hospital. Era um quarto todo branco, com mesinhas também brancas, uma delas com um vazo com flores muito coloridas. Era um ambiente agradável, tranquilo. Afinal de contas, o que acontecera? — pensava. Mas, aos poucos, começava a se lembrar da viagem, do irmão e, enfim, do acidente. Nossa! Onde será que estou, em que hospital. Cadê o Juca, meu marido, meus filhos, netos. Cadê todo o mundo, perguntava-se ela, já sentada na cama.

Nisso, batem à porta. Entra um homem, todo vestido de branco, com um sorriso cativante e um olhar alegre, simpático.

— Como está, minha irmã? Tudo bem? — disse sorrindo o homem.

— Parece que estou bem, sim, mas… Onde estou? O senhor…

De repente, Dona Lourdes percebeu que já conhecia aquele homem, mas não sabia de onde ou de quando. Ele mesmo, então, lhe falou, sempre de modo muito gentil e carinhoso:

— Sim, minha irmã, nós já nos conhecemos. Mas tenha calma! Com o tempo, as coisas vão ser esclarecidas. Todas as suas perguntas e questionamentos serão respondidas. Acalme-se!

— O senhor é médico? — perguntou Dona Lourdes ao homem.

— Sim, minha irmã. Além disso, sou um dos coordenadores deste Centro de Recuperação.

— Um hospital?

— De certa forma, sim, minha irmã.

— De certa forma? Olha, doutor, está tudo muito estranho. Eu mesma estou me sentindo estranha. Estou me sentindo diferente, sou míope, tenho que usar óculos, mas, mesmo sem óculos, estou vendo tudo perfeito. Eu sofri um acidente, pelo que me lembro. Deveria estar com pelo menos algum machucado ou, no mínimo, um arranhão. Estou perfeita.

O homem, então, aproxima-se de Dona Lourdes, puxa uma cadeira, senta-se e pergunta a ela:

— A irmã Lourdes é uma pessoa religiosa?

— Sim, muito!

— Se a irmã é religiosa e acredita em Deus, também deve crer na vida eterna, não é mesmo?

A observação do homem causou uma espécie de choque em Dona Lourdes.

— Meu Deus! Então eu… Eu morri? — disse ela, colocando as mãos sobre a cabeça.

— Minha irmã — diz o homem, sempre de forma carinhosa e gentil, a morte não existe.

— Como, não existe? Eu devo estar lá a esta hora, morta, sendo velada por minha família, que deve estar chorando por minha perda. E agora? — diz Dona Lourdes, indignada e já chorando.

— Minha irmã, o que está lá não é você, e sim apenas um corpo. Você, a própria, está aqui, agora, conversando comigo.

— E meu marido, meus filhos, meus netos e…?

— Eles vão continuar por lá por mais algum tempo, cumprindo suas missões. Como você já terminou as suas, já está aqui.

— Cumprindo missão?! Até no plano divino, tudo é uma grande burocracia. “Você tem que morrer porque já cumpriu sua missão”. Danem-se os filhos, os netos, os vínculos familiares, os sentimentos, danem-se a dor, a perda, o sofrimento. O que importa é cumprir os desígnios do Todo Poderoso. Cadê a misericórdia de Deus, como me ensinaram na Igreja? — disse Dona Lourdes, revoltada.

— Minha irmã — respondeu-lhe calmamente o homem de branco —, eu compreendo sua indignação, sua revolta. Deparo com isso todos os dias, há séculos. Mas logo, a seu tempo, compreenderá tudo. O ser humano está longe ainda de entender certas coisas. É como uma criança de dois anos passeando com os pais em um centro de compras e vê um lindo brinquedo exposto. Ela quer, a todo custo, aquele brinquedo. No entendimento dela, basta os pais pegarem o brinquedo e lhe darem ou permitirem que ela pegue o brinquedo e fique com ele. Ela não entende que há regras, que seus pais não podem simplesmente pegar o brinquedo e lhe dar, já que, obviamente, eles teriam que comprar o brinquedo. A criança, pequena, imatura, envolta em seu pequeno mundo, ainda não tem capacidade de entender as complexas regras dos adultos. Quando também não conseguimos entender os mistérios da vida e do Universo, quase sempre agimos assim, como a criança na loja de brinquedos.

Dona Lourdes se acalma. Havia se levantado da cama. Ficara de pé quando disparou sua revolta, mas voltou a se sentar e perguntou ao homem de branco:

— O senhor me perdoe! Mas, afinal de contas, quem é o senhor e o que será de mim agora?

