terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A HISTÓRIA DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO EM PEREIRA BARRETO - INTRODUÇÃO

Viver em Pereira Barreto nos anos 30, 40, 50 e até 60 não seria nada fácil para nenhum de nós, cidadãos do século XXI, acostumados a estar permanentemente em contato com a civilização, com os grandes centros, por meio de telefone celular, Internet, TV digital via satélite e toda essa tecnologia digital que nos liga ao resto do mundo. Hoje, podemos falar com alguém que está em São Paulo ou em Tóquio, no Japão, como se a pessoa estivesse aqui, ao nosso lado, uma realidade muito diferente daquela vivida pelos moradores da Pereira Barreto dos primeiros anos de existência.

Naqueles tempos difíceis, os pioneiros pereira-barretenses viviam praticamente isolados do resto do mundo. Telefone era privilégio de poucos e, mesmo assim, seu funcionamento era muito precário. Para conseguir uma ligação interurbana, era um transtorno. Depois de conseguir a tão esperada ligação, a pessoa tinha de falar com seu interlocutor, do outro lado da linha, aos berros, para poder ser ouvida. O rádio só veio a se popularizar por aqui na década de 50. Antes, só poucos privilegiados da cidade tinham um receptor de rádio. A TV só veio aparecer aqui em 1965, e, mesmo assim, de forma muito precária e irregular. Já a Internet, bem mais recente, começou a ser usada aqui praticamente na mesma época em que surgia no resto do País, em 1995, por meio de conexões via ligações interurbanas com provedores de São Paulo (Capital), São José do Rio Preto e Araçatuba. No entanto, o primeiro provedor local só começou a operar em julho de 1998.

Nos próximos dias, vamos fazer uma viagem no tempo e resgatar um pouco da história das comunicações em Pereira Barreto. Vamos ver como funcionavam os telefones, quando foi inaugurada a primeira emissora de rádio da cidade, como foi a chegada da televisão por aqui e, também, da Internet. Vou republicar em meu novo blog alguns textos que já publiquei alguns anos atrás sobre a história dos meios de comunicação em Pereira Barreto. Vamos viajar no tempo e saber como as pessoas se comunicavam naqueles tempos difíceis, sem celular, sem WhatsApp, sem Internet, sem TV digital. 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Os perigos da doutrinação ideológica e/ou religiosa

Melita Maschmann (1918-2010)

Algum tempo atrás, lendo “GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO MUNDO*, um interessante livro do jornalista e escritor Leandro Narloch, deparei com a curiosa história de Melita Maschmann (1918-2010), que, na década de 30 do século passado, era uma jovem alemã, com todo um futuro pela frente e uma vida tranquila e confortável com seus pais. No entanto, encantada com o discurso de Adolf Hitler e com as ideias nazistas, decidiu engajar-se na Juventude Hitlerista. Em sua biografia, escrita em 1965, ela afirma que queria fugir da “vidinha pequena e infantil” que levava com seus pais e se engajar em alguma coisa “grande e fundamental”. Como muitos jovens alemães de sua época, Melita decidiu colar uma suástica em seu braço e integrar o movimento político que prometia recuperar o orgulho do povo alemão. Inicialmente, o interesse de Melita eram os esportes, as caminhadas e os acampamentos promovidos pela Juventude Hitlerista, atividades aparentemente inocentes. Porém, não tardou muito para que ela começasse a se interessar também por questões políticas. Acabou se tornando líder da Liga das Moças Alemãs, que era a ala feminina da Juventude Hitlerista. Melita estava, enfim, doutrinada. O Nazismo acabara de cooptar mais um componente para seu exército jovem e idealista, que defenderia o chamado “Terceiro Reich”.

Melita escreveu em suas memórias: “Minha família tinha planos conservadores para mim. Na boca de meus pais, as palavras ‘social’ e ‘socialismo’ tinham sempre um tom de desprezo. Mas eu acreditava nos nazistas quando eles propunham acabar com o desemprego e tirar 6 milhões de pessoas da pobreza. Eu acreditava neles quando diziam que iriam unificar a nação alemã, então dividida em mais de 40 partidos e superar as consequências ditadas no Tratado de Versalhes”.

