Sonhei que, farto de toda esta situação que vivemos,
resolvi falar diretamente com Deus.
Chegando lá, surpreendentemente, surge uma linda
jovem, muito gentil e sorridente, que me diz, mesmo sem eu nada perguntar, que
Deus já iria me atender. Fiquei surpreso..
— Mas Deus, sem nenhuma formalidade, vai me atender assim — questionei à bela
jovem que me recebeu. E ela, sorrindo, com uma voz doce e modos delicados, me
disse:
— Por que a surpresa? O Senhor atende a todos
prontamente, indiscriminadamente. É só procurá-Lo.Já, já, Ele irá atendê-lo. Esteja certo.
Nem aquela encantadora jovem acabou de falar, surge um
homem jovem, entre 25 e 30 anos, simpático, vestindo uma surrada calça geans,
uma camiseta branca, um tênis branco, com um largo sorriso no rosto. Olhou-me e
disse:
— Quer falar comigo, não é?
Eu, surpreso, sem entender nada, perguntei:
— Mas o senhor é…
— Sim, eu sou aquele que é!
— Mas… — fiquei eu sem saber o que dizer.
— Mas o quê? — disse Ele sorrindo, percebendo meu
constrangimento e minha surpresa por encontrar um Deus tão diferente do que eu
imaginava. Ele colocou a mão direita no meu ombro e disse, me tirando dali:
— Vamos para um local onde possamos conversar mais à
vontade.
Entramos em uma sala bonita, agradável, com decoração
simples, onde havia duas cadeiras grandes e confortáveis, uma de frente para a
outra. Ele se sentou em uma delas e me pediu para me sentar na outra, que estava
à sua frente. Assim que nos acomodamos, Ele disse:
— Sei que veio até mim porque está com seu coração
repleto de dúvidas, inseguranças e medo? Acalme seu espírito e abra seu
coração.
— Senhor, estamos vivendo uma experiência inédita,
assustadora e até bizarra. Muita gente já morreu.
— Vocês estão passando por uma pandemia, que não é
inédita. Muitas outras gerações anteriores às de vocês também já passaram por
isso, e em condições de vida muito piores, bem mais precárias que as de vocês.
Não havia médicos, hospitais, transportes, comunicações, tecnologia, eletricidade,
as pessoas não tinham as noções de higiene que têm hoje. Tudo era muito mais
difícil. Milhões de pessoas também morreram nessas pandemias — disse Ele.
— Senhor, por que esse castigo tão dura para a
humanidade? — ousei perguntar-Lhe. Mas Ele, sem demonstrar surpresa, disse:
— O homem é uma criatura dotada de inteligência,
capacidade cognitiva, raciocínio e livre arbítrio. Eu o criei, mas não
interfiro em suas atitudes, a não ser que ele me peça e me permita isso. Aí,
sim, posso guiá-lo, orientá-lo, intuí-lo, iluminá-lo, protegê-lo. Mas o homem é
livre para tomar as decisões que lhe aprouver, sendo, também, obviamente,
responsável pelas consequências dessas decisões. Criar o homem somente para
manipulá-lo, feito marionete, não faria sentido algum para meus propósitos.
Então, não há castigo divino. Há, isto sim, consequências.
— Então o próprio homem seria o responsável por essa
pandemia que está aí — perguntei-Lhe.
— A natureza tem seus caprichos. Mas, se levarmos em conta as condições do
mundo atual, o estádio da tecnologia, das ciências e, em especial, da medicina
de hoje, de certa forma, sim, o homem tem sua dose de responsabilidade pela
disseminação dessa doença. Um grande incêndio só pode ser debelado no seu
início, quando surgem as primeiras chamas. Se você ficar somente olhando as
chamas iniciais queimarem, querendo saber por que começaram, elas vão se
espalhando rapidamente e, em pouco tempo, você não terá mais controle da
situação.
— Mas, Senhor, trata-se de uma doença nova,
desconhecida para os médicos e…
— Pandemias geralmente só acontecem com doenças
desconhecidas pelo homem, para as quais ele ainda não descobriu tratamento nem
vacina.
— O que podemos fazer, então, Senhor?
— Eu sou o princípio e o fim de tudo, sou o caminho, a
verdade e a vida. Se confiarem em mim, de todo o coração, tudo se resolverá.
Mas estejam cientes de que o caminho certo, pelo qual os guio, muitas vezes,
pode não ser o mais curto, nem o menos íngreme. Muitas vezes, há que se passar
por fases difíceis para se chegar à vitória. Não há mágica. O milagre da vida
nem sempre é instantâneo. O exercício da fé exige perseverança, destemor,
paciência e, sobretudo, confiança absoluta em mim. Não é fácil, eu sei. Mas,
embora vocês ainda não o compreendam, é justamente em função disso que vocês
estão na Terra. A caminhada pela eternidade exige aprendizado e evolução
constantes. É por isso que temos que passar por todo tipo de experiências ao
longo de nossa caminhada eterna.
— Senhor, e os milhares de pessoas que já morreram,
estão morrendo e morrerão?
— Para o ser humano, a dor pela perda de um ente
querido é lancinante e muitas vezes traumática. Sei que também não é fácil, mas
é preciso entender que, assim como a vida na Terra tem que continuar, a
caminhada dessas pessoas pela eternidade também tem que prosseguir. Elas
cumpriram sua missão na Terra e têm que continuar percorrendo sua trajetória
pela eternidade.
— Senhor, isso me assusta um pouco. Parece uma coisa
burocrática, normativa, fria.
— O homem, por mais espiritualizado que seja, costuma
concebe a vida somente dentro dos limites da razão humano, o que é natural, por
isso seu choque.
— Então, Senhor, concluindo, o que devo fazer, diante dessa situação é…
— Cuide-se, obviamente, e, acima de tudo, acredite em
mim, que tudo se resolverá, pois eu o guiarei à vitória, tenha certeza.
Lembre-se, porém, de que os caminhos certos, aqueles que o levarão à vitória e
à superação completa de tudo isso, podem não ser os mais curtos e mais fáceis.
— Sim, eu sei — respondi.
— Acredita e confia em mim? — perguntou-me Ele, de
frente, sorrindo e com as suas mãos em meus ombros.
— Sim, Senhor! Acredito e confio no Senhor! — respondi-Lhe.
— Então vá em paz. Não tema nada na vida. Estarei
sempre com você.
A imagem dEle me olhando, sorrindo, ficou ali por
alguns segundos, como se estivesse congelada. Depois foi se apagando, apagando.
Aí, acordei.
Se Dias Toffoli e seus ministros já
estivessem no Supremo Tribunal Federal em 1889, em 1937 e em 1945,
possivelmente, o Brasil ainda seria uma monarquia, Getúlio Vargas não teria se
tornando ditador, nem o Brigadeiro Eduardo Gomes teria perdido a eleição para
Dutra.
Foi uma velha raposa da política que, um
dia, muitos anos atrás, me disse que há três formas de se “fazer política”
(expressão comum nesse meio): pelo convencimento, pela negociação e
pelo confronto. Cada uma dessas formas tem suas variantes, que vai
do ético ao inescrupuloso. Pelo convencimento, pode-se da apresentação de um
bom projeto de governo ao mais abjeto dos engodos; pela negociação, pode-se
variar de um acordo digno à mais espúria das barganhas; no confronto, no
entanto, o leque se abre ainda mais: chegamos ao vale-tudo. Portanto, em
política, nem sempre tudo é o que parece ser. Se você se propuser a disputar um
cargo público, independentemente de sua formação intelectual, de seu grau de escolaridade,
saiba que, nesse mundo de contrassensos da política, vale mais a experiência, a
malícia e a astúcia. Intelectualidade, nesse meio, não vale muita coisa. É um
mundo em que o sentimentalismo não existe. Toda manifestação sentimental que
você vir nesse meio é falsa. Não se iluda.
