Como
um grande rei ou imperador da Antiguidade analisaria, hoje, a figura
de Vladirmir Putin, o autocrata russo que invadiu a Ucrânia? Vejamos como seria nesta fictícia conversa entre Nicolau II, último dos czares russos e Ciro, o Grande, fundador do Imério Persa.
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Dizem
que, recentemente, o espírito de Nicolau II (1868-1948), o último
imperador da Rússia czarista, antes da Revolução de 1917,
encontrou o espírito de Ciro II, mais conhecido como “Ciro, o
Grande”, o criador do Império da Pérsia, que reinou entre 559 e
530 antes da Era Comum. Na oportunidade, o ex-imperador russo
perguntou a Ciro, que foi um grande guerreiro e conquistador, o que
ele achava de Vladimir Putin, atual presidente da Rússia. Ao que
Ciro respondeu:
— Nikolái,
acho este atual governante do que fora, em outras épocas, teu
império, a Rússia, o tal Vladimir Putin, um estúpido e covarde.
— Grande
Ciro, respeito tua opinião, mas discordo dela. Esse homem quer
reconquistar a glória do Império da Rússia, que tive o privilégio
de governar.
— Pode
até ser, meu caro Nikolái, mas esquece-te de que o planeta Terra já
não é o mesmo que deixaste em 1918, quando tu e tua família fostes
executados pelos bolcheviques. O que Vladirmir faz está acarretando
efeito contrário ao desejado: ele está fazendo com que todo o
Ocidente se volte contra a Rússia — afirma Ciro, o Grande.
— Ele
está tendo uma coragem que não tive em minha época. Fui um
governante fraco, Grande Ciro — lamenta-se Nicolau II.
— De
fato, foste um governante fraco, Nikolái Achando que seu
reinado seria longo, Alexandre, teu pai, não te preparou para ser
czar, não recebeste ensinamentos para ser um governante, mais que
isso, um líder. Vladimir, nesse aspecto, te supera. Mesmo sendo um
autocrata, ele é um líder para a maior parte do povo russo de
hoje. Tu, com teu despreparo e fraqueza, nem isso conseguiste. Alice,
ou melhor, Alexandra, tua mulher, mesmo não sendo russa, era mais
popular na Rússia do que tu — declarou Ciro.
— Eu sempre deixei claro que não estava preparado para ser czar, nem
queria sê-lo. Na verdade, eu não sabia governar, não sabia sequer
tratar com os ministros e muito menos com o Soviete e com a Duma. Eu
fui um fracasso.
— Ainda
bem que tu reconheces — assentiu Ciro, dando um leve sorriso.
— Mas
voltemos a Putin, Grande Ciro — disse Nicolau II. Disseste que ele
é estúpido e covarde. Por quê? — questiona Nicolau II.
— Estúpido,
porque provocar uma guerra, invadindo um país vizinho, em pleno
início do século XXI, com o mundo todo interligado e
interdependente, é uma imbecilidade sem limites. Na Antiguidade,
Nikolái, a guerra era uma questão de sobrevivência dos povos.
Havia uma luta feroz por espaço e por poder; quanto mais conquista,
mais poder, mais prestígio, mais glória e mais respeito para o
governante, dentro e fora de seus domínios. Se tu não te armasses e
não atacasses teu vizinho, seria, com certeza, uma hora ou outra,
atacado e invadido por ele. Mas o mundo mudou, Nikolái. A
geopolítica, hoje, é muito diferente do que era na Antiguidade. Um
governante que, hoje, ataca um país vizinho, além de se transformar
em uma espécie de pária internacional, sacrifica seu povo, podendo
levá-lo ao isolamento. É o que está ocorrendo com tua Grande
Rússia, Nikolái.
— Disseste,
também, que ele é covarde, Grande Ciro — questiona Nicolau II.
— Nikolái,
guerrear por telégrafo, como fez Lincoln na Guerra de Secessão, ou
por rádio, ou por telefone ou por computador é muito fácil.
Guerrear vivendo dentro de uma fortaleza, protegido por uma numerosa
guarda, me parece bem mais fácil do que estar à frente, de espada
em punho, de um exército de milhares de homens. Eu morri no campo de
batalha, Nikolái, lutando contra os masságetas. Esses
“conquistadores” de hoje nunca sentiram o cheiro do sangue da
guerra de verdade, nunca sentiram o fio da espada no seu pescoço,
nunca se ensurdeceram com os tiros dos tanques e com as explosões
das bombas. Por isso, Nikolái, além de estúpido, seu sucessor,
Vladimir, é um covarde. É fácil mandar milhares de homens para
morrer por ele — concluiu Ciro II.
Apesar
de passados mais de cem anos de sua morte física, Nicolau II ainda
tinha a mesma insegurança dos tempos de czar. Afinal, ele não
nascera para governar, nem fora preparado por Alexandre III, seu pai,
para tal. Nicolau não era pequeno só na estatura, mas na alma
também.