Mesmo contra a vontade de seus pais “conservadores”, a jovem Melita Maschmann passou a se dedicar integralmente aos ideais nazistas. Em 1942, viajou para a Polônia, então ocupada pelo exército alemão, para fazer um trabalho voluntário. Com apenas vinte e três anos de vida, era a mais velha de um grupo de doze colegas. A vida na Polônia não era nada fácil, sem regalias e sem confortos, mas isso parecia só aumentar o espírito de aventura da empreitada. O trabalho de Melita não era dos mais “limpos”. Os nazistas expulsavam os judeus e eslavos de suas casas nos povoados poloneses, para encaminhá-los aos campos de extermínio. Em seus lugares, isto é, nas casas antes ocupadas pelos judeus e eslavos, colocavam descendentes de alemães. A função de Melita e de suas colegas era entrar nas casas desocupadas dos judeus e eslavos, limpá-las, rearranjar os móveis, queimar fotografias e objetos pessoais sem valor. Quando os novos moradores chegavam, Melita e suas colegas organizavam aulas de alemão e de teoria racial para os novos assentados. Até o fim da guerra, Melita Maschmann trabalhou incansavelmente em seu projeto de “mundo melhor”. Mesmo depois do suicídio de Hitler, da rendição alemã, do Tribunal de Nuremberg, Melita Maschmann demorou cerca de doze anos para se “desintoxicar” das ideias nazistas.

Apesar de todo avanço tecnológico, a arma mais poderosa usada pelo homem para dominar e manipular seus semelhantes continua sendo a palavra, ou seja, a doutrinação, ou, usando uma expressão mais popular, a “lavagem cerebral”. Muitas vezes, mesmo pessoas aparentemente inteligentes, bem formadas e informadas, estão sujeitas a serem doutrinadas e manipuladas por alguma corrente ideológica ou religiosa, sem que elas mesmo se apercebam disso.

As pessoas, muitas vezes encantadas e até inebriadas com o discurso de algum líder político, religioso ou filosófico, acabam sendo envolvidas por sua eloquência, por sua pregação, por seu palavreado bonito, envolvente, pela promessa de um mundo melhor ou coisas desse tipo. Geralmente, qualquer nova corrente religiosa, filosófica ou política tem por estratégia prometer um “mundo melhor” aos seus neófitos. A caminhada, a luta, a empreitada pode até envolver sacrifícios, mas o objetivo final sempre compensa: um mundo melhor, aqui ou no paraíso. Por mais altruísta que seja, todo ser humano pensa em si, na recompensa que virá, na Terra ou em “outro mundo”.

A doutrinação político-ideológica e/ou religiosa é um vírus que infesta o mundo há muitos séculos e tem ajudado a formar verdadeiros exércitos de “idiotas úteis”, de milhões de pessoas manipuladas, para as mais variadas finalidades, que, na maioria das vezes, não são nenhum pouco nobres. Como ocorreu no caso de Melita Maschmann, o Nazismo se apresentou a ela como algo bom, positivo, que resolveria os problemas da Alemanha, acabando com as injustiças sociais, com o desemprego, oferecendo a todos um “mundo melhor”. Atualmente, por exemplo, a mesma estratégia é muito utilizada por grupos de radicais islâmicos, que têm cooptado milhares de jovens europeus de famílias muçulmanas. O mais conhecido desses grupos é o terrível e sanguinário Estado Islâmico.

No Brasil, especificamente, o que mais preocupa são a doutrinação religiosa cristã e a doutrinação ideológica de “esquerda”, de orientação marxista-leninista. No entanto, tem crescido, também, nos últimos tempos, movimentos mais conservadores, rotulados de “direita”. Mas são movimentos muito fragmentados, de diversas nuances ideológicas, muitos deles ligados a correntes religiosas mais conservadoras.

A doutrinação religiosa cristã no Brasil tem como principal alvo as pessoas mais humildes, com formação escolar precária, por serem, obviamente, muito mais fáceis de serem doutrinadas e manipuladas. O instrumento utilizado pelos doutrinadores religiosos é a Bíblia, o livro sagrado do Cristianismo, que, com seus textos complexos, que dão margem a múltiplas interpretações, fornece todos os elementos necessários para a doutrinação de milhões de pessoas, que, obviamente, por terem pouca ou nenhuma formação escolar e intelectual, dificilmente questionarão os argumentos e os “ensinamentos” de seus doutrinadores.