Hoje, fala-se muito em “fake news”, como
se fosse o mais capital dos pecados políticos. Pois as “fake news” já
eram utilizadas no mundo político muito antes da fundação de Roma Antiga.
A História política do mundo seria muito diferente se não fossem as mentiras,
as informações falsas. Vamos citar aqui três exemplos de “fake news” que
mudaram, sem nenhuma contestação, os rumos de nossa história.
Na Proclamação da República, os
conspiradores foram até a casa de Deodoro, que estava doente, e o convenceram a
liderar o golpe, dizendo a ele que, a partir de 20 de novembro, o novo
Presidente do Conselho de Ministros do Império seria Silveira Martins, que era
um velho inimigo dele, mas era mentira. Além disso, disseram a ele que já havia
uma ordem de prisão contra ele, Deodoro, outra mentira deslavada, mas que
convenceu o marechal a proclamar a República e a exilar a Família Imperial. Ou
seja, uma “fake news” provocou um golpe de Estado que implantou a República no
Brasil.
Outra “fake news” histórica ocorreu no
dia 30 de setembro de 1937. Nessa data, o general Goés Monteiro, até então
chefe do Estado-Maior do Exército, noticiou pelo programa de rádio “Hora do
Brasil”, que havia um plano comunista que envolvia a retirada de Getúlio Vargas
do poder. O Plano Cohen, como ficou conhecido, amedrontou a população na época.
Segundo Goes Monteiro, os comunistas iriam provocar tumultos
entre operários e estudantes, causariam incêndios em casas e prédios públicos,
manifestações a fim de saquear e depredar patrimônios públicos e privados,
eliminariam autoridades públicas que se opusessem aos atos e, por
fim, exigiriam a liberdade de presos políticos. Tudo mentira. Mas
foi o suficiente para Getúlio pedir ao Congresso Nacional a decretação de Estado
de Guerra, concedido em 1º de outubro de 1937. Começou, então, uma terrível
caça aos comunistas — que, na verdade, nada tinham a ver com a história — e, em
10 de novembro de 1937, usando essa “fake news” como desculpa, Getúlio implanta
a ditadura do “Estado Novo”, no Brasil, que duraria até 1945.
Em 1945, Getúlio Vargas foi deposto e
foram convocadas eleições presidenciais. Os candidatos principais eram Eurico
Gaspar Dutra contra o Brigadeiro Eduardo Gomes — o mesmo que deu nome aos
docinhos de chocolate. Um sujeito chamado Hugo Borghi, político, empresário,
muito rico, que havia sido líder de um movimento chamado “Queremista” (de
“queremos Getúlio”), que tentou manter Vargas no poder, convenceu Getúlio,
então fora da vida pública, a apoiar Dutral, em vez de Eduardo Gomes. No dia 19
de novembro, o Brigadeiro Eduardo Gomes pronunciou um discurso no Teatro
Municipal do Rio de Janeiro, afirmando: “Não necessito dos votos dessa malta de
desocupados que apoia o ditador para eleger-me Presidente da República!”. No
entanto, Hugo Borghi adulterou as palavras do Brigadeiro, afirmando, nas rádios
e por meio de panfletos distribuídos nas ruas, que o Brigadeiro tinha dito “Não
preciso dos votos dos marmiteiros!”. Estava feito o estrago. Rapidamente a
marmita se tornou o símbolo da campanha de Dutra contra o Brigadeiro Eduardo
Gomes. Por causa dessa “fake news” produzida por Hugo Borghi, a marmita virou
um símbolo popular naquela eleição entre os setores populares urbanos, o que
acabou com qualquer chance de o Brigadeiro Eduardo Gomes eleger-se presidente
em 1945.
Provavelmente, mesmo se já fosse
presidente do STF em 1889, ou em 1937, Dias Toffoli, naquele tempo, pouco
poderia fazer para reverter os efeitos das mentiras dos golpistas republicanos
e de Getúlio. Naquele tempo, o STF, na prática, não tinha tanto poder. Talvez
conseguisse alguma coisa contra a “fake news” de Hugo Borghi em 1945. Talvez…
Eram outros tempos.
Hoje, fala-se muito em meio ambiente, em “roubar o futuro da Greta” e tal. Mas
a gente precisa recorrer um pouco à História para entender certas coisas. O que
diria a jovem sueca Greta Thunberg se vivesse no final do século XIX e soubesse
que as cidades, naquele tempo, estavam condenadas a, literalmente, afundar na
merda? Será que também diria aos governantes daquele tempo que eles haviam roubado
seu futuro?
Com base em um
artigo de Felipe van Deursen, publicado em seu blog na revista
Superinteressante, em 21 de dezembro de 2016, vamos contar uma história aqui
que pouca gente, hoje, sabe, mas que colocou administradores de grandes cidades
espalhadas pelo mundo em pânico no final do século XIX.
Em
1898, delegações de várias cidades do mundo se reuniram em Nova York, nos
Estados Unidos para discutir os problemas urbanísticos daquele tempo, como
crime, falta de recursos, questões de infraestrutura, etc.
Naquela
época, não havia ainda transporte motorizado, ou seja, não havia carros. O meio
de locomoção daquela época era o cavalo. E, como todo o mundo sabe, cavalo não emite
gás carbônico e outros poluentes, mas faz cocô, que além de liberar o gás metano
no ar, é uma sujeira sólida, pesada e com um forte odor nada agradável.
Por
causa do intenso trânsito de animais, era tanta bosta acumulada nas
ruas de cidades como Londres, Nova York e outras metrópoles, que as projeções
para o então futuro século XX eram apocalípticas. O jornal londrino Times chegou
a publicar que até a década de 1940 as pilhas de esterco chegariam a três
metros de altura. Do outro lado do Atlântico, temia-se que quem morasse ou
trabalhasse até o segundo andar em Nova York estaria, em 1930, soterrado por
material fecal. Londres tinha então 50 mil
cavalos transportando pessoas todo dia de um local para o
outro. Nova York chegou a ter pelo menos 100 mil animais
circulando pelas ruas, que produziam uma média de 10 kg de
fezes por dia (ou seja, um total de mil toneladas diárias). Haja cocô!
Sem contar, também, a urina, as moscas e
até mesmo os cavalos mortos.
O problema era que não havia um plano de descarte e tratamento
decente para tamanho problema das metrópoles. As cidades naquele tempo se
apertavam em cortiços, favelas, quarteirões emporcalhados, calçadas
engorduradas, becos abjetos. A densidade demográfica de Nova York, por exemplo,
mais que dobrou no fim do século XIX. Por isso havia tanta preocupação com o
acúmulo de dejetos nas vias. Em 1880, Nova York precisou se livrar de
quinze mil carcaças de cavalos mortos.
Após dias de discussão em Nova York, não se chegou a conclusão nenhuma
na conferência de 1898 — bem semelhante às reuniões e congressos sobre assuntos
climáticos de hoje em dia.
As soluções vieram com o tempo e os avanços da tecnologia, que
salvaram as cidades de, literalmente, se afundarem na merda. Os bondes deram um
alívio, mas foi a popularização do carro, no começo do século XX, que trouxe a
solução. Em 1912, o número de automóveis ultrapassou o de cavalos em Nova
York. O invento do século era enaltecido por ser economicamente sustentável e
por ter a habilidade de “reduzir o tráfego”. Quem diria, hein?