Ciro,
o Grande, então, volta falar:
— Teu
governo, Nikolái, foi uma sucessão de erros, tragédias e
fracassos, não só por tua culpa, mas também pela impulsividade de
teus ministros e assessores. Tua mão foi manchada de sangue várias
vezes sem que tivesses pegado em arma uma única vez. Lembra-te da
festa trágica em Khodynka? Lembra-te também da propaganda
antissemita lançada por teus ministros? Lembra-te da estúpida
guerra contra os japoneses? Lembra-te do tal de “Domingo
Sangrento”? Lembra-te do desempenho vexatório de teu exército na
Primeira Guerra Mundial? Não bastasse isso, deixaste te influenciar
por um charlatão, o tal Grigori Rasputin? Na verdade, a Rússia era
grande e complexa demais para ti, Nikolái.— Não
esperava ser avaliado assim por um grande rei da Antiguidade —
disse Nicolau II.
— Meu
reinado foi curto, Nikolái. Governei a Pérsia de 559 a 530 antes da
Era Comum. Nesse curto período, consegui expandir meus domínios,
transformando-o no maior império que o mundo já havia conhecido até
então. Mas sempre respeitei os costumes e religiões dos povos que
faziam parte de meu império. Tornando-o, em plena Antiguidade, em um
modelo de administração. E isso, Nikolái, mil e quinhentos anos
atrás, em um mundo, sem telégrafo, sem telefone, sem Internet, sem
satélites, sem TV, sem energia nuclear, sem sequer energia elétrica,
Nikolái. Digo, com orgulho, que foi uma era de prosperidade. Mas
nunca deixei de comandar meu exército, Nikolái. Tanto foi assim,
que acabei morrendo no campo de batalha, lutando junto a meus bravos
comandados. Nunca fui covarde e estúpido como teu atual sucessor,
Nikolái. O tal Vladimir está levando teu povo russo a ser
estigmatizado por boa parte do mundo. A Rússia, com toda sua
história, cultura e tradição, a Rússia de Liev Tolstói, de
Fiódor
Dostoiévski, de
Piotr Ilitch Tchaikovski, de Ígor Stravinski, de Boris Pasternak e
de outros tantos gênios das letras, da música e das artes, não
merece um canalha como Vladimir Putin, um criminoso contumaz, meu
caro Nikolái — concluiu o Grande Ciro II.
Nicolau
II cala-se, põe-se a pensar no que Ciro II acaba de expressar e
conclui:
— Tens
razão, Grande Ciro. Assim como a minha Rússia não merece Putin,
assim como não mereceu o lunático do Lenin e seus camaradas
bolcheviques, assim como não mereceu o psicopate do Stalin, assim
como não mereceu a mim também…
quinta-feira, 30 de junho de 2022
COMO VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA, SERIA ANALISADO, HOJE, POR UM GRANDE GOVERNANTE DA ANTIGUIDADE?
sábado, 19 de março de 2022
IMAGINE
Imagine
um mundo sem a perspectiva de um paraíso futuro.
Mas
também sem a perspectiva de um inferno abaixo de nós.
Tente.
É muito fácil.
Imagine,
acima de nós, o céu infinito. Nada mais.
Imagine
todos nós, todas as pessoas, vivendo somente o presente.
Imagine
um mundo sem países, sem divisões políticas, sem fronteiras. Não
é difícil.
Nenhuma
causa, nenhum motivo, para matar ou morrer.
Imagine
um mundo sem nenhuma religião a nos dividir.
Imagine
todas as pessoas vivendo em absoluta paz e harmonia.
Você
pode me achar um sonhador, mas, acredite, não sou o único.
Espero
que um dia você venha se unir a nós.
E,
assim, juntos, seremos um só mundo.
Imagine
um mundo sem propriedades, sem posses. Será que você consegue?
Um
mundo no qual não exista nem ganância, nem fome.
Uma
fraternidade humana, onde todos compartilhem igualmente o mundo
inteiro.
Você
pode achar que eu sou um sonhador, mas não sou o único.
Espero
que você um dia se una a nós.
E
todos nós, juntos, pertenceremos a um único mundo.
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Versão
em português, de minha autoria, da letra da música Imagine,
composição de Yoko
Ono e John Lennon.
Gravado por John Lennon, em 1971.
sexta-feira, 18 de março de 2022
A DEMOCRACIA À LUZ DA FILOSOFIA DE PONDÉ
Winston Churchill disse que a democracia é um péssimo sistema de governo. O problema é que não há outro melhor que ela. Em um mundo no qual o totalitarismo e o autoritarismo ainda se fazem presentes, uma das virtudes de um sistema democrático sólido é que ele não permite que nenhuma pessoa ou instituição tenha poderes ilimitados. Em uma democracia verdadeira, ninguém pode tudo. Cada poder e cada instituição cumprem seu papel, sem extrapolar seus limitas. Essa é a visão formal do regime democrático, que está nos livros de ciências sociais, jurídicas e políticas.
Neste texto, no entanto, vou deixar de lado as definições tradicionais sobre democracia e tentar analisá-la pela visão de um filósofo contemporâneo pragmático. Por isso, escolhi Luiz Felipe Pondé, um filósofo midiático, dos novos tempos.