Apesar de sua banalização entre as pessoas religiosas, o conteúdo das escrituras sagradas do Cristianismo não é para qualquer um, por ser de difícil entendimento e interpretação. É preciso saber que a Bíblia é uma coletânea de vários textos antigos, escritos por vários autores hebreus, anônimos, de diferentes gerações, ao longo de cerca mil e quinhentos anos, em hebraico, aramaico e grego koinê. Como foram escritos há muitos séculos, em idiomas antigos, por vários autores, de um povo que tinha uma cultura e uma visão de mundo totalmente diferente da nossa, isto é, de hoje em dia, os textos bíblicos têm que ser contextualizados com muito cuidado e, principalmente, à luz de conhecimento histórico e geográfico da época e dos lugares em que se passaram os fatos narrados. Além disso, segundo alguns especialistas, as traduções dos textos bíblicos para as línguas contemporâneas os empobrece um pouco, em comparação com suas versões nos idiomas originais, já que as línguas antigas tinham uma estrutura sintática e semântica diferente da grande maioria dos idiomas falados e escritos atualmente, com muitas variantes, que dificultam bastante a conversão de textos para os idiomas contemporâneos. Portanto, para tentar estudar e conhecer bem os textos bíblicos, é recomendável – mas não essencial - que o interessado conheça os idiomas em que eles foram escritos originalmente. Além disso, é preciso entender que os autores bíblicos estavam mais preocupados em transmitir ensinamentos de crença e fé do que em fidelidade histórica. Muitos dos casos narrados nos textos bíblicos não foram testemunhados pelos autores bíblicos, mas chegaram até eles por meio de seus ascendentes, através da literatura oral da época. Como os hebreus eram um povo que preservava as tradições de seus antepassados, as histórias eram transmitidas oralmente, de pai para filho, isto é, de uma geração para outra. Naquele tempo, ler e escrever era uma arte acessível a pouquíssimos, isto é, restrita quase que exclusivamente aos escribas (escrivães). Na maioria das vezes, nem os reis e a aristocracia sabiam ler e escrever. Era uma arte, na época, como acontecia, por exemplo,  com os computadores nos anos 60 e 70, que só podiam ser utilizados por pessoas iniciadas. Portanto, a maioria absoluta das pessoas daquele tempo não sabia ler nem escrever. Como essas histórias eram contadas e recontadas oralmente por gerações, é possível que elas tenham chegado aos autores bíblicos já distorcidas, com acréscimos, decréscimos, omissões e adições. No entanto, os cristãos acreditam que a Bíblia teria sido escrita “sob a inspiração divina” e, por isso, seria a “Palavra de Deus” aos homens. Mas essa é uma questão de fé, que tem que ser respeitada, mas que, dentro do contexto histórico e científico deste texto, não vamos aqui analisar.

Em suma, diante de tanta complexidade, podemos concluir que os textos bíblicos oferecem os ingredientes perfeitos para serem usados como instrumentos de doutrinação e manipulação.

Claro que a doutrinação religiosa, por si só, não constitui nenhum perigo para o indivíduo nem para a sociedade. Quando o objetivo é somente a divulgação da fé, ela pode até ser saudável. O grande perigo está nas intenções que estão por trás de um processo de doutrinação religiosa. Muitas vezes, o objetivo é garantir um poder de manipulação de um grande número de pessoas, que, doutrinadas, tornam-se perfeitos “idiotas úteis” para um líder religioso ou para uma instituição com objetivos não muito nobres.

A doutrinação ideológica, hoje em dia, em plena era da informação, talvez não tenha tanta chance de ser abrangente e bem-sucedida como ocorreu com o nazifascismo, na Europa, nos anos 20 e 30 do século passado, mas ela, obviamente, não deixou de existir. No Brasil, por exemplo, ela está presente, principalmente em escolas, universidades, movimentos sociais, sindicatos e entidades congêneres. Seu grau de periculosidade é relativo, dependendo, obviamente, do conteúdo e dos objetivos do processo de doutrinação. No Brasil e em toda a América Latina, a predominância é da doutrinação ideológica de esquerda (marxista-leninista). Curioso é que, com a queda do Muro de Berlim, em 1989, o fim da União Soviética e a derrocada do comunismo, no início dos anos 90, a chamada “esquerda” sofreu um baque, o que fez muita gente pensar que seria o fim da chamada utopia socialista/comunista. Não foi. Muitos partidos de esquerda se renovaram diante da nova ordem mundial que surgia, como, por exemplo, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho “partidão”, que abandonou velhos conceitos de esquerda, adotou uma nova concepção de socialismo, mais voltado para a social-democracia, mudando até de nome da agremiação, passando a se chamar Partido Popular Socialista, PPS. Contudo, outros segmentos da esquerda, apesar da nova realidade geopolítica mundial, mantiveram-se fiéis ao sonho de construir uma sociedade moldada rigorosamente no receituário marxista-leninista, alegando que o “verdadeiro socialismo” ainda não aconteceu e que as experiências vividas até o início dos anos 90, na União Soviética, na Europa Oriental, na China, Coreia do Norte, no Vietnan, Camboja, Albânia e Cuba, que se transformaram em regimes autoritários, estavam longe de ser o verdadeiro socialismo/comunismo.