O homem sorri e lhe diz:

— Perdoe-me, minha irmã. Não me apresentei. Meu nome é Petrônio, faço parte da equipe deste centro de recuperação onde está agora. Vou cuidar da irmã e orientá-la. Mas a irmã é livre para agir e tem toda a eternidade para decidir o que vai fazer em sua existência. Mas estou encarregado de orientá-la e lhe atribuir alguma missão ou trabalho, caso esteja disposta a continuar seu processo de evolução.

— Claro que quero evoluir. Não quero me tomar uma alma errante, perdida! Sempre fui uma pessoa religiosa, de muita fé e, sobretudo, ativa.

Petrônio, então, junta as mãos, num gesto de felicidade pela decisão de Dona Lourdes e diz:

— Que bom, minha irmã! Terei a maior alegria e satisfação em orientá-la!

Mas, nesse momento, Dona Lourdes lembrou-se de que seu Irmão Juca era quem estava dirigindo o carro. O que teria acontecido com ele? Antes que ela perguntasse, Irmão Petrônio, como era conhecido, lhe adiantou:

— Seu irmão Juca também está aqui. Em breve, poderá encontrá-lo. Mas antes a irmã terá de passar um tempo na área de Aperfeiçoamento Moral e Espiritual. Seu irmão, no entanto, foi dispensado dessa fase. Ele irá diretamente para os grupos de trabalho.

Dona Lourdes espantou-se.

— Mas Juca era ateu, não acreditava em nada.

— E o que tem isso, irmã? Estar aqui e descobrir que a morte terrena não é o fim já foi o suficiente para mudar a opinião dele — disse Petrônio.

— Perdoe-me, irmão Petrônio — se me permite chamá-lo assim —, mas o que não estou entendendo é que sempre fui uma pessoa religiosa, sempre lia a Bíblia, ia à igreja, mas terei que me aperfeiçoar moralmente e espiritualmente. Já meu irmão, que sempre foi incrédulo, ateu, nunca leu a Bíblia, não precisa de aperfeiçoamento moral e espiritual. Não estou reclamando, irmão Petrônio. Só estou achando estranho.

— Irmão Petrônio é exatamente como todos me chamam aqui, irmã Lourdes. Eu compreendo perfeitamente sua surpresa. É natural. Mas aqui a pessoa, ou seja, a consciência, é avaliada pelo que ela realmente é, no mais profundo de sua alma, e não pelo que ela parece ser ou tenta parecer que é.

— Não compreendi, irmão Petrônio.

— A irmã, por exemplo, sempre foi uma mulher religiosa, frequentava regularmente sua igreja, lia a Bíblia, fazia suas orações, assistia a preleções de pregadores, filmes sobre religião. No entanto, a irmão, tinha um coração duro, rancoroso, era extremamente ciumenta em relação aos filhos, era preconceituosa, racista, às vezes tratava mal pessoas que trabalhavam para você.

Dona Lourdes se assusta com a análise precisa feita pelo irmão Petrônio.

— Nossa, irmão! Eu nem percebia que era tudo isso.

— Geralmente as pessoas não se dão conta dos próprios defeitos, minha irmã. Os vícios estão tão embutidos em suas personalidades, que a própria pessoa não têm consciência deles. Por isso, julgam-se a mais perfeita das criaturas — diz irmão Petrõnio.

— Mas e o Juca, irmão Petrônio?

— Seu irmão Juca era ateu, realmente, não acreditava em nada, nunca leu a Bíblia, desde sua adolescência nunca mais entrou em um templo religioso. Mas isso não fez dele uma pessoa ruim. Pelo contrário, seu irmão era sinceramente bom, tinha o coração puro, não media esforços para ajudar seus semelhantes, caridoso, carinhoso com as pessoas, alegre, sempre de bem com a vida, não tinha preconceitos, nunca falava mal de ninguém. Claro que, como todo ser humano, não era perfeito, mas o fato de ele ser ateu demonstra que era bom por princípios, e não por medo de castigos divinos ou coisa desse tipo. Por isso, ele não precisa passar por aperfeiçoamento moral e espiritual.

— Irmão Petrônio, mas a Bíblia diz…

— A Bíblia, irmã, embora seja uma das mais belas, ricas e valiosas das obras literárias, históricas, filosóficas e religiosas da Humanidade, é apenas uma coletânea de textos muito antigos, escritos por escribas de um povo primitivo, que acreditava em um deus humano, que tinha complexo de exclusividade, era ciumento, vingativo, arrogante e até genocida. A chamada Providência Divina, minha irmã, ou Deus, como queira, está acima dos sentimentos e das fraquezas humanas. Na verdade, Deus não existe. Deus é. Você não está nEle, mas Ele está em você, quer você acredite ou não nEle. É o caso de seu irmão, que era ateu. Mesmo assim Deus estava, está e sempre estará nele.