Hoje em dia, as carruagens de Nova York estão restritas, obviamente, mais como uma
atração turística, ao Central Park. Mantendo os animais afastados da poluição
provocada pelos “cavalos do século 20″.
O mundo já esteve à beira do caos e a existência da humanidade
ameaçada muitas vezes. O Homo sapiens, na hora “H”,
conseguiu arranjar um jeito de salvar a própria espécie. Não podemos nos
esquecer, por exemplo, de que, nos primórdios, quando o ser humano ainda vivia
da caça e de coleta, e os alimentos começaram a se tornar raros e difíceis de
serem obtidos, ele teve que aprender a produzir a própria comida. Foi quando
surgiu a agricultura e a criação de animais para o corte. Já no final da Idade
Média, uma terrível epidemia de peste negra (peste bubônica) matou mais de um
quarto da população da Europa. Sem conhecimentos de infectologia, sem vacina,
sem a mínima noção de higiene e saúde, o homem conseguiu sobreviver à
disseminação da peste.
É claro que a
gente tem que se preocupar com a questão do meio ambiente. É importante fazer
nossa parte. Diferentemente de nossos antepassados, hoje a gente tem muito mais
tecnologia para prever ou, pelo menos, presumir o que nos espera no futuro, o que
nos permite tomar medidas preventivas muito mais eficientes. Mas não podemos
nos deixar dominar pelo alarmismo que algumas organizações ambientalistas e a
própria mídia propagam. Sem deixar de fazer a nossa parte no uso mais racional
dos bens de consumo, para uma vida mais sustentável no futuro, não podemos
subestimar a capacidade do ser humano em se superar e resolver os problemas e
as dificuldades que vão surgindo. Os participantes daquela reunião de Nova
York, em 1898, saíram dela sem nenhuma solução para livrarem as cidades de
terem as ruas inundadas por merda em algumas décadas. Mas os próprios avanços tecnológicos
de então evitaram que a tal catástrofe acontecesse. Então, é de se esperar que,
à medida que as coisas foram acontecendo, a humanidade vá se virando e se
adaptando às mudanças.
Como era viver em Pereira Barreto, no Brasil e no mundo em 1968
Na história recente do Brasil e
da humanidade, 1968 foi um ano diferente de todos os que o antecederam e,
também, de todos os que o sucederam. Não foi um ano de mudanças, mas foi um ano
que fez o mundo mudar. Como diz o sugestivo título do famoso livro de Zuenir
Ventura, 1968 foi o ano que não terminou. Ele só acabou mesmo no calendário. Na
memória dos que o viveram, ele continua até hoje.
O mundo, em 1968, era bem
diferente dos tempos atuais. Não havia ainda toda essa tecnologia que temos
hoje, mas havia muita magia, sonhos, imaginação.
Enquanto estudantes franceses
faziam seus protestos pelas ruas de Paris, no que ficou conhecido como “Maio de
68”, a Tchecoslováquia tentava, sob a liderança de Alexander Dubcek, se
libertar do jugo do imperialismo de Moscou e criar uma sociedade mais
democrática. Em represália a essa rebeldia, o exército soviético invadiu a
Tchecoslováquia e massacrou o movimento liberal daquele país, que ficou
conhecido como “Primavera de Praga”.
Em 1968, a Guerra do Vietnã
estava em seu auge, gerando protestos nos Estados Unidos e em outros países.
Foi o ano, também, da morte do pacifista e pastor protestante Martin Luther
King e do senador Robert Kennedy, ambos norte-americanos, ambos assassinados. O
ano de 1968 também foi declarado como “Ano Internacional dos Direitos
Humanos”.
REAÇÕES
À DITADURA
No Brasil, a morte, pela polícia,
no Rio de Janeiro, de um estudante secundarista, chamado Edson Luís de Lima
Souto, de 16 anos, durante um protesto contra a alimentação servida pelo
restaurante estudantil Calabouços foi um dos estopins que fizeram com que os
estudantes, setores da Igreja Católica Romana e da classe média começassem a se
mobilizar contra a ditadura militar. No dia 26 de junho, realizou-se a
histórica “Passeata dos Cem Mil”, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Em
03 de setembro, o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB
carioca, fez um discurso na tribuna da Câmara dos Deputados criticando a
ditadura, no qual ele ironizou os militares, pedindo para as mães de moças não
permitirem que suas filhas namorassem cadetes. Esse discurso do deputado
irritou os generais, que tentaram, pelas vias legais, processar o deputado,
alegando ofensa às Forças Armadas. No entanto, a Câmara, numa decisão
histórica, nega autorização para que o Supremo Tribunal Federal processe Márcio
Moreira Alves. Foi a gora d’água para que o presidente da República, o General
Costa e Silva, reunisse o então famigerado Conselho de Segurança Nacional, na
tarde do dia 13 de dezembro, no Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro e
decretasse o Ato Institucional n.º 5, o AI-5, que dava poderes praticamente
ilimitados ao presidente da República, dando início ao período mais fechado e
violento da ditadura militar no Brasil.
Em outubro, a UNE (União Nacional
dos Estudantes), colocada na ilegalidade após o Golpe Civil-Militar de 1964,
realizou, clandestinamente, seu XXX Congresso. Descobertas pelos agentes da
ditadura, foram presas mais de 700 pessoas que participavam do encontro, entre
elas as principais lideranças do movimento estudantil da época, como Luís
Travassos (presidente eleito da entidade), Vlademir Palmeira, José Dirceu,
Franclins Martins e Jean Marc Von Der Weid.
A
EFERVESCÊNCIA CULTURAL
Mas 1968 não foi um ano só de
protestos, de arbitrariedades, de violência. Apesar de toda repressão, foi um
ano marcante para a cultura, principalmente para a música. Foi a época dos
grandes festivais da TV Record e do Festival Internacional da Canção, promovido
pela então recém-nascida Rede Globo de Televisão. Foi um ano de efervescência
cultural no Brasil e no mundo. Era época do movimento hippie, da
contracultura, do surgimento da Tropicália, um movimento que mudaria
radicalmente a música brasileira, cujo ponto de partida oficial foi o
lançamento, com show, em São Paulo, do disco (LP, na época) “Tropicália ou
Panis et Circensis”, em 12 de agosto de 1968, com a participação de Caetano
Veloso Gilberto Gil e convidados.
EPISÓDIOS
DO III FIC (FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO) QUE FICARAM NA HISTÓRIA
Dois fatos que ficaram gravados
na história cultural brasileira, ocorreram nas noites dos dias 28 e 29 de
setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, promovido
pela então nascente Rede Globo.
Na noite do dia 28, um sábado, em
São Paulo, no Teatro da Universidade Católica, acompanhado pelo conjunto Os Mutantes, Caetano Veloso apresentou a
música É proibido proibir. Os Mutantes mal começaram a tocar a
introdução da música, e a plateia já atirava ovos, tomates e pedaços de madeira
contra o palco. O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico
brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança
erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a
plateia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem
parar de tocar, viraram as costas para o público. Gilberto Gil, que também
participava, foi atingido na perna por um pedaço de madeira, mas não se rendeu.
Em tom de deboche, mordeu um dos tomates jogados ao chão e devolveu o resto à irada
plateia. Caetano fez um longo e inflamado discurso que quase não se podia
ouvir, tamanho era o barulho dentro do teatro.