A ditadura militar (1964-1985), com truculência, perseguições, torturas, mortes e censura, e a forte influência da “esquerda” na mídia e nos movimentos culturais nas últimas décadas enfraqueceram bastante os discursos da chamada “direita” no Brasil. O vínculo que se criou, um tanto errôneo e arbitrário, entre “ditadura militar” e a palavra “direita” fez com que se estabelecesse aqui uma impropriedade semântica: ser “de direita” no Brasil passou a ser um pecado, um crime. No entanto, com o tempo, isso foi mudando, e os movimentos mais conservadores, rotulados de “direita”, estão crescendo novamente no Brasil, principalmente, e surpreendentemente, entre os jovens. Aliás, a sociedade brasileira, em sua grande maioria, sempre foi e continua sendo bastante conservadora. Em razão disso, mesmo esses segmentos “de direita” não possuindo muito espaço na chamada “grande mídia”, eles exercem grande influência no modo de pensar da grande maioria do povo brasileiro. Uma das razões disso é que boa parte desses segmentos recebe forte influência religiosa, principalmente dos setores mais conservadores da Igreja Católica e de igrejas evangélicas. Não podemos nos esquecer de que nunca antes na história deste país tanta gente frequentou igrejas como agora. Os templos, principalmente os de denominações evangélicas, vivem lotados de fiéis. Esse aumento espantoso de religiosidade na população brasileira nos últimos anos fez com que houvesse, obviamente, um processo de reconservadorização da maior parte da sociedade brasileira. Curiosamente, há aí um processo de doutrinação religiosa que pode resvalar para a doutrinação também ideológica.

Para concluirmos nossas conjecturas, vamos tentar saber, então, quais seriam, afinal, os efeitos danosos da douinação ideológica e/ou religiosa. Isso depende de uma série de fatores relacionados à pessoa doutrinada, entre os quais sua formação cultural e religiosa, sua personalidade, suas condições emocionais, seus conceitos de vida, etc. Mas os efeitos podem variar da limitação do horizonte intelectual e cultural do doutrinado, passando pelo comprometimento de sua vida social, podendo chegar ao risco de transformá-lo em um completo fanático.

Uma pessoa com o horizonte intelectual limitado, decorrente de um processo de doutrinação intensa, a famosa “lavagem cerebral”, é aquela popularmente conhecida como “bitolada”, que tem uma compreensão ou uma visão do mundo, das coisas e da vida muito limitada. Parece que seu cérebro foi “reformatado”. Seu universo parece estar restrito àquilo que foi colocado em sua mente pelos seus doutrinadores. O que sair fora desses limites, a pessoa refuta, repele, desconsidera. No entanto, independentemente disso, ela pode até ter uma vida normal, possuir amigos e até uma vida social intensa. Há, no entanto, casos em que a pessoa passa a ter dificuldades de se relacionar com parentes e amigos. Ela se torna a “chata” ou o “chato” da turma, que todos começam a evitar, por não suportar mais suas ideias fixas de religião, ou de ideologia, ou de política. Como a pessoa julga-se descobridora da “Verdade”, achando que encontrou a “luz”, convence-se de que tem a obrigação de “salvar a humanidade”, de disseminar suas ideias “revolucionárias” ou “salvadoras”. Esse ou essa já está a um passo do fanatismo.

Somente uma formação intelectual e cultural sólida não é o bastante para proteger alguém de um processo de doutrinação. É preciso que a pessoa tenha, acima de tudo, um senso crítico apurado. Foi dito sempre aos fiéis das religiões do mundo: não questione. Creia. Eu, porém, lhes digo que não devem somente crer, mas questionar também. Pergunte, pesquise, duvide. Só a dúvida leva ao conhecimento. Não aceite uma ideia de pronto somente porque ela lhe parece bonita, bem-intencionada. Eu não diria que ninguém é dono da verdade. Mas, com certeza, ninguém, até hoje, conseguiu provar ser o dono da verdade. Então, não se deixe levar por oradores eloquentes, por discursos bonitos. Cuidado quando sentir aquela impressão de que “ele ou ela está dizendo justamente aquilo que eu precisava ouvir”. É justamente aí que pode estar a armadilha. Não se deixe enganar pelos falsos heróis, pelos falsos defensores dos pobres e oprimidos. Como diz a sabedoria popular, o inferno está repleto de bem-intencionados.