— Irmão Petrônio, e as religiões, as igrejas? Hoje em dia, na Terra, há milhares de igrejas, centenas de religiões. O que as igrejas pregam, o que a Bíblia diz está tudo errado então? — questiona Dona Lourdes, chocada.

— Não, minha irmã, de forma alguma. As religiões, as igrejas, são importantes e têm um papel relevante na formação moral do ser humano, mas são instituições humanas, têm suas falhas, têm suas virtudes, mas também têm seus vícios. Mas Deus é Deus, irmã, Ele está acima das religiões, acima das crenças, dos rituais, dos livros considerados sagrados. As religiões, principalmente as abraâmicas, apresentam a seus fiéis um deus humano, moralista, ciumento, exclusivista e até vingativo, que condena ou perdoa, conforme sua “vontade”, seus “caprichos”. Deus é Deus, criador, é o princípio, a essência e o fim de todas as coisas. Ele não é uma criatura, que tem vontade, que tem opinião, que tem sentimentos humanos. Ele está em todos nós, em todos os seres humanos, mesmo nos ateus.

— Nossa! O conceito de Deus é mais difícil de entender do que imaginava! — diz Dona Lourdes.

— Na verdade, é quase impossível ao homem, por mais culto e erudito que ele seja, entender o que é Deus realmente. Deus, a Consciência Divina, a Providência ou seja lá o nome que Lhe se queira dar, é algo ainda incompreensível à consciência humana, está além de seu entendimento. Lembra da criança na loja de brinquedos?

— Irmão Petrônio, e o pecado? — pergunta Dona Lourdes.

— As religiões, especialmente as abraâmicas, estabelecem listas e categorias de pecados, como os capitais, ou seja, aqueles mais graves, os mais leves e tal. Tudo isso, irmã, embora sejam atribuídos a Deus, são conceitos humanos. Segundo seus livros sagrados e os dogmas dessas religiões, pecado é tudo aquilo que “não agrada ou desagrada a Deus”. Isso é para fins de doutrinação do fiel. Para doutrinar seus fiéis, as religiões têm que estabelecer parâmetros. Na verdade, irmã, pecado é tudo aquilo que praticamos mesmo sabendo que faz mal a nós mesmos e/ou a outrem. Quando você pratica alguma coisa, mesmo sabendo que aquilo é prejudicial, danoso, nocivo ou até letal a você e/ou a outra pessoa ou às pessoas em geral, seja o que for, é pecado.

— Que curioso! Quer dizer que, quando eu como determinado alimento, mesmo sabendo que esse alimento pode ou vai me fazer mal, estou cometendo pecado? — pergunta Dona Lourdes com um leve sorriso.

— Sim, está cometendo um pecado contra você mesma, irmã. Tudo é permitido ao ser humano, irmã, ele goza de livre arbítrio. Cabe a ela decidir o que lhe convém. Não há castigo divino para os pecados. Há consequências, que geralmente não são boas.

Dona Lourdes, então, toma consciência de que vive, agora, uma nova realidade, está em uma outra dimensão, em um outro plano de vida. Então pergunta ao irmão Petrônio:

— Irmão Petrônio, o que será de mim agora?

— A irmã é livre. Pode fazer o que bem entender. Mas minha orientação, se quiser aceitar, é de que se junte a nós. Mas, antes, deverá passar por um processo de aperfeiçoamento moral e espiritual. É uma espécie de curso, de um estudo, para que a irmã se inteire mais sobre sua nova realidade. Depois, poderá se juntar a nós e iniciar uma atividade. Mas antes vamos conhecer seu novo mundo. Há algumas pessoas que a querem ver, ou seja, rever — diz o irmão Petrônio, sorrindo.

— Vou poder rever meus entes queridos que já haviam morrido? Nossa! Será que estou preparada para reencontrá-los?

— Claro que está, irmã. Vamos lá?

— Irmão Petrônio, quando entrou no quarto, senti que já o conheço. O próprio irmão confirmou isso. Apesar da impressão que sinto, não me lembro de onde e de quanto nos conhecemos.

— Calma, irmã! Aos poucos, vai se lembra de onde e de quando já me conhece, assim como se lembrará de outras coisas, que ficaram apagadas de sua memória durante sua vida na Terra, aos poucos vão reaparecer em sua memória.

E assim, enquanto sua família chorava sua perda, aqui na Terra, Dona Lourdes se preparava para começar uma nova etapa de sua caminhada pela eternidade.


