sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O FUTURO, QUE NOS FASCINA E NOS ATERRORIZA

 



O futuro da humanidade nos encanta, nasfascina, mas também nos aterroriza.

Perguntei à Inteligência Artificial do ChatGPT se, além da possibilidade do aparecimento de novas doenças, com possibilidade de novas pandemias e epidemias, dos efeitos das mudanças climáticas, de uma possível, embora remota, tempestade geomagnética, quais os outros problemas com os quais a humanidade tem que se preocupar nos próximos anos?

Veja o que ela respondeu.

Os desafios globais que a humanidade enfrentará nos próximos anos são variados e interconectados, exigindo esforços coordenados e inovação. Aqui estão alguns dos problemas adicionais que demandam atenção:

1. Crises Hídricas

  • A escassez de água potável é um problema crescente devido ao aumento da população, à poluição e às mudanças climáticas, que afetam os padrões de chuvas e a disponibilidade de água.

2. Segurança Alimentar

  • O aumento da demanda por alimentos, combinado com a degradação dos solos, a redução da biodiversidade agrícola e os impactos climáticos, pode levar a crises de abastecimento.

3. Instabilidade Geopolítica

  • Conflitos armados, tensões entre grandes potências e disputas territoriais podem intensificar-se, especialmente em regiões estratégicas ou ricas em recursos naturais.

4. Inteligência Artificial e Automação

  • O avanço da IA pode trazer benefícios, mas também ameaças, como o aumento do desemprego devido à automação, desigualdade social e preocupações éticas relacionadas ao uso de tecnologias avançadas.

5. Cybersegurança

  • Ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas, governos e empresas estão aumentando em escala e sofisticação, representando um risco significativo.

6. Resistência Antimicrobiana

  • O uso excessivo de antibióticos na medicina e na agricultura está levando ao surgimento de "superbactérias", que são resistentes aos tratamentos atuais.

7. Desigualdade e Injustiça Social

  • A desigualdade de renda e acesso a serviços essenciais, como saúde e educação, pode gerar instabilidade social e econômica.

8. Colapso da Biodiversidade

  • A perda de espécies e habitats naturais pode comprometer os ecossistemas e os serviços que eles fornecem, como polinização, regulação climática e qualidade da água.

9. Esgotamento de Recursos Naturais

  • A exploração excessiva de recursos, como minerais, combustíveis fósseis e florestas, ameaça a sustentabilidade ambiental e econômica.

10. Proliferação de Armas de Destruição em Massa

  • O risco de proliferação nuclear, química e biológica continua sendo uma ameaça existencial.

11. Impactos do Espaço

  • Além de tempestades geomagnéticas, há o risco crescente de colisões com detritos espaciais, que podem afetar satélites e comunicações globais.

12. Desinformação e Polarização Social

  • A propagação de informações falsas e teorias conspiratórias, amplificadas pelas redes sociais, pode minar a confiança em instituições e aprofundar divisões.

13. Crescimento Populacional e Urbanização

  • O aumento populacional em megacidades pode sobrecarregar as infraestruturas e serviços básicos, gerando problemas como habitações inadequadas e sistemas de transporte ineficientes.

14. Mudanças na Energia

  • A transição para energias renováveis é necessária, mas desafios como armazenamento, distribuição e substituição de infraestruturas antigas podem atrasar o progresso.

15. Crises Econômicas e Financeiras

  • Desequilíbrios econômicos, como dívidas globais, instabilidade dos mercados financeiros e desigualdade de riqueza, podem desencadear crises econômicas.

Esses problemas são interdependentes, o que significa que uma crise em uma área pode agravar outras. A cooperação global e a antecipação estratégica serão cruciais para mitigar esses desafios.


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quinta-feira, 20 de abril de 2023

REDES SOCIAIS, MAIS UMA OPORTUNIDADE PERDIDA DE MELHORAR O MUNDO.





Certa vez, em uma entrevista, no início dos anos 90, antes da chegada e da popularização da Internet no Brasil, perguntaram ao grande e saudoso radialista Hélio Ribeiro, muito famoso nos anos 60, 70 e 80, por seu peculiar estilo, sua voz grave e forte e seu famoso programa radiofônico “O poder da mensagem”, o que ele achava do rádio. Ele respondeu que o rádio, assim como sua coirmã mais nova, a televisão, foram as maiores oportunidades perdidas de melhorar o mundo.

Com certeza, se vivo estivesse, Hélio Ribeiro diria o mesmo da Internet e das redes sociais.

A partir da década de 90, o Brasil e o mundo passaram por uma grande transformação tecnológica, que já vinha ocorrendo em décadas anteriores, mas em velocidade bem mais lenta. Com o fim da Guerra Fria e a aceleração da revolução tecnológica, a humanidade passou por enormes mudanças, que influenciaram sobretudo no comportamento das pessoas em todo o planeta. O mundo, que, já nos anos 60 e 70, era chamado de “aldeia global”, por causa da grande evolução nos sistemas de comunicação, principalmente a partir do início do século XXI, passou a ser — por mais paradoxal que seja a expressão — uma enorme “vila de comadres fofoqueiras”.

As tecnologias digitais, a Internet e as redes sociais são criações humanas maravilhosas e podem, e muito, facilitar nossas vidas se bem utilizadas. Apesar de muita bobagem que circula pelas redes , há, também e principalmente, pessoas que as utilizam para fazerem trabalhos maravilhosos. É o caso de uma moça de uma cidade do sul da Bahia, cuja mãe foi diagnosticada, há alguns anos, com mal de Alzheimer. Ele cuida, com o maior carinho e dedicação, da sua mãe, e expõe a seus já milhares de seguidores suas experiências nas redes sociais, o que, sem dúvida, ajuda muitas famílias que passam por situações semelhantes à à dela. Criativa, ela bolou uma técnica para manter a mente da mãe sempre ativa e que serve, também, para aferir o grau de conexão de sua mãe com a realidade: em seus vídeos, perto da mãe, ela conta a seus seguidores histórias mirabolantes, que ela mesmo inventa, para provocar a mãe, que reage, com uma quase cômica indignação pelo fato de a filha ser tão “mentirosa”.

Outro caso exemplar de uso extremamente útil das redes sociais é de um canal de Manaus (AM), que tem duas filhas especiais. Em vídeos, eles mostram o dia a dia das filhas e como é que lidam com o comportamento e o desenvolvimento delas, o que tem ajudado a muitas famílias que vivem situações idênticas.

Esses são apenas dois exemplos de como muita gente está usando a Internet e as redes sociais para fazer coisas boas, construtivas, iniciativas que têm como finalidade, realmente, melhorar o mundo.

Dito isto, vamos agora falar do lado negativo das redes sociais, dos canalhas, das pessoas moralmente e mentalmente doentes, que usam as redes sociais para disseminar todo tipo de conteúdo tóxico: mentiras, calúnias, ofensas, ameaças, informações científicas falsas, aconselhamentos, orientações e cursos de conteúdo duvidoso e todo tipo de besteirol.

