domingo, 21 de janeiro de 2018

O CRENTE E O CÉTICO


Em um bar, daqueles de esquina, que não têm nada de diferente, nada de interessante, é apenas um bar normal, aonde as pessoas vão, no final da tarde, depois do trabalho, para conversar, beber cerveja, descontrair, sentados a uma das mesas dois sujeitos conversam animadamente. Frederico, o ateu, o incrédulo, o cético, e Agostinho, o crente, o homem de fé.
— Então, você vai se aposentar no final do mês, hein? — pergunta Frederico a Agostinho.
— Sim — afirma Agostinho — Se Deus quiser, estarei aposentado no final do mês.
— E se Deus não quiser? — provoca Frederico.
— Se Ele não quiser, não me aposento, oras. Ele é quem manda.
Depois de uma longa gargalhada, Frederico diz:
— Agostinho, você deve se sentir bem seguro achando que tem um ser superior que o protege, o guia, o orienta e tal. Isso é bom, mas também não é. Afinal de contas, esse ser protetor, na realidade, não existe. É apenas uma crença sua...
— Tudo bem, Frederico! Tudo bem! — reage Agostinho. Se você não tem fé, tudo bem. Respeito seu ponto de vista. Mas peço a você que respeite o meu também.
— Eu respeito — diz Frederico. Não quis ofendê-lo. Mas tenho que lhe confessar que não vejo nenhum sentido em crer em um ser supremo. Tudo isso é criação de povos primitivos, como os hebreus, por exemplo. Ponha uma coisa definitivamente em sua cabeça, Agostinho: Deus não existe, a não ser na imaginação de quem acredita nele.
— E a Bíblia? E o testemunho do povo hebreu? E Jesus Cristo? — questiona Agostinho.
— Histórias, Agostinho. Histórias. Todos os povos antigos têm suas histórias, suas lendas, suas crenças, seus heróis, seus mitos. Mas, no final das contas, tudo não passa de literatura e crendice, O que é a bíblia, Agostinho?
— A Bíblia é a palavra de Deus — afirma Agostinho —, escrita por homens, sim, mas sob inspiração divina.
— Isso é o que disseram para você, Agostinho — reage Frederico. A Bíblia é, na verdade, uma coletânea de textos muito antigos, cujos autores são desconhecidos. Tudo bem que tem um valor histórico e literário inquestionável. Afinal é o testemunho, a manifestação e a tradição cultural e religiosa de um povo, que criou a primeira religião monoteísta da História. Mas o que há ali são narrativas, histórias, lendas e a tradição religiosa de um determinado povo. Mas é só isso, Agostinho. O mais é pura mistificação — conclui Frederico.
— Tudo bem, meu amigo Frederico! Se você não acredita em um ser supremo, me responda de onde veio tudo isto que está à nossa volta? O próprio planeta Terra, onde vivemos, é um exemplo. Veja a natureza, os animais, as plantas, a complexidade da vida. Além disso, eu já li que nosso planeta tinha que ser exatamente do tamanho que é, com a posição e as velocidades de rotação e translação precisas para garantir que as estações do ano e a proporção de água e terra estejam em equilíbrio para garantir a vida. Uma interferência ou mudança, mínima que seja, pode acabar totalmente com a vida na Terra. Isso é Deus, meu amigo. Só pode haver uma inteligência superior envolvida nisso. Não é só obra do acaso   — afirma Agostinho.
— Mas é obra do acaso, meu amigo, por mais absurdo que isso lhe possa parecer — reage Frederico. Está certo que tudo é muito perfeito e tal, mas isso é coisa da natureza, meu irmão. As coisas foram se criando e se ajeitando, se moldando, aos poucos, naturalmente, até que a vida finalmente foi possível. De um organismo unicelular, começaram a surgir formas de vidas mais complexas e assim por diante. Tudo é, sim, obra do acaso — diz Frederico.
— Sua visão do mundo e da vida é muito simplista, muito limitada. Creio que a vida não se limite a isto aqui à nossa volta, meu amigo. Há, sim, um princípio criador de tudo isso. Os povos antigos podiam não ter os conhecimentos que temos hoje, mas eram sábios e já acreditavam em um ser superior e que esse ser superior, essa inteligência suprema, tenha um plano para todos nós. Até os dias de hoje, não se conhece nenhum povo, nenhuma cultura que não tivesse uma forma de manifestação religiosa e espiritual. E olha que não faltaram tentativas de se criar uma sociedade materialista no mundo. O marxismo foi uma delas. Sem sucesso.
— Agostinho, a crença em Deus é ilógica — ataca Frederico. 
— Como ilógica, Frederico? — reage Agostinho.
— Se Deus é onipresente e onisciente, ele sabe tudo, o passado, o presente e o futuro. Sendo ele, também, onipotente, pode mudar tudo, mas não o faz. Por quê?
— Sei lá — afirma Agostinho. São os desígnios de Deus! Quem somos nós, humanos, para entender?
— Oh! Os “desígnios de Deus”! E “quem somos nós para entendê-los?”. Me poupe disso, Agostinho. O segredo é aumentar os “mistérios” então? — ironiza Frederico.
— Há uma lei natural no universo, Frederico, de causa e efeito. Para que haja um efeito, há que se ter uma causa. Se há o universo e tudo mais, que é um efeito, qual seria a causa? Obviamente é Deus, o criador, o precursor de tudo isso.
— Esse é um argumento muito genérico. Nesse seu raciocínio de causa e efeito, o Deus aí poderia ter inúmeras concepções e formas. Até faz certo sentido. Mas o deus que as religiões vendem apresenta um problema sério, Agostinho.
— Que “problema”, Frederico?
— É humano demais. Já percebeu isso? O deus, pelo menos os que as religiões e a própria Bíblia vendem é à imagem e semelhança do homem, Agostinho. Ele tem fraquezas humanas: é ciumento, revanchista, mesquinho e às vezes até cruel. Ele dita a Moisés o mandamento “Não matarás”, mas, ao longo de diversos trechos do Velho Testamento, ele mesmo mata um monte de gente, só porque o desagradaram. Ele provoca uma inundação que aniquila praticamente toda humanidade, só poupando Noé e sua família, destrói duas cidades, mata soldados egípcios. Que espécie de deus raivoso é esse? Ele não é o misericordioso? Ele é incoerente e bipolar. Além disso, esse seu deus é chantagista: ou você crê nele e faz o que ele manda ou cumprirá pena perpétua no inferno. É um deus canalha, opressor, Agostinho.
— Essa sua visão, meu caro Frederico, demonstra sua pouca intimidade com as coisas de Deus e com Sua palavra. Deus é amoroso, meu amigo, mas também é severo com seus filhos. Esse Deus criador e amoroso é apenas uma parte dEle que nos é mostrada na Bíblia. Deus também é atitude contra todos aqueles que se opõem a Ele. Quando analisamos o que dizem os textos do Antigo Testamento, temos que levar em conta que Deus, que havia escolhido os hebreus para transmitir ao mundo sua mensagem, sabia que estava lidando com um povo “de dura cerviz”, como diz o próprio texto sagrado, isto é, insubordinado, rebelde. Por isso, Deus age como um “pedagogo”, como pai em relação ao povo hebreu, para lapidá-lo espiritualmente — conclui Agostinho.
— Belo discurso, Agostinho. Quase me convenceu. Mas me diga uma coisa: como pode haver um deus e tantas religiões diferentes por aí?
— Meu caro Frederico, não sei dizer em relação a outras religiões. Diz a sabedoria popular que, apesar de haver tantas religiões, tantas crenças, Deus é um só. Também acredito nisso, mas sou cristão. Para mim, apesar de crer no Deus de Israel, em Jeová, do Antigo Testamento, o ponto principal da revelação divina para mim está na figura de Jesus Cristo. Creio que ele foi, sim, o Messias, o Salvador do qual os profetas falam no Antigo Testamento. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo são fatos históricos. Seu lado divino o diferencia de qualquer outro líder de outra religião. Então, meu caro Frederico, para mim, as evidências providenciais de Deus e Jesus Cristo são suficientes para justificar um total comprometimento de minha parte com a fé cristã. Crer em Deus e em Jesus Cristo significa vida, para mim, e vida plena, vida eterna.
— Jesus, para mim, Agostinho, é uma figura historicamente obscura. Pouco ou quase nada se sabe sobre ele. As narrativas dos evangelhos, tanto os tais canônicos como os apócrifos, são contraditórias. É difícil saber o que há de verdade em tudo aquilo que é contado sobre ele. As narrativas dos quatro evangelhos canônicos sobre a vida de Jesus, seu nascimento, o pouco que se fala sobre sua infância, sua curta vida de três anos como pregador, seu julgamento, sua crucificação e tal, para mim, improvável “ressurreição” têm pontos que não batem com a realidade histórica da época, segundo alguns pesquisadores — diz Frederico.
— E o que é que não bate, Frederico — pergunta Agostinho. Os evangelhos contam a vida e o ministério de Jesus, mas é óbvio que há eventuais contradições entre um e outro. Os quatro evangelhos foram escritos em épocas diferentes, mais de quarenta anos após a morte de Cristo.
— Em relação ao nascimento de Cristo, por exemplo, Lucas narra que José e Maria viviam em Nazaré, mas tiveram de deixar a pequena aldeia para responder a um censo que fora determinado pelo imperador romano Augusto e que todo o mundo tinha de se registrar no local onde havia nascido. Como José era descendente da família do Rei David, saiu para Belém com a mulher grávida para se registrar. No entanto, segundo os historiadores, no tempo do imperador Augusto não havia censos na região da Palestina, e, mesmo que houvesse, nunca pediam para que as pessoas fossem para a cidade onde nasceram. Se alguém estivesse fora da região onde nasceu, tinha que fazer o seu cadastro onde estava vivendo.