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* NARLOCH, Leandro, Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, São Paulo, Leya, 2013, pgs. 199 e 202.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Por que Israel e palestinos brigam tanto?




Por que Israel e palestinos brigam tanto? Por que tanta animosidade entre esses dois povos, que têm entre si fortes vínculos étnicos? Por que tantas guerras, tantas mortes, tanto sofrimento naquela região? Muita gente, mesmo na mídia e até no meio acadêmico, se mete a dar palpite sobre essa interminável disputa entre Israel e palestinos sem conhecimento de causa, sem saber realmente a verdadeira raiz do problema. Para saber e compreender bem os reais motivos desse ódio mútuo e inesgotável, precisamos voltar no tempo. Temos que recorrer à História. Diferentemente do que muita gente pensa, esse não é um problema tão antigo assim. Até o final do século XIX, árabes e judeus viviam em harmonia. Toda essa briga teve sua origem mesmo no finalzinho do século XIX. Mas para entender bem a questão, vamos recorrer à História, vamos voltar no tempo.

Segundo a tradição judaico-islâmico-cristã, tudo começou, cerca de 2.000 anos a.C., numa cidade do sul da Mesopotâmia, atual Iraque, chamada Ur, ou a Ur dos Caldeus, onde um homem, chamado Abraão teria recebido um chamado de Deus para que abandonasse seu povo e fosse, com sua família, para a “terra prometida” de Canaã, antigo nome pelo qual era conhecida a atual região ocupada hoje por Israel, Cisjordânia, parte ocidental da Jordânia e sul do Líbano. Abraão e sua família, obedecendo a Deus, teriam percorrido os desertos daquela região por muitos anos, em busca da tal terra prometida por Deus. O próprio Abraão teria morrido antes de alcançar Canaã, mas seus descendentes chegaram lá, entre eles, estavam seu filho Ismael, que seria ascendente dos povos árabes, e seu neto Jacó, filho de Isaque, que teria sido ascendente do povo hebreu.

Se Abraão existiu ou não, se árabes e judeus tiveram um ancestral em comum, como contam suas tradições religiosas, a História não pode confirmar seguramente. Mas a origem mesopotâmica desses povos, hoje, é quase certa, em razão de algumas semelhança culturais e linguísticas com os antigos mesopotâmios.

Deixemos de lado, agora, a origem de árabes e judeus e vamos nos ater a um fato ocorrido em Jerusalém, no ano 70 d.C., ou seja, cerca de trinta anos após o julgamento e crucificação de Jesus Cristo. Os romanos, que ainda dominavam aquela região e também eram pagãos, queriam construir na cidade de Jerusalém um templo dedicado a Júpiter. Para os hebreus, que eram monoteístas e intransigentes em matéria de religião, era um absurdo, uma heresia. A revolta foi grande. Mas a resposta dos romanos foi impiedosa. Em suma, os hebreus foram expulsos da Judeia, isto é, enxotados de sua própria terra. Começava. aí, a grande diáspora. Os judeus, expatriados, espalharam-se pelo mundo. O antigo estado judeu, a partir de então, deixou de existir.

Muitos séculos se passaram e, mesmo espalhados pelo mundo, vivendo em comunidades judaicas na Ásia Menor, no leste da Europa, no norte da África, na Península Ibérica, nos Países Baixo, nos Bálcãs e, depois, até na América, estigmatizados, perseguidos, humilhados, às vezes até expulsos de uma região ou outra, os judeus não perderam sua identidade cultural, religiosa e linguística.

