segunda-feira, 30 de setembro de 2019

SEM ALARMISMO: É PRECISO ENFRENTAR O FUTURO COM AS LIÇÕES DO PASSADO



Hoje, fala-se muito em meio ambiente, em “roubar o futuro da Greta” e tal. Mas a gente precisa recorrer um pouco à História para entender certas coisas. O que diria a jovem sueca Greta Thunberg se vivesse no final do século XIX e soubesse que as cidades, naquele tempo, estavam condenadas a, literalmente, afundar na merda? Será que também diria aos governantes daquele tempo que eles haviam roubado seu futuro?

Com base em um artigo de Felipe van Deursen, publicado em seu blog na revista Superinteressante, em 21 de dezembro de 2016, vamos contar uma história aqui que pouca gente, hoje, sabe, mas que colocou administradores de grandes cidades espalhadas pelo mundo em pânico no final do século XIX.

Em 1898, delegações de várias cidades do mundo se reuniram em Nova York, nos Estados Unidos para discutir os problemas urbanísticos daquele tempo, como crime, falta de recursos, questões de infraestrutura, etc.

Naquela época, não havia ainda transporte motorizado, ou seja, não havia carros. O meio de locomoção daquela época era o cavalo. E, como todo o mundo sabe, cavalo não emite gás carbônico e outros poluentes, mas faz cocô, que além de liberar o gás metano no ar, é uma sujeira sólida, pesada e com um forte odor nada agradável.  

Por causa do intenso trânsito de animais, era tanta bosta acumulada nas ruas de cidades como Londres, Nova York e outras metrópoles, que as projeções para o então futuro século XX eram apocalípticas. O jornal londrino Times chegou a publicar que até a década de 1940 as pilhas de esterco chegariam a três metros de altura. Do outro lado do Atlântico, temia-se que quem morasse ou trabalhasse até o segundo andar em Nova York estaria, em 1930, soterrado por material fecal. Londres tinha então 50 mil cavalos transportando pessoas todo dia de um local para o outro. Nova York chegou a ter pelo menos 100 mil animais circulando pelas ruas, que produziam uma média de 10 kg de fezes por dia (ou seja, um total de mil toneladas diárias). Haja cocô! Sem contar, também,  a urina, as moscas e até mesmo os cavalos mortos.

O problema era que não havia um plano de descarte e tratamento decente para tamanho problema das metrópoles. As cidades naquele tempo se apertavam em cortiços, favelas, quarteirões emporcalhados, calçadas engorduradas, becos abjetos. A densidade demográfica de Nova York, por exemplo, mais que dobrou no fim do século XIX. Por isso havia tanta preocupação com o acúmulo de dejetos nas vias. Em 1880, Nova York precisou se livrar de quinze mil carcaças de cavalos mortos.
 
Após dias de discussão em Nova York, não se chegou a conclusão nenhuma na conferência de 1898 — bem semelhante às reuniões e congressos sobre assuntos climáticos de hoje em dia.

As soluções vieram com o tempo e os avanços da tecnologia, que salvaram as cidades de, literalmente, se afundarem na merda. Os bondes deram um alívio, mas foi a popularização do carro, no começo do século XX, que trouxe a solução. Em 1912, o número de automóveis ultrapassou o de cavalos em Nova York. O invento do século era enaltecido por ser economicamente sustentável e por ter a habilidade de “reduzir o tráfego”. Quem diria, hein?

Hoje em dia, as carruagens de Nova York estão restritas, obviamente, mais como uma atração turística, ao Central Park. Mantendo os animais afastados da poluição provocada pelos “cavalos do século 20″.

O mundo já esteve à beira do caos e a existência da humanidade ameaçada muitas vezes. O Homo sapiens, na hora “H”, conseguiu arranjar um jeito de salvar a própria espécie. Não podemos nos esquecer, por exemplo, de que, nos primórdios, quando o ser humano ainda vivia da caça e de coleta, e os alimentos começaram a se tornar raros e difíceis de serem obtidos, ele teve que aprender a produzir a própria comida. Foi quando surgiu a agricultura e a criação de animais para o corte. Já no final da Idade Média, uma terrível epidemia de peste negra (peste bubônica) matou mais de um quarto da população da Europa. Sem conhecimentos de infectologia, sem vacina, sem a mínima noção de higiene e saúde, o homem conseguiu sobreviver à disseminação da peste.

É claro que a gente tem que se preocupar com a questão do meio ambiente. É importante fazer nossa parte. Diferentemente de nossos antepassados, hoje a gente tem muito mais tecnologia para prever ou, pelo menos, presumir o que nos espera no futuro, o que nos permite tomar medidas preventivas muito mais eficientes. Mas não podemos nos deixar dominar pelo alarmismo que algumas organizações ambientalistas e a própria mídia propagam. Sem deixar de fazer a nossa parte no uso mais racional dos bens de consumo, para uma vida mais sustentável no futuro, não podemos subestimar a capacidade do ser humano em se superar e resolver os problemas e as dificuldades que vão surgindo. Os participantes daquela reunião de Nova York, em 1898, saíram dela sem nenhuma solução para livrarem as cidades de terem as ruas inundadas por merda em algumas décadas. Mas os próprios avanços tecnológicos de então evitaram que a tal catástrofe acontecesse. Então, é de se esperar que, à medida que as coisas foram acontecendo, a humanidade vá se virando e se adaptando às mudanças.




sexta-feira, 4 de maio de 2018

1968 - UM ANO QUE NÃO MUDOU O MUNDO, MAS QUE FEZ O MUNDO MUDAR



Como era viver em Pereira Barreto,
no Brasil e no mundo em 1968

Na história recente do Brasil e da humanidade, 1968 foi um ano diferente de todos os que o antecederam e, também, de todos os que o sucederam. Não foi um ano de mudanças, mas foi um ano que fez o mundo mudar. Como diz o sugestivo título do famoso livro de Zuenir Ventura, 1968 foi o ano que não terminou. Ele só acabou mesmo no calendário. Na memória dos que o viveram, ele continua até hoje. 

O mundo, em 1968, era bem diferente dos tempos atuais. Não havia ainda toda essa tecnologia que temos hoje, mas havia muita magia, sonhos, imaginação.

Enquanto estudantes franceses faziam seus protestos pelas ruas de Paris, no que ficou conhecido como “Maio de 68”, a Tchecoslováquia tentava, sob a liderança de Alexander Dubcek, se libertar do jugo do imperialismo de Moscou e criar uma sociedade mais democrática. Em represália a essa rebeldia, o exército soviético invadiu a Tchecoslováquia e massacrou o movimento liberal daquele país, que ficou conhecido como “Primavera de Praga”.

Em 1968, a Guerra do Vietnã estava em seu auge, gerando protestos nos Estados Unidos e em outros países. Foi o ano, também, da morte do pacifista e pastor protestante Martin Luther King e do senador Robert Kennedy, ambos norte-americanos, ambos assassinados. O ano de 1968 também foi declarado como “Ano Internacional dos Direitos Humanos”. 

REAÇÕES À DITADURA

No Brasil, a morte, pela polícia, no Rio de Janeiro, de um estudante secundarista, chamado Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, durante um protesto contra a alimentação servida pelo restaurante estudantil Calabouços foi um dos estopins que fizeram com que os estudantes, setores da Igreja Católica Romana e da classe média começassem a se mobilizar contra a ditadura militar. No dia 26 de junho, realizou-se a histórica “Passeata dos Cem Mil”, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro. Em 03 de setembro, o jornalista e deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB carioca, fez um discurso na tribuna da Câmara dos Deputados criticando a ditadura, no qual ele ironizou os militares, pedindo para as mães de moças não permitirem que suas filhas namorassem cadetes. Esse discurso do deputado irritou os generais, que tentaram, pelas vias legais, processar o deputado, alegando ofensa às Forças Armadas. No entanto, a Câmara, numa decisão histórica, nega autorização para que o Supremo Tribunal Federal processe Márcio Moreira Alves. Foi a gora d’água para que o presidente da República, o General Costa e Silva, reunisse o então famigerado Conselho de Segurança Nacional, na tarde do dia 13 de dezembro, no Palácio Laranjeiras, no Rio de Janeiro e decretasse o Ato Institucional n.º 5, o AI-5, que dava poderes praticamente ilimitados ao presidente da República, dando início ao período mais fechado e violento da ditadura militar no Brasil.



