Certa vez, em uma entrevista, no início dos anos 90, antes da
chegada e da popularização da Internet no Brasil, perguntaram ao
grande e saudoso radialista Hélio Ribeiro, muito famoso nos anos 60,
70 e 80, por seu peculiar estilo, sua voz grave e forte e seu famoso
programa radiofônico “O poder da mensagem”, o que ele achava do
rádio. Ele respondeu que o rádio, assim como sua coirmã mais
nova, a televisão, foram as maiores oportunidades perdidas
de melhorar o mundo.
Com
certeza, se vivo estivesse, Hélio Ribeiro diria o mesmo da Internet
e das redes sociais.
A
partir da década de 90, o Brasil e o mundo passaram por uma grande
transformação tecnológica, que já vinha ocorrendo em décadas
anteriores, mas em velocidade bem mais lenta. Com o fim da Guerra
Fria e a aceleração da revolução tecnológica, a humanidade
passou por enormes mudanças, que influenciaram sobretudo no
comportamento das pessoas em todo o planeta. O mundo, que, já nos
anos 60 e 70, era chamado de “aldeia global”, por causa da grande
evolução nos sistemas de comunicação, principalmente a partir do início do século XXI, passou a ser —
por mais paradoxal que seja a expressão — uma enorme “vila de
comadres fofoqueiras”.
As
tecnologias digitais, a Internet e as redes sociais são criações
humanas maravilhosas e podem, e muito, facilitar nossas vidas se bem
utilizadas. Apesar de muita bobagem que circula pelas redes , há,
também e principalmente, pessoas que as utilizam para fazerem
trabalhos maravilhosos. É o caso de uma moça de uma cidade do sul
da Bahia, cuja mãe foi diagnosticada, há alguns anos, com mal de
Alzheimer. Ele cuida, com o maior carinho e dedicação, da
sua mãe, e expõe a seus já milhares de seguidores suas
experiências nas redes sociais, o que, sem dúvida, ajuda muitas
famílias que passam por situações semelhantes à à dela.
Criativa, ela bolou uma técnica para manter a mente da mãe sempre
ativa e que serve, também, para aferir o grau de conexão de sua mãe
com a realidade: em seus vídeos, perto da mãe, ela conta a seus
seguidores histórias mirabolantes, que ela mesmo inventa, para
provocar a mãe, que reage, com uma quase cômica indignação pelo
fato de a filha ser tão “mentirosa”.
Outro
caso exemplar de uso extremamente útil das redes sociais é de um
canal de Manaus (AM), que tem duas filhas especiais. Em vídeos, eles
mostram o dia a dia das filhas e como é que lidam com o
comportamento e o desenvolvimento delas, o que tem ajudado a muitas
famílias que vivem situações idênticas.
Esses
são apenas dois exemplos de como muita gente está usando a Internet
e as redes sociais para fazer coisas boas, construtivas, iniciativas
que têm como finalidade, realmente, melhorar o mundo.
Dito
isto, vamos agora falar do lado negativo das redes sociais, dos
canalhas, das pessoas moralmente e mentalmente doentes, que usam as
redes sociais para disseminar todo tipo de conteúdo tóxico:
mentiras, calúnias, ofensas, ameaças, informações científicas
falsas, aconselhamentos, orientações e cursos de conteúdo duvidoso
e todo tipo de besteirol.
As
chamadas “fake news” sempre existiram no mundo da política. Foi usando uma “fake news”, uma mentira, que os republicanos
convenceram o monarquista Deodoro da Fonseca a proclamar a República,
em 15 de novembro de 1889. Foi usando a “fake news” do “Plano
Cohen” que Getúlio Vargas deu um golpe de Estado, em 1937, e
implantou a ditadura do “Estado Novo” no Brasil. Foi com a famosa
“fake news” dos “Marmiteiros” que Hugo Borgh, um político
paulista de “segunda linha”, capachão de Getúlio Vargas,
conseguiu prejudicar a candidatura à presidência do Brigadeiro
Eduardo Gomes, em 1945 e garantir a vitória de Dutra. Aliás, em
tempos mais recentes, bem antes do surgimento da Internet, das novas
mídias e das redes sociais, um modo rápido de se espelhar “fake
news” era pelo ar, por meio de pequenos aviões, do qual os
políticos jogavam panfletos com todo tipo de conteúdo calunioso
contra seus adversários.