As chamadas “fake news” sempre existiram no mundo da política. Foi usando uma “fake news”, uma mentira, que os republicanos convenceram o monarquista Deodoro da Fonseca a proclamar a República, em 15 de novembro de 1889. Foi usando a “fake news” do “Plano Cohen” que Getúlio Vargas deu um golpe de Estado, em 1937, e implantou a ditadura do “Estado Novo” no Brasil. Foi com a famosa “fake news” dos “Marmiteiros” que Hugo Borgh, um político paulista de “segunda linha”, capachão de Getúlio Vargas, conseguiu prejudicar a candidatura à presidência do Brigadeiro Eduardo Gomes, em 1945 e garantir a vitória de Dutra. Aliás, em tempos mais recentes, bem antes do surgimento da Internet, das novas mídias e das redes sociais, um modo rápido de se espelhar “fake news” era pelo ar, por meio de pequenos aviões, do qual os políticos jogavam panfletos com todo tipo de conteúdo calunioso contra seus adversários.

A Internet e as redes sociais, com sua rapidez e agilidade, apenas facilitaram ainda mais a disseminação de conteúdo falso e/ou calunioso em grande escala. O que nós precisamos é aprender a conhecer e a conviver com esse novo ambiente, com essa nova realidade. As pessoas que fazem isso, desde o “tio” ou a “tia” que pega um celular, faz um áudio mentiroso, dizendo ser médico, general e tal e inventa mentiras e informações falsas e espalha isso por WhatsApp ou Telegram, até aqueles que usam essas ferramentas para disseminar ameaças, calúnias e pregar o ódio e a intolerância, têm que ser identificadas e punidas. O que apareceu no WhatsApp, na época mais aguda da pandemia, como áudios e até vídeos (vestidos de jaleco e com um estetoscópio pendurado no pescoço) de “médicos” dando aconselhamentos absurdos sobre a covid e pregando inverdades sobre as vacinas, não foi brincadeira! Trata-se de uma gente doente, desequilibrada, sem caráter, de má índole, que, obviamente, não quer fazer nenhuma brincadeira, e sim, maldosamente, causar confusão e o caos. Essa gente tinha que ser identificada e punida. São criminosos perigosos e covardes, porque se aproveitam do aparente anonimato da Internet para cometer seus crimes.

Por outro lado, as pessoas — eu, você e todos nós — temos que aprender a ser mais criteriosos quando consumimos informação. As pessoas têm que estar mais conectada com o mundo à sua volta, ler mais, estudar mais e se informar mais, para não acreditar em tudo que lê, vê e ouve. Uma pessoa bem informada vai saber, facilmente, perceber se uma conteúdo é plausível, verdadeira, ou não. Senso crítico. É isso que falta à maioria das pessoas hoje em dia.

A própria Internet tem excelentes ferramentas que nos ajudam a nos mantermos informados. Há muitos sites excelentes de notícias e informações, totalmente confiáveis. Há sites excelentes sobre os mais variados assuntos, ligados a universidades e centros de pesquisa e de instituições culturais e científicas de alto nível. O Youtube também disponibiliza vídeos com excelentes conteúdos, totalmente confiáveis. São palestras, documentários, aulas, cursos, etc., produzidos por produtoras sérias e bem conceituadas e profissionais capacitados, como professores, pesquisadores, médicos, advogados e especialistas de diversas áreas. Claro que também há muita bobagem, muito besteirol, muitos picaretas disseminando asneiras, crendices e coisas desse tipo. É preciso usar o bom senso para identificar os picaretas dos verdadeiros especialistas.

Então, voltamos aqui ao início de nosso texto: a frase de Hélio Ribeiro e as oportunidades perdidas de melhorar o mundo. As ferramentas para isso estão aí, à nossa disposição. Cabe a nós, seres humanos, e não a nenhuma inteligência artificial, usá-las com bom senso e sabedoria para tentar melhorar o mundo. Diferentemente de Hélio Ribeiro, acho que as oportunidades de melhor o mundo ainda não estão tão perdidas assim.

Há um ponto muito importante: muita gente tem dito ultimamente que “o mundo anda muito chato” por causa do chamado “politicamente correto”. Eu, particularmente, acho que o “politicamente correto”, de certa forma, é um sinal de evolução do ser humano. Afinal de contas, as pessoas, independentemente de qualquer coisa, merecem e devem ser respeitadas. Mas é preciso ter cuidado e, sobretudo, bem senso. Se a gente começar a exagerar muito nesse patrulhamento ideológico e social, criando, a todo momento, regras, leis e práticas para tudo, podemos colocar em risco atá a própria democracia, criando uma sociedade extremamente autoritária, policialesca, uma espécie de “autofascismo”, um regime autoritário ou totalitário, paranoico, extremamente controlador, criado pela própria sociedade, sem a necessidade de nenhuma ideologia ou de um “duce” ou de um “Führer”. Por isso, a gente precisa começar a repensar todo esse patrulhamento. Mas também é preciso tomar cuidado, porque, do outro lado, há outra ameaça perigosa: o conservadorismo extremo, baseado principalmente no fundamentalismo religioso.

A impressão que se tem é que todo essa rápida evolução tecnológica, que se acelerou muito nos anos 90, e as grandes mudanças em nossa sociedade nos pegaram totalmente despreparados, e a gente não sabe o que fazer com tanto extremismo de direita e de esquerda nos pressionando.

Um governo autoritário ou totalitário, promovido por um líder, um ditador, uma ideologia ou um partido político, sempre enfrentará resistência e, uma hora ou outra, é passível de queda. Mas quando toda uma sociedade, aos poucos, vai criando regras e práticas que limitam a liberdade e o direito de livre expressão dos seus cidadãos, transformando-os em ditadores de si mesmos, é algo difícil de ser desconstruído depois.

Mas ainda temos tempo de melhorar o mundo antes que ele se torne irreversivelmente pior do que já é.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2022

NÃO SOMOS VILÕES DO SERVIÇO PÚBLICO

 




Maria Candelária
É alta funcionária
Saltou de paraquedas
Caiu na letra O, oh, oh, oh, oh

Começa ao meio-dia
Coitada da Maria
Trabalha, trabalha, trabalha de fazer dó
Oh, oh, oh, oh

A uma vai ao dentista
Às duas vai ao café
Às três vai à modista
Às quatro assina o ponto e dá no pé
Que grande vigarista que ela é.


Os versos acima são da marchinha de carnaval “Maria Candelária”, composta por  Armando Cavalcanti e Klécius Caldas e gravada, em 1952, pelo cantor Blecaute, que foi um grande sucesso no carnaval de 1953. Uma crítica bem-humorada ao funcionalismo público daqueles tempos em que praticamente não havia concursos ou processos seletivos. A grande maioria dos funcionários do serviço público era nomeada por indicação política. O funcionalismo, naquele tempo, era uma elite, pois boa parte dos servidores era parente ou tinha algum vínculo com políticos ou pessoas importantes do governo. Havia muitas queixas da população em relação ao atendimento nas repartições. Muitos funcionários só assinavam o ponto e saíam, outros até ganhavam sem trabalhar ou trabalhavam quando queriam. Repare que a letra da marchinha diz “Saltou de paraquedas/Caiu na letra O”. Traduzindo, os funcionários eram nomeados sem nenhum critério técnico, avaliação ou concurso. Eram indicações políticas mesmo. Funcionário público “letra O”, naquele tempo, eram os funcionários graduados, os de altos cargos, os “chefões”.