Em outubro, a UNE (União Nacional dos Estudantes), colocada na ilegalidade após o Golpe Civil-Militar de 1964, realizou, clandestinamente, seu XXX Congresso. Descobertas pelos agentes da ditadura, foram presas mais de 700 pessoas que participavam do encontro, entre elas as principais lideranças do movimento estudantil da época, como Luís Travassos (presidente eleito da entidade), Vlademir Palmeira, José Dirceu, Franclins Martins e Jean Marc Von Der Weid.

A EFERVESCÊNCIA CULTURAL

Mas 1968 não foi um ano só de protestos, de arbitrariedades, de violência. Apesar de toda repressão, foi um ano marcante para a cultura, principalmente para a música. Foi a época dos grandes festivais da TV Record e do Festival Internacional da Canção, promovido pela então recém-nascida Rede Globo de Televisão. Foi um ano de efervescência cultural no Brasil e no mundo. Era época do movimento hippie, da contracultura, do surgimento da Tropicália, um movimento que mudaria radicalmente a música brasileira, cujo ponto de partida oficial foi o lançamento, com show, em São Paulo, do disco (LP, na época) “Tropicália ou Panis et Circensis”, em 12 de agosto de 1968, com a participação de Caetano Veloso Gilberto Gil e convidados.


EPISÓDIOS DO III FIC (FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO) QUE FICARAM NA HISTÓRIA

Dois fatos que ficaram gravados na história cultural brasileira, ocorreram nas noites dos dias 28 e 29 de setembro de 1968, no III Festival Internacional da Canção, promovido pela então nascente Rede Globo.

Na noite do dia 28, um sábado, em São Paulo, no Teatro da Universidade Católica, acompanhado pelo conjunto Os Mutantes, Caetano Veloso apresentou a música É proibido proibir. Os Mutantes mal começaram a tocar a introdução da música, e a plateia já atirava ovos, tomates e pedaços de madeira contra o palco. O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a plateia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem parar de tocar, viraram as costas para o público. Gilberto Gil, que também participava, foi atingido na perna por um pedaço de madeira, mas não se rendeu. Em tom de deboche, mordeu um dos tomates jogados ao chão e devolveu o resto à irada plateia. Caetano fez um longo e inflamado discurso que quase não se podia ouvir, tamanho era o barulho dentro do teatro.



Na noite seguinte, dia 29, domingo, no Maracananzinho, no Rio de Janeiro, superlotado, com um público estimado entre vinte mil e trinta mil pessoas, na decisão da fase nacional do Festival, praticamente o público todo torcia pela vitória da música Pra não Dizer Que não Falei das Flores, também conhecida como Caminhando, de Geraldo Vandré. No entanto, no final, quando o apresentador do festival Hilton Gomes anuncia o segundo lugar para Pra não Dizer Que não Falei das Flores, as vaias de protesto da plateia começaram e não paravam mais. O próprio Geraldo Vandré decidiu intervir e defender os vencedores, que ainda nem haviam sido anunciados: “Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque de Holanda merecem o nosso respeito. A nossa função é fazer canções. A função de julgar, neste instante, é do júri que ali está.” E continuou Vandré: “Pra vocês que continuam pensando que me apoiam vaiando... Tem uma coisa só mais: a vida não se resume em festivais”. Mas quando foi anunciada a música vencedora, Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, as intérpretes da música vencedora, Cynara e Cybele, não podiam nem serem ouvidas por causa da vaia ensurdecedora que ecoava pelo Maracananzinho superlotado.



A questão que ficou em aberto desse episódio do III FIC, no Maracananzinho, em 1968, foi se houve ou não interferência política no resultado do festival. Segundo Vitor Nuzzi, em texto publicado em 26/10/2013, no site Rede Brasil atual (www.redebrasilatual.com.br), em sua autobiografia, escrita em 1991 com o auxílio do jornalista Gabriel Priolli, o ex-diretor da Rede Globo Walter Clark conta que teria recebido uma “ordem” para que as músicas Caminhando e América, América (de César Roldão Vieira) não vencessem o FIC. O recado, segundo ele, teria partidfo do ajudante de ordens do general Sizeno Sarmento, que era comandante do I Exército. No entanto, informa que a tal “ordem” nem sequer teria chegado ao conhecimento dos jurados. No entanto, segundo narra ainda Vitor Nuzzi, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, assegura que o júri não sofreu pressão. “Nenhuma interferência, nem a mais leve sugestão. O júri foi soberano”, declarou o ex-diretor da Globo. Com relação ao relato de Clark em sua autobiografia, Boni afirma que não foi informado. “O Walter, talvez para não me preocupar, nunca mencionou esse fato. Quando conversávamos sobre consequências, a gente pensava no endurecimento da censura com nossos telejornais, novelas e outros festivais, mas estávamos acostumados com isso e a só agir quando surgiam problemas.” Segundo Boni, não havia temor em relação às tais “consequências”, tampouco houve alívio com a decisão dos jurados, pois o recado de Vandré já estava dado. “Ganhar ou não o festival não faria diferença”.

A MÚSICA EM 1968 E A DECADÊNCIA DA JOVAM GUARDA

Em 1968, o movimento da Jovem Guarda estava já em decadência, mas a sua estrela maior, Roberto Carlos, sobreviveu. Naquele ano mesmo, venceu um festival na Itália, o de San Remo, e, finda a Jovem Guarda, tornou-se o mais popular cantor romântico do País. Sem engajamento político, Roberto Carlos e a elite politizada da época ignoravam-se mutuamente. Sua única obra “levemente subversiva” foi uma música, lançada no início dos anos 70, em homenagem a Caetano Veloso, que se encontrava exilado em Londres, chamada “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”.

Ouvir música, naquele tempo, era bem diferente. Não havia CD, nem DVD, nem MP3, nem Youtube, nem as já superadas fitas cassetes ainda existiam. As músicas eram gravadas em discos de vinil, isto é, em LPs (Long Plays) e em discos menores, chamados de compactos, que traziam somente duas músicas, o compacto simples, ou quatro músicas, o compacto duplo. Para gravadoras, autores e cantores, a vantagem daquela época era que, como a técnica para produzir esses discos era complexa e cara, a pirataria era praticamente impossível de existir, como hoje acontece, infelizmente, com os CDs, DVDs e os demais formatos digitais. A desvantagem é que, como os discos de vinil eram caros, a maior parte da população não podia comprá-los. O jeito, para esse segmento, era ouvir as músicas de seus cantores preferidos pelo rádio. Havia, então, os programas musicais de grande sucesso, nas principais emissoras do Rio e de São Paulo, que, por ondas curtas, chagavam praticamente a todo o Brasil. O rádio ainda era a principal fonte de informação da maioria absoluta da população em 1968. A televisão ainda tinha pouca abrangência naquele tempo. Por isso, o sucesso de uma determinada canção não era medido somente pela quantidade de discos que vendia, mas, e principalmente, pelo número de vezes que ela era tocada no rádio. Claro que, naquele tempo, já existia o famoso “jabá”, mas isso é outra história.

Segundo o site do radialista Beto Brito, (www.betobrito.com.br), as músicas que faziam mais sucesso em 1968 eram: Hey Jude – Beatles, Viola Enluarada - Marcos Valle &;  Milton Nascimento (destaque no Festival de MPB da TV Record), Baby - Gal Costa, Sá Marina - Wilson Simonal, Love Is Blue - Paul Mauriat e sua orquestra, Light My Fire - Jose Feliciano, Se Você Pensa - Roberto Carlos (que já iniciava sua fase mais romântica), MacArthur Park - Richard Harris, Pata Pata - Miriam Makeba, Tenho Um Amor Melhor Que o Seu - Antonio Marcos, Última Canção - Paulo Sergio, Sou Louca Por Você – Elizabeth, San Francisco (Be Sure To Wear Flowers In Your Hair) - Scott McKenzie, Mrs. Robinson - Simon & Garfunkel, A Chuva Que Cai - Os Caçulas, The Rain, The Park And Other Things – Cowsills, Do You Want To Dance - Johnny Rivers, Só o Ôme - Noriel Vilela, Segura Esse Samba Ogunhé - Osvaldo Nunes.