Na segunda metade do século XIX, surgiu, na Europa, o movimento Sionista (em referência ao monte Sion, que fica nos arredores de Jerusalém), que defendia o direito a autodeterminação do povo judeu e a criação de um estado nacional judaico. Seu principal líder era Theodor Herzl (1860-1904), um jornalista judeu húngaro, autor do livro "Der Judenstaat" ("O estado judaico"), no qual pregava que o problema do antissemitismo só seria resolvido quando os judeus dispersos pelo mundo pudessem se reunir e se estabelecer em um estado nacional independente. Durante um congresso, em Basileia, na Suíça, em 1897, os judeus reunidos iniciaram oficialmente a luta para a criação de um estado próprio. O grande problema era em que região o estado judaico deveria ser fundado. Entre vários locais apontados, estavam Chipre, Argentina e o Congo. Para alguns sionistas, a justificativa da expulsão em 70 d.C., da diáspora, não justificaria a recriação de um estado judeu na Palestina, pois, muito antes da expulsão pelos romanos, a grande maioria do povo hebreu já havia se helenizado e migrado espontaneamente ou, mesmo, nem retornado para a Palestina depois do cativeiro da Babilônia. No entanto, por razões históricas e pelo forte apelo religioso, baseado na redenção do povo de Israel na “terra prometida”, o local escolhido foi mesmo a Palestina, de onde haviam sido expulsos cerca de mil e oitocentos anos antes.

Em razão disso, a partir do final do século XIX, principalmente por causa do antissemitismo, a migração de judeus da Europa para a Palestina se intensificou. No entanto, a Palestina, naquela época, já estava cultural e etnicamente arabizada, isto é, já era habitada por uma população de esmagadora maioria árabe, lá enraizada por uma longa e consistente migração e assimilação iniciada por volta do ano 350 d.C. e que perdurou e floresceu por mais de 400 anos, durante as dinastias árabes Omanida, Abássida e Fatímida. No entanto, isso não impediu a migração em massa de judeus da Europa para a região. Para se ter uma ideia desse fluxo, basta dizer que, entre 1890 e 1922, a população judaica na Palestina dobrou, de 40 mil para cerca de 85 mil. Já em 1909, foi criado na região o primeiro
kibutz, que é um tipo de colônia agrícola de inspiração socialista. Claro que os árabes palestinos começaram a não ver aquele verdadeira invasão de judeus com bons olhos. Por isso, já também em 1909, os judeus começavam a criar grupos armados para se defender da fúria dos árabes palestinos. Afinal de contas, depois de quase dois mil anos, eles queriam a Palestina de volta para si, mas os árabes ali instalados havia séculos também, obviamente, não estavam de acordo com essa invasão judaica.

Diante dessas dificuldades, para o estabelecimento de um estado judeu, o movimento sionista teria de fazer uma grande alteração para mudar o equilíbrio étnico e demográfico da região, mesmo porque o projeto de um estado judaico padrão deveria se basear nas utopias religiosas e culturais bem próprias, exclusivas e definidas com os costumes e o idioma do povo judeu que habitava o leste europeu, uma cultura totalmente estranha não só para a comunidade árabe local, mas também para os judeus que já viviam na região bem antes do sionismo.

Até o final da I Guerra Mundial, a Palestina fazia parte do Império Turco-Otomano. Com a dissolução desse império, o território passou para o domínio da Grã-Bretenha. Em 1917, o chanceler britânico Arthur Balfour declarou formalmente apoio ao estabelecimento de um estado judeu na Palestina, desde que respeitados os direitos das comunidades não judaicas da região (Declaração Balfour). Na época, o governo britânico prometeu aos árabes-palestinos a criação de um grande estado, que jamais chegou a existir. A Liga das Nações, entidade que correspondia à ONU de hoje, outorgou ao Reino Unido a administração da Palestina em 1920. A comunidade árabe da região sentiu-se traída pelos britânicos e ameaçados pelos judeus. As animosidades se intensificaram. Nos anos de 1929 e 1936, ocorrem violentos distúrbios entre árabes e judeus.


A perseguição aos judeus imposta pelo regime nazista de Adolf Hitler, a partir de 1933, intensificou a migração para a Palestina. Finda a II Guerra Mundial, o apoio internacional à criação de um estado judaico aumentou em virtude da revelação do massacre de seis milhões de judeus nos campos de extermínio nazistas, o holocausto. Os britânicos, então, delegaram à então recém-criada ONU (Organizações das Nações Unidas) a tarefa de solucionar os problemas daquela região. Sem consulta prévia aos árabes-palestinos, a ONU aprovou, em 1947, a divisão da Palestina em dois estados, um para os judeus, e outro para os árabes, que rejeitaram a decisão.