Em seu livro FILOSOFIA PARA CORAJOSOS (1ª edição, Editoral Planeta, de 2016, páginas 131 a 134), Pondé faz algumas considerações muito interessantes sobre a democracia, que fazem a gente, de início, se chocar um pouco, mas, após alguma reflexão e lendo os argumentos do autor, nos parecem perfeitamente coerentes.
Segundo Pondé, por sua soberania na chamada vontade popular, a democracia desaguaria na crença de que a sociedade carrega em si alguma forma de “verdade moral”. Mas, segundo o próprio autor, toda moral pública é hipócrita. Ou seja, o público é hipócrita e nada tem a ver com alguma ideia de verdade. Ele conclui que, na democracia o que importa é a maioria, e não a verdade sobre coisa alguma. Platão, segundo ele, já apontava que a tendência da democracia é ser demagógica.
Irônico, Pondé afirma: “Antes que algum inteligentinho (sic) perdido na leitura deste livro me acuse de antidemocrático, devo dizer que a democracia é, de todos os regimes ruins em política, o menos pior, com certeza. E para manter essa “vantagem” da democracia sobre seus sistemas competidores, devemos lembrar suas fraquezas, coisa que o povo na democracia, como já disse Alexis de Tocqueville no século XIX em sua visita aos Estados Unidos, não gosta de ouvir porque a democracia na democracia é um dogma a ser amado”.
Pondé volta a se basear em Platão, ao dizer que em um regime pautado em opiniões variadas e pela contagem delas, o essencial é o número. Assim, ele conclui que a democracia é um regime de quantidades, e, nesse caso, os idiotas (citando Nelson Rodrigues) são sempre a maioria. E Pondé esclarece que uma das faces dessa idiotice da maioria é supor que a transparência na gestão da coisa pública, algo desejável em um governo, implica a transparência da verdade moral. Sempre que se afirma um valor em público, essa afirmação é, em grande medida, segundo Pondé, uma farsa a serviço do resultado esperado em termos de contagem de votos a favor ou contra o que você quer.
E Pondé vai ainda mais longe em suas considerações cruéis mas realistas sobre a democracia. Segundo ele, outro motivo para a democracia ser parceira da hipocrisia pública é sua dependência da adulação da opinião pública. Segundo Pondé, isso afeta desde os candidatos em uma eleição (política, segundo ele, é marketing) até artistas que vendem música: todos devem adular a opinião pública.
Pondé conclui que essa dependência da opinião pública, que leva todos a adular os idiotas, faz da democracia um simples regime de mercado. Dessa forma, Luiz Felipe Pondé conclui que a tendência da mentira na democracia é, no limite, uma tendência ao marketing. O que conta é a aparência. Pondé, inclusive, lembra que os defensores da democracia na Grécia Antiga eram os sofistas, que negavam a existência de qualquer verdade e reduziam o conhecimento à retórica. Por isso, Pondé finaliza seu texto dizendo: “Então, quando eu ouço alguém gritar contra a mentira na democracia, sempre sinto um cheiro de Papai Noel no ar”.
Apesar de tudo isso, não há como tirar a razão de Churchill. A democracia está longe de ser a panaceia para todos os problemas da sociedade. Muito pelo contrário: ela pode até criar mais problemas, disputas, polarizações político-ideológicas. pode ter seus defeitos, suas imperfeições, suas incoerências, mas ainda não conseguiram inventar um sistema melhor que ela.
sexta-feira, 9 de julho de 2021
A ESCOLHA DE LAMPIÃO
Naquela noite distante de 27 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o Rei do Cangaço, acampou com seu bando na fazenda Angicos, no município de Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Tranquilos, pois o local era considerado seguro como esconderijo, todos foram dormir. De repente, Lampião é acordado. Alguém o chamava:
— Virgulino! Virgulino!
Lampião acordou e logo já estava com seu rifle posicionado. Quando saiu de sua barraca, na qual Maria Bonita dormia profundamente, ele viu um homem estranho. Estava escuro, pois, por segurança, todos as lamparinas e lampiões do acampamento foram apagados. Havia chovido, o céu estava encoberto. Mas aquele estranho homem parecia ser iluminado por uma luz que não se sabia de onde vinha. O homem vestia roupa de cangaceiro, mas, na cabeça, em vez de um chapéu de meia-lua, tinha um quepe igual aos dos soldados das volantes. Lampião não pensou duas vezes e deu vários tiros no homem, que nem se abalou. As balas atravessaram o corpo dele como se passassem por uma nuvem de fumaça, não lhe causando nenhum ferimento, enquanto ele permanecia ali, impassível, olhando fixa e friamente para Lampião. Após os tiros, o estranho homem só disse:
— Poupe sua munição, Virgulino! Seu brinquedo não pode me matar.
Suas balas nada podiam fazer contra aquele estranho possível inimigo. Isso fez Lampião sentir algo que ele nunca sentira em sua vida: medo. Aterrorizado com aquela criatura sinistra, com a qual nem seu rifle, nem todo seu bando podiam, ele começou a suar frio. Então, perguntou ao homem:
— Tu é o Demônio? Só pode sê o Demônio.
— Possa ser! Possa ser! — respondeu o homem.