Naquele tempo, apesar da efervescência musical, havia muita música direcionada ao chamado "povão", como as do iniciante Paulo Sérgio, de Aguinaldo Timóteo, de Elizabeth e muitos outros, mas não havia espaço para a música sertaneja, como acontece hoje. A música sertaneja era vista com certo preconceito, mesmo pelas classes C e D da época. Ela era direcionada a um público específico, que habitava, principalmente, o interior de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Se bem que aqui estamos tratando de música sertaneja típica mesmo, de raiz. Essa música pseudossertaneja de hoje, cantada por Zezé de Camargo e Luciano, Bruno e Marrone, Victor e Leo e outros, ou o tal de sertanejo universitário, que, na realidade, está mais para música suburbana do que para sertaneja, ainda não existia.

AS ARTES SE RENOVAM EM 1968

Assim como a música, o teatro também vivia dias de novos ares em 1968. No entanto, a radicalização política não perdoava, também, as artes cênicas. No dia 16 de janeiro, estreou, no Rio de Janeiro, a peça “Roda Viva”, de Chico Buarque de Holanda, dirigida por José Celso Martinez Corrêa. No entanto, quando se apresentavam em São Paulo, no Teatro Ruth Escobar, no dia 18 de julho, os integrantes da peça foram agredidos fisicamente por um grupo pertencente a um tal CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

No cinema, 1968 marca o início da 3.ª fase do chamado “Cinema Novo”, cujo marco principal foi o filme Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. No entanto, a repressão política foi particularmente cruel com o cinema naquele período. Mas alguns ficaram na história, como O Bandido da Luz Vermelha, O Homem Nu, As Amorosas, Panca de Valente, Lance Maior e outros. 

DR. ZERBINI E O PRIMEIRO TRANSPLANTE DE CORAÇÃO NO BRASIL



Na Medicina, o Brasil dava um importante passo. Em 1968, foi realizado o primeiro transplante de coração no Brasil, Em 26 de maio daquele ano, no Hospital das Clínicas de São Paulo. O Dr. Euryclides de Jesus Zerbini, ganharia notoriedade ao colocar o coração de um jovem morto em um acidente no peito de João Ferreira da Cunha, um agricultor conhecido como “João Boiadeiro”. Apesar de a cirurgia ter se tornado um marco histórico, João Ferreira Cunha sobreviveu por apenas 18 dias depois do transplante. Naquela época, ainda não se sabia contornar o grande entrave dos transplantes de órgãos, a rejeição.

COMO ERA VIVER EM 1968?

Se fosse possível e você decidisse viajar no tempo para viver em 1968, certamente estranharia muito o modo de vida daquela época. Para um típico cidadão do início do século XXI, não seria nada fácil viver em 1968. Uma coisa é a gente ler sobre uma determinada época, saber sobre ela, ver um filme ou uma novela que se passa naquela época; outra coisa é viver nessa época. 

Em 1968, o mundo, obviamente, era bem diferente de hoje, ou seja, muito mais atrasado. Não havia telefonia celular, que só chegou no Brasil no início da década de 90 do século XX. Fazer uma ligação telefônica interurbana era um exercício de perseverança e paciência naquela época. Muitas cidades ainda tinham sistema de telefonia manual e precário. Não havia DDD. Havia necessidade de pedir a ligação para uma telefonista e, às vezes, esperar por horas. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telegrama. A televisão ainda era em preto-e-branco e tinha, naquele tempo, pouca abrangência, pois não havia satélites domésticos disponíveis e nem um sistema de retransmissão via micro-ondas. Muitas regiões brasileiras só foram receber os primeiros sinais de TV em meados da década de 70. A TV em cores só chegaria ao Brasil em 1972. Faziam sucesso na TV, em 1968, novelas como Antônio Maria (TV Tupi São Paulo), Beto Rockfeller (TV Tupi São Paulo/Rio), A Pequena Órfã (TV Excelsior), A Muralha (TV Excelsior), bem como programas de entretenimento como Hebe (TV Record), Sílvio Santos (TV Globo e TV Tupi), A Hora do Bolinha (TV Excelsior), Família Trapo (TV Record), Show do dia 7 (TV Record). Buzina do Chacrinha (TV Globo) e muitos outros. Mas, em 1968, o rádio ainda era o grande meio de comunicação de massa do Brasil. As grandes emissoras de rádio, concentradas principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, transmitiam suas programações em ondas curtas e, dessa forma, podiam ser ouvidas em todo o Brasil.

A informática ainda estava engatinhando. Não havia computadores pessoais. Para se ter uma ideia do atraso daquele ano, esse computador ou dispositivo móvel que você está utilizando agora para ler este texto, seja ele qual for, é milhões e milhões de vezes mais poderoso do que o mais avançado e robusto computador do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em 1968. A Internet era só um embrião nos Estados Unidos, de uso exclusivamente militar, e se chamava, na época, ARPANET. Era um sistema tão rudimentar, que nada tinha a ver com a Internet de hoje. 

Os carros mais usados em 1968 eram o Aero Willis, o DKV, o Galaxie, o Itamaraty, o Karmann Ghia, o Fusca e o lançamento do ano, o Opala. Em comparação com as modernas máquinas de hoje, esses carros eram verdadeiras “carroças motorizadas”.

Por mais que 1968 faça a gente sentir uma forte vontade de reviver aqueles tempos loucos e rebeldes, dos festivais, da contracultura, dos Beatles, você gostaria de viver num tempo em que não havia forno de micro-ondas, telefone celular, smartphone, antena parabólica, TV por assinatura, computador, Internet, redes sociais? Acredito que não. Ou viveria?

1968 EM PEREIRA BARRETO



Tratamos aqui do ano de 1968. Agora, vamos falar sobre como foi esse mesmo ano aqui em nossa cidade, em Pereira Barreto. Como era Pereira Barreto em 1968, justamente no ano do “Maio de 68” na França, dos festivais de música, do AI-5? Como era viver em Pereira Barreto naquela época?

Hoje em dia, com toda essa tecnologia da informação e comunicação, mesmo morando em pleno interior do Brasil, nos sentimos muito próximos e conectados com a rotina dos grandes centros urbanos do Brasil e do mundo. Mas em 1968, cinquenta anos atrás, as coisas eram bem diferentes. Os moradores de Pereira Barreto, no interior de São Paulo, quase na divisa com o Mato Grosso, estavam muito distantes da efervescência cultural e política dos grandes centros. Naqueles tempos idos, de comunicação precária, os pereira-barretenses voltavam-se mais para os assuntos locais, para a rotina da cidade. As passeatas e as agitações políticas e culturais que aconteciam no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em Paris eram coisas muito distantes para aquele povo simples e provinciano da Pereira Barreto do final da década de 60 do século XX.

COMO ERA A VIDA EM PEREIRA BARRETO EM 1968

Em 1968, Pereira Barreto era muito diferente do que é hoje. A cidade era bem menor. A sociedade local da época era dominada por uma dúzia de famílias tradicionais. Se bem que, já naquele ano, devido ao início da construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira e à chegada, na região, de trabalhadores para a construção da obra, esse quadro já começava a apresentar alguns discretos sinais de mudança, pois Pereira Barreto passaria por profundas transformações, principalmente no início dos anos 70. Em decorrência desses migrantes que vieram trabalhar direta e indiretamente na construção da usina de Ilha Solteira e, mais tarde, na de Três Irmãos, provavelmente mais de 70% da população da cidade, hoje, é composta por pessoas, entre ascendentes e descendentes, que aqui chegaram depois de 1970. Isso, talvez, explique um pouco a quase inexistência de vínculos da atual população pereira-barretense com o passado histórico e com os pioneiros habitantes da cidade.