Apesar da revolta árabe, em 14 de maio de 1948, foi, então, criado o Estado de Israel, com David Ben-Gurion, como primeiro-ministro. Cinco países árabes enviaram tropas para tentar evitar a fundação do Estado hebreu. A guerra terminou em janeiro de 1949, com a vitória de Israel. Cerca de 700 mil palestinos se refugiaram na Cisjordânia, na Faixa de Gaza ou migraram para os países árabes. A maioria deles perdeu casas e propriedades. O Egito incorporou a Faixa de Gaza ao seu território; a Jordânia recebeu Jerusalém Oriental e a Cisjordânia. O estado árabe-palestino, previsto pela ONU, acabou não sendo criado, enquanto Israel passou a controlar 75% do território da Palestina. Os árabes-palestinos, então, ficam sem território,

Com apoio estrangeiro e remessa privada de dinheiro, a economia de Israel floresceu rapidamente. Com o apoio dos Estados Unidos, os israelenses se tornaram militarmente fortes. Com isso, ao longo dos anos, Israel tem conseguido sobreviver cercados de inimigos, aos quais tem conseguido vencer nos campos de batalha. Em 1967, diante da aliança militar entre Egito, Síria e Jordânia, com apoio da União Soviética, Israel, fortemente armado pelos Estados Unidos, teve a ousadia de atacar os três países ao mesmo tempo, em 05 de junho. O episódio, conhecido como “Guerra dos Seis Dias”, terminou no dia 10 de junho, com a vitória de Israel, que conquistou o Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, as Colinas de Golã (na Síria), e a zona oriental de Jerusalém. Mesmo com uma resolução da ONU na época, determinando a devolução das áreas ocupadas, Israel exigiu que os países árabes reconhecessem sua existência como nação.

De lá para cá, o cotidiano dos povos daquela regiao é de permanente hostilidade mútua. Durante as Olimpíadas de 1972, em Munique, na então Alemanha Ocidental, onze atletas israelenses foram mortos pelo grupo “Setembro Negro”, ligado à OLP (Organizaão para a Libertação da Palestina). Em 1973, na chamada Guerra do Yom Kippur, o “Dia do Perdão” (feriado religioso judeu), a Síria e o Egito, de surpresa, atacaram Israel pelo Sinai e pelas colinas de Golã. Depois de 48 horas de lutas, Israel inverteu a vantagem dos árabes e os derrotou. Nesse ano, os árabes fizeram do petróleo uma arma de guerra: boicotaram seu fornecimento aos países que apoiavam Israel, aumentando o preço do produto e causando a primeira grande crise do petróleo no mundo. Em 1974, o Fatah, facção dominante na OLP, passou a defender a criação de um Estado binacional na Palestina, quando facções palestinas mais radicais romperam com a OLP. Em 1978, por ocasião da assinatura do acordo de Camp David, mediado pelos Estados Unidos, Israel devolveu o Sinai ao Egito. Em 1982, Israel invadiu o Líbano para expulsar a OLP de lá. O exército israelense chegou a Beirute, onde permitiu o massacre de refugiados palestinos nos campos de Sabra e Shatila por milícias cristãs aliadas. Em 1987, eclodiu a primeira Intifada (revolta) contra Israel em Gaza e na Cisjordânia. Em 1988, uma declaração de independência palestina, feita pela OLP, reconheceu indiretamente o Estado de Israel, de acordo com as fronteiras anteriores a 1967. No mesmo ano, surgiu o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), que prega até hoje a destruição de Israel.

Por pressão dos Estados Unidos, Israel iniciou, em 1991, as primeiras negociações diretas com representantes palestinos, na Conferência de Madri (Espanha). Em 1993, Israel e OLP firmam o Acordos de Oslo, que previa um estágio interino de autonomia palestina em Gaza e na Cisjordânia até a conclusão de negociações para a criação de um estado palestino na região. Foi criada, então, a Autoridade Nacional Palestina (ANP), sob comando de Yasser Arafat, que em 1994 voltou do exílio na Tunísia. Em 1996, Arafat foi eleito presidente da ANP. Dessa forma, áreas de Gaza e da Cisjordânia passaram ao controle palestino, mas Israel manteve a colonização da Cisjordânia. Em 1994, o Hamas promoveu seu primeiro atentado terrorista, após a morte de 29 palestinos por grupo extremista judaico em Hebron. Em 1995, o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista judeu. Em 1996, o direitista Binyamin Netanyahu foi eleito primeiro-ministro de Israel. Em 1999, ele foi sucedido pelo trabalhista Ehud Barak. Em julho de 2000, no último ano de seu mandato, o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, reuniu o primeiro-ministro de Israel Ehud Barak e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, em Camp David (EUA) para cúpula destinada a pôr fim à questão. A cúpula fracassou, apesar de Israel julgar ter apresentado sua melhor proposta. Barak oferecia aos palestinos 95% de Gaza e da Cisjordânia (equivalente a menos de 22% da Palestina histórica) e capital em parte da Jerusalém árabe, mas não soberania sobre Esplanada das Mesquitas. Também não houve acordo sobre retorno dos refugiados.