— Miqueias profetizou que o messias nasceria em Belém, terra do Rei David — esclarece Agostinho.
— Pois é! Se Jesus realmente nasceu em Nazaré, e não em Belém, como profetizara Miqueias, os evangelistas deram um jeito de fazer uma adaptação, para tentar convencer os judeus de que Jesus era o messias esperado. Mas parece que a “adaptação” não deu certo, e os judeus continuam esperando o tal messias até hoje.
Nisso, Frederico interrompe seu discurso e pede mais uma cerveja ao garçom. Depois, volta-se novamente para Agostinho e continua:
— Agostinho, há dúvidas também quanto à narrativa do julgamento de Cristo. Muitos historiadores acham possível que Jesus realmente tenha sido crucificado, mas duvidam que tenha havido, realmente uma Via Crúcis e um julgamento na forma como narrada pelos evangelistas. Jesus foi, como narram os evangelhos, preso em Jerusalém, em uma  sexta-feira que antecedia a Páscoa. Ocorre que, nessa época do ano, Jerusalém estava lotada de judeus vindos de outras regiões para as festividades. A Páscoa judaica não era somente uma festa religiosa, mas também política. Os romanos, nesse ambiente, dificilmente iriam prender um judeu, fazer um julgamento público dele e colocá-lo para desfilar de forma humilhante pelas ruas da cidade, arrastando uma cruz. Isso seria uma provocação desnecessária e perigosa. É quase certo, para os historiadores que nada disso aconteceu — conclui Frederico.
—Todas essas considerações e questionamentos históricos sobre Jesus e o cristianismo não abalam minha fé, Frederico. E fé não é sinônimo de ingenuidade, meu amigo. Claro que tudo pode ter sido diferente do que está escrito. Coisas do homem. Mas imagine alguém, naqueles tempos idos, no meio de povos rudes, para os quais valia a lei do mais forte, o olho por olho e dente por dente, a lex talionis (lei de talião), aparece alguém que prega o arrependimento, o perdão — e não a vingança — ao inimigo, a justiça e, principalmente, o amor. Independentemente de tudo o que você disse até agora, meu caro Frederico, amparado em vasto conhecimento de História que sei que você tem, eu considero o Cristianismo uma doutrina avançada até para os dias de hoje, imagine para a época em que ela surgiu, há dois milênios. Os ensinamentos cristãos bateram de frente com uma sociedade primitiva, brutal e opressora, na qual valia a vingança e não o perdão; a guerra, e não a paz. Mas, à medida que o cristianismo foi crescendo e ganhando cada vez mais e mais adeptos, ao longo dos séculos, o senso moral do homem ocidental foi mudando, os valores pregados pelos ensinamentos de Cristo, independentemente da questão religiosa, foram lapidando o homem do Ocidente.
Frederico ouve o belo discurso pró-cristianismo do amigo, mas não se dá por vencido.
— Tudo bem, Agostinho, que muitas ideias atribuídas a Jesus tenham contribuído para melhorar moralmente o homem ocidental. Mas Jesus, pelo menos para mim, é um mito. Com certeza, houve um Jesus real, um ser humano, um típico homem pobre da Palestina de dois milênios atrás, que, embora obscuro, quase um desconhecido, provavelmente de aparência física característica dos habitantes daquela região, naquele tempo. E houve e há, até hoje, na Bíblia, nas igrejas e na mente de todos os adeptos do cristianismo, um Jesus ideal, de cabelos longos, pele clara e olhos azuis, de fala mansa, meio humano, meio divino.
— Não creio, caro Frederico. Se Jesus fosse apenas um mito, como diz você, não teria alterado tanto a História. O cristianismo influenciou tanto o mundo, que muitos países usaram seus ensinamentos como base para seus governos. Foi o cristianismo e suas transformações no senso moral do homem ocidental que possibilitaram a democracia moderna. Escolas, hospitais, organizações humanitárias e grandes universidades surgiram por causa das ideias cristãs. Como é que um mito iria causar tantas transformações no mundo, prezado Frederico? Pense bem — insiste Agostinho.
— Agostinho, uma mentira contada muitas e muitas vezes, por tantas pessoas, acaba sendo aceita como verdade, mesmo sendo mentira. A figura de Jesus Cristo, como a conhecemos hoje, como a vendida pelas igrejas cristãs, é um produto da aristocracia romana do século IV. As religiões são sempre criadas pelas classes dominantes, para controlar o povo e impor às pessoas conceitos de submissão e obediência a um deus ou coisa assim. O mito de Jesus Cristo, desde sua origem na Judeia, havia crescido bastante em praticamente todo o Império Romano e fora dele. O imperador Constantino percebeu que aliar-se aos cristãos era muito melhor que persegui-los. E, por isso, decidiu converter-se ao cristianismo e torná-la a religião oficial do Império Romano. Mas havia um problema: o cristianismo primitivo era dividido em muitos segmentos. Havia uma ampla e diversificada literatura oral e escrita sobre Jesus Cristo, ou seja, havia vários cristianismos diferentes. Cabia ao Imperador e ao Papa escolher que versão do cristianismo adotar nessa nova fase. Por isso, foi convocado, então, o tal Primeiro Concílio de Niceia, em 325, em Niceia (atual İznik), na Turquia. Foi justamente nessa época que for organizada a Bíblia, escolhido os quatro evangelhos, entre os muitos que havia. A gente só não sabe dizer quais critérios foram usados pelos bispos e pelo Papa para a escolha dos livros que comporiam o Novo Testamento — finalizou Frederico.
— Com certeza, Deus inspirou os homens da Igreja a escolherem aqueles que realmente traduziam a real vontade de Deus... — disse Agostinho.
—E Papai Noel e a Cegonha se encarregaram da entrega dos primeiros exemplares — interrompeu ironicamente Frederico. Me poupe de seus delírios teológicos Agostinho...
E assim continuaram Agostinho, o crente, e Frederico, o cético, a discutir por horas. Parece que os argumentos pró e contra a existência de Deus são inesgotáveis. A dúvida persiste. Podemos, sim, citar mil motivos para crer em Deus e outros mil para não crer nEle.
Em seu livro FILOSOFIA PARA OS FORTES – PENSE COM A PRÓPRIA CABEÇA (1. ed., São Paulo, Planeta, 2016), o filósofo Luiz Felipe Pondé afirma que uma das perguntas que ele julga mais inúteis na filosofia é se Deus existe. Pondé fala na “Aposta Pascalina”. Para o francês Blaise Pascal (1623—1662), que, além de matemático, físico, inventor e filósofo, era um teólogo católico, portanto um crente em Deus, a vida é uma questão de aposta, e não de segurança absoluta. Para ele, o descrente, era um sujeito sem informação e pouco racional, pois, se não o fosse, saberia que o mais racional e útil seria apostar na existência de Deus, pois, se você apostar na inexistência de Deus, você, obviamente, viveria sua vida terrestre sem levar em conta a vontade Dele, Aí, quando você morresse, encontrá-lo-ia do outro lado cobrando tudo de errado (contra a vontade dEle) que você fez aqui na Terra. Dessa forma, como você teria se negado a “investir” ou “apostar” na existência de Deus, o que lhe custaria uma eternidade de sofrimento do outro lado. Mas, se você apostasse na existência de Deus e tocasse sua vida aqui na Terra levando em conta a vontade dEle, mas ele não existisse, sua perda seria zero, pois você morreria, sua alma deixaria de existis e você não tomaria consciência de que fez uma aposta errada. Mas, se você apostasse na existência de Deus, e Ele existisse realmente, você seria recompensado com uma eternidade feliz.
Mas tudo isso é bobagem, porque o próprio Pondé conclui que crer ou não crer em deus não é uma questão de probabilidade matemática. Para Pondé, a crença ou a descrença em Deus é mais fruto de causas extrarracionais, como educação, traumas infantis, ambiente familiar, etc. Crer ou não crer em Deus, para Pondé, não é como escolher a marca de um sabonete ou de um carro. Para ele, argumentos que tentam provar a existência de Deus ou Sua inexistência são inúteis. No entanto, Pondé considera a ideia de que se tentar provar a existência de Deus com a afirmação de que o universo “necessita” de um princípio ordenador de tudo é infantil. Para ele, ateu convicto, tudo isto aqui pode ser, sim, fruto do acaso num espaço de tempo inimaginável, no qual os elementos se arrumam e desarrumam, e no meio deles nós surgimos e desaparecemos.
No final do capítulo em que fala sobre a existência ou não de Deus, Pondé faz um questionamento interessante: segundo ele, qualquer um de nós, humanos, no lugar de Deus já teria se matado, pois ninguém suportaria a eternidade e tantos conhecimentos acumulados (conhecimento de tudo o que existe). Mesmo assim, ao crer em Deus, no sobrenatural, o homem busca a eternidade, uma coisa que o faria enlouquecer. Diante disso, dessa incoerência, Pondé finaliza perguntando se o homem é realmente racional. 