Em 1968, Pereira Barreto era uma cidade bem provinciana ainda, aquela típica cidadezinha do interior mesmo, dominada por um grupo pequeno de famílias tradicionais e de imigrantes e seus descendentes, principalmente de origem japonesa. Naquele tempo, o número de japoneses e de seus descendentes em Pereira Barreto era bem maior do que hoje. A debandada de descendentes de japoneses fazendo o caminho de volta de seus pais e avós, indo trabalhar no Japão, principalmente nos anos 90, foi a principal causa desse encolhimento no tamanho da colônia nipônica local.
Vejamos a seguir alguns aspectos da vida pereira-barretense em 1968.

- O meio de comunicação mais usado, naquela época, ainda era o rádio. A TV já existia aqui, mas, por ser ainda um bem de consumo caro, poucas famílias tinham um receptor, que era em preto-e-branco e pegava, de forma precária, a TV Tupi de São Paulo e, de forma mais precária ainda, a TV Record. As imagens vinham das retransmissoras de Araçatuba e Machado de Melo. Só em 1969 é que a cidade foi ter a sua primeira estação repetidora de TV local, instalada no alto da caixa d’água do Serviço Autônomo de Água. Naquele ano distante, não havia parabólica, TVs por assinaturas, videocassete, nem DVD, muito menos, é claro, Internet e plataformas digitais.
• O telefone, em 1968, ainda era manual. Mesmo para ligações locais, havia necessidade de auxílio de telefonista. Os números dos telefones da cidade tinham só três dígitos. Lembro-me de que o da casa comercial de meu avô, na época, era 185. Não havia DDD, nem DDI. Uma ligação interurbana podia demorar horas para ser completada e a qualidade era quase sempre ruim. As pessoas daqueles tempos heroicos tinham que falar com o seu interlocutor às vezes aos berros para serem ouvidas do outro lado da linha. Nem se pensava, ainda, em telefone celular. Aliás, ter um telefone naquela época era um privilégio de poucos. Outro meio de comunicação muito usado na época era o telégrafo, para troca de informações curtas, objetivas e que exigissem certa urgência, Era um sistema que utilizava o Código Morse. Naquele tempo, ainda não havia sido criada a ECT. Por isso, o serviço de telegrafia era prestado por empresa desvinculada dos Correios.
• A semana útil, em 1968, durava seis dias, e não cinco, como hoje. É que, naquele tempo, o sábado era considerado praticamente um dia normal de trabalho, pois o comércio funcionava o dia todo, até às 18 horas. Não havia ainda a chamada “Semana inglesa”. As repartições públicas tinham expediente até o meio-dia. O expediente bancário, em 1968, era de segunda a sexta, das 9h às 11h e das 13h às 17h. Mesmo aos sábados os bancários trabalhavam internamente, pois não podemos nos esquecer de que, naquele tempo, era tudo manual, tudo escriturado em livros e fichas. Não havia computadores. A compensação de um cheque e de uma ordem de pagamento para uma conta em outra cidade, por exemplo, demoravam dias, até semanas, para serem efetuadas. Aos domingos, no entanto, com exceção de bares, lanchonetes, sorveterias e restaurantes, praticamente nenhum estabelecimento comercial abria suas portas. Quem precisasse de alguma coisa de emergência, tinha que recorrer a um comerciante amigo que fizesse a venda pelos fundos do estabelecimento, quando possível. Só a partir de 1970 é que, em decorrência do enorme movimento de migrantes de outros pontos do País, que vieram para esta região trabalhar nas obras da construção de Ilha Solteira, é que houve um período em que boa parte do comércio abria suas portas aos domingos até o meio-dia.
• Naquele tempo não havia ainda supermercados em Pereira Barreto. O que havia eram mercearias, uma delas, inclusive, era a Casa Portuguesa, que, alguns anos depois, se transformou no atual Supermercado Proença, cujo prédio se localiza no mesmo local onde funcionava a antiga mercearia. O primeiro supermercado só começou a funcionar aqui por volta de 1970. Era o Supermercado Tem Tudo, de propriedade da família Milanezi, e se localizava onde hoje funciona a loja Luamar Móveis. Ele tinha quase o tamanho de um minimercado atual, um “mercadinho”. No entanto, era uma novidade para a época em nossa cidade. Afinal de contas, o cliente mesmo escolhia e pegava as mercadorias.
• Como televisão, em 1968, ainda era um bem acessível a uns poucos privilegiados e, mesmo assim, a qualidade da recepção era ruim, a vida noturna de Pereira Barreto era bem mais agitada, principalmente nos finais de semana. Havia bailes no CAP e no ACEP, Aliás, naquela época, o CAP só podia ser frequentado por sócios ou convidados. Para ser um associado do CAP havia toda uma formalidade. O nome do candidato tinha de passar pelo crivo da diretoria, mas, devido ao conservadorismo da sociedade daquela época, a seleção era bem mais rigorosa que hoje. Para ir a um baile naquela época, havia necessidade de saber o traje exigido. Podia ser esporte fino, passeio ou traje a rigor, que exigia o uso de paletó e gravata. O mesmo se deve dizer também em relação â ACEP, que é um clube cujo quadro de associados sempre foi mais restrito à colônia japonesa. Além disso, naquele tempo circos e parques de diversão eram atrações mais frequentes em cidades do interior.
• A Praça da Bandeira era o local do footing das moças e dos rapazes da época. O Cine Itapura, com sessões diárias, inclusive com matinês aos domingos à tarde, era uma das diversões preferidas dos pereira-barretenses daquela época. Mas o ponto de encontro preferido dos jovens daquele tempo era o saudoso Tropical Bar, que se localizava onde existe hoje a galeria New Center.
• O prefeito de Pereira Barreto, em 1968, era Leo Liedtke Junior. Naquele tempo, a Câmara Municipal era composta por treze vereadores, que não recebiam nenhuma remuneração financeira por suas atividades legislativas. Mas isso não significava que o cargo de vereador fosse desinteressante. As disputas para uma cadeira na Câmara na época eram tão acirradas quanto hoje.
• A propósito, 1968 foi ano de eleição em Pereira Barreto. Os candidatos a prefeito na época foram Ernesto Trentin, da ARENA 1, o "positivo", Antônio Gomes da Silva, da ARENA 2, o "barra limpa", e o polêmico Lourival da Silva Louzada, do MDB, que não tinha nenhum símbolo para a sua campanha, mas muita gente, como chacota, dizia que ele era o "barra pesada". Os dois candidatos favoritos eram  Trentin e Antônio Gomes, ambos filiados à ARENA, que era o partido político de apoio aos governos estadual e federal, ou seja, era o braço político da ditadura. Louzada era candidato do MDB, partido que fazia uma oposição “consentida” à ditadura. No entanto, a disputa para a prefeitura e para a Câmara de Vereadores em Pereira Barreto não tinha muita relação com o ambiente político em nível nacional. A disputa era local, as discussões eram sobre questões locais. A despeito de o País estar em uma ditadura, em Pereira Barreto, como acontecia também na maioria dos municípios brasileiro naquele ano, a disputa era totalmente democrática e desvinculada do ambiente tenso em nível nacional. O vencedor da eleição municipal em Pereira Barreto naquele ano  foi Ernestro Trentin, que tinha o apoio do então prefeito Léo Liedtke Júnior, e tomou posso em 1.º de fevereiro de 1969.
• Naquela época, ainda havia por aqui muitas plantações de algodão. Muita gente, então, principalmente estudantes das escolas da cidade, aproveitava para ganhar um dinheirinho extra com a colheita. O algodão colhido nas lavouras de Pereira Barreto, naquela época, beneficiado aqui mesmo, pela Anderson Clayton e pela Cooperativa Agrícola da Fazenda Tietê, era de enorme importância econômica para o Município.
• Pereira Barreto tinha dois problemas sérios naquele tempo: energia elétrica e abastecimento de água. Á água distribuída na cidade naquela época, retirada de poços artesianos, possuía uma quantidade excessiva de fluor, o que fez com que muita gente, principalmente crianças daquela época, adquirisse fluorose. Além disso, era uma água salobra, com um gosto muito ruim. Quanto à energia elétrica, os cortes no seu fornecimento, que eram de responsabilidade da Companhia Paulista de Força e Luz, então estatal, eram frequentes. Naquele tempo, as grandes hidrelétricas ainda não estavam prontas. A energia de Pereira Barreto vinha de uma pequena usina geradora em Itapura, que já não existe mais. A energia aqui, então, além de ser fraca, sofria cortes constantes.