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sexta-feira, 19 de março de 2021

NOÇÕES BÁSICAS DE POLÍTICA E CIDADANIA

política pode ser definida como o conjunto de atividades ligadas à organização, direção e administração das coisas públicas. Na sociedade contemporânea relaciona-se ainda às ações de interesse coletivo que envolvem diversos setores da sociedade civil.

Etimologicamente, a palavra política vem de pólis — cidade em grego. Ou seja, seu significado inicial relacionava-se aos assuntos urbanos, civis, vinculados aos interesses públicos. Enfim, semântica e etimologicamente: política (cidade) nos leva à palavra cidadania, que é o exercício pleno pelo indivíduo, o cidadão, do conjunto de direitos e deveres decorrentes de seu compromisso natural com o Estado e com a sociedade. O documentos que funciona como referência para o exercício da cidadania no mundo contemporâneo é a Declaração Universal dos Direito Humanos, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948, que define os direitos básicos do ser humano.

A palavra Estado define qualquer território ou conjunto de territórios, politicamente organizado, com leis próprias e sujeitos à mesma autoridade ou jurisdição. Estado também pode designar o conjunto dos poderes políticos de uma nação, como Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando nos referimos a Estado como instituição, ou seja, o Poder Público, a palavra serve para todos as esferas: municipal, estadual e federal. O Estado, nesse caso, é o Poder Público. Há países, como o Brasil e Estados Unidos, em que a palavra Estado também nomeia as entidades da Federação: Estado de São Paulo, Estado do Paraná, Estado do Mato Grosso do Sul, Estado do Texas, Estado do Arizona, etc.

Todo clube ou associação, para ter existência jurídica, tem que ter um estatuto, assim como uma empresa tem que ter um contrato social ou coisa assim. Um país, para existir precisa ter um arcabouço jurídico cuja base principal é uma lei maior chamada Constituição, também conhecida como Carta Magna ou Carta Constituição ou Carta Constitucional, que é o conjunto de leis fundamentais que regula a organização política e social de um Estado nacional e estabelece os direitos e deveres básicos de seus cidadãos. Nem todos os países, no entanto, têm Constituição escrita. É o caso, por exemplo, de Israel e Reino Unido, onde as leis formam o arcabouço constitucional. No Brasil, está em vigor a sétima Constituição da história do País, promulgada em 05/10/1988. Já tivemos a Constituição do Império, de 1824, a da República Velha, de 1891, a de 1934 (Governo Provisório de Getúlio Vargas), a de 1937 (Estado Novo), a de 1946 (redemocratização), e a de 1967 (regime militar).

FORMAS DE GOVERNO

Ao longo da História, o mundo conheceu muitas formas de governos, desde os chefes tribais e os reis absolutistas até as formas mais modernas de gestão pública. Mas já na Grécia AntigaAristóteles falava em democracia (do grego antigo = 'povo' + *kratía = 'força, poder'), ou seja, governo do povo. No entanto, as democracias modernas são regimes baseado na soberania popular e no direito universal à participação política, garantido por um conjunto de regras, geralmente escrito na Constituição, que permitem a todo cidadão e grupos sociais escolher seus governantes e disputar o poder político. Por meio de representação (os parlamentos), os cidadãos participam, direta ou indiretamente, das estruturas de poder do Estado e participam das decisões coletivas. Em síntese, é o que chamamos, hoje, de democracia.

Além de permitir, pelo menos em tese, a participação do cidadão nas decisões de interesse público e permitir que ele escolha seus representantes e governantes, a democracia não permite que nenhuma pessoa ou instituição detenha o poder absoluto. Em uma democracia, o poder de decisão é dividido. Ninguém pode tudo. É por isso que, na maioria dos países, hoje, o modelo de governo adotado, baseia-se na existência de três poderes que dividem a incumbência de gerir a vida pública. Em linhas gerais, esses poderes separam as funções de governar, legislar e administrar e aplicar a justiça, evitando, assim, a concentração de poder em um único grupo social. É por isso que, na maioria das democracias modernas, hoje, o Estado está dividido em três poderes básicos: ExecutivoLegislativo Judiciário.