O tempo passou, o Brasil e o mundo mudaram e a realidade dos funcionários públicos também mudou. Vieram os processos seletivos e concursos públicos, vieram legilações administrativas mais rígidas, mais pressão da sociedade contra o nepotismo. Com o tempo, até as delegações para cartórios extrajudiciais, que até há algum tempo era praticamente uma “herança de família”, passaram a ser concedidas pelo poder público por meio de concursos, que exigem formação em Direito.

Ainda existem, é claro, os chamados cargos comissionados ou “de confiança”, mas esses têm caráter temporário. Hoje, o acesso ao funcionalismo público ocorre por meio de concursos. Só em casos excepcionais é que a lei permite a contratação de funcionários em caráter temperário.

Tudo isso significa que o perfil do funcionário público. Claro que á segmentos do serviço público que ainda formam uma certa “casta”, recebendo salários acima da média salarial da maioria dos funcionários. Mas são ocupantes de cargos nas procuradorias, no Ministério Público, na magistratura, que exigem conhecimento técnico de sua área. As “marias candelárias” não existem mais. O funcionalismo público, hoje, é formado, em sua esmagadora maioria, por gente comum, que estudou para passar em um concurso público, trabalha muito, tem a enorme responsabilidade de fazer funcionar a máquina pública e, em sua grande maioria, ganho muito menos do que merece.

No entanto, a injusta fama do funcionário público ainda persiste. E a grande maioria da mídia, a mesma mídia que, na maior parte do Brasil, não sobreviveria se boa parte de seu faturamento não viesse dos cofres públicos, tem sido a maior responsável pela persistência dessa má fama. A mídia e seus “especialistas de ocasião” têm nos transformados em vilões do serviço público. Não somos.

Não fossem os bravos servidores públicos da saúde, que, durante a pandemia, enquanto a maioria da sociedade estava em casa, escondendo-se do vírus, estavam na linha de frente, juntamente com trabalhadores da saúde da iniciativa privada, tentando salvar vidas. Sem funcionários públicos, não haveria a tal da “festa da democracia”, expressão que os jornalistas adora usar, já que são os milhares de funcionários públicos da Justiça Eleitoral e também, muitas vezes, com o auxílio de funcionários públicos de outras setores, é que organizam toda a logística para que as eleições se realizem. É o funcionário público que faz o passaporte e sua documentação para a “elite” viajar para Paris em férias. São funcionários públicos que estão vacinando a população.

Enfim, somos trabalhadores, responsáveis pelo funcionamento da máquina pública, em todas as suas áreas. Estudamos, fizemos concurso e nos preparamos para desempenhar nossas funções de Estado. Exigimos da classe política, da mídia e de toda sociedade brasileira um míni9mo de respeito.

Não queremos privilégios, regalias e bondades. Queremos que respeitem nossos direitos. Não queremos salários milionários. Queremos salários justos e periodicamente corrigidos para que não percam o poder de compra, que é um direito de todo trabalhador, seja do serviço público, seja da iniciativa privada. Queremos a segurança para desempenhar nosso trabalho livres de interferências políticas, livre dos canalhas que adoram dizer “Sabe com quem está falando?” ou coisa desse tipo.

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 FONTE DE IMAGEM: site
do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais no Estado da Bahia – ASSUFBA http://www.assufba.org.br/novo/entenda-a-situacao-do-funcionalismo-publico-brasileiro/
Acessado em 13/10/2022 – 13h43min.


quinta-feira, 7 de julho de 2022

COMO SERIA A ESTÓRIA DE CHAPEUZINHO VERMELHO NOS TEMPOS ATUAIS?


 

Todo mundo conhece a estória de CHAPEUZINHO VERMELHO. Sua origem data do século X, em plena Europa medieval. Mas vamos trazer, para reflexão, essa estória para os dias atuais, em nosso país, deixando de fora, é claro, os exageros e os fatos fantasiosos do conto. A narrativa abaixo seria de um jornal diário contemporâneo brasileiro, começando, é claro, pela manchete.


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AVÓ E NETA ATACADAS POR LOBO FAMINTO
CASSADOR CONSEGUE SALVAR AS DUAS A TEMPO

Uma senhora, com mais de 70 anos, adoentada, e sua neta, de cerca de dez anos de idade, foram atacadas por um lobo, feroz e faminto, na última semana, na região da floresta que circunda a cidade. Os nomes das vítimas não foram divulgados, mas sabe-se que a menina é conhecida na região onde mora por “Chapeuzinho Vermelho”, em razão de seu estranho hábito de usar frequentemente um chapéu vermelho.

Segundo a polícia, a tal senhora, que mora em uma casa na floresta, estava adoentada, e a sua neta havia ido, naquele dia, a sua residência para levar-lhe alimentos (doces, bolos, frutas, etc.). Quando lá chegou, deparou com o feroz lobo que estava atacando sua avó. Ao ouvir o grito de susto e pavor da menina, o lobo também a atacou. Felizmente, naquele momento, um caçador passava pelo local e ouviu os gritos de “Chapeuzinho Vermelho” e de sua avó. Ele, então, invadiu a casa e matou o lobo, salvando, assim, a vida daquelas duas criaturas indefesas.

Ao tomar conhecimento dos fatos, o Ministério Público já acionou os pais da menina, que estão sendo processados criminalmente por exporem a filha menor a perigos iminentes, permitindo que esta percorresse, sozinha, com tão pouca idade, caminhos que ficam em regiões da cidade conhecidas por serem de alto risco. Além disso, eles podem ser processado, também, por abandono de idoso, uma vez que a senhora que foi vítima do lobo morava só, em uma pequena casa, em local afastado da cidade. Se não bastasse isso, a casa onde morava a tal senhora é uma construção irregular, localizada em uma região de preservação ambiental. Em razão disso, ela terá de desocupar o imóvel e pode também ser processada.

O caçador que salvou a velha senhora e sua neta foi preso ontem, acusado de crime ambiental e porte ilegal de arma. Ele afirmou às autoridades que atirou no animal para defender a vida da menina e de sua avó. No entanto, entidades de defesa dos animais afirmam que isso não serve de justificativa, pois ele poderia ter usado outros métodos para espantar o lobo, sem a necessidade de sacrificá-lo. “Ele foi covarde e violento. Não havia necessidade de matar o pobre animal. Além disso, aquela senhora mora irregularmente na região, pois trata-se de uma floresta de preservação ambiental. São todos criminosos nessa história, menos o pobre lobo, que estava faminto, e a inocente menina”, disse um ambientalista entrevistado pela nossa reportagem.

Segundo informações do próprio Ministério Público, a menina atacada pelo lobo deverá ter acompanhamento psicológico por longo período. Uma especialista ouvida por nossa reportagem disse que o que chama também a atenção, no caso da menina atacada pelo lobo, é o seu hábito de usar quase que diariamente um pequeno chapéu vermelho, que teria sido presente de sua avó, igualmente atacada pelo lobo. “Aquele chapéu parece ser uma obsessão para ela. Não há quem a faça tirar aquilo. É um hábito muito estranho, que merece ser estudado. Talvez uma terapia resolva”, disse a especialista.