Para a história de Pereira Barreto, foi um ano importante. Foi em 1968 que começou a construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, o que veio a mudar radicalmente a vida social, cultural e econômica de Pereira Barreto, principalmente a partir de 1970.

ILHA SOLTEIRA EM PEREIRA BARRETO — A FAKE NEWS QUE PERSISTE ATÉ HOJE

Muita gente costuma afirmar, hoje, que o prefeito da época, Léo Liedtke Junior, errou em não permitir ou em não lutar para que o que é hoje a cidade de Ilha Solteira fosse construída aqui em Pereira Barreto e que, se isso tivesse sido feito, Pereira Barreto, hoje, seria uma grande cidade. Trata-se, na verdade, de uma fake news, cuja origem se desconhece, mas, provavelmente, deve ter sido disseminada por algum adversários políticos do prefeito da época, o que é, no mínimo, estranho, pois a população pereira-barretense daquele tempo não era simpática à ideia de “se misturar” com “barrageiros”, Mas o fato é que a tal fake news se espalhou na época e tem gente que até hoje acredita ter sido verdade. Mas, pelo que pude constatar em pesquisa, a informação não procede, é fruto de uma dose de ingenuidade e de desinformação. É preciso que se diga, a bem da verdade histórica, que o aglomerado urbano que é hoje a cidade de Ilha Solteira nunca seria construído aqui em Pereira Barreto, mesmo que o prefeito da época assim o quisesse. São várias as razões para isso. Se não, vejamos.

Segundo o livro ILHA SOLTEIRA – UM SONHO, UMA HISTÓRIA, de Fernando Sávio – 1.ª edição, São José do Rio Preto (SP), THS Editora, 2011, o projeto original da atual cidade de Ilha Solteira foi elaborado, em 1965, pelos arquitetos Ernest Robert de Carvalho Mange e Ariaki Kato, do Escritório de Engenharia Mange & Kate, em São Paulo (SP). O objetivo da CELUSA (hoje, CESP) era que o núcleo urbano de Ilha Solteira não seria como o de Jupiá, a “Vila Piloto”, que foi construída de madeira com o objetivo de ser desmontado depois do fim das obras. Como não seria derrubado, o material de construção usado, então, seria de alvenaria e não só madeira. Como cidade, teria que estar preparada para receber até 15 mil operários no período de pico das obras – que, somando-se aos seus familiares, chegariam a uma população de 35 mil habitantes. Na página 49 do referido livro, diz Fernando Sávio:

Por já nascer planejada, era preciso, então, que tudo estivesse no seu devido lugar: as área de comércio, a educação, saúde, infraestrutura e demais instituições de uma administração. O plano diretor foi estabelecido com base na chamada “cidade linear”. Construída numa área plana, de 380 hectares, a cerca de quatro quilômetros do canteiro de obras, o plano viário teve como base principal uma grande avenida – a avenida central ou eixo viário, destinada ao tráfego rápido, que nasce no anel rodoviário (estrada de Pereira Barreto, Santa Fé e outras cidades, além do acesso à hidrelétrica) e corta todo futuro perímetro urbano, de norte a sul, ligando-se, na outra extremidade, a outra estrada de acesso a Itapura, Castilho e Andradina. Uma via perimetral, ou avenida perimetral, circundando toda área urbana, forma um anel viário. Vias de penetração, ou alamedas, ligando aas avenidas central e perimetral; e as ruas que nascem e morrem nas alamedas.

Portanto, a construção da cidade de Ilha Solteira já fazia parte do projeto original da CELULSA (hoje, CESP). Não havia intenção de abrigar todos os trabalhadores da obra e suas famílias aqui em Pereira Barreto, mesmo porque o canteiro de obras ficava a mais de quarenta quilômetros de nossa cidade. O que houve, na época, é que, como o núcleo urbano ainda estava em construção, foi um pedido da CELUSA ao prefeito de uma área na cidade para construção de uma espécie de conjunto habitacional para abrigar temporariamente parte dos trabalhadores e suas famílias, e o prefeito da época não teria concordado com os termos em que a CELUSA queria a concessão dessa área.

Mas vamos supor que, se mesmo a quarenta quilômetros de distância do canteiro de obras, todos os trabalhadores da usina hidrelétrica de Ilha Solteira tivessem vindo morar em Pereira Barreto, a CESP (então CELUSA) dificilmente teria investido aqui na construção da mesma infraestrutura que implantou em Ilha Solteira. Afinal, Pereira Barreto já tinha, pelo menos em tese, toda infraestrutura básica necessária, como hospital, médicos, lojas, restaurantes, etc., para abrigar os trabalhadores e suas famílias. Uma prova disso foi na época da construção da usina hidrelétrica de Três Irmãos, ocasião em que não foi construído nenhum núcleo urbano para abrigar os trabalhadores da obra, que passaram a residir e viver, em sua maioria, em Pereira Barreto, sem que isso trouxesse nada de relevante que contribuísse para o crescimento urbano da cidade, embora a obra de Três Irmão seja infinitamente menor do que a de Ilha Solteira.

Outro detalhe importante, que pouca gente conhece hoje: naquele tempo havia, em Pereira Barreto, um preconceito muito forte contra os chamados “barrageiros”. As famílias tradicionais da cidade consideravam a maioria desse pessoal que vinha de fora para trabalhar nas obras de Ilha Solteira gente ”sem eira nem beira”, desqualificados, gente perigosa, em quem não se poderia confiar. Conta-se até que o então prefeito Léo Liedtke Junior guardou por muito tempo um abaixo-assinado a ele dirigido, firmado por ilustres pereira-barretenses da época, pedindo-lhe que não permitisse que nossa cidade abrigasse os “barrageiros” de Ilha Solteira, para que não houvesse riscos de que eles viessem a “desonrar” as dignas famílias da cidade. O próprio ex-prefeito me confirmou, anos depois, em conversa informal, que ignorou a reivindicação e engavetou o documento.

Há, também, uma informação curiosa, que me foi passada por gente da época, segundo a qual, a maioria das terras onde está situada hoje a cidade de Ilha Solteira pertencia a membros da família Junqueira, e o presidente da CESP (então CELULSA), então, se chamaria Guilherme Junqueira, Coincidência apenas? Obviamente que seria uma leviandade afirmar hoje que, em razão disso, tenha havido qualquer tipo de benefício ou coisa desse tipo. Mas não deixa de ser um detalhe curioso, que não pode ser desprezado.

Não bastasse isso, temos que nos lembrar de que vivíamos na mira das baionetas. Estávamos em uma ditadura civil-militar de inspiração positivista. De 1964 até meados dos anos 70, praticamente toda a classe política foi alijada do poder neste país, tanto os da esquerda quanto os da direita. Quem mandava neste país, nesse período, eram militares e tecnocratas. Se o governo quisesse que colocar aqui em Pereira Barreto, para economizar custos, todos os trabalhadores das obras de Ilha Solteira, o teria feito, independentemente da vontade do prefeito de plantão. Não era muito recomendável contrariar os homens que ocupavam o Palácio do Planalto naquela época. Mas, obviamente, eles já tinham no plano construir uma cidade junto às obras. Afinal de contas, isso aumentaria o custo de uma obra de grande porte, que era o sonho de consumo das grandes empreiteiras e de quem estivesse envolvido na construção da obra. Abrigar os trabalhadores e suas famílias em uma cidade próxima e já pronta, provavelmente, não seria um bom negócio, se é que me entendem.

Independentemente disso, Pereira Barreto foi muito beneficiada, na época, pela construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, muito mesmo. Como Ilha Solteira era um local, ainda, inóspito para se viver, pois era uma cidade cercada, com cancelas, para controlar o acesso das pessoas, tinha toque de recolher à noite e durante o dia, para não perturbar o sono dos trabalhadores, muita gente preferia vir morar em Pereira Barreto. Além disso, como o comércio de Ilha Solteira, na época, era incipiente, a maioria dos moradores de Ilha Solteira vinham fazer compras em Pereira Barreto. O comércio de Pereira Barreto, na época, nunca vendera tanto. Houve necessidade de se criarem horários especiais de funcionamento das lojas, inclusive nas manhãs de domingo, o que era algo raro em uma época em que não havia a chamada “semana inglesa”.