PODER EXETUTIVO
PODER LEGISLATIVO
PODER JUDICIÁRIO
Nível federal
Nível Federal
Nível Federal
Presidente da República e seus ministérios
Câmara dos Deputados e Senado (Congresso Nacional)
STF (Suprimo Tribunal Federal), STJ (Superior Tribunal de Justiça) TST (Tribunal Superior do Trabalho) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral)
Nível estadual
Nível estadual
Nível estadual
Governador do Estado e seu secretariado
Assembleia Legislativa
Tribunal de Justiça Estadual
Nível municipal
Nível municipal
Nível municipal
Prefeito e seu secretariado
Câmara de Vereadores
Juízo de Direito e Juizo Eleitoral

Cada poder, em cada uma das esferas federal, estadual e municipal, tem suas atribuições e prerrogativas. São poderes independentes e harmônicos entre si. Claro que, dependendo da sua esfera desses poderes, há diferenças. Mas, em síntese, as atribuições de cada um deles são as seguintes:

a)    PODER EXECUTIVO — governar e aplicar as leis;
b)    PODER LEGISLATIVO — propor e elaborar as leis e fiscalizar o Poder Executivo.
c)     PODER JUDICIÁRIO — julgar as demandas da sociedade, aplicar a Justiça, garantindo o cumprimento das leis e o respeito aos direitos individuais e coletivos.

Existem, hoje, no mundo, várias formas de governo. Em linhas gerais, o que predomina na maioria dos países é a República, em seus mais variados matizes. Ainda há monarquias no mundo. No entanto, na maioria dos países onde onde o regime de governo é o monárquico, os reis, rainhas, imperadores exercem apenas o cargo de chefe de Estado e têm funções apenas protocolares, quase uma figura decorativa. Geralmente, são regimes parlamentaristas e quem governa mesmo é um primeiro-ministro, que é o chefe de governo. Na verdade, hoje em dia, só em alguns países do mundo os monarcas (reis, imperadores, etc.) ainda mantêm o poder absoluto:  Brunei, Catar, Omã, Arábia Saudita, Essuatíni (antiga Suazilândia, na África) e Emirados Árabes Unidos. Poderia, ainda, citar o Estado do Vaticano, que é governado pelo Papa, que tem, em tese, poder absoluto. No entanto, ele foge um pouco à regra pelo fato de ser eleito.

PRESIDENCIALISMO E PARLAMENTARISMO

Falamos aqui da divisão do Estado entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. No entanto, a forma de exercício do Poder Executivo varia de um país para o outro, havendo dois modelos básicos de República: o presidencialismo e o parlamentarismo.

PRESIDENCIALISMO — É o sistema adotado pelo Brasil, no qual o Poder Executivo é chefiado por um presidente da República, eleito diretamente pelo povo, em eleições majoritárias, para um mandato fixo, independentemente do parlamento. No presidencialismo, o presidente da República acumula as funções de chefe de governo (que governa de fato) e de chefe de Estado (que representa o Brasil). As formas de presidencialismo podem variar de um país para o outro, mas geralmente a predominante são as dos modelos brasileiro e norte-americano.

PARLAMENTARISMO — É a forma de governo adotada pela maioria dos países da Europa Ocidental, como Portugal, Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha, Dinamarca, Suécia, etc. A chefe de governo (primeiro-ministro ou chanceler) é eleito pelo parlamento (geralmente entre os membros do partido majoritário). Geralmente, o primeiro ministro tem um mandato com prazo determinado, mas, se ele perder o voto de confiança do parlamento, pode sair a qualquer momento. Dependendo do país, a chefia de Estado pode ser exercida por um presidente da República, eleito, ou pelo parlamento ou diretamente pelo povo, também para um mandato fixo, ou por um monarca (rei, rainha, imperador, etc.). Dependendo da Constituição e das leis do país, no parlamentarismo, tanto o primeiro-ministro pode ser retirado do poder a qualquer tempo, como também, em caso de crise política, o parlamento pode ser dissolvido, por ato do chefe de Estado, e convocadas novas eleições para se eleger um novo parlamento.

Além do presidencialismo e do parlamentarismo, há um modelo misto, como o adotado pela França, que combina um Poder Executivo do tipo parlamentarista, com um chefe de Estado (presidente) eleito pelo voto direto, com amplos poderes políticos. O chefe de governo (primeir-ministro), que responde ao presidente. Nesse modelo, o parlamento tem tantos poderes quanto o presidente.

FASCISMO e COMUNISMO

Frequentemente, essas palavras são usadas com sentido pejorativo: comunismo e fascismo.

Vou tentar mais uma vez, obviamente, com base em uma pesquise, e não embasado somente em meus parcos conhecimentos, explicar o que é comunismo e o que é exatamente fascismo.  

FASCISMO — Em reação à situação social e econômica da Europa no final do século XIX e início do século XX, agravadas ainda mais pelos estragos causados pela Primeira Grande Guerra (1914-1918), surgiram diversos movimentos político-filosófico-sociais de caráter corporativista, antiliberal e antiburguês. Entre esses grupos, estavam os fascistas.