— O que tu qué de mim, Tinhoso?
Mas o homem ignorou a pergunta de Lampião e começou a falar, com calma, voz baixa e devagar:
— Virgulino, um homem, em sua vida, pode escolher dois caminhos: o caminho do bem e o caminho do mal. O caminho do bem é difícil, Virgulino. Algumas vezes, tem muito sofrimento, muita dor, muita dificuldade, a jornada é difícil. É preciso ter coragem, fé e perseverança. As provações não são fáceis, Virgulino. Mas, no final da jornada, Deus recebe esse homem em seus braços. Já o caminho do mal muitas vezes é até bom, divertido, alegre. Veja o teu caso, Virgulino. Olhe o que tu já aprontou. Este sertão todo tem medo de tu. Tu tá famoso, teu nome saiu até em jornal do estrangeiro. Mas tua jornada está chegando ao fim, Virgulino. É hora do acerto de contas. Tu fez muita maldade, Virgulino. Muita maldade.
Congelado pelo medo, coisa que nunca sentira antes, Lampião pergunta ao homem:
— Tu vai me matá, é?
— Não, Virgulino. Não sou eu que vou te matar. Quem vai ter matar é um cabra que tu conhece bem. Mas tu tem uma chance de se livrar dele.
— E qual a chance? — pergunta Lampião ansioso.
— Virgulino, apesar de teus crimes, das barbaridades que tu fez na vida, tem muita gente que gosta de tu, acha que tu é um herói do povo pobre e tal. A maioria dessa gente simples e sofredora do sertão nordestino gosta de tu. Por isso, Deus está te dando uma chance. Tu tem que te arrepender de teus pecados, Virgulino, de teus crimes, abandonar essa vida e viver como um homem de bem. Mas tu tem que fazer isso agora, neste momento, perante mim, de todo teu coração, Virgulino. Se tem uma coisa que Deus conhece bem, Virgulino, é o coração do homem. Se tu se arrepender agora, tua vida pode se prolongar. Mas, para continuar vivendo, tu tem que deixar o cangaço e virar um homem de bem, Virgulino.
— Oxente! E meu bando? Eles dependem de mim — reage Virgulino.
— Cada um tem que tomar o seu caminho, Virgulino. Tu toma o teu, os teus cabras tomam o deles. Tu tem que abandonar essa vida, Virgulino, se quiser te salvar. Agora. Tua decisão é agora.
— Olhe, homem ou seja lá o que tu fô, eu nunca matei ninguém que antes não tivesse querido me matar, ou me trair. Matei, sim, matei muita gente. Mas todo mundo que matei é gente que merecia morrer, gente que não prestava. Não posso abandonar meu bando. Esses cabras dependem de mim. Meu padrinho padre Cícero sabe disso.
— Então tu não te arrepende de teus crimes, Virgulino? Pense bem, homem. É tua chance de te salvar — diz o homem.
Lampião, o Rei do Cangaço, que já enfrentou tantos perigos, sua frio, se sente acuado, com medo, na verdade, estava em pânico, com o coração quase saindo pela boca. Naquele momento, toda sua vida, desde sua infância, em Vila Bela, lhe passou pela cabeça. Lembrou-se do assassinato do pai, em 1919. Sua cabeça fez uma viagem no tempo, relembrando tudo por que ele havia passado, os crimes que cometera, as cidades que invadira. Ficou ali por vários minutos, refletindo, pensando, enquanto aquele estranho homem permanecia ali, em sua frente, quieto, observando-o e aguardando sua resposta. Aí, então, ele olhou firmemente para aquela estranha criatura, que ele não sabia se era Deus ou o Diabo, o Bem ou o Mal, e disse:
— Olhe, seu moço ou sei lá o que tu é, entrei nessa vida sabendo que tava contra a lei, contra o puder, contra o guverno. Tudo começô quando a polícia matou meu pai. Jurei que ia vingá a morte dele. E vinguei. Fiz muita maldade nesse mundo, eu sei disso. Fiz coisa que num devia tê feito. Mas também fiz justiça, matei muita gente que era tão ruim ou pior que eu, gente que explorava pobre, gente que fez coisa até pior que eu fiz. Meu nome e minha fotografia saiu, sim, no jornal dos estrangeiros. Hoje sô conhecido no Brasil e até no mundo. Assim, pelo menos eu tô ajudando o povo do Brasil e até do estrangeiro a conhecê a vida dura do povo daqui do Norte, que passa fome, que é explorado, que sofre com a seca. Olha, seu moço, se tá errado ou tá certo, o que eu fiz tá feito e não tem como desfazê. Se eu mudá de vida agora, não vai trazê esse povo que matei de volta, não vai muda a vida dura do povo do sertão. Além disso, a Justiça Divina pode me perdoá, até a Justiça do homem pode me perdoar. Tão falando por aí numa tal de anistia para cangaceiro que se entragá. Mas muita gente por aí não vai me perdoá pelo que fiz. Mesmo que eu vire santo feito meu padim padre Cícero Romão Batista, muita gente não vai me perdoá, moço. Nunca vou tê sossego nessa vida.