PEREIRA BARRETO SERIA TOTALMENTE SUBMERSA – FAKE NEWS

Outra fake News histórica em Pereira Barreto. Contou-me, certa vez, um antigo morador de Pereira Barreto, já falecido, que, quando começou a circular a informação de que seria construído nesta região um grande complexo hidrelétrico, com a formação de grandes lagos fluviais na região, nos anos 50, também surgiu um forte boato de que a cidade de Pereira Barreto seria totalmente submersa. A tal fake news se propagou tanto, de forma tão forte, que um grupo de vereadores foi a São Paulo consultar o então governador Lucas Nogueira Garcez, que desmentiu a falsa informação e tranquilizou os vereadores.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES SOBRE O AMBIENTE POLÍTICO NAQUELA DAQUELA ÉPOCA, NOS MUNICÍPIOS E NO PAÍS

Poderia alguém perguntar se não era ruim eleitoralmente ser um candidato a vereador e a prefeito do partido da ARENA, o partido que apoiava a ditadura? Não era. Muito pelo contrário: os candidatos a prefeito e a vereador, naquele tempo, principalmente nas cidades do interior do Brasil, em especial nas cidades pequenas, faziam questão de dizer que eram do “partido do governo”. Ser vereador e, principalmente, prefeito, naquela época, pelo MDB era um péssimo negócio para o município, por razões óbvias. E os próprios eleitores dessas cidades tinham consciência disso e votavam maciçamente nos candidatos da ARENA, pois sabiam que uma cidade, naquele tempo, governada por um emedebista seria, certamente, discriminada pelo governo e teria muita dificuldade em conseguir benefícios oficiais.

A bem da verdade, em seus primeiros anos, até o início da década de 70, o regime militar tinha amplo apoio da população. Isso não se devia somente ao conservadorismo da grande maioria da sociedade brasileira da época, mas a outros fatores também, como o econômico, pois, graças ao chamado “milagre econômico”, aos altos índices de crescimento do País (em 1968, o Brasil registrou um crescimento de 145%) e às inúmeras obras de infraestrutura que foram construídas naquele tempo (usinas hidrelétricas, rodovias, pontes, etc.). Algumas dessas obras eram faraônicas, é verdade, mas isso garantia muitos empregos para a população. Outro fator que garantia popularidade ao governo daquela época era sua postura até um tanto populista, com a promoção de uma séria de iniciativas de cunho social, como financiamentos imobiliários, programas de alfabetização, etc.

Aliás, a popularidade do governo era tanta, naquele tempo, que, nas eleições gerais de 1970, para as assembleias legislativas, para o Congresso Nacional e o Senado, o MDB foi praticamente massacrado nas urnas. Chegou-se a falar até na possibilidade de extinção da legenda na época. E não era para menos, afinal de contas o Brasil era um dos países que mais crescia naquele tempo, não faltavam empregos, boa parte da população brasileira ascendeu socialmente naquela época. Então a ditadura não era tão ruim assim... Epa! Vamos com calma.

O leitor se lembra que, logo no começo deste texto eu falei sobre a tal “Passeata dos Cem mil”, que aconteceu no dia 26 de junho de 1968, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro? Pois é! No dia seguinte, ao comentar a foto panorâmica da passeata no jornal, na qual podia se ver milhares de estudantes secundaristas e universitários, em sua grande maioria filhos da mais fina flor da elite carioca daquela época, o dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues deixa em sua coluna uma pergunta irônica e aguda: “Cadê o povo?”.

Pois é! O povo ainda não fazia parte dessa reação da classe média e média alta e do movimento estudantil contra a ditadura. O povo estava anestesiado, não só pela censura à imprensa e à mídia da época, mas porque, para ele, gente comum, a vida estava boa. O Brasil, em 1968, crescera 14%. O Brasil estava repleto de canteiros de obras, havia empregos brotando em diversas regiões do País. Enquanto isso, praticamente toda a classe política estava praticamente alijada do poder. Os militares positivistas que detinham, de fato, o controle do País não haviam colocado somente a oposição e a esquerda na geladeira, mas a direita também. O Brasil era controlado por militares e administrado por tecnocratas. Aos políticos da ARENA cabia dizer sempre “Sim”. Aos políticos do MDB a fazer uma oposição consentida e discreta. Ai de quem não obedecesse! Naquele momento, só a classe média urbana dos grandes centros e a elite pensante é que estava ciente da realidade. O povo estava feliz e queria mais é que o governo desse um jeito nos “terroristas” que queriam implantar o comunismo no Brasil. Ou seja, tínhamos dois Brasis: o Brasil dos indignados com o arbítrio e o Brasil anestesiado pelo “milagre econômico”.

Dentre aqueles que se punham contra a ditadura, podiam ser divididos basicamente em dois grupos: aqueles que lutavam relo retorno à normalidade democrática, com eleições livres para todos os cargos, retorno à Constituição de 1946 ou a convocação de uma Assembleia Constituinte, e aqueles que, inspirados em Ernesto “Che” Guevara, Fidel Castro e na Revolução Cubana, de 1959, queriam a implantação da ditadura do proletariado no Brasil e a criação de um estado socialista. Quem conhece a história recente do Brasil sabe no que tudo isso deu. Somente em meados dos anos 70, principalmente devido ao fim melancólico do tal “milagre econômico”, é que a toda a sociedade brasileira, de fato, tomou consciência do que realmente estava ocorrendo no Brasil e começou a reagir, mas somente no início de 1985 é que começamos a voltar à normalidade democrática. Mas essas são outras histórias que foram acontecendo ao longo desses últimos cinquenta anos.