Em 1919, um milhão de trabalhadores entraram em greve na Itália. Foi nesse ambiente de crise que, em março de 1919, em Milão, o jornalista Benito Mussolini criou os Fasci di Combatimento e os Squadri (grupos de combate e esquadrão respectivamente). Estes tinham como objetivo combater por meios violentos os adversários políticos, em especial os comunistas. Fruto desses grupos, em novembro de 1921, foi fundado o Partido Nacional Fascista, que cresceu rapidamente: o número de filiados passou de 200 mil em 1919 para 300 mil em 1921. O movimento agrupava pessoas com tendências políticas e origens variadas: nacionalistas, anti-esquerdistas, contrarrevolucionários, ex-combatentes e desempregados. A palavra fascismo vem do latim fascio (feixe), pois um dos primeiros símbolos fascistas foi o fascio littorio, que era um machado envolvido num feixe de varas e era utilizado nas cerimônias do Império Romano como um símbolo de união.

Em outubro de 1922, durante o congresso do partido fascista realizado em Nápoles, Mussolini anunciou a "Marcha sobre Roma", na qual cinquenta mil camisas negras - o uniforme fascista - dirigiram-se para a capital. Impotente, o rei Vitor-Emanuel III convidou o líder dos fascistas, Benito Mussolini, para formar o Ministério. Nas eleições de 1924, fraudadas, os fascistas obtiveram 65% dos votos e em 1925, Mussolini torna-se o Duce ("líder", em italiano).

Mussolini começou, então, a implantar seu programa: acabou com as liberdades individuais, fechou e censurou jornais, anulou o poder do Senado e a Câmara dos Deputados, criou uma polícia política, responsável pela repressão. Dessa forma, aos poucos, foi instalando o regime ditatorial. O governo manteve as aparências de monarquia parlamentarista, mas Mussolini detinha plenos poderes.

A história do fascismo italiano vai, obviamente, até o final da Segunda Guerra mundial, com a morte de Benito Mussolini e a vitória dos aliados. Mas o fato é que, após os estragos causados por essa ideologia na Segunda Guerra Mundial, a palavra fascismo foi ganhando novos significados. Agora, nas primeiras décadas do século XXI, é comum denominarmos "fascismo" ou "fascista" um indivíduo ou movimento acusado de defende a repressão violenta para resolver problemas da sociedade. No entanto, é bom que fique claro que essa definição não tem relação com o que era o fascismo na Itália, na década de 20 e 30. Para os fascistas italianos da época, a violência era um meio para alcançar o poder, e não um fim. Ainda que tenham usado de métodos violentos em manifestações, os fascistas de Mussolini não foram diferentes de outros grupos que usaram das mesmas táticas na época.

Quem utilizou muito o termo “fascismo” e “fascista” para designar governos ou movimentos que julgavam autoritários e violentos foram alguns intelectuais de esquerda, principalmente da chamada “Escola de Franckfurt”, o que talvez explique o fato de esquerdistas de vários matizes costumarem rotular todo desafeto político seu como “fascista”.

Fascismo, então, virou sinônimo de violência, intolerância, preconceito, brutalidade, crueldade. Todo regime político, independentemente da ideologia ou conceitos, pode ser considerado fascista se usar da perseguição, da violência, de truculência, da tortura e de outros tipos de coerção que atente contra os princípios da Declaração Universal dos Direitos do Homem. 

COMUNISMO — O comunismo, de "comum", "comunidade", é, na verdade, uma das inúmeras utopias de um "mundo mais justo". Seria a última fase da revolução política e social idealizada por Karl Marx e Friedrich Engels, que, como resultado do triunfo das lutas do proletariado, seria uma sociedade ideal, com o fim do Estado, sem classes, sem propriedade privada sobre os meios de produção, com harmônica igualdade social e econômica para todos, sendo que os bens, que nessa fase serão produzidos “em abundância”, pois não haveria estruturas arcaicas que impediriam o constante desenvolvimento das forças produtivas, seriam distribuídos segundo as necessidades de cada um ("De cada um segundo sua capacidade; a cada um, segundo suas necessidades"). Comunismo vem de “comum”, ou seja, de todos, pois, quando esse regime triunfar, como dito acima, não haverá mais propriedade privada. Tudo será de todos.

Em suma, o comunismo é uma idealização de uma sociedade perfeita, de iguais, na qual todos são donos de tudo e ninguém é dono de nada ao mesmo tempo. Um mundo maravilhoso, justo, perfeito, no qual todos seríamos tratados como iguais.