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

MEU DIÁLOGO COM DEUS

Àqueles que quiserem questionar o conteúdo deste texto ou criar algum tipo de polêmica teológica sobre ele, informo que se trata apenas de um trabalho de ficção, pura literatura, elaborado, sem maiores pretensões, aos poucos, durante algumas madrugadas insones e tardes preguiçosas, quando a imaginação e a criatividade fervilham. Portanto, não me venham como mimimis e blablablás teológicos e coisas desse tipo.

Certa noite, já estava em meu quarto, deitado, esperando o sono chegar, quando comecei a pensar na vida, me questionar sobre as coisas da fé, da religião, enfim, sobre Deus. Acabei adormecendo e sonhei que fui procurar a Deus para conversar com Ele e, assim, dirimir minhas dúvidas. Esperava que surgisse diante de mim um senhor idoso, com longas barbas brancas, com ar solene, de infinita sapiência, rodeado de anjos tocando trombetas e tal. Qual não foi minha surpresa, no entanto, quando me aparece, sozinho, um homem jovem ainda, aparentando ter entre os 25 e 30 anos, trajando uma calça jeans surrada, camiseta branca, calçando tênis. Era simpático, sorridente, educado, carismático e de uma simplicidade impressionante. Cumprimentou-me normalmente, dando-me a mão, como se fosse uma pessoa qualquer, sem grandes formalidades, deixando-me totalmente à vontade.
— O Senhor é...
— Sim, sou aquela que é — disse-me Ele.
— O Senhor sabe que não tenho religião, disse eu.
— E isso é importante para você? — respondeu-me Ele, sorrindo.
— É importante para o Senhor?
— Se não for importante para você, não é importante para mim também.
— Não, para mim não é importante.
— Então, deixemos de lado as religiões — disse-me, sentando-se e sinalizando-me para que também ficasse à vontade e me sentasse. Aí me disse:
— Dirimamos então suas dúvidas. Esteja à vontade.
— Disse-me para deixar de lado as religiões. Mas quero começar justamente por elas. Geralmente, as igrejas cobram dízimo de seus fiéis...
— Eu também cobro — interrompeu-me Ele sorrindo.
— O quê?!
— Eu disse que também cobro dízimo — esclareceu Ele, sorrindo.
— Nossa! O Senhor também cobra dízimo. São dez por cento?
— Não. Cobro cem por cento. Na verdade, eu cobro “centízimo” — disse ele rindo.
— Cem por cento do que eu ganho!?
— Não. Cobro cem por cento, mas não do que você ganha, e sim cem por cento da sua fé. É muito? — perguntou-me Ele.
— Acho que é um valor justo — respondi Lhe sorrindo.
Ele me olhou e disse:
— E além do “centízimo”, as pessoas também podem me ajudar fazendo sempre algumas “ofertas”.
— Sim! E como as pessoas podem fazer isso? Qual o valor? Como Lhe fariam o pagamento dessas “ofertas”?
— Ajudando as pessoas em necessidade, como os pobres, os desvalidos, os doentes, as crianças, os idosos, auxiliando uma entidade na qual confie. Em muitos casos, não precisa nem ajuda financeira ou material. Basta um sorriso, um abraço, um olhar de atenção, um apoio a alguém que precise, um amigo, um parente ou até um desconhecido. Há muitas formas de me dar essas “ofertas”. As pessoas, é claro, não são obrigadas a dá-las. Fica por conta da consciência delas. Mas, se derem, não vão estar ajudando somente a outras pessoas e a mim, mas também, e principalmente, a si próprias. Dependendo da pessoa, mesmo que ela não me “pague o centízimo”, nem que não creia “um por cento” sequer em mim, ela me dando as “ofertas”, já fico feliz.
Quando Lhe perguntei se devia honrá-Lo, louvá-Lo, glorificá-Lo, Ele deu uma deliciosa gargalhada, me deu um abraço fraternal e disse, sorrindo:
— Pois é! De acordo com algumas igrejas e livros religiosos, eu sou “o único realmente digno de louvor, honras e glórias”, mas, na verdade, isso faz parte de estratégias de doutrinação dessas religiões. Entre vocês, humanos, quem é que gosta de honras, louvores e glórias?
— Acho que as pessoas importantes, não é isso? — respondi, já ansioso pela resposta dEle.
— Não! Entre os humanos, quem gosta de honras, louvores e glórias são as pessoas que se julgam importantes, os vaidosos, em suma, os pobres de espírito, enfim, os idiotas. Você me acha um idiota? — perguntou-me jocosamente Ele, dando mais uma vez aquela gostosa gargalhada divina.
— Não, claro que não — respondi-Lhe, um tanto constrangido.
— Pode ser sincero — disse-me Ele rindo bastante e me abraçando — Juro-lhe por mim mesmo que não o castigarei por isso. Como dizem algumas religiões, minha misericórdia é infinita. Pode falar mal de mim à vontade, que eu o perdoarei sempre — disse-me ele rindo e me abraçando novamente.
— Então, essa história de louvor e tal...
— Esqueça. Deixe isso para o pessoal lá das igrejas, dos templos. Se isso os faz se sentirem bem e se fortalece a fé deles, que me honrem, que me louvem, que me glorifiquem à vontade. Mas não é necessário.
— Senhor, e sobre moral, costumes, enfim, sobre nossa conduta? Os livros sagrados são tão cheios de regras, de dogmas, de conceitos, de mandamentos. Que manual de conduta realmente devo seguir?
— O de sua consciência. Esse é o manual que deve seguir.
— E os mandamentos, os dogmas, os conceitos morais?
— Na verdade, essas coisas fazem parte mais da cultura dos povos que deram origem às religiões do que às “minhas vontades”. Cada povo tem seus costumes, suas tradições. Essas coisas se misturam um pouco com as crenças e passam a fazer parte das manifestações religiosas desses povos, que acabam, inclusive, sendo transmitidas também a outros povos que adotam essa mesma religião. Se bem que muitos dos que escreveram esses textos considerados sagrados, como os da Bíblia, por exemplo, foram, no seu tempo, pessoas sábias e boas e deixaram um legado de bons ensinamentos, inspirados pela cultura e pelas crenças dos povos aos quais pertenciam. Mas seu principal manual de conduta deve ser, primeiro, sua consciência, não se esquecendo de que você tem livre arbítrio e, dessa forma, tudo lhe é permitido, cabendo a você decidir o que lhe convém, não se esquecendo, ainda, de que tudo o que fizer poderá provocar consequências, boas ou ruins.
— Por falar na Bíblia, livro sagrado do Cristianismo, dizem que os seus textos foram todos escritos sob inspiração divina, ou seja, sob Sua inspiração...
— Pois é, mas sabe que até hoje não me pagaram pelos direitos autorais da minha “inspiração”? — disse Ele, rindo muito — Mas eles têm de dizer isso mesmo, obviamente, para dar autenticidade, credibilidade e autoridade aos textos bíblicos. Na verdade, toda obra de arte e de literatura que transmita beleza e ensinamentos bons, incitem o amor ao próximo, a caridade e a justiça recebem inspiração divina, ou seja, têm um dedinho meu nelas, seja um quadro, uma poesia, um livro e até textos religiosos, como os da Bíblia.
— Senhor, falemos do pecado. Dizem as religiões e os livros sagrados que o pecado é tudo aquilo que não Lhe agrada.
— Na verdade, pecado é toda aquela atitude, consciente, que o prejudica e/ou prejudica outrem; é tudo aquilo que faz mal a você e/ou a outra pessoa, mas você pratica mesmo sabendo disso. Claro que atitudes prejudiciais a você mesmo e/ou a outras pessoas não me agradam. Agora, “Dez mandamentos”, “Sete pecados”, tudo isso é mais literatura do que propriamente “a vontade de Deus”. São inúmeras as atitudes que uma pessoa pode tomar e que podem prejudicar a si mesma ou a outrem, de forma que são inúmeros os pecados que alguém pode cometer.
— E quem peca é castigado pelo Senhor?
— Eu não castigo ninguém. Quem peca infelizmente sofre as consequências do próprio pecado. Acho que isso é mais do que o suficiente.
— Senhor, o Diabo existe?
— O Mal existe, já que há quem seja capaz de cometer desde pequenos delitos até os atos mais sórdidos, mais covardes e cruéis. O Demônio, cuja origem está no Zoroastrismo, uma antiga religião persa, é apenas uma personificação mística do Mal para muitas religiões. Mas também há pessoas que cometem atos violentos, não por serem más, mas porque são perturbadas mentalmente, doentes, e precisam de tratamento.
— Uma dúvida que sempre me incomodou: o Senhor é justo ou é misericordioso?