Ontem à noite, enquanto o caçador que matou o lobo depunha sobre o caso, uma manifestação, promovida por diversas entidades ambientalistas e de defesa dos animais, com a participação de intelectuais, artistas e políticos de esquerda, ocorria em frente à delegacia de polícia. Fachas com desenhos de lobos e inscrições como “PUNIÇÃO PARA O CAÇADOR COVARDE”, “CADEIA PARA O ASSASSINO DO LOBO”, “PIOR QUE ATAQUE DE UM LOBO FAMITO É ATAQUE À NATUREZA”, entre muitas outras pedindo punição ao caçador.

O advogado do caçador deu entrada ontem mesmo com um pedido de “habeas corpus” em favor de seu cliente. O pedido foi negado, e o assassino do lobo deve aguardar o seu julgamento preso.

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FONTE DE IMAGEM: site FREEPIK: https://br.freepik.com/vetores-gratis/ilustracao-do-chapeuzinho-vermelho-dos-desenhos-animados_15292310.htm


quinta-feira, 30 de junho de 2022

COMO VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA, SERIA ANALISADO, HOJE, POR UM GRANDE GOVERNANTE DA ANTIGUIDADE?



Como um grande rei ou imperador da Antiguidade analisaria, hoje, a figura de Vladirmir Putin, o autocrata russo que invadiu a Ucrânia? Vejamos como seria nesta fictícia conversa entre Nicolau II, último dos czares russos e Ciro, o Grande, fundador do Imério Persa.
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Dizem que, recentemente, o espírito de Nicolau II (1868-1948), o último imperador da Rússia czarista, antes da Revolução de 1917, encontrou o espírito de Ciro II, mais conhecido como “Ciro, o Grande”, o criador do Império da Pérsia, que reinou entre 559 e 530 antes da Era Comum. Na oportunidade, o ex-imperador russo perguntou a Ciro, que foi um grande guerreiro e conquistador, o que ele achava de Vladimir Putin, atual presidente da Rússia. Ao que Ciro respondeu:
Nikolái, acho este atual governante do que fora, em outras épocas, teu império, a Rússia, o tal Vladimir Putin, um estúpido e covarde.
Grande Ciro, respeito tua opinião, mas discordo dela. Esse homem quer reconquistar a glória do Império da Rússia, que tive o privilégio de governar.
Pode até ser, meu caro Nikolái, mas esquece-te de que o planeta Terra já não é o mesmo que deixaste em 1918, quando tu e tua família fostes executados pelos bolcheviques. O que Vladirmir faz está acarretando efeito contrário ao desejado: ele está fazendo com que todo o Ocidente se volte contra a Rússia — afirma Ciro, o Grande.
Ele está tendo uma coragem que não tive em minha época. Fui um governante fraco, Grande Ciro — lamenta-se Nicolau II.
De fato, foste um governante fraco, Nikolái  Achando que seu reinado seria longo, Alexandre, teu pai, não te preparou para ser czar, não recebeste ensinamentos para ser um governante, mais que isso, um líder. Vladimir, nesse aspecto, te supera. Mesmo sendo um autocrata, ele é um líder para a maior parte do povo russo de hoje. Tu, com teu despreparo e fraqueza, nem isso conseguiste. Alice, ou melhor, Alexandra, tua mulher, mesmo não sendo russa, era mais popular na Rússia do que tu — declarou Ciro.
Eu sempre deixei claro que não estava preparado para ser czar, nem queria sê-lo. Na verdade, eu não sabia governar, não sabia sequer tratar com os ministros e muito menos com o Soviete e com a Duma. Eu fui um fracasso.
Ainda bem que tu reconheces — assentiu Ciro, dando um leve sorriso.
Mas voltemos a Putin, Grande Ciro — disse Nicolau II. Disseste que ele é estúpido e covarde. Por quê? — questiona Nicolau II.
Estúpido, porque provocar uma guerra, invadindo um país vizinho, em pleno início do século XXI, com o mundo todo interligado e interdependente, é uma imbecilidade sem limites. Na Antiguidade, Nikolái, a guerra era uma questão de sobrevivência dos povos. Havia uma luta feroz por espaço e por poder; quanto mais conquista, mais poder, mais prestígio, mais glória e mais respeito para o governante, dentro e fora de seus domínios. Se tu não te armasses e não atacasses teu vizinho, seria, com certeza, uma hora ou outra, atacado e invadido por ele. Mas o mundo mudou, Nikolái. A geopolítica, hoje, é muito diferente do que era na Antiguidade. Um governante que, hoje, ataca um país vizinho, além de se transformar em uma espécie de pária internacional, sacrifica seu povo, podendo levá-lo ao isolamento. É o que está ocorrendo com tua Grande Rússia, Nikolái.
Disseste, também, que ele é covarde, Grande Ciro — questiona Nicolau II.
Nikolái, guerrear por telégrafo, como fez Lincoln na Guerra de Secessão, ou por rádio, ou por telefone ou por computador é muito fácil. Guerrear vivendo dentro de uma fortaleza, protegido por uma numerosa guarda, me parece bem mais fácil do que estar à frente, de espada em punho, de um exército de milhares de homens. Eu morri no campo de batalha, Nikolái, lutando contra os masságetas. Esses “conquistadores” de hoje nunca sentiram o cheiro do sangue da guerra de verdade, nunca sentiram o fio da espada no seu pescoço, nunca se ensurdeceram com os tiros dos tanques e com as explosões das bombas. Por isso, Nikolái, além de estúpido, seu sucessor, Vladimir, é um covarde. É fácil mandar milhares de homens para morrer por ele — concluiu Ciro II.
Apesar de passados mais de cem anos de sua morte física, Nicolau II ainda tinha a mesma insegurança dos tempos de czar. Afinal, ele não nascera para governar, nem fora preparado por Alexandre III, seu pai, para tal. Nicolau não era pequeno só na estatura, mas na alma também.
Ciro, o Grande, então, volta falar:
Teu governo, Nikolái, foi uma sucessão de erros, tragédias e fracassos, não só por tua culpa, mas também pela impulsividade de teus ministros e assessores. Tua mão foi manchada de sangue várias vezes sem que tivesses pegado em arma uma única vez. Lembra-te da festa trágica em Khodynka? Lembra-te também da propaganda antissemita lançada por teus ministros? Lembra-te da estúpida guerra contra os japoneses? Lembra-te do tal de “Domingo Sangrento”? Lembra-te do desempenho vexatório de teu exército na Primeira Guerra Mundial? Não bastasse isso, deixaste te influenciar por um charlatão, o tal Grigori Rasputin? Na verdade, a Rússia era grande e complexa demais para ti, Nikolái.Não esperava ser avaliado assim por um grande rei da Antiguidade — disse Nicolau II.
Meu reinado foi curto, Nikolái. Governei a Pérsia de 559 a 530 antes da Era Comum. Nesse curto período, consegui expandir meus domínios, transformando-o no maior império que o mundo já havia conhecido até então. Mas sempre respeitei os costumes e religiões dos povos que faziam parte de meu império. Tornando-o, em plena Antiguidade, em um modelo de administração. E isso, Nikolái, mil e quinhentos anos atrás, em um mundo, sem telégrafo, sem telefone, sem Internet, sem satélites, sem TV, sem energia nuclear, sem sequer energia elétrica, Nikolái. Digo, com orgulho, que foi uma era de prosperidade. Mas nunca deixei de comandar meu exército, Nikolái. Tanto foi assim, que acabei morrendo no campo de batalha, lutando junto a meus bravos comandados. Nunca fui covarde e estúpido como teu atual sucessor, Nikolái. O tal Vladimir está levando teu povo russo a ser estigmatizado por boa parte do mundo. A Rússia, com toda sua história, cultura e tradição, a Rússia de Liev Tolstói, de Fiódor Dostoiévski, de Piotr Ilitch Tchaikovski, de Ígor Stravinski, de Boris Pasternak e de outros tantos gênios das letras, da música e das artes, não merece um canalha como Vladimir Putin, um criminoso contumaz, meu caro Nikolái — concluiu o Grande Ciro II.
Nicolau II cala-se, põe-se a pensar no que Ciro II acaba de expressar e conclui:
Tens razão, Grande Ciro. Assim como a minha Rússia não merece Putin, assim como não mereceu o lunático do Lenin e seus camaradas bolcheviques, assim como não mereceu o psicopate do Stalin, assim como não mereceu a mim também…