Na noite seguinte, dia 29,
domingo, no Maracananzinho, no Rio de Janeiro, superlotado, com um público
estimado entre vinte mil e trinta mil pessoas, na decisão da fase nacional do
Festival, praticamente o público todo torcia pela vitória da música Pra não Dizer Que não Falei das Flores, também
conhecida como Caminhando, de Geraldo Vandré. No entanto, no final, quando o apresentador do
festival Hilton Gomes anuncia o segundo lugar para Pra não Dizer Que
não Falei das Flores, as vaias de protesto da plateia começaram e não
paravam mais. O próprio Geraldo Vandré decidiu intervir e defender os
vencedores, que ainda nem haviam sido anunciados: “Antônio Carlos Jobim e Chico
Buarque de Holanda merecem o nosso respeito. A nossa função é fazer canções. A
função de julgar, neste instante, é do júri que ali está.” E continuou Vandré:
“Pra vocês que continuam pensando que me apoiam vaiando... Tem uma coisa só
mais: a vida não se resume em festivais”. Mas quando foi anunciada a música
vencedora, Sabiá, de Tom Jobim
e Chico Buarque, as intérpretes da música vencedora, Cynara e Cybele,
não podiam nem serem ouvidas por causa da vaia ensurdecedora que ecoava pelo
Maracananzinho superlotado.
A
questão que ficou em aberto desse episódio do III FIC, no Maracananzinho, em
1968, foi se houve ou não interferência política no resultado do festival. Segundo
Vitor Nuzzi, em texto publicado em 26/10/2013,
no site Rede Brasil atual (www.redebrasilatual.com.br), em sua autobiografia, escrita
em 1991 com o auxílio do jornalista Gabriel Priolli, o ex-diretor da Rede Globo
Walter Clark conta que teria recebido uma “ordem” para que as músicas Caminhando e América,
América (de César Roldão Vieira) não vencessem o FIC. O recado,
segundo ele, teria partidfo do ajudante de ordens do general Sizeno Sarmento,
que era comandante do I Exército. No entanto, informa que a tal “ordem” nem
sequer teria chegado ao conhecimento dos jurados.
No entanto, segundo narra ainda Vitor Nuzzi, José Bonifácio de Oliveira
Sobrinho, o Boni, assegura que o júri não sofreu pressão. “Nenhuma
interferência, nem a mais leve sugestão. O júri foi soberano”, declarou o
ex-diretor da Globo. Com relação ao relato de Clark em sua autobiografia, Boni afirma
que não foi informado. “O Walter, talvez para não me preocupar, nunca mencionou
esse fato. Quando conversávamos sobre consequências, a gente pensava no
endurecimento da censura com nossos telejornais, novelas e outros festivais,
mas estávamos acostumados com isso e a só agir quando surgiam problemas.”
Segundo Boni, não havia temor em relação às tais “consequências”, tampouco
houve alívio com a decisão dos jurados, pois o recado de Vandré já estava dado.
“Ganhar ou não o festival não faria diferença”.
A MÚSICA EM 1968 E A DECADÊNCIA DA JOVAM GUARDA
Em 1968, o movimento da Jovem
Guarda estava já em decadência, mas a sua estrela maior, Roberto Carlos,
sobreviveu. Naquele ano mesmo, venceu um festival na Itália, o de San Remo, e,
finda a Jovem Guarda, tornou-se o mais popular cantor romântico do País. Sem
engajamento político, Roberto Carlos e a elite politizada da época ignoravam-se
mutuamente. Sua única obra “levemente subversiva” foi uma música, lançada no
início dos anos 70, em homenagem a Caetano Veloso, que se encontrava exilado em
Londres, chamada “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”.
Ouvir música, naquele tempo, era
bem diferente. Não havia CD, nem DVD, nem MP3, nem Youtube, nem as já superadas
fitas cassetes ainda existiam. As músicas eram gravadas em discos de vinil,
isto é, em LPs (Long Plays) e em discos menores, chamados de compactos, que
traziam somente duas músicas, o compacto simples, ou quatro músicas, o compacto
duplo. Para gravadoras, autores e cantores, a vantagem daquela época era que,
como a técnica para produzir esses discos era complexa e cara, a pirataria era
praticamente impossível de existir, como hoje acontece, infelizmente, com os
CDs, DVDs e os demais formatos digitais. A desvantagem é que, como os discos de
vinil eram caros, a maior parte da população não podia comprá-los. O jeito,
para esse segmento, era ouvir as músicas de seus cantores preferidos pelo
rádio. Havia, então, os programas musicais de grande sucesso, nas principais
emissoras do Rio e de São Paulo, que, por ondas curtas, chagavam praticamente a
todo o Brasil. O rádio ainda era a principal fonte de informação da maioria
absoluta da população em 1968. A televisão ainda tinha pouca abrangência
naquele tempo. Por isso, o sucesso de uma determinada canção não era medido
somente pela quantidade de discos que vendia, mas, e principalmente, pelo
número de vezes que ela era tocada no rádio. Claro que, naquele tempo, já
existia o famoso “jabá”, mas isso é outra história.
Segundo o site do radialista Beto
Brito, (www.betobrito.com.br), as músicas que faziam mais
sucesso em 1968 eram: Hey Jude – Beatles, Viola Enluarada -
Marcos Valle &;Milton Nascimento
(destaque no Festival de MPB da TV Record), Baby - Gal Costa, Sá
Marina - Wilson Simonal, Love Is Blue - Paul Mauriat e sua
orquestra, Light My Fire - Jose Feliciano, Se Você Pensa -
Roberto Carlos (que já iniciava sua fase mais romântica), MacArthur Park
- Richard Harris, Pata Pata - Miriam Makeba, Tenho Um Amor Melhor
Que o Seu - Antonio Marcos, Última Canção - Paulo Sergio, Sou
Louca Por Você – Elizabeth, San Francisco (Be Sure To Wear
Flowers In Your Hair) - Scott McKenzie, Mrs. Robinson - Simon &
Garfunkel, A Chuva Que Cai - Os Caçulas, The Rain, The Park And
Other Things – Cowsills, Do You Want To Dance - Johnny Rivers, Só
o Ôme - Noriel Vilela, Segura Esse Samba Ogunhé - Osvaldo Nunes.
Naquele tempo, apesar da
efervescência musical, havia muita música direcionada ao chamado
"povão", como as do iniciante Paulo Sérgio, de Aguinaldo Timóteo, de
Elizabeth e muitos outros, mas não havia espaço para a música sertaneja, como
acontece hoje. A música sertaneja era vista com certo preconceito, mesmo pelas
classes C e D da época. Ela era direcionada a um público específico, que
habitava, principalmente, o interior de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São
Paulo e Paraná. Se bem que aqui estamos tratando de música sertaneja típica
mesmo, de raiz. Essa música pseudossertaneja de hoje, cantada por Zezé de
Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Victor e Leo e outros, ou o tal de
sertanejo universitário, que, na realidade, está mais para música suburbana do
que para sertaneja, ainda não existia.
AS
ARTES SE RENOVAM EM 1968
Assim como a música, o teatro
também vivia dias de novos ares em 1968. No entanto, a radicalização política
não perdoava, também, as artes cênicas. No dia 16 de janeiro, estreou, no Rio
de Janeiro, a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José
Celso Martinez Corrêa. No entanto, quando se apresentavam em São Paulo, no
Teatro Ruth Escobar, no dia 18 de julho, os integrantes da peça foram agredidos
fisicamente por um grupo pertencente a um tal CCC (Comando de Caça aos
Comunistas).