— Essa sua pergunta realmente é interessante. Algumas religiões e livros sagrados dizem que sou misericordioso, que minha capacidade de perdoar seria infinita. Não é bem assim. Se eu fosse “bonzinho demais”, não seria um deus justo. A cada um segundo seu merecimento e sua fé. Muitas pessoas que julgam que, em determinado momento de suas vidas, fui misericordioso com elas, porque receberam o que julgaram ser uma concessão minha, na verdade mereceram o que receberam. Talvez não tenham consciência disso, mas fizeram, sim, jus ao que lhes dei. A justiça divina é bem diferente da justiça humana. Enquanto um juiz humano só tem acesso aos autos do processo, eu, juiz divino, tenho acesso direto e total à consciência do “réu”. Isso faz a diferença. Sei quando alguém realmente se arrepende dos seus erros, do mal ou dos males que cometeu.
— Senhor, existe vida após a morte?
— Para responder a essa sua pergunta, tenho que lhe fazer primeiro outra pergunta: você acredita em mim?
—  Sim! Claro!
— Pois bem, acreditando em mim, acha que eu criaria o homem para depois matá-lo? Acha que eu ficaria durante toda a eternidade criando e destruindo minha obra, como uma criança que brinca na praia construindo castelos e bonecos de areia para depois destruí-los?
— Acredito que não.
— Pois é! Se fizesse isso, eu seria um deus canalha. A vida é muito mais do que o que isto que você vê à sua volta. A vida é evolução constante, meu caro. Seu corpo físico pode ter existência limitada, mas sua consciência é eterna, está sempre evoluindo, avançando, e jamais regride.
— E essas histórias de ressurreição, reencarnação e tal?
—Tudo que acontece com você ao longo da eternidade depende só de você. Tudo obedece a rigorosas e infalíveis leis naturais, de difícil entendimento ao ser humano neste momento. Não há um “procedimento padrão”. Cada caso é um caso. 
— E o Juízo Final?
— O Juízo Final, na verdade, está sempre acontecendo. Ele é permanente. Aquele tribunal divino, coletivo, que aconteceria após a ressurreição dos mortos, no qual todos os homens seriam julgados, de que falam alguns livros religiosos, é literatura, embora, obviamente, tenha um significado místico importante para algumas religiões. O Juízo Final, no entanto, acontece permanentemente. Não é algo que vai acontecer no futuro, como pensam alguns. Sabe por quê?
— Nem imagino — respondi.
— Fora dos limites da terra, do chamando “mundo físico”, não há limites de espaço nem de tempo. Para mim, por exemplo, não há passado, nem presente, nem futuro. Entendeu?.
— Não sei... Seria um “eterno agora”? — indaguei.  
— Não, não é bem isso. Veja como há coisas que vocês ainda não têm condições de compreender. Agora, imagine explicar isso para povos primitivos, como os hebreus, os romanos, os gregos, os sumérios, os egípcios, os antigos povos orientais, como os japoneses, os chineses!. Impossível. Só recentemente, por meio de um homem chamado Albert Einstein, é que essa questão do tempo começou a ser estudada pelo homem. Mas o que se sabe até agora ainda é muito pouco para que você possa entender o que quero dizer com essa história da inexistência para mim de passado, presente  e futuro.. Como disse o tal Einstein, o tempo é relativo.
— Deixemos isso de lado então. Mas o Senhor fala em “leis naturais”. Isso significa que o tal “sobrenatural” não existe?
— Na verdade, apesar de o homem ter criado o termo “sobrenatural”, nada se sobrepõe à natureza. Tudo, na vida e no universo, é absolutamente natural. O que existe, na verdade, para vocês, é o desconhecido. Como nessa questão do tempo, há muitas leis naturais que o homem ainda não conhece, não domina.
— O tal do “mistério da fé”, de que falam as religiões, é uma dessas coisas das leis naturais que o homem ainda não tem capacidade para compreender?
— Sim. Se o homem, hoje, tivesse consciência e soubesse utilizar o poder que tem dentro de si, talvez até o utilizasse para o mal, o que seria terrível, principalmente para ele próprio. É por isso que tudo tem sua hora certa. O homem ainda não está preparado para saber certas coisas. É por isso que há tantos “mistérios” por aí. Aliás, essa questão da fé realmente é interessante. Você sabia que são poucas as pessoas que realmente têm fé?
— Como assim? As igrejas vivem apinhadas de gente!
— Uma coisa é ter fé; a outra, é desejar ter fé, que é justamente o que acontece com a maioria dessas pessoas que lotam igrejas. A grande maioria delas vive em conflito consigo mesmas porque querem desesperadamente ter fé, mas são sempre perseguidas pela dúvida, pela insegurança ou as próprias circunstâncias de suas vidas diárias se encarregam de diluírem o pouco de fé que essas pessoas têm. Curiosamente, só as pessoas muito simples é que realmente conseguem ter fé, pois, devido à sua limitadíssima visão da vida e do mundo, não questionam. Apenas creem.
— Mas essa é a forma correta de ter fé? Devo crer sem questionar?
— Não exatamente. O ideal seria que as pessoas atingisse a fé lúcida, algo ainda inalcançável para os seres humanos neste momento.
— Nossa! Isso é tudo muito complicado! — observei.
— Complicado, mas é natural. O homem nasceu dotado de inteligência e livre arbítrio. Ele nasceu para aprender, questionar, pesquisar, estudar, especular, analisar, saber. Esse é o caminho da evolução. Só por esse caminho é que o homem, um dia, conhecerá realmente a verdade sobre si mesmo e sobre o universo à sua volta, e a verdade, de fato, o libertará.
— Senhor, não quero mais abusar de sua bondade, embora diga que não é um deus “bonzinho”, e sim justo. Mas, para encerrar nossa conversa, gostaria de saber qual o futuro das religiões no mundo.
— As religiões tiveram e têm até hoje um papel importante na propagação da fé, que é o principal elo entre mim e o homem. No entanto, não podemos nos esquecer de que as religiões, as igrejas e todos os movimentos religiosos e filosóficos são instituições humanas, isto é, criadas pelo homem e, como tal, repletas de virtudes e, principalmente, de vícios. Estão sujeitas aos caprichos, às fraquezas e às vaidades do ser humano. Mais que movimentos de fé, as religiões são, antes de tudo, manifestações culturais de um determinado povo, que podem ou não se estender a outros povos e culturas, como aconteceu, por exemplo, com o Cristianismo, que nasceu na Judeia e se espalhou, pela força da palavra e da espada, a outros povos e culturas; ou como o Islamismo, que nasceu na Arábia e também se espalhou, pela força da palavra e da espada, para muitos outros povos; como aconteceu com o Budismo, que nasceu na Índia e se espalhou por grande parte da Ásia. Mas nem sempre isso se repete. Quando os europeus tentaram implantar o Cristianismo no Japão, por exemplo, ao chegarem lá, encontraram uma civilização com uma cultural totalmente diferente, muito mais avançada que a europeia na época. A tentativa de catequizar os japoneses foi um fracasso, e os religiosos cristãos acabaram sendo expulsos do Japão.
— Diz a tradição cristã que o Evangelho deve ser pregado em todo o mundo, a todos os povos da Terra. Os muçulmanos também dizem que todos os homens devem se converter ao Islamismo, sob a pena de serem considerados “infiéis” e tal. Isso já deu muita guerra, muito sangue já foi derramado por causa de disputas religiosas. Uma religião quer se sobrepor às outras. O que tem a dizer sobre isso?
— Esse é o lado perverso da fé. Toda religião se diz “a verdadeira” e acha que eu pertenço exclusivamente a ela. Isso é um enorme equívoco, uma arrogância. Se eu quisesse que todos acreditassem em mim somente de uma única forma, por meio de uma única igreja, ou religião, ou cultura, não teria eu criado tantos povos, etnias e culturas diferentes no mundo. Aí, essas religiões acabaram criando um deus à sua imagem e semelhança, com todos os seus vícios e fraquezas, ou seja, um deus arrogante, ciumento, vingativo, moralista, racista, ególatra e tirano. Algumas religiões me transformaram em uma espécie de “déspota eterno”, que deve ser obrigatoriamente adorado, louvado e glorificado. 
— Senhor, e não pode fazer nada quanto a isso, ou seja, mudar tudo isso?
— O homem tem livre arbítrio, pode fazer o que quiser, acreditar no que quiser, da forma que quiser; Fi-lo livre. No entanto, ele tem que enfrentar as consequências de seus atos. Por isso, não posso intervir. Mas estou à disposição dele quando achar que precisa de mim. Basta bater em minha porta, que eu abrirei; basta me chamar, que eu o atenderei. Basta acreditar e confiar em mim. Se quiser fazer isso por uma religião ou não, esteja à vontade. Meu preço, você já sabe. Cobro caro, mas felizmente todos podem me pagar o preço que cobro. Satisfeito?
— Muito. Obrigado, Senhor por esta singular oportunidade.
Ele me olhou, sorriu, e eu acordei. 