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sábado, 19 de março de 2022

IMAGINE


Imagine um mundo sem a perspectiva de um paraíso futuro.
Mas também sem a perspectiva de um inferno abaixo de nós.
Tente. É muito fácil.
Imagine, acima de nós, o céu infinito. Nada mais.
Imagine todos nós, todas as pessoas, vivendo somente o presente.
Imagine um mundo sem países, sem divisões políticas, sem fronteiras. Não é difícil.
Nenhuma causa, nenhum motivo, para matar ou morrer.
Imagine um mundo sem nenhuma religião a nos dividir.
Imagine todas as pessoas vivendo em absoluta paz e harmonia.
Você pode me achar um sonhador, mas, acredite, não sou o único.
Espero que um dia você venha se unir a nós.
E, assim, juntos, seremos um só mundo.
Imagine um mundo sem propriedades, sem posses. Será que você consegue?
Um mundo no qual não exista nem ganância, nem fome.
Uma fraternidade humana, onde todos compartilhem igualmente o mundo inteiro.
Você pode achar que eu sou um sonhador, mas não sou o único.
Espero que você um dia se una a nós.
E todos nós, juntos, pertenceremos a um único mundo.

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Versão em português, de minha autoria, da letra da música Imagine, composição de Yoko Ono e John Lennon. Gravado por John Lennon, em 1971.


sexta-feira, 18 de março de 2022

A DEMOCRACIA À LUZ DA FILOSOFIA DE PONDÉ


 

Winston Churchill disse que a democracia é um péssimo sistema de governo. O problema é que não há outro melhor que ela. Em um mundo no qual o totalitarismo e o autoritarismo ainda se fazem presentes, uma das virtudes de um sistema democrático sólido é que ele não permite que nenhuma pessoa ou instituição tenha poderes ilimitados. Em uma democracia verdadeira, ninguém pode tudo. Cada poder e cada instituição cumprem seu papel, sem extrapolar seus limitas. Essa é a visão formal do regime democrático, que está nos livros de ciências sociais, jurídicas e políticas.

Neste texto, no entanto, vou deixar de lado as definições tradicionais sobre democracia e tentar analisá-la pela visão de um filósofo contemporâneo pragmático. Por isso, escolhi Luiz Felipe Pondé, um filósofo midiático, dos novos tempos.

Em seu livro FILOSOFIA PARA CORAJOSOS (1ª edição, Editoral Planeta, de 2016, páginas 131 a 134), Pondé faz algumas considerações muito interessantes sobre a democracia, que fazem a gente, de início, se chocar um pouco, mas, após alguma reflexão e lendo os argumentos do autor, nos parecem perfeitamente coerentes.

Segundo Pondé, por sua soberania na chamada vontade popular, a democracia desaguaria na crença de que a sociedade carrega em si alguma forma de “verdade moral”. Mas, segundo o próprio autor, toda moral pública é hipócrita. Ou seja, o público é hipócrita e nada tem a ver com alguma ideia de verdade. Ele conclui que, na democracia o que importa é a maioria, e não a verdade sobre coisa alguma. Platão, segundo ele, já apontava que a tendência da democracia é ser demagógica.

Irônico, Pondé afirma: “Antes que algum inteligentinho (sic) perdido na leitura deste livro me acuse de antidemocrático, devo dizer que a democracia é, de todos os regimes ruins em política, o menos pior, com certeza. E para manter essa “vantagem” da democracia sobre seus sistemas competidores, devemos lembrar suas fraquezas, coisa que o povo na democracia, como já disse Alexis de Tocqueville no século XIX em sua visita aos Estados Unidos, não gosta de ouvir porque a democracia na democracia é um dogma a ser amado”.

Pondé volta a se basear em Platão, ao dizer que em um regime pautado em opiniões variadas e pela contagem delas, o essencial é o número. Assim, ele conclui que a democracia é um regime de quantidades, e, nesse caso, os idiotas (citando Nelson Rodrigues) são sempre a maioria. E Pondé esclarece que uma das faces dessa idiotice da maioria é supor que a transparência na gestão da coisa pública, algo desejável em um governo, implica a transparência da verdade moral. Sempre que se afirma um valor em público, essa afirmação é, em grande medida, segundo Pondé, uma farsa a serviço do resultado esperado em termos de contagem de votos a favor ou contra o que você quer.

E Pondé vai ainda mais longe em suas considerações cruéis mas realistas sobre a democracia. Segundo ele, outro motivo para a democracia ser parceira da hipocrisia pública é sua dependência da adulação da opinião pública. Segundo Pondé, isso afeta desde os candidatos em uma eleição (política, segundo ele, é marketing) até artistas que vendem música: todos devem adular a opinião pública.

Pondé conclui que essa dependência da opinião pública, que leva todos a adular os idiotas, faz da democracia um simples regime de mercado. Dessa forma, Luiz Felipe Pondé conclui que a tendência da mentira na democracia é, no limite, uma tendência ao marketing. O que conta é a aparência. Pondé, inclusive, lembra que os defensores da democracia na Grécia Antiga eram os sofistas, que negavam a existência de qualquer verdade e reduziam o conhecimento à retórica. Por isso, Pondé finaliza seu texto dizendo: “Então, quando eu ouço alguém gritar contra a mentira na democracia, sempre sinto um cheiro de Papai Noel no ar”.

Apesar de tudo isso, não há como tirar a razão de Churchill. A democracia está longe de ser a panaceia para todos os problemas da sociedade. Muito pelo contrário: ela pode até criar mais problemas, disputas, polarizações político-ideológicas. pode ter seus defeitos, suas imperfeições, suas incoerências, mas ainda não conseguiram inventar um sistema melhor que ela.



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sexta-feira, 9 de julho de 2021

A ESCOLHA DE LAMPIÃO



Naquela noite distante de 27 de julho de 1938, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o Rei do Cangaço, acampou com seu bando na fazenda Angicos, no município de Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Tranquilos, pois o local era considerado seguro como esconderijo, todos foram dormir. De repente, Lampião é acordado. Alguém o chamava:

Virgulino! Virgulino!