domingo, 21 de janeiro de 2018

O CRENTE E O CÉTICO


Em um bar, daqueles de esquina, que não têm nada de diferente, nada de interessante, é apenas um bar normal, aonde as pessoas vão, no final da tarde, depois do trabalho, para conversar, beber cerveja, descontrair, sentados a uma das mesas dois sujeitos conversam animadamente. Frederico, o ateu, o incrédulo, o cético, e Agostinho, o crente, o homem de fé.
— Então, você vai se aposentar no final do mês, hein? — pergunta Frederico a Agostinho.
— Sim — afirma Agostinho — Se Deus quiser, estarei aposentado no final do mês.
— E se Deus não quiser? — provoca Frederico.
— Se Ele não quiser, não me aposento, oras. Ele é quem manda.
Depois de uma longa gargalhada, Frederico diz:
— Agostinho, você deve se sentir bem seguro achando que tem um ser superior que o protege, o guia, o orienta e tal. Isso é bom, mas também não é. Afinal de contas, esse ser protetor, na realidade, não existe. É apenas uma crença sua...
— Tudo bem, Frederico! Tudo bem! — reage Agostinho. Se você não tem fé, tudo bem. Respeito seu ponto de vista. Mas peço a você que respeite o meu também.
— Eu respeito — diz Frederico. Não quis ofendê-lo. Mas tenho que lhe confessar que não vejo nenhum sentido em crer em um ser supremo. Tudo isso é criação de povos primitivos, como os hebreus, por exemplo. Ponha uma coisa definitivamente em sua cabeça, Agostinho: Deus não existe, a não ser na imaginação de quem acredita nele.
— E a Bíblia? E o testemunho do povo hebreu? E Jesus Cristo? — questiona Agostinho.
— Histórias, Agostinho. Histórias. Todos os povos antigos têm suas histórias, suas lendas, suas crenças, seus heróis, seus mitos. Mas, no final das contas, tudo não passa de literatura e crendice, O que é a bíblia, Agostinho?
— A Bíblia é a palavra de Deus — afirma Agostinho —, escrita por homens, sim, mas sob inspiração divina.
— Isso é o que disseram para você, Agostinho — reage Frederico. A Bíblia é, na verdade, uma coletânea de textos muito antigos, cujos autores são desconhecidos. Tudo bem que tem um valor histórico e literário inquestionável. Afinal é o testemunho, a manifestação e a tradição cultural e religiosa de um povo, que criou a primeira religião monoteísta da História. Mas o que há ali são narrativas, histórias, lendas e a tradição religiosa de um determinado povo. Mas é só isso, Agostinho. O mais é pura mistificação — conclui Frederico.
— Tudo bem, meu amigo Frederico! Se você não acredita em um ser supremo, me responda de onde veio tudo isto que está à nossa volta? O próprio planeta Terra, onde vivemos, é um exemplo. Veja a natureza, os animais, as plantas, a complexidade da vida. Além disso, eu já li que nosso planeta tinha que ser exatamente do tamanho que é, com a posição e as velocidades de rotação e translação precisas para garantir que as estações do ano e a proporção de água e terra estejam em equilíbrio para garantir a vida. Uma interferência ou mudança, mínima que seja, pode acabar totalmente com a vida na Terra. Isso é Deus, meu amigo. Só pode haver uma inteligência superior envolvida nisso. Não é só obra do acaso   — afirma Agostinho.
— Mas é obra do acaso, meu amigo, por mais absurdo que isso lhe possa parecer — reage Frederico. Está certo que tudo é muito perfeito e tal, mas isso é coisa da natureza, meu irmão. As coisas foram se criando e se ajeitando, se moldando, aos poucos, naturalmente, até que a vida finalmente foi possível. De um organismo unicelular, começaram a surgir formas de vidas mais complexas e assim por diante. Tudo é, sim, obra do acaso — diz Frederico.
— Sua visão do mundo e da vida é muito simplista, muito limitada. Creio que a vida não se limite a isto aqui à nossa volta, meu amigo. Há, sim, um princípio criador de tudo isso. Os povos antigos podiam não ter os conhecimentos que temos hoje, mas eram sábios e já acreditavam em um ser superior e que esse ser superior, essa inteligência suprema, tenha um plano para todos nós. Até os dias de hoje, não se conhece nenhum povo, nenhuma cultura que não tivesse uma forma de manifestação religiosa e espiritual. E olha que não faltaram tentativas de se criar uma sociedade materialista no mundo. O marxismo foi uma delas. Sem sucesso.
— Agostinho, a crença em Deus é ilógica — ataca Frederico. 
— Como ilógica, Frederico? — reage Agostinho.
— Se Deus é onipresente e onisciente, ele sabe tudo, o passado, o presente e o futuro. Sendo ele, também, onipotente, pode mudar tudo, mas não o faz. Por quê?
— Sei lá — afirma Agostinho. São os desígnios de Deus! Quem somos nós, humanos, para entender?
— Oh! Os “desígnios de Deus”! E “quem somos nós para entendê-los?”. Me poupe disso, Agostinho. O segredo é aumentar os “mistérios” então? — ironiza Frederico.
— Há uma lei natural no universo, Frederico, de causa e efeito. Para que haja um efeito, há que se ter uma causa. Se há o universo e tudo mais, que é um efeito, qual seria a causa? Obviamente é Deus, o criador, o precursor de tudo isso.
— Esse é um argumento muito genérico. Nesse seu raciocínio de causa e efeito, o Deus aí poderia ter inúmeras concepções e formas. Até faz certo sentido. Mas o deus que as religiões vendem apresenta um problema sério, Agostinho.
— Que “problema”, Frederico?
— É humano demais. Já percebeu isso? O deus, pelo menos os que as religiões e a própria Bíblia vendem é à imagem e semelhança do homem, Agostinho. Ele tem fraquezas humanas: é ciumento, revanchista, mesquinho e às vezes até cruel. Ele dita a Moisés o mandamento “Não matarás”, mas, ao longo de diversos trechos do Velho Testamento, ele mesmo mata um monte de gente, só porque o desagradaram. Ele provoca uma inundação que aniquila praticamente toda humanidade, só poupando Noé e sua família, destrói duas cidades, mata soldados egípcios. Que espécie de deus raivoso é esse? Ele não é o misericordioso? Ele é incoerente e bipolar. Além disso, esse seu deus é chantagista: ou você crê nele e faz o que ele manda ou cumprirá pena perpétua no inferno. É um deus canalha, opressor, Agostinho.
— Essa sua visão, meu caro Frederico, demonstra sua pouca intimidade com as coisas de Deus e com Sua palavra. Deus é amoroso, meu amigo, mas também é severo com seus filhos. Esse Deus criador e amoroso é apenas uma parte dEle que nos é mostrada na Bíblia. Deus também é atitude contra todos aqueles que se opõem a Ele. Quando analisamos o que dizem os textos do Antigo Testamento, temos que levar em conta que Deus, que havia escolhido os hebreus para transmitir ao mundo sua mensagem, sabia que estava lidando com um povo “de dura cerviz”, como diz o próprio texto sagrado, isto é, insubordinado, rebelde. Por isso, Deus age como um “pedagogo”, como pai em relação ao povo hebreu, para lapidá-lo espiritualmente — conclui Agostinho.
— Belo discurso, Agostinho. Quase me convenceu. Mas me diga uma coisa: como pode haver um deus e tantas religiões diferentes por aí?
— Meu caro Frederico, não sei dizer em relação a outras religiões. Diz a sabedoria popular que, apesar de haver tantas religiões, tantas crenças, Deus é um só. Também acredito nisso, mas sou cristão. Para mim, apesar de crer no Deus de Israel, em Jeová, do Antigo Testamento, o ponto principal da revelação divina para mim está na figura de Jesus Cristo. Creio que ele foi, sim, o Messias, o Salvador do qual os profetas falam no Antigo Testamento. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo são fatos históricos. Seu lado divino o diferencia de qualquer outro líder de outra religião. Então, meu caro Frederico, para mim, as evidências providenciais de Deus e Jesus Cristo são suficientes para justificar um total comprometimento de minha parte com a fé cristã. Crer em Deus e em Jesus Cristo significa vida, para mim, e vida plena, vida eterna.
— Jesus, para mim, Agostinho, é uma figura historicamente obscura. Pouco ou quase nada se sabe sobre ele. As narrativas dos evangelhos, tanto os tais canônicos como os apócrifos, são contraditórias. É difícil saber o que há de verdade em tudo aquilo que é contado sobre ele. As narrativas dos quatro evangelhos canônicos sobre a vida de Jesus, seu nascimento, o pouco que se fala sobre sua infância, sua curta vida de três anos como pregador, seu julgamento, sua crucificação e tal, para mim, improvável “ressurreição” têm pontos que não batem com a realidade histórica da época, segundo alguns pesquisadores — diz Frederico.
— E o que é que não bate, Frederico — pergunta Agostinho. Os evangelhos contam a vida e o ministério de Jesus, mas é óbvio que há eventuais contradições entre um e outro. Os quatro evangelhos foram escritos em épocas diferentes, mais de quarenta anos após a morte de Cristo.
— Em relação ao nascimento de Cristo, por exemplo, Lucas narra que José e Maria viviam em Nazaré, mas tiveram de deixar a pequena aldeia para responder a um censo que fora determinado pelo imperador romano Augusto e que todo o mundo tinha de se registrar no local onde havia nascido. Como José era descendente da família do Rei David, saiu para Belém com a mulher grávida para se registrar. No entanto, segundo os historiadores, no tempo do imperador Augusto não havia censos na região da Palestina, e, mesmo que houvesse, nunca pediam para que as pessoas fossem para a cidade onde nasceram. Se alguém estivesse fora da região onde nasceu, tinha que fazer o seu cadastro onde estava vivendo.