No cinema, 1968 marca o início da
3.ª fase do chamado “Cinema Novo”, cujo marco principal foi o filme Macunaíma,
de Joaquim Pedro de Andrade. No entanto, a repressão política foi
particularmente cruel com o cinema naquele período. Mas alguns ficaram na
história, como O Bandido da Luz Vermelha, O Homem Nu, As
Amorosas, Panca de Valente, Lance Maior e outros.
DR.
ZERBINI E O PRIMEIRO TRANSPLANTE DE CORAÇÃO NO BRASIL
Na Medicina, o Brasil dava um
importante passo. Em 1968, foi realizado o primeiro transplante de coração no
Brasil, Em 26 de maio daquele ano, no Hospital das Clínicas de São Paulo. O Dr.
Euryclides de Jesus Zerbini, ganharia notoriedade ao colocar o coração de um
jovem morto em um acidente no peito de João Ferreira da Cunha, um agricultor
conhecido como “João Boiadeiro”. Apesar de a cirurgia ter se tornado um marco
histórico, João Ferreira Cunha sobreviveu por apenas 18 dias depois do
transplante. Naquela época, ainda não se sabia contornar o grande entrave dos
transplantes de órgãos, a rejeição.
COMO ERA VIVER EM 1968?
Se fosse possível e você decidisse viajar no tempo para viver em 1968,
certamente estranharia muito o modo de vida daquela época. Para um típico
cidadão do início do século XXI, não seria nada fácil viver em 1968. Uma coisa
é a gente ler sobre uma determinada época, saber sobre ela, ver um filme ou uma
novela que se passa naquela época; outra coisa é viver nessa época.
Em 1968, o mundo, obviamente, era
bem diferente de hoje, ou seja, muito mais atrasado. Não havia telefonia
celular, que só chegou no Brasil no início da década de 90 do século XX. Fazer
uma ligação telefônica interurbana era um exercício de perseverança e paciência
naquela época. Muitas cidades ainda tinham sistema de telefonia manual e
precário. Não havia DDD. Havia necessidade de pedir a ligação para uma
telefonista e, às vezes, esperar por horas. Outro meio de comunicação muito
usado na época era o telegrama. A televisão ainda era em preto-e-branco e
tinha, naquele tempo, pouca abrangência, pois não havia satélites domésticos
disponíveis e nem um sistema de retransmissão via micro-ondas. Muitas regiões
brasileiras só foram receber os primeiros sinais de TV em meados da década de
70. A TV em cores só chegaria ao Brasil em 1972. Faziam sucesso na TV, em 1968,
novelas como Antônio Maria (TV Tupi
São Paulo), Beto Rockfeller (TV Tupi
São Paulo/Rio), A Pequena Órfã (TV
Excelsior), A Muralha (TV Excelsior),
bem como programas de entretenimento como Hebe
(TV Record), Sílvio Santos (TV Globo
e TV Tupi), A Hora do Bolinha (TV
Excelsior), Família Trapo (TV
Record), Show do dia 7 (TV Record). Buzina do Chacrinha (TV Globo) e muitos
outros. Mas, em 1968, o rádio ainda era o grande meio de comunicação de massa
do Brasil. As grandes emissoras de rádio, concentradas principalmente no Rio de
Janeiro e em São Paulo, transmitiam suas programações em ondas curtas e, dessa
forma, podiam ser ouvidas em todo o Brasil.
A informática ainda estava
engatinhando. Não havia computadores pessoais. Para se ter uma ideia do atraso
daquele ano, esse computador ou dispositivo móvel que você está utilizando
agora para ler este texto, seja ele qual for, é milhões e milhões de vezes mais
poderoso do que o mais avançado e robusto computador do Departamento de Defesa
dos Estados Unidos em 1968. A Internet era só um embrião nos Estados Unidos, de
uso exclusivamente militar, e se chamava, na época, ARPANET. Era um sistema tão
rudimentar, que nada tinha a ver com a Internet de hoje.
Os carros mais usados em 1968
eram o Aero Willis, o DKV, o Galaxie, o Itamaraty,
o Karmann Ghia, o Fusca e o lançamento do ano, o Opala.
Em comparação com as modernas máquinas de hoje, esses carros eram verdadeiras “carroças
motorizadas”.
Por mais que 1968 faça a gente
sentir uma forte vontade de reviver aqueles tempos loucos e rebeldes, dos
festivais, da contracultura, dos Beatles, você gostaria de viver num tempo em
que não havia forno de micro-ondas, telefone celular, smartphone, antena
parabólica, TV por assinatura, computador, Internet, redes sociais? Acredito
que não. Ou viveria?
1968
EM PEREIRA BARRETO
Tratamos aqui do ano de 1968.
Agora, vamos falar sobre como foi esse mesmo ano aqui em nossa cidade, em Pereira
Barreto. Como era Pereira Barreto em 1968, justamente no ano do “Maio de 68” na
França, dos festivais de música, do AI-5? Como era viver em Pereira Barreto naquela época?
Hoje em dia, com toda essa tecnologia
da informação e comunicação, mesmo morando em pleno interior do Brasil, nos
sentimos muito próximos e conectados com a rotina dos grandes centros urbanos
do Brasil e do mundo. Mas em 1968, cinquenta anos atrás, as coisas eram bem
diferentes. Os moradores de Pereira Barreto, no interior de São Paulo, quase na
divisa com o Mato Grosso, estavam muito distantes da efervescência cultural e
política dos grandes centros. Naqueles tempos idos, de comunicação precária, os
pereira-barretenses voltavam-se mais para os assuntos locais, para a rotina da
cidade. As passeatas e as agitações políticas e culturais que aconteciam no Rio
de Janeiro, em São Paulo ou em Paris eram coisas muito distantes para aquele
povo simples e provinciano da Pereira Barreto do final da década de 60 do
século XX.
COMO
ERA A VIDA EM PEREIRA BARRETO EM 1968
Em 1968, Pereira Barreto era
muito diferente do que é hoje. A cidade era bem menor. A sociedade local da
época era dominada por uma dúzia de famílias tradicionais. Se bem que, já
naquele ano, devido ao início da construção da usina hidrelétrica de Ilha
Solteira e à chegada, na região, de trabalhadores para a construção da obra,
esse quadro já começava a apresentar alguns discretos sinais de mudança, pois
Pereira Barreto passaria por profundas transformações, principalmente no início
dos anos 70. Em decorrência desses migrantes que vieram trabalhar direta e
indiretamente na construção da usina de Ilha Solteira e, mais tarde, na de Três
Irmãos, provavelmente mais de 70% da população da cidade, hoje, é composta por
pessoas, entre ascendentes e descendentes, que aqui chegaram depois de 1970.
Isso, talvez, explique um pouco a quase inexistência de vínculos da atual
população pereira-barretense com o passado histórico e com os pioneiros habitantes
da cidade.
Em 1968, Pereira Barreto era uma
cidade bem provinciana ainda, aquela típica cidadezinha do interior mesmo,
dominada por um grupo pequeno de famílias tradicionais e de imigrantes e seus
descendentes, principalmente de origem japonesa. Naquele tempo, o número de
japoneses e de seus descendentes em Pereira Barreto era bem maior do que hoje.
A debandada de descendentes de japoneses fazendo o caminho de volta de seus
pais e avós, indo trabalhar no Japão, principalmente nos anos 90, foi a principal
causa desse encolhimento no tamanho da colônia nipônica local.
Vejamos a seguir alguns aspectos
da vida pereira-barretense em 1968.