Deu para perceber, obviamente, que se trata de uma utopia. Ou seja, o comunismo é uma coisa que, na verdade, não existe. Nenhum país do mundo, que adotou a revolução proletária marxista, como a União Soviética, a China, Cuba, Coreia do Norte e outros atingiram essa fase. Portanto, o comunismo, na verdade, nunca existiu de fato. Na verdade, nem o próprio socialismo existiu ou existe. O que existiu e ainda existe em alguns desses países é o simples ESTATISMO. O marxismo, como solução para se obter a equidade social e econômica de um povo, é mais que uma simples utopia. É uma farsa. Muito embora os ideais de esquerda tenham, de certa forma, contribuído para se contrapor aos abusos do capitalismo, o que contribuiu significativamente para a evolução das legislações trabalhistas e de avanços sociais em muitos países.

OS CRIMES DO "COMUNISMO" — PERSEGUIÇÃO, PRISÃO, TORTURA E MORTE

 

Praticamente todos os países nos quais foi implantada a revolução marxista, como União Soviética, China, Cuba, Coreia do Norte e outros, transformaram-se em ditaduras, regimes autoritários, que aboliram as liberdades individuais e coletivas, bem como de pensamento, opinião e de expressão.

Ocorre que, da mesma forma como ocorre com adeptos mais fervorosos e fanáticos de uma religião, os adeptos de uma ideologia também julgam que a "sua verdade" é a "única verdadeira" e a única que pode salvar o mundo; que as outras formas de governos e organizações sociais devem ser abolidas”. Isso, coletivamente, acaba criando, um sistema social fascista, opressor, no qual todos desconfiam de todos. Qualquer pensamento ou manifestação que saia um milímetro do paradigma estabelecido é visto como “traição”, “conspiração contra o povo e a Pátria”. É uma característica bem comum aos regimes fascistas. Aí, você me pergunta: o que havia nesse regimes era fascismo ou comunismo?

Na verdade esses regimes autoritários de inspiração marxista-leninista ou maoísta apesar de terem uma organização social e econômica inspiradas princípios do marxismo, com a coletivização dos meios de produção, economia planejada e aparente igualdade social, bem como de terem em suas pautas a defesa da ideias progressistas, acabaram adotando uma forma de governo bem próxima ao fascismo,. Podemos dizer, com certeza, hoje, que o maior dos fascistas da História não foi Mussolini, e sim Stalin, em cujo regime de 20 a 40 milhões de pessoas foram mortas acusadas de “crimes políticos”. Numericamente, o que podemos chamar de “fascismo de esquerda” (Stalin, Mao, Pol Por e outros) matou muito mais gente que o “fascismo de direita” (Hitler, Mussoini, Franco, Salazar, Pinochet e outros). Nesses regimes autoritários de inspiração marxista, o “progressismo”, a “luta por igualdade” eram só fachadas. Na verdade, na prática, o que há é um sistema de governo fascista e opressor. O socialismo, o comunismo, a igualdade, a justiça social só ficavam nos discursos.

ONDE O SOCILISMO, AFINAL DEU CERTO?

Os únicos sistemas de governo de inspiração esquerdistas que, de certa forma, deram certo e se tornaram em exemplos de regimes democráticos foi o adotado por países do norte da Europa (Suécia, Noruega, Finlândia), a social-democracia, ou o chamado “socialismo Fabiano” (o nome está relacionado ao cônsul do Império Romano Fábio Máximo), cujo movimento nasceu na Ingleterra, mas criou raízes mesmo foi nas regiões nórdicas. É, na verdade, uma mistura de socialismo e capitalismo, com uma presença forte do estado e do chamado “bem estar social”. No entanto, é difícil dizer se o sucesso desse sistema no norte da Europa se deve ao próprio sistema ou à avançada educação e cultura do povo nórdico, que é extremamente organizado.

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Aliás, conta-se que dois cubanos conversavam em frente à antiga fábrica da Coca-Cola em Cuba, cerca de dois anos após a Revolução. Um disse ao outro:
— Fernando, esta fábrica fue nacionalizada por el gobierno socialista de Cuba.
— Sí, por supuesto.
— Así que ahora esta fábrica también me pertenece a mí.
— ¿Por qué?
— Cuba es ahora un país socialista. No hay más propiedades privadas. La gente es dueña de todo ahora. Pronto tendremos una sociedad más justa y no habrá pobres.
— ¿Realmente crees eso?
— Por supuesto que sí. Soy socialista.
— No creo que seas socialista por pensar eso.
— ¿Y qué soy entonces?
— Un idiota.