Lampião acordou e logo já estava com seu rifle posicionado. Quando saiu de sua barraca, na qual Maria Bonita dormia profundamente, ele viu um homem estranho. Estava escuro, pois, por segurança, todos as lamparinas e lampiões do acampamento foram apagados. Havia chovido, o céu estava encoberto. Mas aquele estranho homem parecia ser iluminado por uma luz que não se sabia de onde vinha. O homem vestia roupa de cangaceiro, mas, na cabeça, em vez de um chapéu de meia-lua, tinha um quepe igual aos dos soldados das volantes. Lampião não pensou duas vezes e deu vários tiros no homem, que nem se abalou. As balas atravessaram o corpo dele como se passassem por uma nuvem de fumaça, não lhe causando nenhum ferimento, enquanto ele permanecia ali, impassível, olhando fixa e friamente para Lampião. Após os tiros, o estranho homem só disse:

Poupe sua munição, Virgulino! Seu brinquedo não pode me matar.

Suas balas nada podiam fazer contra aquele estranho possível inimigo. Isso fez Lampião sentir algo que ele nunca sentira em sua vida: medo. Aterrorizado com aquela criatura sinistra, com a qual nem seu rifle, nem todo seu bando podiam, ele começou a suar frio. Então, perguntou ao homem:

Tu é o Demônio? Só pode sê o Demônio.

Possa ser! Possa ser! — respondeu o homem.

O que tu qué de mim, Tinhoso?

Mas o homem ignorou a pergunta de Lampião e começou a falar, com calma, voz baixa e devagar:

Virgulino, um homem, em sua vida, pode escolher dois caminhos: o caminho do bem e o caminho do mal. O caminho do bem é difícil, Virgulino. Algumas vezes, tem muito sofrimento, muita dor, muita dificuldade, a jornada é difícil. É preciso ter coragem, fé e perseverança. As provações não são fáceis, Virgulino. Mas, no final da jornada, Deus recebe esse homem em seus braços. Já o caminho do mal muitas vezes é até bom, divertido, alegre. Veja o teu caso, Virgulino. Olhe o que tu já aprontou. Este sertão todo tem medo de tu. Tu tá famoso, teu nome saiu até em jornal do estrangeiro. Mas tua jornada está chegando ao fim, Virgulino. É hora do acerto de contas. Tu fez muita maldade, Virgulino. Muita maldade.

Congelado pelo medo, coisa que nunca sentira antes, Lampião pergunta ao homem:

Tu vai me matá, é?

Não, Virgulino. Não sou eu que vou te matar. Quem vai ter matar é um cabra que tu conhece bem. Mas tu tem uma chance de se livrar dele.

E qual a chance? — pergunta Lampião ansioso.

Virgulino, apesar de teus crimes, das barbaridades que tu fez na vida, tem muita gente que gosta de tu, acha que tu é um herói do povo pobre e tal. A maioria dessa gente simples e sofredora do sertão nordestino gosta de tu. Por isso, Deus está te dando uma chance. Tu tem que te arrepender de teus pecados, Virgulino, de teus crimes, abandonar essa vida e viver como um homem de bem. Mas tu tem que fazer isso agora, neste momento, perante mim, de todo teu coração, Virgulino. Se tem uma coisa que Deus conhece bem, Virgulino, é o coração do homem. Se tu se arrepender agora, tua vida pode se prolongar. Mas, para continuar vivendo, tu tem que deixar o cangaço e virar um homem de bem, Virgulino.

Oxente! E meu bando? Eles dependem de mim — reage Virgulino.

Cada um tem que tomar o seu caminho, Virgulino. Tu toma o teu, os teus cabras tomam o deles. Tu tem que abandonar essa vida, Virgulino, se quiser te salvar. Agora. Tua decisão é agora.

Olhe, homem ou seja lá o que tu fô, eu nunca matei ninguém que antes não tivesse querido me matar, ou me trair. Matei, sim, matei muita gente. Mas todo mundo que matei é gente que merecia morrer, gente que não prestava. Não posso abandonar meu bando. Esses cabras dependem de mim. Meu padrinho padre Cícero sabe disso.

Então tu não te arrepende de teus crimes, Virgulino? Pense bem, homem. É tua chance de te salvar — diz o homem.

Lampião, o Rei do Cangaço, que já enfrentou tantos perigos, sua frio, se sente acuado, com medo, na verdade, estava em pânico, com o coração quase saindo pela boca. Naquele momento, toda sua vida, desde sua infância, em Vila Bela, lhe passou pela cabeça. Lembrou-se do assassinato do pai, em 1919. Sua cabeça fez uma viagem no tempo, relembrando tudo por que ele havia passado, os crimes que cometera, as cidades que invadira. Ficou ali por vários minutos, refletindo, pensando, enquanto aquele estranho homem permanecia ali, em sua frente, quieto, observando-o e aguardando sua resposta. Aí, então, ele olhou firmemente para aquela estranha criatura, que ele não sabia se era Deus ou o Diabo, o Bem ou o Mal, e disse:

Olhe, seu moço ou sei lá o que tu é, entrei nessa vida sabendo que tava contra a lei, contra o puder, contra o guverno. Tudo começô quando a polícia matou meu pai. Jurei que ia vingá a morte dele. E vinguei. Fiz muita maldade nesse mundo, eu sei disso. Fiz coisa que num devia tê feito. Mas também fiz justiça, matei muita gente que era tão ruim ou pior que eu, gente que explorava pobre, gente que fez coisa até pior que eu fiz. Meu nome e minha fotografia saiu, sim, no jornal dos estrangeiros. Hoje sô conhecido no Brasil e até no mundo. Assim, pelo menos eu tô ajudando o povo do Brasil e até do estrangeiro a conhecê a vida dura do povo daqui do Norte, que passa fome, que é explorado, que sofre com a seca. Olha, seu moço, se tá errado ou tá certo, o que eu fiz tá feito e não tem como desfazê. Se eu mudá de vida agora, não vai trazê esse povo que matei de volta, não vai muda a vida dura do povo do sertão. Além disso, a Justiça Divina pode me perdoá, até a Justiça do homem pode me perdoar. Tão falando por aí numa tal de anistia para cangaceiro que se entragá. Mas muita gente por aí não vai me perdoá pelo que fiz. Mesmo que eu vire santo feito meu padim padre Cícero Romão Batista, muita gente não vai me perdoá, moço. Nunca vou tê sossego nessa vida.

Esta é tua decisão, Virgulino? — pergunta o homem.

Sim, senhô. Se diante de Deus tenho que pagá pelo que fiz, é o que tem que sê feito.

Então assim será! Adeus, Virgulino — disse aquele estranho homem, cuja imagem foi se dissipando aos poucos aos olhos de Lampião.

Lampião, então, acorda, assustado. Tinha sido um sonho, ou um pesadelo. Mal ele abre os olhos e vê Maria Bonita já de pé preparando o café. Em seguida ouve o grito do vigia:

A volante! Os macaco da polícia!

Não deu tempo nem de se levantar e pegar no rifle. O bando foi pego de surpresa. Quando os policiais comandados pelo tenente João Bezerra e pelo sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo os cangaceiros de Lampião não tiveram tempo de tentar nenhuma reação. Dizem que o ataque da polícia teria durado uns vinte minutos e poucos do bando de Lampião conseguiram escapar. Lampião teria sido um dos primeiros do bando a morrer.