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sexta-feira, 3 de março de 2017

RELIGIÃO - O QUE PENSO EU DE DEUS

Devo confessar que não professo nenhuma fé religiosa. Mas também não sou ateu. Sou deísta. Não creio que nós somos simples obra do acaso. Creio, sim, que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia”. Para mim, não existe o chamado “sobrenatural”, e sim apenas o desconhecido. Afinal de contas, nós, humanos, estamos longe ainda de atingirmos o ápice do conhecimento e do desenvolvimento científico, tecnológico e filosófico. Há neste universo, e talvez em outros universos também, caso eles existam, muita coisa por ser descoberta, muitos mistérios por serem desvendados. Assim como nossos antepassados não conheciam, por exemplo, a eletricidade, as ondas hertzianas e a gravidade, embora esses elementos naturais já existissem na Terra, da mesma forma, deve haver, ainda, hoje em dia, muitas leis e muitos elementos da natureza que nós, apesar de toda nossa evolução científica, ainda não conhecemos.
E Deus? Onde entraria Deus nessa história? O que chamamos de “Deus”, de “Divina Providência”, de “Pai Eterno” e de tantos outros nomes, o princípio e o fim de tudo, provavelmente seja algo tão complexo e, ao mesmo tempo, tão simples, que alguém, em algum momento da História, já tenha tentado nos explicar o que é, mas que nós, arrogantes e ignorantes, não entendemos ou interpretamos de forma errada, deturpada, confusa, o que fez com que acabássemos criando em nossa fé um deus à nossa imagem e semelhança.
Mesmo sendo um deísta, que vê na razão a base de todas as coisas, inclusive Deus, entendo que o mundo e a vida são muito mais do que aquilo que está a nossa volta. Enquanto, para um ateu, a vida é obra do acaso, e não tem sentido algum, para mim a vida é algo que está, ainda, muito além de nosso entendimento. Mas esta minha visão da vida não se embasa em nenhuma crença religiosa ou posição filosófica: é a simples constatação de nossa ignorância e de nossa pequenez diante da vida e do universo desconhecido.
Independentemente disso, as crenças e as religiões estão aí, como um dos segmentos mais importantes da sociedade humana. Não se conhece até hoje nenhuma comunidade humana que não tenha tido alguma forma de crença ou manifestação religiosa. A crença no sobrenatural sempre acompanhou o homem, desde os primórdios, e sempre ocupou posição de destaque na vida das sociedades humanas. Mas por que o homem se apega tanto à fé no sobrenatural? Provavelmente porque ele precisa ver algum sentido na vida. Além disso, o homem necessita se sentir protegido por alguém ou alguma força superior a ele. A maior prova disso é a forma como o deus dos cristãos se apresenta a seus fiéis: na figura de um “Pai” e também na paradoxal figura de um juiz misericordioso.
A fé em Deus tem, obviamente, seu lado bastante positivo. Ela, mesmo podendo ser uma doce ilusão, é um alívio no coração de muitos que sofrem, passam por momentos difíceis, perdem entes queridos, veem-se sofrendo de doenças graves ou dificuldades diversas. Mas ela também tem seu lado perverso, seu lado extremamente perigoso: a fé faz com que o crente ou fiel de uma determinada religião acredite firmemente que “descobriu a Verdade Absoluta”, que ele, por ter aderido àquela religião, àquela seita, agora, está “salvo” do inferno e tal. Dessa forma, ele considera que todos aqueles que não comungam de sua fé são pessoas ignorantes, que estão “nas trevas”, são “infiéis”. O resultado disso pode variar da simples intolerância ao radicalismo e à violência extrema. Esse é um lado perigoso da fé. A maioria das guerras que aconteceram no mundo, ao longo da História, tinha algum tipo de envolvimento religioso.
Sem precisar abdicar de sua fé, as pessoas precisam entender que religião é, acima de tudo, crença, e não um conhecimento positivo. A Bíblia, por exemplo, apesar de toda sua riqueza cultural, de ser um documento de enorme valor histórico e literário do povo hebreu, é uma coletânea de textos antigos, escritos ao longo de mais de mil e quinhentos anos, por vários autores, de gerações diferentes do povo hebreu. Se esses textos foram ou não escritos “sob inspiração divina”, é uma questão de fé. Mas o que está escrito nesses textos são manifestações e testemunhos que, à luz de uma análise mais rigorosa e científica, representam o modo de pensar daquele povo e podem ser verdadeiros ou não. Ou você acredita neles ou não. E assim são as tradições religiosas pelo mundo afora, inclusive as não cristãs. São histórias, testemunhos, que, na maioria das vezes, não têm sua autenticidade confirmada. E é aí, justamente, que entra a questão da fé.
Em suma, é o seguinte: da certeza de que a sua fé é a verdadeira, enquanto as dos outros são falsas, do pensamento de que a sua religião é a de Deus, enquanto que as dos outros é do Demônio, surge a chamada intolerância religiosa, que vai desde a piada de mau gosto sobre a religião dos outros até a extrema violência, o radicalismo, como aconteceu com Jesus, que foi açoitado e crucificado porque teria, segundo o entendimento das autoridades religiosas judaicas daquele tempo, blasfemado contra a religião dos judeus; ou como os milhares de pessoas que foram perseguidas e queimadas vivas pela Igreja Católica, duranta a Inquisição, na Idade Média; ou como as vítimas dos radicais islâmicos de hoje, que são mortas, muitas vezes até por decapitação, simplesmente por não serem muçulmanas, ou até por serem muçulmanas, mas não pertencentes à mesma segmento islâmico dos fanáticos.
Por isso, prefiro ficar com meu deísmo.
O DEUS DE SPINOZA
O poema abaixo é atribuído a Baruch Espinoza. Nascido em 1632 em Amsterdã, Holanda, falecido em Haia em 21 de fevereiro de 1677, Espinoza foi um dos grandes pensadores racionalistas do século XVII, com foram também René Descartes e Gottfried Leibniz. Ele era de família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Há controvérsias se o texto abaixo foi realmente escrito por ele, porém o conteúdo reflete bem a forma como ele acreditava em Deus.
DEUS SEGUNDO SPINOZA
"Para de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Para de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Para de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Para de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Para de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A HISTÓRIA DO RÁDIO EM PEREIRA BARRETO



No princípio era o silêncio. Depois, alguns chiados e zunidos e, finalmente, no dia 07 de setembro de 1922, realizou-se a primeira transmissão radiofônica oficial no Brasil, como parte das comemorações do Centenário da Independência. A Westinghouse Electric e a Companhia Telefônica Brasileira instalaram no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, uma estação transmissora de 500 Watts, inaugurada com um discurso do então presidente da República Epitácio Pessoa, diretamente do Teatro Municipal. Após o discurso, seguiram-se apresentações de música clássica, como a ópera O Guarani. Tudo isso foi captado por cerca de oitenta aparelhos receptores de rádio, distribuídos pelo Rio de Janeiro, Niterói, Petrópolis e São Paulo, algo espantoso para a época.

Mas essa foi apenas uma transmissão experimental. Em 20 de abril de 1923, Edgar Roquette Pinto e Henry Morize inauguraram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, primeira emissora do País. Acredite: essa emissora pioneira está no ar até hoje, pois, em 1936, ela foi doada ao Ministério da Educação. Hoje, ela se chama Rádio MEC.

Mas tudo isso aconteceu lá pelos lados do Rio de Janeiro. Aqui, em Novo Oriente e, depois, Pereira Barreto, em pleno interior do Brasil, centenas e centenas de quilômetros distante dos grandes centros urbanos, ter um receptor de rádio, nas décadas de 20, 30 e 40, era um privilégio de pouquíssimos.

Na década de 40, um dos poucos a possuir um receptor de rádio em Pereira Barreto era o Sr. Léo Liedtke, proprietário de uma padaria na Avenida Brasil e pai do ex-prefeito Léo Liedtke Junior. Era lá que algumas pessoas da cidade se reuniam naquela época, por exemplo, para saberem notícias da II Guerra Mundial (1939-1945). Os aparelhos eram caros para a maioria dos moradores de Pereira Barreto naquele tempo.

Já no final da década de 40 e início dos anos 50, os aparelhos receptores de rádio se tornaram um bem mais acessível e, portanto, mais popular. Havia até quem montasse aparelhos receptores de rádio. Era o caso, por exemplo, do Sr. Cozo Taguchi, que, entre muitas de suas habilidades, uma era a eletrônica. Ele montava aparelhos receptores de rádio.

Várias pessoas em Pereira Barreto já podiam, então, entrar em contato, em tempo real, com os grandes centros pelo som das principais emissoras de rádio de alcance nacional, como a então badalada Rádio Nacional do Rio de Janeiro, bem como sua concorrente mais direta, a Rádio Mayrink Veiga, também do Rio de Janeiro, que, na época, era a capital do País. Muitos moradores de nossa cidade, naquele tempo, já acompanhavam as famosas radionovelas, os programas de auditório, os humorísticos, as transmissões esportivas, os noticiários. Assim, como hoje, as pessoas têm o hábito de assistir ao Jornal Nacional, na Rede Globo, naquele tempo, havia quem não fosse dormir sem antes ouvir O GRANDE JORNAL FALADO TUPI, que ia ao ar de segunda a sexta-feira, às 22h, pela Rádio Tupi, de São Paulo, que informava as últimas notícias do Brasil e do mundo. Não podemos nos esquecer, também, do famoso REPÓRTER ESSO, que fez muito sucesso em várias emissoras de rádio do Brasil, ao longo das décadas de 40, 50 e 60. Era um noticioso rápido, que ia ao ar de hora em hora, dando as últimas notícias do Brasil e do mundo, sempre de forma rápida e resumida, num estilo jornalístico importado dos Estados Unidos. Faziam sucesso, também, os famosos programas musicais, com a participação ao vivo dos maiores cantores da época, como Emilinha Borba, Cauby Peixoto, Sílvio Caldas, Orlando Silva, Nélson Gonçalves, as irmãs Linda e Dircinha Batista, Marlene, Ângela Maria, Ivon Cury e muitos outros. Por causa disso, muita gente não deixava de comprar, toda semana, a então famosa REVISTA DO RÁDIO, que trazia reportagens sobre os artistas e, em especial, as suas fotos. Como naquele tempo não havia TV por aqui ainda, a oportunidade de ver como eram os artistas fisicamente era pelas fotos das revistas e jornais ou então no cinema, por meio dos filmes humorísticos da época, as famosas chanchadas, nos quais os cantores do rádio apareciam interpretando seus sucessos.