A
Internet e as redes sociais, com sua rapidez e agilidade, apenas
facilitaram ainda mais a disseminação de conteúdo falso e/ou
calunioso em grande escala. O que nós precisamos é aprender a
conhecer e a conviver com esse novo ambiente, com essa nova
realidade. As pessoas que fazem isso, desde o “tio” ou a “tia”
que pega um celular, faz um áudio mentiroso, dizendo ser médico,
general e tal e inventa mentiras e informações falsas e espalha
isso por WhatsApp ou Telegram, até aqueles que usam essas
ferramentas para disseminar ameaças, calúnias e pregar o ódio e a
intolerância, têm que ser identificadas e punidas. O que apareceu
no WhatsApp, na época mais aguda da pandemia, como áudios e até
vídeos (vestidos de jaleco e com um estetoscópio pendurado no
pescoço) de “médicos” dando aconselhamentos absurdos sobre a
covid e pregando inverdades sobre as vacinas, não foi brincadeira!
Trata-se de uma gente doente, desequilibrada, sem caráter, de má
índole, que, obviamente, não quer fazer nenhuma brincadeira, e sim,
maldosamente, causar confusão e o caos. Essa gente tinha que ser
identificada e punida. São criminosos perigosos e covardes, porque
se aproveitam do aparente anonimato da Internet para cometer seus
crimes.
Por
outro lado, as pessoas — eu, você e todos nós — temos que
aprender a ser mais criteriosos quando consumimos informação. As
pessoas têm que estar mais conectada com o mundo à sua volta, ler
mais, estudar mais e se informar mais, para não acreditar em tudo
que lê, vê e ouve. Uma pessoa bem informada vai saber, facilmente,
perceber se uma conteúdo é plausível, verdadeira, ou não. Senso
crítico. É isso que falta à maioria das pessoas hoje em dia.
A
própria Internet tem excelentes ferramentas que nos ajudam a nos
mantermos informados. Há muitos sites excelentes de notícias e
informações, totalmente confiáveis. Há sites excelentes sobre os
mais variados assuntos, ligados a universidades e centros de pesquisa
e de instituições culturais e científicas de alto nível. O
Youtube também disponibiliza vídeos com excelentes conteúdos,
totalmente confiáveis. São palestras, documentários, aulas,
cursos, etc., produzidos por produtoras sérias e bem conceituadas e
profissionais capacitados, como professores, pesquisadores, médicos,
advogados e especialistas de diversas áreas. Claro que também há
muita bobagem, muito besteirol, muitos picaretas disseminando
asneiras, crendices e coisas desse tipo. É preciso usar o bom senso
para identificar os picaretas dos verdadeiros especialistas.
Então,
voltamos aqui ao início de nosso texto: a frase de Hélio Ribeiro e
as oportunidades perdidas de melhorar o mundo. As ferramentas para
isso estão aí, à nossa disposição. Cabe a nós, seres humanos, e
não a nenhuma inteligência artificial, usá-las com bom senso e
sabedoria para tentar melhorar o mundo. Diferentemente de Hélio
Ribeiro, acho que as oportunidades de melhor o mundo ainda não estão
tão perdidas assim.
Há
um ponto muito importante: muita gente tem dito ultimamente que “o
mundo anda muito chato” por causa do chamado “politicamente
correto”. Eu, particularmente, acho que o “politicamente
correto”, de certa forma, é um sinal de evolução do ser humano.
Afinal de contas, as pessoas, independentemente de qualquer coisa,
merecem e devem ser respeitadas. Mas é preciso ter cuidado e,
sobretudo, bem senso. Se a gente começar a exagerar muito nesse
patrulhamento ideológico e social, criando, a todo momento, regras,
leis e práticas para tudo, podemos colocar em risco atá a própria
democracia, criando uma sociedade extremamente autoritária,
policialesca, uma espécie de “autofascismo”, um regime
autoritário ou totalitário, paranoico, extremamente controlador,
criado pela própria sociedade, sem a necessidade de nenhuma
ideologia ou de um “duce” ou de um “Führer”. Por isso, a
gente precisa começar a repensar todo esse patrulhamento. Mas também
é preciso tomar cuidado, porque, do outro lado, há outra ameaça
perigosa: o conservadorismo extremo, baseado principalmente no
fundamentalismo religioso.
A
impressão que se tem é que todo essa rápida evolução
tecnológica, que se acelerou muito nos anos 90, e as grandes
mudanças em nossa sociedade nos pegaram totalmente despreparados, e
a gente não sabe o que fazer com tanto extremismo de direita e de
esquerda nos pressionando.
Um
governo autoritário ou totalitário, promovido por um líder, um
ditador, uma ideologia ou um partido político, sempre enfrentará
resistência e, uma hora ou outra, é passível de queda. Mas quando
toda uma sociedade, aos poucos, vai criando regras e práticas que
limitam a liberdade e o direito de livre expressão dos seus
cidadãos, transformando-os em ditadores de si mesmos, é algo
difícil de ser desconstruído depois.
Mas
ainda temos tempo de melhorar o mundo antes que ele se torne
irreversivelmente pior do que já é.
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