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terça-feira, 18 de maio de 2021

CAMINHANDO PELA ETERNIDADE

 


Dona Lourdes era a típica mãezona, era muito preocupada e carinhosa com os filhos. Era muito religiosa. Ao contrário de seu irmão, Juca, que era ateu convicto. Apesar de seu materialismo, Seu Juca, como era conhecido, era o típico boa praça. Tinha um bom coração, ajudava a todos que o procuravam, sempre simpático e solícito. Um pouco diferente de sua irmã Dona Lourdes, que era mais sistemática e desconfiada, embora fosse uma boa pessoa, honesta e muito correta.

Um dia, Dona Lourdes queria ver seu neto que havia nascido, mas morava em uma cidade distante. Ela então pediu a seu irmão que a levasse de carro até lá para visitar o filho e o neto recém-nascido.

Na viagem de volta, um pequeno descuido de Seu Juca ao volante, causado por uma cochilada momentânea, foi fatal, e o carro no qual estavam acabou se chocando violentamente com outro veículo.

— oOoOoOoOo —


Aos poucos, Dona Lourdes foi recobrando os sentidos e se dando conta de que estava em um quarto, provavelmente em um hospital. Era um quarto todo branco, com mesinhas também brancas, uma delas com um vazo com flores muito coloridas. Era um ambiente agradável, tranquilo. Afinal de contas, o que acontecera? — pensava. Mas, aos poucos, começava a se lembrar da viagem, do irmão e, enfim, do acidente. Nossa! Onde será que estou, em que hospital. Cadê o Juca, meu marido, meus filhos, netos. Cadê todo o mundo, perguntava-se ela, já sentada na cama.

Nisso, batem à porta. Entra um homem, todo vestido de branco, com um sorriso cativante e um olhar alegre, simpático.

— Como está, minha irmã? Tudo bem? — disse sorrindo o homem.

— Parece que estou bem, sim, mas… Onde estou? O senhor…

De repente, Dona Lourdes percebeu que já conhecia aquele homem, mas não sabia de onde ou de quando. Ele mesmo, então, lhe falou, sempre de modo muito gentil e carinhoso:

— Sim, minha irmã, nós já nos conhecemos. Mas tenha calma! Com o tempo, as coisas vão ser esclarecidas. Todas as suas perguntas e questionamentos serão respondidas. Acalme-se!

— O senhor é médico? — perguntou Dona Lourdes ao homem.

— Sim, minha irmã. Além disso, sou um dos coordenadores deste Centro de Recuperação.

— Um hospital?

— De certa forma, sim, minha irmã.

— De certa forma? Olha, doutor, está tudo muito estranho. Eu mesma estou me sentindo estranha. Estou me sentindo diferente, sou míope, tenho que usar óculos, mas, mesmo sem óculos, estou vendo tudo perfeito. Eu sofri um acidente, pelo que me lembro. Deveria estar com pelo menos algum machucado ou, no mínimo, um arranhão. Estou perfeita.

O homem, então, aproxima-se de Dona Lourdes, puxa uma cadeira, senta-se e pergunta a ela:

— A irmã Lourdes é uma pessoa religiosa?

— Sim, muito!

— Se a irmã é religiosa e acredita em Deus, também deve crer na vida eterna, não é mesmo?

A observação do homem causou uma espécie de choque em Dona Lourdes.

— Meu Deus! Então eu… Eu morri? — disse ela, colocando as mãos sobre a cabeça.

— Minha irmã — diz o homem, sempre de forma carinhosa e gentil, a morte não existe.

— Como, não existe? Eu devo estar lá a esta hora, morta, sendo velada por minha família, que deve estar chorando por minha perda. E agora? — diz Dona Lourdes, indignada e já chorando.

— Minha irmã, o que está lá não é você, e sim apenas um corpo. Você, a própria, está aqui, agora, conversando comigo.

— E meu marido, meus filhos, meus netos e…?

— Eles vão continuar por lá por mais algum tempo, cumprindo suas missões. Como você já terminou as suas, já está aqui.

— Cumprindo missão?! Até no plano divino, tudo é uma grande burocracia. “Você tem que morrer porque já cumpriu sua missão”. Danem-se os filhos, os netos, os vínculos familiares, os sentimentos, danem-se a dor, a perda, o sofrimento. O que importa é cumprir os desígnios do Todo Poderoso. Cadê a misericórdia de Deus, como me ensinaram na Igreja? — disse Dona Lourdes, revoltada.

— Minha irmã — respondeu-lhe calmamente o homem de branco —, eu compreendo sua indignação, sua revolta. Deparo com isso todos os dias, há séculos. Mas logo, a seu tempo, compreenderá tudo. O ser humano está longe ainda de entender certas coisas. É como uma criança de dois anos passeando com os pais em um centro de compras e vê um lindo brinquedo exposto. Ela quer, a todo custo, aquele brinquedo. No entendimento dela, basta os pais pegarem o brinquedo e lhe darem ou permitirem que ela pegue o brinquedo e fique com ele. Ela não entende que há regras, que seus pais não podem simplesmente pegar o brinquedo e lhe dar, já que, obviamente, eles teriam que comprar o brinquedo. A criança, pequena, imatura, envolta em seu pequeno mundo, ainda não tem capacidade de entender as complexas regras dos adultos. Quando também não conseguimos entender os mistérios da vida e do Universo, quase sempre agimos assim, como a criança na loja de brinquedos.

Dona Lourdes se acalma. Havia se levantado da cama. Ficara de pé quando disparou sua revolta, mas voltou a se sentar e perguntou ao homem de branco:

— O senhor me perdoe! Mas, afinal de contas, quem é o senhor e o que será de mim agora?

O homem sorri e lhe diz:

— Perdoe-me, minha irmã. Não me apresentei. Meu nome é Petrônio, faço parte da equipe deste centro de recuperação onde está agora. Vou cuidar da irmã e orientá-la. Mas a irmã é livre para agir e tem toda a eternidade para decidir o que vai fazer em sua existência. Mas estou encarregado de orientá-la e lhe atribuir alguma missão ou trabalho, caso esteja disposta a continuar seu processo de evolução.

— Claro que quero evoluir. Não quero me tomar uma alma errante, perdida! Sempre fui uma pessoa religiosa, de muita fé e, sobretudo, ativa.

Petrônio, então, junta as mãos, num gesto de felicidade pela decisão de Dona Lourdes e diz:

— Que bom, minha irmã! Terei a maior alegria e satisfação em orientá-la!

Mas, nesse momento, Dona Lourdes lembrou-se de que seu Irmão Juca era quem estava dirigindo o carro. O que teria acontecido com ele? Antes que ela perguntasse, Irmão Petrônio, como era conhecido, lhe adiantou:

— Seu irmão Juca também está aqui. Em breve, poderá encontrá-lo. Mas antes a irmã terá de passar um tempo na área de Aperfeiçoamento Moral e Espiritual. Seu irmão, no entanto, foi dispensado dessa fase. Ele irá diretamente para os grupos de trabalho.

Dona Lourdes espantou-se.

— Mas Juca era ateu, não acreditava em nada.

— E o que tem isso, irmã? Estar aqui e descobrir que a morte terrena não é o fim já foi o suficiente para mudar a opinião dele — disse Petrônio.

— Perdoe-me, irmão Petrônio — se me permite chamá-lo assim —, mas o que não estou entendendo é que sempre fui uma pessoa religiosa, sempre lia a Bíblia, ia à igreja, mas terei que me aperfeiçoar moralmente e espiritualmente. Já meu irmão, que sempre foi incrédulo, ateu, nunca leu a Bíblia, não precisa de aperfeiçoamento moral e espiritual. Não estou reclamando, irmão Petrônio. Só estou achando estranho.