Programa de auditório da Rádio Nacional do Rio de Janeiro

ENTRA NO AR A PRIMEIRA EMISSORA DE RÁDIO DE PEREIRA BARRETO


Meado dos anos 50. Chegou a hora de a pequena Pereira Barreto também se ouvir no rádio. Em 14 de abril de 1955, graças à iniciativa do Dr. Benevides Lopes Siqueira e do então prefeito Cyro Maia, foi inaugurada, com pompa e circunstância, a ZYR 87, Rádio Pereira Barreto S.A., com um show no Cine Itapura, apresentado por Edson Cabariti Cury, o “Bolinha”, que na época trabalhava na Rádio Luz, de Araçatuba, e depois tornou-se um famoso apresentador das TV. A grande atração do show foi a cantora Emilinha Borba, uma das maiores estrelas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro naquele tempo.

As instalações da emissora pioneira eram modestas. Seus estúdios se localizavam na Rua Bernardino de Campos (hoje, Rua Cyro Maia), na região onde se encontra atualmente a loja matriz dos Supermercados Proença. Além dos estúdios, a emissora contava ainda com salas de administração, uma discoteca e um pequeno auditório. Seu transmissor, localizado na região da Vila Nova, tinha então 100 watts de potência.

Em 1963, o controle da Rádio Pereira Barreto foi vendida para a 
Rede Alpes, um grupo que tinha emissoras de rádio por todo o Brasil e que era sediado em São Paulo (Capital). A administração local da emissora ficou a cargo do radialista Cláudio Parizzi.



Discoteca da antiga Rádio Pereira Barretoo

Em meados da década de 60, a Rádio Pereira Barreto passou para o controle do Sr. Waldomiro Rocha Domingos, de Araçatuba, mas, logo em seguida, foi vendida para o Grupo Gerka, composto pelos radialistas Fauzi KassinNormando Lopes Gercy Barbosa, da cidade de Guararapes (SP), que assumiram a administração da emissora, em 1967. A primeira iniciativa dos novos administradores foi construir um prédio próprio para a emissora. Em 1970, a Rádio Pereira Barreto foi transferida para a Av. Brasil, 1587, hoje pertencente à empresa Vitória Festas.

O Ministério das Comunicações promoveu uma reforma total nos prefixos e frequências das emissoras de rádio que operavam em ondas médias no Brasil, em meados dos anos 70. O prefixo da Rádio Pereira Barreto passou de ZYR87 para ZYK625, e sua frequência foi alterada de 730 khz para 690 Khz. Em seguida, a potência de seu transmissor foi ampliada para 1000 watts, o que fez com que a Rádio Pereira Barreto aumentasse seu raio de abrangência.

Nos anos 50, 60 e 70, o rádio ainda era o grande veículo de comunicação de massa dos brasileiros. Em Pereira Barreto não era diferente. No rádio, os pereira-barretenses daqueles idos tempos podiam ouvir, por ondas curtas, as grandes emissoras do Rio de Janeiro e de São Paulo, saber o que acontecia no Brasil e no mundo, ao mesmo tempo em que podiam, também, ouvir o som da cidade, nas vozes nos locutores da Rádio Pereira Barreto. Naquele tempo, quando não existia TV digital via satélite, nem Internet, nem smartfones, o rádio podia fazer esse milagre.

Quando a TV começou a chegar a Pereira Barreto, em meados dos anos 60, com imagem e som precários ainda, somente um canal para ver e receptores ainda caros para a grande maioria dos pereira-barretenses, ela não diminuiu a supremacia do rádio na cidade. Apesar do diferencial da imagem, a TV apresentava, na época, uma grande desvantagem em relação ao rádio: uma emissora como a Rádio Bandeirantes, de São Paulo, por exemplo, só dependia de um bom transmissor de ondas curtas instalado em São Paulo para que sua programação pudesse ser ouvida aqui em Pereira Barreto. Já a imagem e o som da TV Tupi, de São Paulo, por exemplo, para chegar a Pereira Barreto, precisavam percorrer uma enorme rede de links terrestre de repetidoras espalhadas pelo interior do Estado de São Paulo. Em um receptor de TV, que tinha que ficar em um local fixo, ligado a uma antena externa, os telespectadores pereira-barretenses de meados da década de 60 só podiam ver um canal de TV. Já com em um pequeno rádio de pilhas, da marca EVADIM, por exemplo, um dos mais vendidos na época, que vinha com uma bela capinha de couro marrom e podia ser levado para qualquer lugar, um pereira-barretense podia não só ouvir a Rádio Pereira Barreto, como também captar várias emissoras de rádio do Brasil e de outros países, sem a necessidade da existência de uma grande estrutura para isso, uma facilidade que só o rádio, em ondas curtas, pode oferecer, inclusive nos dias de hoje, já que a única estrutura que existe para isso é a torre transmissora da emissora e a antena do aparelho receptor. É possível, sim, ver um programa de TV ou ouvir um programa de rádio de qualquer parte do mundo, pela Internet, hoje em dia, com boa qualidade de imagem e som. Mas, para isso, há necessidade de uma enorme infraestrutura, composta por uma infinita malha de cabos de fibra ótica, satélites, torres de micro-ondas espalhados pelo mundo afora. O rádio, com suas ondas curtas, embora não ofereça a mesma qualidade de recepção, dispensa tudo isso.

Diferentemente do mundo globalizado de hoje, naquele tempo, pelas próprias limitações técnicas e logísticas que havia para se manter contato com o resto do País e do mundo, as pessoas tinham suas atenções mais voltada para a própria comunidade, para o universo local, seu cotidiano. Isso fazia com que a emissora local de rádio exercesse uma forte influência na população. Era o que acontecia com a Rádio Pereira Barreto naquele tempo. O lazer e a vida cultural dos pereira-barretenses estava nos circos, nos parques de diversão, nos bailes do CAP, nas quermesses, nos filmes do Cine Itapura, no footing na Praça da Bandeira, nos jogos de futebol no Estádio Municipal nas tardes de domingo e, obviamente, na programação da Rádio Pereira Barreto. Os locutores e apresentadores do rádio local eram as grandes estrelas da cidade.

RÁDIO PEREIRA BARRETO, SEUS PROGRAMAS, SEUS ÍDOLOS

No início de suas atividades, em 1955, a Rádio Pereira Barreto funcionava das 8h às 12h e das 15h às 22h. Mas, com o passar do tempo, o horário de funcionamento foi estendido: a emissora passou a entrar no ar às 6h e encerrava suas transmissões às 22h. Só bem depois, no final dos anos 60, foi que a Rádio Pereira Barreto passou a encerrar sua programação à meia-noite. No seu início, a programação da Rádio Pereira Barreto era composta basicamente de músicas e radionovelas, que a emissora comprava, já previamente gravadas, de grandes emissoras de São Paulo e do Rio de Janeiro. Com exceção das radionovelas, a programação, no início, era quase que toda feita ao vivo. Como a emissora tinha um pequeno auditório, eram comuns, principalmente aos domingos, programas com a apresentação de artistas locais. Tudo era muito simples, sem muitos recursos. Alguns participantes frequentes desses programa de auditório eram as Irmãs França, Zé Barqueiro e Pirangueiro, Betinho e Nice, Cambari e Cambará, Ouro Preto e Sorocaba.

Infelizmente, não temos documentação histórica, nem áudios gravados que nos possibilitem reconstruir a história sonora da antiga Rádio Pereira Barreto. Mas temos depoimentos de quem trabalhou na emissora e viveu o cotidiano de sua fase áurea.

Segundo Adilson Floriano Bená, que foi funcionário da Rádio Pereira Barreto, entre o início de 1957 e dezembro de 1959, naquele tempo, os proprietários da emissora ainda eram o Dr. Benevides Lopes Siqueira e Cyro Maia, que fora prefeito da cidade, entre 1952 e 1955, e que voltaria à Prefeitura, de 1960 a 1963. O gerente, então, era Iran Leite de Abreu, que além de gerenciar a emissora, era locutor e apresentava programas musicais e de auditório, muito comuns ainda naquele tempo, e comandava, também, junto com o Sr. Francisco Caparroz Sallas, o noticioso “Meio-dia em Notícias”, além de fazer transmissões esportivas, tendo como repórter de campo o Sr. Tarcísio Sobrinho dos Santos. Adilson Floriano Bená, que era sonoplasta na época, lembra, também, de alguns colegas daquele tempo, como Olímpio Rodrigues, Jair Gonçalves da Silva (Azulão), Osvaldo Gonçalves da Silva (Chita), que não eram locutores, mas, sem eles, a emissora não ia ao ar.