— Esta é tua decisão, Virgulino? — pergunta o homem.
— Sim, senhô. Se diante de Deus tenho que pagá pelo que fiz, é o que tem que sê feito.
— Então assim será! Adeus, Virgulino — disse aquele estranho homem, cuja imagem foi se dissipando aos poucos aos olhos de Lampião.
Lampião, então, acorda, assustado. Tinha sido um sonho, ou um pesadelo. Mal ele abre os olhos e vê Maria Bonita já de pé preparando o café. Em seguida ouve o grito do vigia:
— A volante! Os macaco da polícia!
Não deu tempo nem de se levantar e pegar no rifle. O bando foi pego de surpresa. Quando os policiais comandados pelo tenente João Bezerra e pelo sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo os cangaceiros de Lampião não tiveram tempo de tentar nenhuma reação. Dizem que o ataque da polícia teria durado uns vinte minutos e poucos do bando de Lampião conseguiram escapar. Lampião teria sido um dos primeiros do bando a morrer.
terça-feira, 18 de maio de 2021
CAMINHANDO PELA ETERNIDADE
Dona Lourdes era a típica mãezona, era muito preocupada e carinhosa com os filhos. Era muito religiosa. Ao contrário de seu irmão, Juca, que era ateu convicto. Apesar de seu materialismo, Seu Juca, como era conhecido, era o típico boa praça. Tinha um bom coração, ajudava a todos que o procuravam, sempre simpático e solícito. Um pouco diferente de sua irmã Dona Lourdes, que era mais sistemática e desconfiada, embora fosse uma boa pessoa, honesta e muito correta.
Um dia, Dona Lourdes queria ver seu neto que havia nascido, mas morava em uma cidade distante. Ela então pediu a seu irmão que a levasse de carro até lá para visitar o filho e o neto recém-nascido.
Na viagem de volta, um pequeno descuido de Seu Juca ao volante, causado por uma cochilada momentânea, foi fatal, e o carro no qual estavam acabou se chocando violentamente com outro veículo.
— oOoOoOoOo —
Aos poucos, Dona Lourdes foi recobrando os sentidos e se dando conta de que estava em um quarto, provavelmente em um hospital. Era um quarto todo branco, com mesinhas também brancas, uma delas com um vazo com flores muito coloridas. Era um ambiente agradável, tranquilo. Afinal de contas, o que acontecera? — pensava. Mas, aos poucos, começava a se lembrar da viagem, do irmão e, enfim, do acidente. Nossa! Onde será que estou, em que hospital. Cadê o Juca, meu marido, meus filhos, netos. Cadê todo o mundo, perguntava-se ela, já sentada na cama.
Nisso, batem à porta. Entra um homem, todo vestido de branco, com um sorriso cativante e um olhar alegre, simpático.
— Como está, minha irmã? Tudo bem? — disse sorrindo o homem.
— Parece que estou bem, sim, mas… Onde estou? O senhor…
De repente, Dona Lourdes percebeu que já conhecia aquele homem, mas não sabia de onde ou de quando. Ele mesmo, então, lhe falou, sempre de modo muito gentil e carinhoso:
— Sim, minha irmã, nós já nos conhecemos. Mas tenha calma! Com o tempo, as coisas vão ser esclarecidas. Todas as suas perguntas e questionamentos serão respondidas. Acalme-se!
— O senhor é médico? — perguntou Dona Lourdes ao homem.
— Sim, minha irmã. Além disso, sou um dos coordenadores deste Centro de Recuperação.
— Um hospital?
— De certa forma, sim, minha irmã.
— De certa forma? Olha, doutor, está tudo muito estranho. Eu mesma estou me sentindo estranha. Estou me sentindo diferente, sou míope, tenho que usar óculos, mas, mesmo sem óculos, estou vendo tudo perfeito. Eu sofri um acidente, pelo que me lembro. Deveria estar com pelo menos algum machucado ou, no mínimo, um arranhão. Estou perfeita.
O homem, então, aproxima-se de Dona Lourdes, puxa uma cadeira, senta-se e pergunta a ela:
— A irmã Lourdes é uma pessoa religiosa?
— Sim, muito!
— Se a irmã é religiosa e acredita em Deus, também deve crer na vida eterna, não é mesmo?
A observação do homem causou uma espécie de choque em Dona Lourdes.
— Meu Deus! Então eu… Eu morri? — disse ela, colocando as mãos sobre a cabeça.
— Minha irmã — diz o homem, sempre de forma carinhosa e gentil, a morte não existe.
— Como, não existe? Eu devo estar lá a esta hora, morta, sendo velada por minha família, que deve estar chorando por minha perda. E agora? — diz Dona Lourdes, indignada e já chorando.
— Minha irmã, o que está lá não é você, e sim apenas um corpo. Você, a própria, está aqui, agora, conversando comigo.
— E meu marido, meus filhos, meus netos e…?
— Eles vão continuar por lá por mais algum tempo, cumprindo suas missões. Como você já terminou as suas, já está aqui.