— Miqueias profetizou que o messias nasceria em Belém, terra do Rei David — esclarece Agostinho.
— Pois é! Se Jesus realmente nasceu em Nazaré, e não em Belém, como profetizara Miqueias, os evangelistas deram um jeito de fazer uma adaptação, para tentar convencer os judeus de que Jesus era o messias esperado. Mas parece que a “adaptação” não deu certo, e os judeus continuam esperando o tal messias até hoje.
Nisso, Frederico interrompe seu discurso e pede mais uma cerveja ao garçom. Depois, volta-se novamente para Agostinho e continua:
— Agostinho, há dúvidas também quanto à narrativa do julgamento de Cristo. Muitos historiadores acham possível que Jesus realmente tenha sido crucificado, mas duvidam que tenha havido, realmente uma Via Crúcis e um julgamento na forma como narrada pelos evangelistas. Jesus foi, como narram os evangelhos, preso em Jerusalém, em uma  sexta-feira que antecedia a Páscoa. Ocorre que, nessa época do ano, Jerusalém estava lotada de judeus vindos de outras regiões para as festividades. A Páscoa judaica não era somente uma festa religiosa, mas também política. Os romanos, nesse ambiente, dificilmente iriam prender um judeu, fazer um julgamento público dele e colocá-lo para desfilar de forma humilhante pelas ruas da cidade, arrastando uma cruz. Isso seria uma provocação desnecessária e perigosa. É quase certo, para os historiadores que nada disso aconteceu — conclui Frederico.
—Todas essas considerações e questionamentos históricos sobre Jesus e o cristianismo não abalam minha fé, Frederico. E fé não é sinônimo de ingenuidade, meu amigo. Claro que tudo pode ter sido diferente do que está escrito. Coisas do homem. Mas imagine alguém, naqueles tempos idos, no meio de povos rudes, para os quais valia a lei do mais forte, o olho por olho e dente por dente, a lex talionis (lei de talião), aparece alguém que prega o arrependimento, o perdão — e não a vingança — ao inimigo, a justiça e, principalmente, o amor. Independentemente de tudo o que você disse até agora, meu caro Frederico, amparado em vasto conhecimento de História que sei que você tem, eu considero o Cristianismo uma doutrina avançada até para os dias de hoje, imagine para a época em que ela surgiu, há dois milênios. Os ensinamentos cristãos bateram de frente com uma sociedade primitiva, brutal e opressora, na qual valia a vingança e não o perdão; a guerra, e não a paz. Mas, à medida que o cristianismo foi crescendo e ganhando cada vez mais e mais adeptos, ao longo dos séculos, o senso moral do homem ocidental foi mudando, os valores pregados pelos ensinamentos de Cristo, independentemente da questão religiosa, foram lapidando o homem do Ocidente.
Frederico ouve o belo discurso pró-cristianismo do amigo, mas não se dá por vencido.
— Tudo bem, Agostinho, que muitas ideias atribuídas a Jesus tenham contribuído para melhorar moralmente o homem ocidental. Mas Jesus, pelo menos para mim, é um mito. Com certeza, houve um Jesus real, um ser humano, um típico homem pobre da Palestina de dois milênios atrás, que, embora obscuro, quase um desconhecido, provavelmente de aparência física característica dos habitantes daquela região, naquele tempo. E houve e há, até hoje, na Bíblia, nas igrejas e na mente de todos os adeptos do cristianismo, um Jesus ideal, de cabelos longos, pele clara e olhos azuis, de fala mansa, meio humano, meio divino.
— Não creio, caro Frederico. Se Jesus fosse apenas um mito, como diz você, não teria alterado tanto a História. O cristianismo influenciou tanto o mundo, que muitos países usaram seus ensinamentos como base para seus governos. Foi o cristianismo e suas transformações no senso moral do homem ocidental que possibilitaram a democracia moderna. Escolas, hospitais, organizações humanitárias e grandes universidades surgiram por causa das ideias cristãs. Como é que um mito iria causar tantas transformações no mundo, prezado Frederico? Pense bem — insiste Agostinho.
— Agostinho, uma mentira contada muitas e muitas vezes, por tantas pessoas, acaba sendo aceita como verdade, mesmo sendo mentira. A figura de Jesus Cristo, como a conhecemos hoje, como a vendida pelas igrejas cristãs, é um produto da aristocracia romana do século IV. As religiões são sempre criadas pelas classes dominantes, para controlar o povo e impor às pessoas conceitos de submissão e obediência a um deus ou coisa assim. O mito de Jesus Cristo, desde sua origem na Judeia, havia crescido bastante em praticamente todo o Império Romano e fora dele. O imperador Constantino percebeu que aliar-se aos cristãos era muito melhor que persegui-los. E, por isso, decidiu converter-se ao cristianismo e torná-la a religião oficial do Império Romano. Mas havia um problema: o cristianismo primitivo era dividido em muitos segmentos. Havia uma ampla e diversificada literatura oral e escrita sobre Jesus Cristo, ou seja, havia vários cristianismos diferentes. Cabia ao Imperador e ao Papa escolher que versão do cristianismo adotar nessa nova fase. Por isso, foi convocado, então, o tal Primeiro Concílio de Niceia, em 325, em Niceia (atual İznik), na Turquia. Foi justamente nessa época que for organizada a Bíblia, escolhido os quatro evangelhos, entre os muitos que havia. A gente só não sabe dizer quais critérios foram usados pelos bispos e pelo Papa para a escolha dos livros que comporiam o Novo Testamento — finalizou Frederico.
— Com certeza, Deus inspirou os homens da Igreja a escolherem aqueles que realmente traduziam a real vontade de Deus... — disse Agostinho.
—E Papai Noel e a Cegonha se encarregaram da entrega dos primeiros exemplares — interrompeu ironicamente Frederico. Me poupe de seus delírios teológicos Agostinho...
E assim continuaram Agostinho, o crente, e Frederico, o cético, a discutir por horas. Parece que os argumentos pró e contra a existência de Deus são inesgotáveis. A dúvida persiste. Podemos, sim, citar mil motivos para crer em Deus e outros mil para não crer nEle.
Em seu livro FILOSOFIA PARA OS FORTES – PENSE COM A PRÓPRIA CABEÇA (1. ed., São Paulo, Planeta, 2016), o filósofo Luiz Felipe Pondé afirma que uma das perguntas que ele julga mais inúteis na filosofia é se Deus existe. Pondé fala na “Aposta Pascalina”. Para o francês Blaise Pascal (1623—1662), que, além de matemático, físico, inventor e filósofo, era um teólogo católico, portanto um crente em Deus, a vida é uma questão de aposta, e não de segurança absoluta. Para ele, o descrente, era um sujeito sem informação e pouco racional, pois, se não o fosse, saberia que o mais racional e útil seria apostar na existência de Deus, pois, se você apostar na inexistência de Deus, você, obviamente, viveria sua vida terrestre sem levar em conta a vontade Dele, Aí, quando você morresse, encontrá-lo-ia do outro lado cobrando tudo de errado (contra a vontade dEle) que você fez aqui na Terra. Dessa forma, como você teria se negado a “investir” ou “apostar” na existência de Deus, o que lhe custaria uma eternidade de sofrimento do outro lado. Mas, se você apostasse na existência de Deus e tocasse sua vida aqui na Terra levando em conta a vontade dEle, mas ele não existisse, sua perda seria zero, pois você morreria, sua alma deixaria de existis e você não tomaria consciência de que fez uma aposta errada. Mas, se você apostasse na existência de Deus, e Ele existisse realmente, você seria recompensado com uma eternidade feliz.
Mas tudo isso é bobagem, porque o próprio Pondé conclui que crer ou não crer em deus não é uma questão de probabilidade matemática. Para Pondé, a crença ou a descrença em Deus é mais fruto de causas extrarracionais, como educação, traumas infantis, ambiente familiar, etc. Crer ou não crer em Deus, para Pondé, não é como escolher a marca de um sabonete ou de um carro. Para ele, argumentos que tentam provar a existência de Deus ou Sua inexistência são inúteis. No entanto, Pondé considera a ideia de que se tentar provar a existência de Deus com a afirmação de que o universo “necessita” de um princípio ordenador de tudo é infantil. Para ele, ateu convicto, tudo isto aqui pode ser, sim, fruto do acaso num espaço de tempo inimaginável, no qual os elementos se arrumam e desarrumam, e no meio deles nós surgimos e desaparecemos.
No final do capítulo em que fala sobre a existência ou não de Deus, Pondé faz um questionamento interessante: segundo ele, qualquer um de nós, humanos, no lugar de Deus já teria se matado, pois ninguém suportaria a eternidade e tantos conhecimentos acumulados (conhecimento de tudo o que existe). Mesmo assim, ao crer em Deus, no sobrenatural, o homem busca a eternidade, uma coisa que o faria enlouquecer. Diante disso, dessa incoerência, Pondé finaliza perguntando se o homem é realmente racional. 

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SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...