Outro nome saudoso da emissora foi José Gonçalves da Silva, mais conhecido como “Zé Macaco”, que apresentava programas musicais, mas seu grande destaque, na época, foi “Tangos e Poesias”, que ele apresentava toda noite, às 21 horas. Outros nomes que participaram da história da Rádio Pereira Barreto: Nair Brandino, que apresentava programas de músicas populares; Arnaldo, conhecido como “Zé Linguiça”, que apresentava programas sertanejos; Alfredo Leite de Abreu, que apresentava programas de músicas populares; Dejair Leite de Abreu, que também fazia programas de músicas populares; Santo Atanásio de Jesus, outro locutor que apresentava programas de músicas populares; José Leonildo Moretti, o popular “Italiano”, que apresentava o saudoso “Ranchinho do Italiano; Francisco Carlos, o “Chico da Riachuelo”, que apresentava programa sertanejo; Clemente Zeferino Vieira, o “Léo do Bazar” (Bazar do Léo), que animava o “Ranchinho do Léo”; Iosetsi Nokawa, que fazia um programa dirigido à colônia japonesa da cidade, chamado “A Hora do Sol Nascente”. Além desses, não podemos nos esquecer de Cláudio Parisi, que, além de locutor, foi gerente da Rádio Pereira Barreto, quando ela foi vendida para a Rede Alpes, em 1963. Valdecil Elias Barbosa foi outro locutor que fez muito sucesso no final dos anos 60. Gercy Barbosa, Fauzi Kassin, Normando Lopes (Germano), que formavam o Grupo Gerka, que assumiu o controle da Rádio Pereira Barreto em 1967, também marcaram a história da emissora, assim como também como Mané, Valdir De Vito e Washington Luiz de Oliveira, Outro que fez muito sucesso na emissora como apresentador de programas de música sertaneja foi o “professor” Odilon Soares. Ao longo dos anos, muita gente participou da história da Rádio Pereira Barreto, uns profissionalmente, outros voluntariamente. Entre eles, podemos citar: Moacir Antônio de Oliveira (locutor), Orlando Elias (sonoplasta), Izá de Lima (locutora), J. Rodrigues (locutor), José Marques (locutor), Júlio César Morbi (sonoplasta), Marco Antonio Morbi (sonoplasta), Manoel dos Santos (locutor e também trabalhou na área financeira), Aparecido Paulo Ribeiro (sonoplasta), Wagner Perles (locutor), Edi Soares (sonoplasta), Eudes Mussi (sonoplasta), Nilson Pereira (sonoplasta), Vander Miranda (sonoplasta), Antônio Barbosa (locutor), Aécio Marques Rosabone (locutor), Antônio Carlos Rapasse (sonoplasta), João Alberto de Castro (locutor), Aparecido César dos Santos (sonoplasta), Roberto Tieres Watanabe (locutor) e provavelmente muitos outros que as memórias de meus prezados colaboradores não permitiram citar aqui.

Nos anos 50, 60 e 70, a programação da maioria das emissoras de rádio do interior do Brasil mantinha um certo paradigma: cada gênero musical tinha horários tradicionalmente específicos: música sertaneja só se tocava de manhã, bem cedo, até às 8 horas e à tarde, depois das 17 horas. Naquele tempo, era música sertaneja mesmo, do tipo “raiz”, o sertanejo clássico. Não existia ainda chamado sertanejo universitário de hoje em dia. O resto da programação era preenchido com música popular (rock, samba, bossa nova, jovem guarda, etc.). O período da noite, geralmente, reservava-se a músicas mais antigas, as chamadas “hora da saudade”. Algumas emissoras também inseriam músicas sertanejas também à noite. A Rádio Pereira Barreto, desde seu início, não fugia a essa paradigma tradicional da maioria das emissoras de rádio do interior do Brasil daquele tempo.

No final dos anos 50, programas religiosos em rádio não eram tão comuns como hoje. Mas foi logo nos primeiros anos de existência da Rádio Pereira Barreto que surgiu um programa dirigido à comunidade católica da cidade: “A Luz da Oração”, que, inicialmente, era apresentado pelo Frei Timóteo Maria de Porangaba, que ia ao ar de segunda a sábado, às 18 horas. Apresentado por religiosos e por leigos, esse programa permaneceu no ar até 1989, quando a emissora foi vendida ao Sistema Regional de Comunicação.

Outro fato curioso nos conta Adilson Floriano Bená: nos primeiros anos de sua existência, a Rádio Pereira Barreto não retransmitia o programa “A Voz do Brasil”. Às 19 horas, quando o programa ia ao ar pela maioria das emissoras de rádio do Brasil, a Rádio Pereira Barreto saía do ar. Modesta, a emissora não tinha como retransmitir o programa diário do governo federal. Os programas que não eram feitos aqui, ou seja, produzidos pelas grandes emissoras do Rio de Janeiro e São Paulo, já vinham previamente gravados. Mas em 1958, estava sendo disputada a Copa do Mundo da Suécia e havia, obviamente, uma grande expectativa de o Brasil conquistar seu primeiro título mundial de futebol, como realmente ocorreu. A Rádio Pereira Barreto não podia ficar fora dessa. Graças a uma ideia de Adilson, que era sonoplasta da emissora, a Rádio Pereira Barreto conseguiu retransmitir os três últimos jogos do Brasil na Copa do Mundo de 1958, em cadeia com a Rádio Bandeirantes, de São Paulo, sob o comando de Edson Leite, Pedro Luiz e Mario Moraes (Brasil 1 x Pais de Gales 0; Brasil 5 x França 2; e Brasil 5 x Suécia 2). Pronto. Brasil campeão mundial. E como foi a retransmissão dos jogos, já que naquele tempo não havia satélites e redes de micro-ondas, como há hoje? Adilson pegou um rádio com recepção em ondas curtas, sintonizou na Rádio Bandeirantes, e colocou o microfone da rádio na frente do receptor. Simples assim. E os três últimos jogos do Brasil na Copa do Mundo de 1958 foram ao ar pela Rádio Pereira Barreto. Depois, adotaram a mesma “técnica” de retransmissão com a “Voz do Brasil” e com as jornadas esportivas dos domingos à tarde, quando, obviamente, não havia transmissão local de jogos no Estádio Municipal de Pereira Barreto.

A emissora era modesta, tudo era muito precário, muito sem recursos. Como no caso da “técnica” utilizada para retransmitir os jogos finais da Copa do Mundo de 1958, tudo era na base do improviso. Conta, ainda, Adilson Floriano Bená que, como a emissora ficava no centro da cidade, onde fica hoje a loja matriz do Supermercado Proença, e a torre de transmissão ficava na Vila Nova, uma distância considerável, percorrida, obviamente, por alguns quilômetros de cabos, suspensos por postes de iluminação da cidade, essa distância toda acarretava uma queda na qualidade do som da emissora. Além disso, toda vez que chovia ou ventava muito, os cabos de transmissão entre a emissora e o transmissor saíam do lugar em alguns pontos, o que fazia a emissora sair do ar. A solução, segundo Adilson, era uma longa vara de bambu para sanar o problema.

Nem sempre, é claro, se usou o improviso e o microfone na frente do receptor de rádio para retransmitir programas de outras emissoras. No início dos anos 80, a então recém-inaugurada Rádio Capital, de São Paulo formou uma grande rede de rádios para transmissões esportivas. A Rádio Pereira Barreto fazia parte dessa rede. As jornadas esportivas da Rádio Capital eram retransmitidas pela Rádio Pereira Barreto por linha telefônica, usando, já, a rede de micro-ondas da TELESP para a retransmissão. Nem poderia ser diferente, já que a Rádio Capital de São Paulo nunca transmitiu e nem transmite em ondas curtas.


DEU NA “ROTATIVA”


Marcha militar “Stars and Stripes Forever”, de John Philip Sousa, uma das música de abertura e fundo musical do programa Rotativa no Ar.


Tenham todos um bom dia, amigo ouvinte. Começa aqui mais uma emissão radiojornalística desta emissora: Rotativa no Ar, uma síntese dos principais acontecimentos da cidade, da região, do Estado, do Brasil e do mundo”, dizia Gercy Barbosa na abertura de seu mais famoso programa, tendo sempre ao fundo as marchas de John Philip Sousa, entre as quais The Stars and Stripes Forever, Semper Fidelis. King Cotton March, e El Capitan No início dos anos 70, Gercy Barbosa, lançou o “Jornal de Integração Regional”, que logo teve seu nome alterado para “Rotativa no Ar”. O programa começava às onze e meia da manhã e foi, provavelmente, o mais marcante da história do rádio pereira-barretense, com notícias locais, entrevistas e até debates. O noticiário geral… Bom!… O noticiário geral… A emissora, modesta, obviamente, não tinha teletipos nem serviço de rádio escuta. Então, o noticiário geral era retirado das edições do dia anterior do ESTADÃO e da FOLHA mesmo, já que os jornais do dia, naquele tempo, só chegavam à cidade no final da tarde. Mas o noticiário geral podia ser visto pela TV, à noite. O que importava para os ouvintes eram as notícias locais, principalmente as policiais, os debates, as entrevistas, as polêmicas. O programa era tão comentado, que, ainda hoje, em pleno século XXI, mais de vinte e sete anos após o fim da Rádio Pereira Barreto, o programa “Ronda Policial”, apresentado pela radialista Marisa Santos, de segunda a sábado, às onze e meia da manhã, na Rádio Cidade AM, ainda é chamado de “Rotativa” por muita gente. E a única semelhança que há entre o “Ronda Policial”, de Marisa Santos, e o “Rotativa no Ar”, de Gercy Barbosa, é o horário.