— Cumprindo missão?! Até no plano divino, tudo é uma grande burocracia. “Você tem que morrer porque já cumpriu sua missão”. Danem-se os filhos, os netos, os vínculos familiares, os sentimentos, danem-se a dor, a perda, o sofrimento. O que importa é cumprir os desígnios do Todo Poderoso. Cadê a misericórdia de Deus, como me ensinaram na Igreja? — disse Dona Lourdes, revoltada.
— Minha irmã — respondeu-lhe calmamente o homem de branco —, eu compreendo sua indignação, sua revolta. Deparo com isso todos os dias, há séculos. Mas logo, a seu tempo, compreenderá tudo. O ser humano está longe ainda de entender certas coisas. É como uma criança de dois anos passeando com os pais em um centro de compras e vê um lindo brinquedo exposto. Ela quer, a todo custo, aquele brinquedo. No entendimento dela, basta os pais pegarem o brinquedo e lhe darem ou permitirem que ela pegue o brinquedo e fique com ele. Ela não entende que há regras, que seus pais não podem simplesmente pegar o brinquedo e lhe dar, já que, obviamente, eles teriam que comprar o brinquedo. A criança, pequena, imatura, envolta em seu pequeno mundo, ainda não tem capacidade de entender as complexas regras dos adultos. Quando também não conseguimos entender os mistérios da vida e do Universo, quase sempre agimos assim, como a criança na loja de brinquedos.
Dona Lourdes se acalma. Havia se levantado da cama. Ficara de pé quando disparou sua revolta, mas voltou a se sentar e perguntou ao homem de branco:
— O senhor me perdoe! Mas, afinal de contas, quem é o senhor e o que será de mim agora?
O homem sorri e lhe diz:
— Perdoe-me, minha irmã. Não me apresentei. Meu nome é Petrônio, faço parte da equipe deste centro de recuperação onde está agora. Vou cuidar da irmã e orientá-la. Mas a irmã é livre para agir e tem toda a eternidade para decidir o que vai fazer em sua existência. Mas estou encarregado de orientá-la e lhe atribuir alguma missão ou trabalho, caso esteja disposta a continuar seu processo de evolução.
— Claro que quero evoluir. Não quero me tomar uma alma errante, perdida! Sempre fui uma pessoa religiosa, de muita fé e, sobretudo, ativa.
Petrônio, então, junta as mãos, num gesto de felicidade pela decisão de Dona Lourdes e diz:
— Que bom, minha irmã! Terei a maior alegria e satisfação em orientá-la!
Mas, nesse momento, Dona Lourdes lembrou-se de que seu Irmão Juca era quem estava dirigindo o carro. O que teria acontecido com ele? Antes que ela perguntasse, Irmão Petrônio, como era conhecido, lhe adiantou:
— Seu irmão Juca também está aqui. Em breve, poderá encontrá-lo. Mas antes a irmã terá de passar um tempo na área de Aperfeiçoamento Moral e Espiritual. Seu irmão, no entanto, foi dispensado dessa fase. Ele irá diretamente para os grupos de trabalho.
Dona Lourdes espantou-se.
— Mas Juca era ateu, não acreditava em nada.
— E o que tem isso, irmã? Estar aqui e descobrir que a morte terrena não é o fim já foi o suficiente para mudar a opinião dele — disse Petrônio.
— Perdoe-me, irmão Petrônio — se me permite chamá-lo assim —, mas o que não estou entendendo é que sempre fui uma pessoa religiosa, sempre lia a Bíblia, ia à igreja, mas terei que me aperfeiçoar moralmente e espiritualmente. Já meu irmão, que sempre foi incrédulo, ateu, nunca leu a Bíblia, não precisa de aperfeiçoamento moral e espiritual. Não estou reclamando, irmão Petrônio. Só estou achando estranho.
— Irmão Petrônio é exatamente como todos me chamam aqui, irmã Lourdes. Eu compreendo perfeitamente sua surpresa. É natural. Mas aqui a pessoa, ou seja, a consciência, é avaliada pelo que ela realmente é, no mais profundo de sua alma, e não pelo que ela parece ser ou tenta parecer que é.
— Não compreendi, irmão Petrônio.
— A irmã, por exemplo, sempre foi uma mulher religiosa, frequentava regularmente sua igreja, lia a Bíblia, fazia suas orações, assistia a preleções de pregadores, filmes sobre religião. No entanto, a irmão, tinha um coração duro, rancoroso, era extremamente ciumenta em relação aos filhos, era preconceituosa, racista, às vezes tratava mal pessoas que trabalhavam para você.
Dona Lourdes se assusta com a análise precisa feita pelo irmão Petrônio.
— Nossa, irmão! Eu nem percebia que era tudo isso.
— Geralmente as pessoas não se dão conta dos próprios defeitos, minha irmã. Os vícios estão tão embutidos em suas personalidades, que a própria pessoa não têm consciência deles. Por isso, julgam-se a mais perfeita das criaturas — diz irmão Petrõnio.
— Mas e o Juca, irmão Petrônio?