Em setembro de 2000, Ariel Sharon, líder do partido de direita israelense Likud, em campanha para eleitoral, foi à Esplanada das Mesquitas. Começou, então a Segunda Intifada. Atentados terroristas, ataques israelenses e confrontos deixaram cerca de 5.000 palestinos e 1.000 israelenses mortos em quatro anos. Sharon, eleito primeiro-ministro em 2001, fundou o partido Kadima, que prometia abrir mão da "Grande Israel". Em 2002, ele começou construção do muro entre Israel e Cisjordânia. Esse muro reduziu a quase zero os atentados em Israel, mas anexou grandes porções do território palestino. Em 2004, Yasser Arafat morreu e foi substituído na Presidência da ANP por Mahmoud Abbas, do Fatah, eleito em 2005. Naquele mesmo ano, Israel retirou soldados e 8.000 colonos de Gaza, mas manteve controle sobre fronteiras marítimas e terrestres do território. Na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental foram mantidos 400 mil colonos. O primeiro-ministro Ariel Sharon entrou em coma em 2006 e foi substituído por Ehud Olmert. Em 2006, o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas de janeiro de 2006. Seu gabinete foi boicotado por Israel e pelo Ocidente, que classificaram o grupo como terrorista. Em 2007, combates entre Hamas e Fatah levaram à expulsão do Fatah de Gaza. A ANP nomeou, então, novo gabinete, que só teve voz em parte da Cisjordânia. Israel iniciou, em razão disso, um cerco econômico a Gaza. O Hamas começa a usar túneis na fronteira com o Egito para contrabandear alimentos, combustível e armas. O grupo e facções ultrarradicais, como Jihad Islâmica, aumentaram os ataques com foguetes contra Israel. Uma trégua, mediada pelo Egito, entre Israel e Hamas vigorou entre junho e dezembro de 2008. Nenhum dos dois lados cumpriu estritamente o acordo. Deu no que deu. Desde 27 de dezembro do ano passado, Israel, respondendo aos ataques com foguetes do Hamas, vem atacando violentamente a Faixa de Gaza, provocando, até agora, mais de mil palestinos mortos, entre os quais, muitas crianças.

O permanente clima de hostilidades entre judeus e palestinos parece não ter solução. O radicalismo de ambos os lados e o fanatismo religioso não permitem que haja bom senso, que haja concessões. É um problema, pelo menos a curto e a médio prazo, sem uma solução definitiva. Mesmo que se transforme a Faixa de Gaza e a Cisjordânia em um estado nacional palestino, as hostilidades vão continuar, infelizmente.


Novo blog

Estou iniciando, aqui, meu novo blog, um novo espaço onde vou expor minhas ideias e inserir também, quando puder, informações que considero interessantes. Claro que vou continuar usando meu perfil no Facebook para expor minhas opiniões e, também, quando for possível, inserir informações que achei interessante. Então por que um blog?

O Facebok é uma rede social. Ali, a gente procura postar textos curtos, porque a grande maioria dos usuários de redes sociais, em especial o Facebook, que é, hoje, o mais popular, não tem paciência para ler textos longos. Além disso, as postagens em redes sociais estão sujeitas a todo tipo de interferências e até censuras. Por isso, não abro mão do blog, que é um espaço meu, onde posso postar o que eu quero, do jeito que eu quero, onde posso dizer o que penso, sem medo de ser bloqueado.

Este blog vai ser destinado aos meus textos mais elaborados, resultado de uma pesquisa mais bem-feita sobre determinados assuntos.

Além de textos novos, vou transportar para este novo blog alguns textos antigos meus, em especial os que falam sobre Pereira Barreto, curiosidades históricas de nossa cidade e a história dos meios de comunicação, em especial sobre o rádio local.

Todo texto novo terá um link a partir do Facebook. Espero que gostem.


SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO?

SE O CAPITALISMO NÃO EXISTISSE, COMO SERIA O MUNDO? Essa é uma excelente pergunta — e ela é mais profunda do que parece à primeira vi...