Radialista Gercy Barbosa


Uma emissora de rádio do interior, em especial de uma cidade pequena, não era nada fácil de ser administrada naquele tempo. Por mais boa vontade e dinamismo que tivessem seus administradores, havia, obviamente, necessidade de investir constantemente em novos equipamentos, na melhoria da qualidade da transmissão, no treinamento de pessoal, etc. Isso infelizmente praticamente não havia na antiga Rádio Pereira Barreto. A tecnologia de rádio naquela época era cara, se comparada à tecnologia digital de hoje, mais acessível e barata. Sem investimentos em melhorias técnicas, sem investimento em treinamento de pessoal, sem uma manutenção adequada em suas instalações, já no final da década de 70, a Rádio Pereira Barreto começou a entrar em franca decadência. Mesmo assim, a emissora funcionou precariamente, aos trancos e barrancos, até o final da década de 80

Com o falecimento do radialista 
Fauzi Kassin, em 1989, e o desinteresse dos demais proprietários em modernizar a emissora, a Rádio Pereira Barreto foi vendida para o Sistema Regional de Comunicações, com sede na cidade de Andradina (SP). Saía do ar, definitivamente, “a mais alta voz do centro-oeste paulista”, como dizia o saudoso Gercy Barbosa. A partir de então, a emissora passou por um processo de profundas mudanças. Seu nome foi alterado para Rádio Cidade Noiva do Tietê. Foram adquiridos novos equipamentos e foi construído um novo prédio para a emissora.


O RÁDIO PEREIRA-BARRETENSE HOJE


Pereira Barreto possui hoje três (3) emissora de rádio: 
Rádio Cidade AMRádio Clube FM Rádio 104 FM.

Rádio Cidade AM, a única que opera em ondas médias na cidade, é a sucessora da antiga Rádio Pereira Barreto. Sob a administração do radialista Nílton Franco da Rocha, a Rádio Cidade, hoje, nada tem a ver com a antiga Rádio Pereira Barreto. Na verdade, pode-se dizer que se trata de uma nova emissora. No entanto, em 2005, a Rádio Cidade comemorou com festa os cinquenta anos da emissora, uma forma de dizer que a Rádio Cidade é a continuação da Rádio Pereira Barreto, uma atitude de respeito aos baluartes da radiofonia pereira-barretense, como o Dr. Benevides Lopes Siqueira, Cláudio Parizzi, Fauzi Kassin, Gercy Barbosa e muitos outros, que fizeram a história do rádio local.

A Rádio Cidade, hoje, apresenta uma programação musical, direcionada para o público de música sertaneja universitária. A emissora ainda tem noticiário local e cede espaço para programas religiosos de igrejas evangélicas da cidade. Além disso, a Rádio cidade retransmite boa parte da programação esportiva e jornalística da Rádio Jovem Pan AM, de São Paulo (Jovem Pan Sat).

Atualmente, a Rádio Cidade AM, de Pereira Barreto, só tem uma locutora em atividade, a radialista Marisa Santos.

Rádio Clube FM entrou no ar no final de 1988, ainda com o nome de Rádio Veneza Paulista. Ela pertencia a um grupo de empreendedores de Pereira Barreto (Dermival Franceschi Júnior, João de Altayr Domingues e Cândido Arruy). A emissora, a primeira a transmitir em frequência modulada (FM) na cidade, foi depois vendida ao Sistema Regional de Comunicação, que alterou seu nome para Rádio Clube. Posteriormente, a emissora passou para o controle do empresário e político Jorginho Maluly.  Atualmente, a Rádio Clube FM está sob a administração do empresário Fábio, da Fapp Promoções Artísticas.

A programação da emissora não difere em nada das demais emissoras que operam em frequência modulada pelo interior do Brasil, direcionado ao público jovem, apreciadores da música sertaneja universitária.

Rádio 104 FM entrou no ar em 2007. Trata-se de uma emissora de rádio comunitária e pertence à Associação Beneficente Cultural Comunitária de Pereira Barreto (ABECC), uma feliz iniciativa de um grupo de pessoas abnegadas da cidade.

Apesar de ser oficialmente uma emissora comunitária, a Rádio 104 FM tem uma programação bem semelhante às emissoras de rádio comerciais.

RÁDIOS PEREIRA-BARRETENSES FALANDO PARA O MUNDO

Hoje, as três emissoras de rádio de Pereira Barreto transmitem suas programações para o mundo todo via Internet, embora esse tipo de transmissão esteja a maior parte do tempo fora do ar nos sites das emissoras.

Rádio Cidade AM, está disponível no endereço www.radiocidadeam690.com.br, O site, pelo menos por ora, tem conteúdo muito pobre e visivelmente desatualizado. Ele destina-se a transmitir a programação da emissora pela Internet, mas esse serviço do site está a maior parte do tempo fora do ar.

No site da 
Rádio 104 FM, além da programação ao vivo, você pode encontrar material informativo, com textos e imagens. O endereço é  www.pereirabarretofm.com.br. No entanto, a transmissão ao vivo da emissora vive boa parte do tempo fora do ar.

Rádio Clube FM, que pertencia ao Sistema Regional de Comunicação, do radialista andradinense Nivaldo Franco, pertenceu, também, ao político e empresário Jorginho Maluly e hoje está sob a administração do empresário Fábio, da Fapp Promoções Artísticas, lançou também seu website, com programação veiculada ao vivo, embora esse serviço nem sempre esteja disponível. O endereço é: www.clubefm971.com.br


ASSISTIR A RÁDIO?

Hoje em dia, além de ouvir, você também pode assistir a um programa de rádio. Isso é possível porque muitas emissoras, além de suas transmissões normais por áudio, por ondas médias, curtas, tropicais, frequência modulada, ainda inserem transmissão ao vivo de imagens de seus estúdios na Internet. Dessa forma, o ouvinte não só pode ouvir a voz dos locutores, como também pode vê-los ao vivo, podendo saber, assim, como é fisicamente aquela locutora ou aquele locutor de voz bonita, que roupa estão usando, como é o estúdio, etc. Um exemplo de emissora que transmite boa parte de sua programação com imagem é a Rádio Jovem Pan AM, de São Paulo. Aqui em Pereira Barreto, somente a Rádio 104 FM transmitiu, por algum tempo, com imagens ao vivo de seus estúdios na Internet. Depois, provavelmente por problema de custos ou técnico, abandonou a ideia.

Muito do que contei aqui sobre a história do rádio em Pereira Barreto me foi passado pelos amigos APARECIDO CÉSAR DOS SANTOS, antigo funcionário da Rádio Pereira Barreto, que trabalhou também na RÁDIO CIDADE AM e na RÁDIO 104 FM. e ADILSON FLORIANO BENÁ, ex-funcionário da Rádio Pereira Barreto, contabilista, professor, que, com sua prodigiosa memória, é um verdadeiro arquivo vivo da história de Pereira Barreto. Agradeço a ambos, de público, pelas valiosas informações históricas, que enriqueceram este texto.

Notem que, neste texto, dei especial atenção à antiga e saudosa Rádio Pereira Barreto, não só pelo fato de ela ter sido a primeira emissora de rádio da cidade, mas porque ela foi, ao logo de seus trinta e quatro anos de existência, de 1955 a 1989, a personificação sonora da cidade. Em uma época em que não havia tanta tecnologia, tantas facilidades de comunicação, o rádio local exercia um papel importantíssimo para a comunidade, especialmente das pequenas cidades, afastadas dos grandes centros, como Pereira Barreto. Apesar de ser uma emissora comercial, ela era, na prática, uma emissora comunitária. Muitos dos que fizeram parte do quadro de funcionários na Rádio Pereira Barreto simplesmente não eram profissionais do rádio, não eram radialistas, e sim pessoas comuns, que tinham outra atividade profissional paralela, como comerciantes, comerciários, funcionários públicos, etc., que trabalhavam na emissora por amor, muitos voluntariamente, sem receber nenhuma remuneração por isso.

Infelizmente, parece que os sons veiculados pela antiga Rádio Pereira Barreto se perderam no tempo. Pelo que sei, não sobrou nenhum registro sonoro do tempo em que a emissora ficou no ar, de 1955 a 1989, tais como noticiários, jinglesspots, eventos transmitidos pela emissora, entrevistas, etc. Tudo se perdeu.

Em 1989, com Fauzi Kassin já doente, Gercy Barbosa desmotivado, a emissora estava em total decadência, com equipamentos totalmente defasados, dívidas, prédio em péssimas condições de conservação. Quando Nivaldo Franco Bueno assumiu seu controle, naquele mesmo ano, após o falecimento de Fauzi Kassin, teve de fazer uma verdadeira faxina na emissora, jogando muita coisa no lixo, que estava entupindo as dependências da rádio. Fauzi Kassin, apesar de suas muitas qualidades, como pessoa humana e profissional, não era  lá muito  organizado. Contou-me, certa vez, o antigo radialista José Leonildo Moretti, o popular “Italiano”, que, quando  Nivaldo Franco Bueno fazia a tal faxina nas instalações da Rádio Pereira Barreto, encontrou uma carta que ele mesmo, Nivaldo, havia enviado a Fauzi Kassin em 1968. Detalhe: a carta ainda estava fechada dentro do envelope, isso 21 anos depois. É provável que nessa faxina feita por Nivaldo alguns tesouros históricos da antiga Rádio Pereira Barreto também tenham ido para o lixo. Lamentável. Dizem que isso também aconteceu com a antiga TV Tupi. Muito do acervo da antiga emissora foi literalmente para o lixo. E assim, a História, que aqueles que nos antecederam, nossos antepassados construíram, com tanto suor e lágrimas, vai senso apagada pelo desleixo. Lamentável.


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