- O meio de comunicação mais
usado, naquela época, ainda era o rádio. A TV já existia aqui, mas, por ser
ainda um bem de consumo caro, poucas famílias tinham um receptor, que era em
preto-e-branco e pegava, de forma precária, a TV Tupi de São Paulo e, de forma
mais precária ainda, a TV Record. As imagens vinham das retransmissoras de
Araçatuba e Machado de Melo. Só em 1969 é que a cidade foi ter a sua primeira
estação repetidora de TV local, instalada no alto da caixa d’água do Serviço
Autônomo de Água. Naquele ano distante, não havia parabólica, TVs por
assinaturas, videocassete, nem DVD, muito menos, é claro, Internet e
plataformas digitais.
• O telefone, em 1968, ainda era
manual. Mesmo para ligações locais, havia necessidade de auxílio de
telefonista. Os números dos telefones da cidade tinham só três dígitos.
Lembro-me de que o da casa comercial de meu avô, na época, era 185. Não havia
DDD, nem DDI. Uma ligação interurbana podia demorar horas para ser completada e
a qualidade era quase sempre ruim. As pessoas daqueles tempos heroicos tinham
que falar com o seu interlocutor às vezes aos berros para serem ouvidas do outro
lado da linha. Nem se pensava, ainda, em telefone celular. Aliás, ter um
telefone naquela época era um privilégio de poucos. Outro meio de comunicação
muito usado na época era o telégrafo, para troca de informações curtas,
objetivas e que exigissem certa urgência, Era um sistema que utilizava o Código
Morse. Naquele tempo, ainda não havia sido criada a ECT. Por isso, o serviço de
telegrafia era prestado por empresa desvinculada dos Correios.
• A semana útil, em 1968, durava
seis dias, e não cinco, como hoje. É que, naquele tempo, o sábado era
considerado praticamente um dia normal de trabalho, pois o comércio funcionava
o dia todo, até às 18 horas. Não havia ainda a chamada “Semana inglesa”. As
repartições públicas tinham expediente até o meio-dia. O expediente bancário,
em 1968, era de segunda a sexta, das 9h às 11h e das 13h às 17h. Mesmo aos
sábados os bancários trabalhavam internamente, pois não podemos nos esquecer de
que, naquele tempo, era tudo manual, tudo escriturado em livros e fichas. Não
havia computadores. A compensação de um cheque e de uma ordem de pagamento para
uma conta em outra cidade, por exemplo, demoravam dias, até semanas, para serem
efetuadas. Aos domingos, no entanto, com exceção de bares, lanchonetes,
sorveterias e restaurantes, praticamente nenhum estabelecimento comercial abria
suas portas. Quem precisasse de alguma coisa de emergência, tinha que recorrer
a um comerciante amigo que fizesse a venda pelos fundos do estabelecimento,
quando possível. Só a partir de 1970 é que, em decorrência do enorme movimento
de migrantes de outros pontos do País, que vieram para esta região trabalhar
nas obras da construção de Ilha Solteira, é que houve um período em que boa
parte do comércio abria suas portas aos domingos até o meio-dia.
• Naquele tempo não havia ainda
supermercados em Pereira Barreto. O que havia eram mercearias, uma delas,
inclusive, era a Casa Portuguesa, que, alguns anos depois, se
transformou no atual Supermercado Proença, cujo prédio se
localiza no mesmo local onde funcionava a antiga mercearia. O primeiro
supermercado só começou a funcionar aqui por volta de 1970. Era o Supermercado
Tem Tudo, de propriedade da família Milanezi, e se localizava onde
hoje funciona a loja Luamar Móveis. Ele tinha quase o tamanho
de um minimercado atual, um “mercadinho”. No entanto, era uma novidade para a
época em nossa cidade. Afinal de contas, o cliente mesmo escolhia e pegava as
mercadorias.
• Como televisão, em 1968, ainda
era um bem acessível a uns poucos privilegiados e, mesmo assim, a qualidade da
recepção era ruim, a vida noturna de Pereira Barreto era bem mais agitada,
principalmente nos finais de semana. Havia bailes no CAP e no ACEP, Aliás,
naquela época, o CAP só podia ser frequentado por sócios ou convidados. Para
ser um associado do CAP havia toda uma formalidade. O nome do candidato tinha
de passar pelo crivo da diretoria, mas, devido ao conservadorismo da sociedade
daquela época, a seleção era bem mais rigorosa que hoje. Para ir a um baile
naquela época, havia necessidade de saber o traje exigido. Podia ser esporte
fino, passeio ou traje a rigor, que exigia o uso de paletó e gravata. O mesmo
se deve dizer também em relação â ACEP, que é um clube cujo quadro de
associados sempre foi mais restrito à colônia japonesa. Além disso, naquele
tempo circos e parques de diversão eram atrações mais frequentes em cidades do
interior.
• A Praça da Bandeira era o local
do footing das moças e dos rapazes da época. O Cine Itapura,
com sessões diárias, inclusive com matinês aos domingos à tarde, era uma das
diversões preferidas dos pereira-barretenses daquela época. Mas o ponto de
encontro preferido dos jovens daquele tempo era o saudoso Tropical Bar,
que se localizava onde existe hoje a galeria New Center.
• O prefeito de Pereira Barreto,
em 1968, era Leo Liedtke Junior. Naquele tempo, a Câmara
Municipal era composta por treze vereadores, que não recebiam nenhuma
remuneração financeira por suas atividades legislativas. Mas isso não
significava que o cargo de vereador fosse desinteressante. As disputas para uma
cadeira na Câmara na época eram tão acirradas quanto hoje.
• A propósito, 1968 foi ano de
eleição em Pereira Barreto. Os candidatos a prefeito na época foram Ernesto
Trentin, da ARENA 1, o "positivo", Antônio Gomes da
Silva, da ARENA 2, o "barra limpa", e o polêmico Lourival
da Silva Louzada, do MDB, que não tinha nenhum símbolo para a sua
campanha, mas muita gente, como chacota, dizia que ele era o "barra
pesada". Os dois candidatos favoritos eramTrentin e Antônio Gomes, ambos filiados à ARENA, que era o partido
político de apoio aos governos estadual e federal, ou seja, era o braço
político da ditadura. Louzada era candidato do MDB, partido que fazia uma
oposição “consentida” à ditadura. No entanto, a disputa para a prefeitura e
para a Câmara de Vereadores em Pereira Barreto não tinha muita relação com o
ambiente político em nível nacional. A disputa era local, as discussões eram
sobre questões locais. A despeito de o País estar em uma ditadura, em Pereira
Barreto, como acontecia também na maioria dos municípios brasileiro naquele
ano, a disputa era totalmente democrática e desvinculada do ambiente tenso em
nível nacional. O vencedor da eleição municipal em Pereira Barreto naquele ano foi Ernestro Trentin, que
tinha o apoio do então prefeito Léo Liedtke Júnior, e tomou
posso em 1.º de fevereiro de 1969.
• Naquela época, ainda havia por
aqui muitas plantações de algodão. Muita gente, então, principalmente
estudantes das escolas da cidade, aproveitava para ganhar um dinheirinho extra
com a colheita. O algodão colhido nas lavouras de Pereira Barreto, naquela
época, beneficiado aqui mesmo, pela Anderson Clayton e pela Cooperativa
Agrícola da Fazenda Tietê, era de enorme importância econômica para o
Município.