— Irmão Petrônio é exatamente como todos me chamam aqui, irmã Lourdes. Eu compreendo perfeitamente sua surpresa. É natural. Mas aqui a pessoa, ou seja, a consciência, é avaliada pelo que ela realmente é, no mais profundo de sua alma, e não pelo que ela parece ser ou tenta parecer que é.

— Não compreendi, irmão Petrônio.

— A irmã, por exemplo, sempre foi uma mulher religiosa, frequentava regularmente sua igreja, lia a Bíblia, fazia suas orações, assistia a preleções de pregadores, filmes sobre religião. No entanto, a irmão, tinha um coração duro, rancoroso, era extremamente ciumenta em relação aos filhos, era preconceituosa, racista, às vezes tratava mal pessoas que trabalhavam para você.

Dona Lourdes se assusta com a análise precisa feita pelo irmão Petrônio.

— Nossa, irmão! Eu nem percebia que era tudo isso.

— Geralmente as pessoas não se dão conta dos próprios defeitos, minha irmã. Os vícios estão tão embutidos em suas personalidades, que a própria pessoa não têm consciência deles. Por isso, julgam-se a mais perfeita das criaturas — diz irmão Petrõnio.

— Mas e o Juca, irmão Petrônio?

— Seu irmão Juca era ateu, realmente, não acreditava em nada, nunca leu a Bíblia, desde sua adolescência nunca mais entrou em um templo religioso. Mas isso não fez dele uma pessoa ruim. Pelo contrário, seu irmão era sinceramente bom, tinha o coração puro, não media esforços para ajudar seus semelhantes, caridoso, carinhoso com as pessoas, alegre, sempre de bem com a vida, não tinha preconceitos, nunca falava mal de ninguém. Claro que, como todo ser humano, não era perfeito, mas o fato de ele ser ateu demonstra que era bom por princípios, e não por medo de castigos divinos ou coisa desse tipo. Por isso, ele não precisa passar por aperfeiçoamento moral e espiritual.

— Irmão Petrônio, mas a Bíblia diz…

— A Bíblia, irmã, embora seja uma das mais belas, ricas e valiosas das obras literárias, históricas, filosóficas e religiosas da Humanidade, é apenas uma coletânea de textos muito antigos, escritos por escribas de um povo primitivo, que acreditava em um deus humano, que tinha complexo de exclusividade, era ciumento, vingativo, arrogante e até genocida. A chamada Providência Divina, minha irmã, ou Deus, como queira, está acima dos sentimentos e das fraquezas humanas. Na verdade, Deus não existe. Deus é. Você não está nEle, mas Ele está em você, quer você acredite ou não nEle. É o caso de seu irmão, que era ateu. Mesmo assim Deus estava, está e sempre estará nele.

— Irmão Petrônio, e as religiões, as igrejas? Hoje em dia, na Terra, há milhares de igrejas, centenas de religiões. O que as igrejas pregam, o que a Bíblia diz está tudo errado então? — questiona Dona Lourdes, chocada.

— Não, minha irmã, de forma alguma. As religiões, as igrejas, são importantes e têm um papel relevante na formação moral do ser humano, mas são instituições humanas, têm suas falhas, têm suas virtudes, mas também têm seus vícios. Mas Deus é Deus, irmã, Ele está acima das religiões, acima das crenças, dos rituais, dos livros considerados sagrados. As religiões, principalmente as abraâmicas, apresentam a seus fiéis um deus humano, moralista, ciumento, exclusivista e até vingativo, que condena ou perdoa, conforme sua “vontade”, seus “caprichos”. Deus é Deus, criador, é o princípio, a essência e o fim de todas as coisas. Ele não é uma criatura, que tem vontade, que tem opinião, que tem sentimentos humanos. Ele está em todos nós, em todos os seres humanos, mesmo nos ateus.

— Nossa! O conceito de Deus é mais difícil de entender do que imaginava! — diz Dona Lourdes.

— Na verdade, é quase impossível ao homem, por mais culto e erudito que ele seja, entender o que é Deus realmente. Deus, a Consciência Divina, a Providência ou seja lá o nome que Lhe se queira dar, é algo ainda incompreensível à consciência humana, está além de seu entendimento. Lembra da criança na loja de brinquedos?

— Irmão Petrônio, e o pecado? — pergunta Dona Lourdes.

— As religiões, especialmente as abraâmicas, estabelecem listas e categorias de pecados, como os capitais, ou seja, aqueles mais graves, os mais leves e tal. Tudo isso, irmã, embora sejam atribuídos a Deus, são conceitos humanos. Segundo seus livros sagrados e os dogmas dessas religiões, pecado é tudo aquilo que “não agrada ou desagrada a Deus”. Isso é para fins de doutrinação do fiel. Para doutrinar seus fiéis, as religiões têm que estabelecer parâmetros. Na verdade, irmã, pecado é tudo aquilo que praticamos mesmo sabendo que faz mal a nós mesmos e/ou a outrem. Quando você pratica alguma coisa, mesmo sabendo que aquilo é prejudicial, danoso, nocivo ou até letal a você e/ou a outra pessoa ou às pessoas em geral, seja o que for, é pecado.

— Que curioso! Quer dizer que, quando eu como determinado alimento, mesmo sabendo que esse alimento pode ou vai me fazer mal, estou cometendo pecado? — pergunta Dona Lourdes com um leve sorriso.

— Sim, está cometendo um pecado contra você mesma, irmã. Tudo é permitido ao ser humano, irmã, ele goza de livre arbítrio. Cabe a ela decidir o que lhe convém. Não há castigo divino para os pecados. Há consequências, que geralmente não são boas.

Dona Lourdes, então, toma consciência de que vive, agora, uma nova realidade, está em uma outra dimensão, em um outro plano de vida. Então pergunta ao irmão Petrônio:

— Irmão Petrônio, o que será de mim agora?

— A irmã é livre. Pode fazer o que bem entender. Mas minha orientação, se quiser aceitar, é de que se junte a nós. Mas, antes, deverá passar por um processo de aperfeiçoamento moral e espiritual. É uma espécie de curso, de um estudo, para que a irmã se inteire mais sobre sua nova realidade. Depois, poderá se juntar a nós e iniciar uma atividade. Mas antes vamos conhecer seu novo mundo. Há algumas pessoas que a querem ver, ou seja, rever — diz o irmão Petrônio, sorrindo.

— Vou poder rever meus entes queridos que já haviam morrido? Nossa! Será que estou preparada para reencontrá-los?

— Claro que está, irmã. Vamos lá?

— Irmão Petrônio, quando entrou no quarto, senti que já o conheço. O próprio irmão confirmou isso. Apesar da impressão que sinto, não me lembro de onde e de quanto nos conhecemos.

— Calma, irmã! Aos poucos, vai se lembra de onde e de quando já me conhece, assim como se lembrará de outras coisas, que ficaram apagadas de sua memória durante sua vida na Terra, aos poucos vão reaparecer em sua memória.

E assim, enquanto sua família chorava sua perda, aqui na Terra, Dona Lourdes se preparava para começar uma nova etapa de sua caminhada pela eternidade.


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SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...