— Seu irmão Juca era ateu, realmente, não acreditava em nada, nunca leu a Bíblia, desde sua adolescência nunca mais entrou em um templo religioso. Mas isso não fez dele uma pessoa ruim. Pelo contrário, seu irmão era sinceramente bom, tinha o coração puro, não media esforços para ajudar seus semelhantes, caridoso, carinhoso com as pessoas, alegre, sempre de bem com a vida, não tinha preconceitos, nunca falava mal de ninguém. Claro que, como todo ser humano, não era perfeito, mas o fato de ele ser ateu demonstra que era bom por princípios, e não por medo de castigos divinos ou coisa desse tipo. Por isso, ele não precisa passar por aperfeiçoamento moral e espiritual.
— Irmão Petrônio, mas a Bíblia diz…
— A Bíblia, irmã, embora seja uma das mais belas, ricas e valiosas das obras literárias, históricas, filosóficas e religiosas da Humanidade, é apenas uma coletânea de textos muito antigos, escritos por escribas de um povo primitivo, que acreditava em um deus humano, que tinha complexo de exclusividade, era ciumento, vingativo, arrogante e até genocida. A chamada Providência Divina, minha irmã, ou Deus, como queira, está acima dos sentimentos e das fraquezas humanas. Na verdade, Deus não existe. Deus é. Você não está nEle, mas Ele está em você, quer você acredite ou não nEle. É o caso de seu irmão, que era ateu. Mesmo assim Deus estava, está e sempre estará nele.
— Irmão Petrônio, e as religiões, as igrejas? Hoje em dia, na Terra, há milhares de igrejas, centenas de religiões. O que as igrejas pregam, o que a Bíblia diz está tudo errado então? — questiona Dona Lourdes, chocada.
— Não, minha irmã, de forma alguma. As religiões, as igrejas, são importantes e têm um papel relevante na formação moral do ser humano, mas são instituições humanas, têm suas falhas, têm suas virtudes, mas também têm seus vícios. Mas Deus é Deus, irmã, Ele está acima das religiões, acima das crenças, dos rituais, dos livros considerados sagrados. As religiões, principalmente as abraâmicas, apresentam a seus fiéis um deus humano, moralista, ciumento, exclusivista e até vingativo, que condena ou perdoa, conforme sua “vontade”, seus “caprichos”. Deus é Deus, criador, é o princípio, a essência e o fim de todas as coisas. Ele não é uma criatura, que tem vontade, que tem opinião, que tem sentimentos humanos. Ele está em todos nós, em todos os seres humanos, mesmo nos ateus.
— Nossa! O conceito de Deus é mais difícil de entender do que imaginava! — diz Dona Lourdes.
— Na verdade, é quase impossível ao homem, por mais culto e erudito que ele seja, entender o que é Deus realmente. Deus, a Consciência Divina, a Providência ou seja lá o nome que Lhe se queira dar, é algo ainda incompreensível à consciência humana, está além de seu entendimento. Lembra da criança na loja de brinquedos?
— Irmão Petrônio, e o pecado? — pergunta Dona Lourdes.
— As religiões, especialmente as abraâmicas, estabelecem listas e categorias de pecados, como os capitais, ou seja, aqueles mais graves, os mais leves e tal. Tudo isso, irmã, embora sejam atribuídos a Deus, são conceitos humanos. Segundo seus livros sagrados e os dogmas dessas religiões, pecado é tudo aquilo que “não agrada ou desagrada a Deus”. Isso é para fins de doutrinação do fiel. Para doutrinar seus fiéis, as religiões têm que estabelecer parâmetros. Na verdade, irmã, pecado é tudo aquilo que praticamos mesmo sabendo que faz mal a nós mesmos e/ou a outrem. Quando você pratica alguma coisa, mesmo sabendo que aquilo é prejudicial, danoso, nocivo ou até letal a você e/ou a outra pessoa ou às pessoas em geral, seja o que for, é pecado.
— Que curioso! Quer dizer que, quando eu como determinado alimento, mesmo sabendo que esse alimento pode ou vai me fazer mal, estou cometendo pecado? — pergunta Dona Lourdes com um leve sorriso.
— Sim, está cometendo um pecado contra você mesma, irmã. Tudo é permitido ao ser humano, irmã, ele goza de livre arbítrio. Cabe a ela decidir o que lhe convém. Não há castigo divino para os pecados. Há consequências, que geralmente não são boas.
Dona Lourdes, então, toma consciência de que vive, agora, uma nova realidade, está em uma outra dimensão, em um outro plano de vida. Então pergunta ao irmão Petrônio:
— Irmão Petrônio, o que será de mim agora?
— A irmã é livre. Pode fazer o que bem entender. Mas minha orientação, se quiser aceitar, é de que se junte a nós. Mas, antes, deverá passar por um processo de aperfeiçoamento moral e espiritual. É uma espécie de curso, de um estudo, para que a irmã se inteire mais sobre sua nova realidade. Depois, poderá se juntar a nós e iniciar uma atividade. Mas antes vamos conhecer seu novo mundo. Há algumas pessoas que a querem ver, ou seja, rever — diz o irmão Petrônio, sorrindo.
— Vou poder rever meus entes queridos que já haviam morrido? Nossa! Será que estou preparada para reencontrá-los?
— Claro que está, irmã. Vamos lá?