• Pereira Barreto tinha dois
problemas sérios naquele tempo: energia elétrica e abastecimento de água. Á
água distribuída na cidade naquela época, retirada de poços artesianos, possuía
uma quantidade excessiva de fluor, o que fez com que muita gente,
principalmente crianças daquela época, adquirisse fluorose. Além disso, era uma
água salobra, com um gosto muito ruim. Quanto à energia elétrica, os cortes no
seu fornecimento, que eram de responsabilidade da Companhia Paulista de Força e
Luz, então estatal, eram frequentes. Naquele tempo, as grandes hidrelétricas
ainda não estavam prontas. A energia de Pereira Barreto vinha de uma pequena
usina geradora em Itapura, que já não existe mais. A energia aqui, então, além
de ser fraca, sofria cortes constantes.
Para a história de Pereira
Barreto, foi um ano importante. Foi em 1968 que começou a construção da usina
hidrelétrica de Ilha Solteira, o que veio a mudar radicalmente a vida social,
cultural e econômica de Pereira Barreto, principalmente a partir de 1970.
ILHA
SOLTEIRA EM PEREIRA BARRETO — A FAKE NEWS
QUE PERSISTE ATÉ HOJE
Muita gente costuma afirmar,
hoje, que o prefeito da época, Léo Liedtke Junior, errou em não permitir ou em
não lutar para que o que é hoje a cidade de Ilha Solteira fosse construída aqui
em Pereira Barreto e que, se isso tivesse sido feito, Pereira Barreto, hoje,
seria uma grande cidade. Trata-se, na verdade, de uma fake news, cuja origem se desconhece, mas, provavelmente, deve ter sido
disseminada por algum adversários políticos do prefeito da época, o que é, no
mínimo, estranho, pois a população pereira-barretense daquele tempo não era
simpática à ideia de “se misturar” com “barrageiros”, Mas o fato é que a tal fake news se espalhou na época e tem
gente que até hoje acredita ter sido verdade. Mas, pelo que pude constatar em
pesquisa, a informação não procede, é fruto de uma dose de ingenuidade e de
desinformação. É preciso que se diga, a bem da verdade histórica, que o
aglomerado urbano que é hoje a cidade de Ilha Solteira nunca seria construído
aqui em Pereira Barreto, mesmo que o prefeito da época assim o quisesse. São
várias as razões para isso. Se não, vejamos.
Segundo o livro ILHA SOLTEIRA – UM SONHO, UMA HISTÓRIA,
de Fernando Sávio – 1.ª edição, São José do Rio Preto (SP), THS Editora, 2011,
o projeto original da atual cidade de Ilha Solteira foi elaborado, em 1965,
pelos arquitetos Ernest Robert de Carvalho Mange e Ariaki Kato, do Escritório
de Engenharia Mange & Kate, em São Paulo (SP). O objetivo da CELUSA (hoje,
CESP) era que o núcleo urbano de Ilha Solteira não seria como o de Jupiá, a
“Vila Piloto”, que foi construída de madeira com o objetivo de ser desmontado
depois do fim das obras. Como não seria derrubado, o material de construção
usado, então, seria de alvenaria e não só madeira. Como cidade, teria que estar
preparada para receber até 15 mil operários no período de pico das obras – que,
somando-se aos seus familiares, chegariam a uma população de 35 mil habitantes.
Na página 49 do referido livro, diz Fernando Sávio:
Por já nascer
planejada, era preciso, então, que tudo estivesse no seu devido lugar: as área
de comércio, a educação, saúde, infraestrutura e demais instituições de uma
administração. O plano diretor foi estabelecido com base na chamada “cidade
linear”. Construída numa área plana, de 380 hectares, a cerca de quatro
quilômetros do canteiro de obras, o plano viário teve como base principal uma
grande avenida – a avenida central ou eixo viário, destinada ao tráfego rápido,
que nasce no anel rodoviário (estrada de Pereira Barreto, Santa Fé e outras
cidades, além do acesso à hidrelétrica) e corta todo futuro perímetro urbano,
de norte a sul, ligando-se, na outra extremidade, a outra estrada de acesso a
Itapura, Castilho e Andradina. Uma via perimetral, ou avenida perimetral,
circundando toda área urbana, forma um anel viário. Vias de penetração, ou
alamedas, ligando aas avenidas central e perimetral; e as ruas que nascem e
morrem nas alamedas.
Portanto, a construção da cidade
de Ilha Solteira já fazia parte do projeto original da CELULSA (hoje, CESP).
Não havia intenção de abrigar todos os trabalhadores da obra e suas famílias
aqui em Pereira Barreto, mesmo porque o canteiro de obras ficava a mais de
quarenta quilômetros de nossa cidade. O que houve, na época, é que, como o
núcleo urbano ainda estava em construção, foi um pedido da CELUSA ao prefeito
de uma área na cidade para construção de uma espécie de conjunto habitacional
para abrigar temporariamente parte dos trabalhadores e suas famílias, e o
prefeito da época não teria concordado com os termos em que a CELUSA queria a
concessão dessa área.
Mas vamos supor que, se mesmo a
quarenta quilômetros de distância do canteiro de obras, todos os trabalhadores
da usina hidrelétrica de Ilha Solteira tivessem vindo morar em Pereira Barreto,
a CESP (então CELUSA) dificilmente teria investido aqui na construção da mesma
infraestrutura que implantou em Ilha Solteira. Afinal, Pereira Barreto já
tinha, pelo menos em tese, toda infraestrutura básica necessária, como
hospital, médicos, lojas, restaurantes, etc., para abrigar os trabalhadores e
suas famílias. Uma prova disso foi na época da construção da usina hidrelétrica
de Três Irmãos, ocasião em que não foi construído nenhum núcleo urbano para
abrigar os trabalhadores da obra, que passaram a residir e viver, em sua
maioria, em Pereira Barreto, sem que isso trouxesse nada de relevante que
contribuísse para o crescimento urbano da cidade, embora a obra de Três Irmão
seja infinitamente menor do que a de Ilha Solteira.
Outro detalhe importante, que
pouca gente conhece hoje: naquele tempo havia, em Pereira Barreto, um
preconceito muito forte contra os chamados “barrageiros”. As famílias
tradicionais da cidade consideravam a maioria desse pessoal que vinha de fora
para trabalhar nas obras de Ilha Solteira gente ”sem eira nem beira”,
desqualificados, gente perigosa, em quem não se poderia confiar. Conta-se até
que o então prefeito Léo Liedtke Junior guardou por muito tempo um
abaixo-assinado a ele dirigido, firmado por ilustres pereira-barretenses da
época, pedindo-lhe que não permitisse que nossa cidade abrigasse os
“barrageiros” de Ilha Solteira, para que não houvesse riscos de que eles
viessem a “desonrar” as dignas famílias da cidade. O próprio ex-prefeito me
confirmou, anos depois, em conversa informal, que ignorou a reivindicação e
engavetou o documento.
Há, também, uma informação
curiosa, que me foi passada por gente da época, segundo a qual, a maioria das
terras onde está situada hoje a cidade de Ilha Solteira pertencia a membros da
família Junqueira, e o presidente da CESP (então CELULSA), então, se chamaria
Guilherme Junqueira, Coincidência apenas? Obviamente que seria uma leviandade
afirmar hoje que, em razão disso, tenha havido qualquer tipo de benefício ou
coisa desse tipo. Mas não deixa de ser um detalhe curioso, que não pode ser
desprezado.