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terça-feira, 9 de março de 2021

REFLEXÃO E SENSATEZ

Entre o militar insano e o sindicalista pilantra,
prefiro a sensatez e a honestidade.
Entre o falso moralismo e a hipocrisia progressista,
prefiro a sinceridade e a tolerância.
Entre as crendices das religiões e os delírios das ideologias,
prefiro a lucidez da ciência e a certeza íntima da fé.
Está na hora de substituirmos de vez:
o oportunismo pelo idealismo,
a demagogia pela verdade,
o discurso pela ação.
Por um Brasil livre
dos populistas,
dos falsos profetas,
dos vendedores de ilusão e
dos palhaços de palanque.


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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O PERIGOSO PODER DA PALAVRA

 


Era uma vez um país distante, que perdera uma guerra e fora obrigado a assinar um tratado humilhante para seu povo. Um grupo de pessoas, então, indignadas com aquilo, decidiu criar um novo partido político. Mas, para que as ideias do novo partido caíssem na graça do povo, precisavam de um líder, de alguém carismático que pudesse levar à população, de um jeito simples e direito, as ideias daquele movimento.

Algum tempo depois, estavam eles reunidos para discutir as ideias daquele novo movimento político, quando apareceu alguém, aparentando ser um militar de baixa patente, para assistir à reunião. Como aquele homem fazia anotações seguidas, logo perceberam que ele estava ali para espionar a reunião. Mesmo assim, não deram importância à sua presença e continuaram a reunião.

De repente, o homem parou de fazer anotações e ficou ouvindo atentamente o que os participantes da reunião diziam. Depois, ele mesmo pediu a palavra. Autorizado a falar, fez um longo, empolgado e eloquente discurso, que deixou a todos impressionados. Foi aí que um dos presentes disse em sua língua (alemão):

Dieser Mann ist unser Führer (Este homem será nosso guia).

Aquele homem era, nada mais, nada menos, que Adolf Hitler. Nascia, naquele momento, em razão de um discurso eloquente, o movimento político-ideológico mais autoritário, cruel e desumano que a humanidade já conheceu: o nazismo.

A palavra é o mais eficiente instrumento de influência e manipulação que existe.

Não se iluda: o objetivo de um bom discurso, seja político, filosófico, jurídico, religioso, é influenciar e manipular pessoas, quanto mais, melhor. E, para isso, há um variado número de técnicas, muito embora, muitos oradores criem as suas próprias.

O primeiro passo é, logo de início, o orador deve chamar a atenção do público para si.

Para isso, há uma infinidade de coisas que podem ser feitas, tais como:

  1. contar uma história (fictícia ou verdadeira), na qual o orador embasará seu discurso restante;

  2. propor um desafio ou deixar uma pergunta no ar para a plateia;

  3. nunca cumprimentar a plateia, ou fazer saudações, ou cumprimentos e tal, como num discurso formal, nada disso; o mais indicado é “chegar chegando”, contanto uma história, contando uma piada, propondo um desafio ou uma pergunta, etc.

  4. não se intimide: fale com autoridade de quem sabe, mesmo que você não saiba, que esteja “chutando”, que esteja inventando;

  5. fale devagar, com pausas, gesticule, demonstre emoção, mesmo que você não a sinta naquele momento;

  6. interaja com a plateia, mas evite dialogar verbalmente com ela, para que não se abra espaço para comentários ou apartes de alguém na plateia mais esperto de você que que possa fazer algum comentário que ponha por terra suas estratégias de oratória, como, por exemplo, contradizer o que você afirmar, apontar um erro seu ou algo assim.

  7. é importante montar um roteiro sobre o que você vai falar, mentalmente, é claro, nada de papel, pois o roteiro vai evitar que você se perca e fique perdido sem saber como encerrar o discurso.

Como dito, o discurso político, religioso e jurídico, mais especificamente, têm como objetivo influenciar e manipular, convencer. Não se iluda: todos são manipuláveis, independentemente de sua formação intelectual. A exceção, obviamente, são as pessoas mais céticas e questionadoras. Mas esses “iluminados” são geralmente raridade.

Tudo isso nos mostra que a palavra é, ainda, a arma preferida dos canalhas para formar seus exércitos de idiotas úteis.

Aí, as pessoas mais sensíveis, simples e religiosas podem perguntar: e a "palavra de Deus"?

A "palavra de Deus" dita pela Sua Própria Boca, obviamente, só nos engrandece espiritualmente, nos instrui e afina nosso espírito.

O problema está quando a "palavra de Deus" é dita por outras bocas que não a dEle...

Aí, é preciso cuidado e um pá atrás. Não há área, depois da política, na qual haja mais picaretas, oradores eloquentíssimo, mas, ao memo tempo, enganadores e charlatães, do que na da religião..

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SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...