— Irmão Petrônio, quando entrou no quarto, senti que já o conheço. O próprio irmão confirmou isso. Apesar da impressão que sinto, não me lembro de onde e de quanto nos conhecemos.
— Calma, irmã! Aos poucos, vai se lembra de onde e de quando já me conhece, assim como se lembrará de outras coisas, que ficaram apagadas de sua memória durante sua vida na Terra, aos poucos vão reaparecer em sua memória.
E assim, enquanto sua família chorava sua perda, aqui na Terra, Dona Lourdes se preparava para começar uma nova etapa de sua caminhada pela eternidade.
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sexta-feira, 19 de março de 2021
NOÇÕES BÁSICAS DE POLÍTICA E CIDADANIA
A política pode
ser definida como o conjunto de atividades ligadas à organização, direção e
administração das coisas públicas. Na sociedade contemporânea relaciona-se
ainda às ações de interesse coletivo que envolvem diversos setores da sociedade
civil.
PODER EXETUTIVO | PODER LEGISLATIVO | PODER JUDICIÁRIO |
Nível federal | Nível Federal | Nível Federal |
Presidente da República e seus ministérios | Câmara dos Deputados e Senado (Congresso Nacional) | STF (Suprimo Tribunal Federal), STJ (Superior Tribunal de Justiça) TST (Tribunal Superior do Trabalho) e TSE (Tribunal Superior Eleitoral) |
Nível estadual | Nível estadual | Nível estadual |
Governador do Estado e seu secretariado | Assembleia Legislativa | Tribunal de Justiça Estadual |
Nível municipal | Nível municipal | Nível municipal |
Prefeito e seu secretariado | Câmara de Vereadores | Juízo de Direito e Juizo Eleitoral |
Falamos aqui da divisão do Estado entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. No entanto, a forma de exercício do Poder Executivo varia de um país para o outro, havendo dois modelos básicos de República: o presidencialismo e o parlamentarismo.
OS CRIMES DO "COMUNISMO" — PERSEGUIÇÃO, PRISÃO, TORTURA E MORTE
Praticamente todos os países nos quais foi implantada a revolução marxista, como União Soviética, China, Cuba, Coreia do Norte e outros, transformaram-se em ditaduras, regimes autoritários, que aboliram as liberdades individuais e coletivas, bem como de pensamento, opinião e de expressão.
Ocorre que, da mesma forma como ocorre com adeptos mais fervorosos e fanáticos de uma religião, os adeptos de uma ideologia também julgam que a "sua verdade" é a "única verdadeira" e a única que pode salvar o mundo; que as outras formas de governos e organizações sociais devem ser abolidas”. Isso, coletivamente, acaba criando, um sistema social fascista, opressor, no qual todos desconfiam de todos. Qualquer pensamento ou manifestação que saia um milímetro do paradigma estabelecido é visto como “traição”, “conspiração contra o povo e a Pátria”. É uma característica bem comum aos regimes fascistas. Aí, você me pergunta: o que havia nesse regimes era fascismo ou comunismo?
Na verdade esses regimes autoritários de inspiração marxista-leninista ou maoísta apesar de terem uma organização social e econômica inspiradas princípios do marxismo, com a coletivização dos meios de produção, economia planejada e aparente igualdade social, bem como de terem em suas pautas a defesa da ideias progressistas, acabaram adotando uma forma de governo bem próxima ao fascismo,. Podemos dizer, com certeza, hoje, que o maior dos fascistas da História não foi Mussolini, e sim Stalin, em cujo regime de 20 a 40 milhões de pessoas foram mortas acusadas de “crimes políticos”. Numericamente, o que podemos chamar de “fascismo de esquerda” (Stalin, Mao, Pol Por e outros) matou muito mais gente que o “fascismo de direita” (Hitler, Mussoini, Franco, Salazar, Pinochet e outros). Nesses regimes autoritários de inspiração marxista, o “progressismo”, a “luta por igualdade” eram só fachadas. Na verdade, na prática, o que há é um sistema de governo fascista e opressor. O socialismo, o comunismo, a igualdade, a justiça social só ficavam nos discursos.
ONDE O SOCILISMO, AFINAL DEU CERTO?
Os únicos sistemas de governo de inspiração esquerdistas que, de certa forma, deram certo e se tornaram em exemplos de regimes democráticos foi o adotado por países do norte da Europa (Suécia, Noruega, Finlândia), a social-democracia, ou o chamado “socialismo Fabiano” (o nome está relacionado ao cônsul do Império Romano Fábio Máximo), cujo movimento nasceu na Ingleterra, mas criou raízes mesmo foi nas regiões nórdicas. É, na verdade, uma mistura de socialismo e capitalismo, com uma presença forte do estado e do chamado “bem estar social”. No entanto, é difícil dizer se o sucesso desse sistema no norte da Europa se deve ao próprio sistema ou à avançada educação e cultura do povo nórdico, que é extremamente organizado.
Aliás, conta-se que dois cubanos conversavam em frente à antiga fábrica da Coca-Cola em Cuba, cerca de dois anos após a Revolução. Um disse ao outro:
SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?
SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...