Não bastasse isso, temos que nos lembrar
de que vivíamos na mira das baionetas. Estávamos em uma ditadura civil-militar
de inspiração positivista. De 1964 até meados dos anos 70, praticamente toda a
classe política foi alijada do poder neste país, tanto os da esquerda quanto os
da direita. Quem mandava neste país, nesse período, eram militares e
tecnocratas. Se o governo quisesse que colocar aqui em Pereira Barreto, para
economizar custos, todos os trabalhadores das obras de Ilha Solteira, o teria
feito, independentemente da vontade do prefeito de plantão. Não era muito
recomendável contrariar os homens que ocupavam o Palácio do Planalto naquela
época. Mas, obviamente, eles já tinham no plano construir uma cidade junto às
obras. Afinal de contas, isso aumentaria o custo de uma obra de grande porte,
que era o sonho de consumo das grandes empreiteiras e de quem estivesse envolvido
na construção da obra. Abrigar os trabalhadores e suas famílias em uma cidade
próxima e já pronta, provavelmente, não seria um bom negócio, se é que me
entendem.
Independentemente disso, Pereira
Barreto foi muito beneficiada, na época, pela construção da Usina Hidrelétrica
de Ilha Solteira, muito mesmo. Como Ilha Solteira era um local, ainda, inóspito
para se viver, pois era uma cidade cercada, com cancelas, para controlar o
acesso das pessoas, tinha toque de recolher à noite e durante o dia, para não
perturbar o sono dos trabalhadores, muita gente preferia vir morar em Pereira
Barreto. Além disso, como o comércio de Ilha Solteira, na época, era
incipiente, a maioria dos moradores de Ilha Solteira vinham fazer compras em
Pereira Barreto. O comércio de Pereira Barreto, na época, nunca vendera tanto.
Houve necessidade de se criarem horários especiais de funcionamento das lojas,
inclusive nas manhãs de domingo, o que era algo raro em uma época em que não havia
a chamada “semana inglesa”.
PEREIRA
BARRETO SERIA TOTALMENTE SUBMERSA – FAKE
NEWS
Outra fake News histórica em Pereira Barreto. Contou-me, certa vez, um
antigo morador de Pereira Barreto, já falecido, que, quando começou a circular
a informação de que seria construído nesta região um grande complexo
hidrelétrico, com a formação de grandes lagos fluviais na região, nos anos 50, também
surgiu um forte boato de que a cidade de Pereira Barreto seria totalmente
submersa. A tal fake news se propagou
tanto, de forma tão forte, que um grupo de vereadores foi a São Paulo consultar
o então governador Lucas Nogueira Garcez, que desmentiu a falsa informação e
tranquilizou os vereadores.
OBSERVAÇÕES
IMPORTANTES SOBRE O AMBIENTE POLÍTICO NAQUELA DAQUELA ÉPOCA, NOS MUNICÍPIOS E
NO PAÍS
Poderia alguém perguntar se não
era ruim eleitoralmente ser um candidato a vereador e a prefeito do partido da
ARENA, o partido que apoiava a ditadura? Não era. Muito pelo contrário: os
candidatos a prefeito e a vereador, naquele tempo, principalmente nas cidades
do interior do Brasil, em especial nas cidades pequenas, faziam questão de
dizer que eram do “partido do governo”. Ser vereador e, principalmente,
prefeito, naquela época, pelo MDB era um péssimo negócio para o município, por
razões óbvias. E os próprios eleitores dessas cidades tinham consciência disso
e votavam maciçamente nos candidatos da ARENA, pois sabiam que uma cidade,
naquele tempo, governada por um emedebista seria, certamente, discriminada pelo
governo e teria muita dificuldade em conseguir benefícios oficiais.
A bem da verdade, em seus
primeiros anos, até o início da década de 70, o regime militar tinha amplo
apoio da população. Isso não se devia somente ao conservadorismo da grande
maioria da sociedade brasileira da época, mas a outros fatores também, como o
econômico, pois, graças ao chamado “milagre econômico”, aos altos índices de
crescimento do País (em 1968, o Brasil registrou um crescimento de 145%) e às
inúmeras obras de infraestrutura que foram construídas naquele tempo (usinas
hidrelétricas, rodovias, pontes, etc.). Algumas dessas obras eram faraônicas, é
verdade, mas isso garantia muitos empregos para a população. Outro fator que
garantia popularidade ao governo daquela época era sua postura até um tanto
populista, com a promoção de uma séria de iniciativas de cunho social, como
financiamentos imobiliários, programas de alfabetização, etc.
Aliás, a popularidade do governo
era tanta, naquele tempo, que, nas eleições gerais de 1970, para as assembleias
legislativas, para o Congresso Nacional e o Senado, o MDB foi praticamente
massacrado nas urnas. Chegou-se a falar até na possibilidade de extinção da
legenda na época. E não era para menos, afinal de contas o Brasil era um dos
países que mais crescia naquele tempo, não faltavam empregos, boa parte da
população brasileira ascendeu socialmente naquela época. Então a ditadura não
era tão ruim assim... Epa! Vamos com calma.
O leitor se lembra que, logo no
começo deste texto eu falei sobre a tal “Passeata dos Cem mil”, que aconteceu
no dia 26 de junho de 1968, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro? Pois é!
No dia seguinte, ao comentar a foto panorâmica da passeata no jornal, na qual
podia se ver milhares de estudantes secundaristas e universitários, em sua
grande maioria filhos da mais fina flor da elite carioca daquela época, o
dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues deixa em sua coluna uma pergunta irônica
e aguda: “Cadê o povo?”.
Pois é! O povo ainda não fazia
parte dessa reação da classe média e média alta e do movimento estudantil contra
a ditadura. O povo estava anestesiado, não só pela censura à imprensa e à mídia
da época, mas porque, para ele, gente comum, a vida estava boa. O Brasil, em
1968, crescera 14%. O Brasil estava repleto de canteiros de obras, havia
empregos brotando em diversas regiões do País. Enquanto isso, praticamente toda
a classe política estava praticamente alijada do poder. Os militares
positivistas que detinham, de fato, o controle do País não haviam colocado
somente a oposição e a esquerda na geladeira, mas a direita também. O Brasil
era controlado por militares e administrado por tecnocratas. Aos políticos da
ARENA cabia dizer sempre “Sim”. Aos políticos do MDB a fazer uma oposição
consentida e discreta. Ai de quem não obedecesse! Naquele momento, só a classe
média urbana dos grandes centros e a elite pensante é que estava ciente da
realidade. O povo estava feliz e queria mais é que o governo desse um jeito nos
“terroristas” que queriam implantar o comunismo no Brasil. Ou seja, tínhamos
dois Brasis: o Brasil dos indignados com o arbítrio e o Brasil anestesiado pelo
“milagre econômico”.
Dentre aqueles que se punham
contra a ditadura, podiam ser divididos basicamente em dois grupos: aqueles que
lutavam relo retorno à normalidade democrática, com eleições livres para todos
os cargos, retorno à Constituição de 1946 ou a convocação de uma Assembleia
Constituinte, e aqueles que, inspirados em Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro
e na Revolução Cubana, de 1959, queriam a implantação da ditadura do proletariado
no Brasil e a criação de um estado socialista. Quem conhece a história recente
do Brasil sabe no que tudo isso deu. Somente em meados dos anos 70,
principalmente devido ao fim melancólico do tal “milagre econômico”, é que a toda
a sociedade brasileira, de fato, tomou consciência do que realmente estava
ocorrendo no Brasil e começou a reagir, mas somente no início de 1985 é que
começamos a voltar à normalidade democrática. Mas essas são outras histórias
que foram acontecendo ao longo desses últimos cinquenta anos.